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LITERATURA INFANTIL DA SÉRIE MICO MANECO DE ANA MARIA MACHADO
Karem da Costa Couto - ALLE/FE/Unicamp
Norma Sandra de Almeida Ferreira – orientadora - ALLE/FE/Unicamp
Este trabalho analisa dentro da produção
cultural voltada para crianças, a Coleção Mico Maneco,
de Ana Maria Machado. O objetivo da pesquisa é o de conhecer melhor
esta produção e verificar como as intenções
didático-pedagógicas entrelaçam-se na linguagem literária
voltada para crianças que estão se iniciando na prática
da leitura. Algumas questões foram norteadoras deste trabalho:
quais propósitos, intenções do editor/ autora/ ilustrador
parecem orientar a produção desta Coleção?
Qual o seu projeto editorial: seu conteúdo, sua linguagem, verbal
e não verbal, sua organização em diferentes obras,
sua materialidade? Que marcas indicativas nesta Coleção
permitem reconstruir as concepções de alfabetização
e de alfabetizando pensadas pelo editor/ autor/ ilustrador?
INTRODUÇÃO
Alguns livros infantis são produzidos com o objetivo
de colaborar com a alfabetização das crianças e com
a aquisição de suas habilidades de leitura e escrita, tendo
o importante papel de iniciá-las na leitura. São obras que
se propõem a acompanhar os primeiros contatos com a leitura pela
criança, acreditando que estas futuramente poderão proporcionar
reflexões críticas, individuais ou coletivas que fazem parte
também do processo de ensino e aprendizagem de todo leitor.
Segundo Zilberman (1988), os símbolos, as letras e as palavras
são conhecidas pela criança antes mesmo de ela aprender
a lê-los, pois estão sempre presentes em seu cotidiano, nas
diversas mídias e na convivência com todos, que fazem parte
de seu processo de socialização. A curiosidade infantil
alimenta o anseio de compreender toda a gama de materiais disponíveis
ao seu redor e de decifrá-los.
Também de acordo com Zilberman (idem), é interessante que
a criança seja atraída pelas diversas mídias e que
por meio de uma escolarização bem sucedida, seja capaz de
permanecer interessada por elas e tornar-se assim parte do público
que as consome. E para a escola, é conveniente que as mesmas mídias
sejam aptas, por meio dessa atração, a colaborar com a obtenção
da alfabetização e do letramento pela criança. Quando
na década de 80, surgem livros destinados às crianças
em fase de alfabetização compondo Coleções
ou séries com propostas mais explícitas quanto aos seus
objetivos, estes livros respondem à essa relação
entre a mídia e a escola, entre a literatura e o texto didático.
Assim, na produção cultural destinada ao público
infantil, que se constrói e se condensa nos últimos 40 anos,
encontramos livros diversos que às vezes se confundem, se cruzam,
se distanciam quanto à intenção didática no
projeto editorial. Que impressos são estes? São livros didáticos,
paradidáticos, ou de literatura? Como se constituem em sua especificidade?
Que materialidade assumem ao dizerem o que dizem e como dizem?
Dentro dessas produções voltadas para crianças, optamos
por analisar e conhecer melhor a série Mico Maneco de Ana Maria
Machado, na tentativa de responder às questões citadas e
de compreendê-la em toda sua complexidade e materialidade que assume.
A SÉRIE MICO MANECO
Mico Maneco é uma obra com vários capítulos, fascículos,
que se aplica como um recurso para auxiliar e estimular as práticas
de leitura. Recurso este que exige a presença de um mediador –
professor, pai ou mãe – que apresenta o livro à criança
e, muitas vezes, o lê junto dela.
Para Zilberman (1988), é interessante que a criança
tenha saciada sua vontade de ler e aprender, tendo acesso às obras
literárias já em sua fase de aprendizagem. Mico Maneco,
de Ana Maria Machado, é uma dessas obras que se destinam a leitores
ainda em sua fase de aquisição da leitura. Machado afirma
que com a série, ela e Marisa Borba, a psicopedagoga que a ajudou
na elaboração dos livros, lançam um desafio aos pais
e professores: o de alfabetizar por meio de livros de literatura. É
uma proposta inovadora em relação ao que existia no mercado
editorial na época, pois trata-se de “um convite para deixar
de lado as tradicionais cartilhas e pré-livros”, segundo
Miriam Moreira, que faz a indicação de leitura da contra-capa
dos livros da série.
Em dois projetos gráficos diferentes, a Coleção aproxima
as crianças ao mundo da leitura. Em edição mais simples,
da editora Melhoramentos, o tamanho dos livros é menor , a letra
da capa é cursiva e o papel tem qualidade inferior, o que pode
demonstrar uma tentativa de tornar o custo do projeto gráfico mais
baixo. Esse projeto talvez buscasse maior aproximação com
o mundo da criança leitora, já que por ser menor possuía
uma particularidade quase única e a letra cursiva, que lembra a
letra de uma criança, também poderia se constituir em mais
um atrativo para o leitor. As obras presentes nas bibliotecas escolares
estão no formato deste projeto editorial antigo. Foram distribuídas
gratuitamente pelo governo estadual de São Paulo, pela Fundação
para o Livro Escolar (FLE) e pela Fundação para o Desenvolvimento
da Educação (FDE) na década de 80. Atualmente a Série
encontra-se ainda nos Catálogos da editora Moderna/ Salamandra
com um projeto gráfico esteticamente mais vistoso e em tamanho
bem maior.
A mudança do projeto pode evidenciar a busca por uma qualidade
superior, tanto de materiais como de elaboração, para atender
à demanda de um público que têm se modificado nos
últimos vinte anos, desde que a série foi lançada,
e que hoje exige mais qualidade e projetos mais bem produzidos. A mudança
para a letra de fôrma também pode evidenciar uma maior preocupação
com os objetivos pedagogizantes dos livros, já que de acordo com
as novas orientações no campo da educação
e da construção do conhecimento da escrita, ela deve ser
a primeira ensinada à criança.
Estudos de Roger Chatier (1986; 1998) apontam para o fato de uma mesma
obra, uma mesma coleção receber fórmulas editoriais
diferentes pensadas e criadas para atender a público leitor diferenciado.
Segundo este pesquisador, os editores dão para uma mesma obra,
uma outra disposição, uma nova estrutura tipográfica
e textual, remodelando a apresentação do texto e do próprio
objeto livro a partir da imagem/ representação do leitor
que eles pretendem alcançar.
Manuseando a edição de 1986 da Melhoramentos, vimos que
o livro tinha em sua quarta capa a explicação de que a série
fora desenvolvida para crianças a partir dos seis anos de idade
que estavam começando a ler sozinhas. Por esse motivo, o texto
no interior dos livros era grafado com letras grandes e vinha escrito
em torno de um mesmo conjunto de sílabas, o que remete à
idéia de cartilha. A quarta capa ainda prestava informações
quanto à ordem da leitura: “sugerimos que a leitura dos livros
que fazem parte dessa série seja orientada na seguinte ordem: “Cabe
na mala, Tatu bobo, Menino Poti e Mico Maneco”.
Atualmente estas indicações, que deixavam claro a intenção
de que os livros se constituíssem como ferramenta auxiliar na aquisição
da leitura e da escrita, não mais estão presentes, indicando,
talvez, uma incorporação de novas tendências em relação
ao ensino/ aprendizagem na aquisição da leitura e da escrita.
Hoje, no lugar das indicações encontra-se a fala da autora
destacando quando e como surgiu a série, e o porquê: para
ajudar seu filho a aprender a ler e escrever, que depois se estende a
outros leitores: crianças que “já estão no
ponto de aprender a ler”.
Assim, a retirada das indicações de leitura nos leva a pensar
que os mesmos propósitos que motivaram o surgimento dessa série
de livros permanecem, porém não explicitada a orientação
na forma seqüencial e gradativa da leitura. A ênfase é
no estímulo à prática da leitura, no encontro da
criança com os livros.
A contracapa dos livros ainda apresenta a fala da autora, onde Machado,
destaca que seu trabalho é o de escritora e não de pedagoga:
“Nunca estudei pedagogia. Meu negócio é contar histórias,
inventar escrita”. Esta informação parece indicar
que a autora quer demarcar de que lugar ela produz e com o qual se identifica,
construindo assim um discurso de “defesa” às críticas
que possam vir do campo da educação.
MICO MANECO EM ANÁLISE
Optamos por uma metodologia denominada qualitativa, e por isso, selecionamos
dentre esta Coleção, apenas um livro de cada série,
entendendo que através de uma parte tornar-se-á possível
uma compreensão do todo em sua diversidade e ao longo do tempo,
no qual a coleção foi lançada. Adotamos nessa pesquisa,
a metodologia identificada como estudo de caso, embasadas nos estudos
de Lüdke e André (1986). De acordo com as autoras, o estudo
de caso voltado para um campo de análise menor, permite a busca
da descoberta no detalhamento de alguns aspectos constituintes e constitutivos
do objeto investigado e a revelação de uma experiência
que possa ser aplicada em casos semelhantes ao estudado.
Os livros selecionados para a análise foram os seguintes: Mico
Maneco, da série Mico Maneco I, por ele ser o responsável
pelo nome dado à toda a série e pela ludicidade de seu texto;
Uma gota de mágica (série II), também editado pela
impressão que nos causou já na primeira leitura; No barraco
do carrapato (série III) por ter sido premiado como “Altamente
recomendável” pela FNLIJ em 1985 e por apresentar tanto o
texto como as ilustrações de forma interessante e atraente
ao leitor; A zabumba do quati (série IV) editado em braile em 1993
possibilitando a ampliação do público leitor; Com
prazer e alegria (série VI) que tematiza poeticamente o ato da
leitura e encerra a série convidando o leitor a adentrar no universo
literário. Optamos por estudar o projeto editorial da Série
que está no mercado: o da Salamandra, porém não desconsideraremos
o projeto original editado pela Melhoramentos, em 1988.
A partir dos aspectos destacados durante a leitura de cada obra, fizemos
uma organização aproximando cada obra lida a outra através
de elementos comuns: projeto gráfico das obras, linguagem verbal
e não verbal, ilustração, a construção
do texto. Na escrita da análise, ora destacávamos a linguagem,
ora o enredo. Não nos preocupamos em esgotar cada aspecto em cada
obra.
AS CAPAS
As capas dos cinco livros analisados por nós chamam atenção
do leitor quando colocadas lado a lado, tanto pela coerência visual
que trazem quanto pelo cuidado na apresentação dos personagens
principais que nos dá de imediato, uma imagem de algo descontraído,
alegre, em movimento.
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Neste caso,
pelas capas já antecipamos livros que pertencem a uma mesma coleção
destinada ao leitor infantil, provavelmente apreciador de livros finos,
papel mais resistente e um tamanho e formato para um fácil manuseio
no momento da leitura.
A ilustração presente nas capas é composta por desenhos
dos personagens das histórias e se repete no interior dos livros
no desenrolar das narrativas. Os personagens têm nas expressões
do rosto, uma imagem feliz, travessa, de curiosidade, um largo sorriso.
Por exemplo, no livro A zabumba do quati, o bichinho que tem um longo
nariz parece estar radiante tocando sua zabumba, enquanto que Mico Maneco,
o macaco de longo rabo enrolado, abre os braços e o sorriso, saltitando
na capa.
Caricaturalmente desenhados, olhos arregalados e boca alongada, provocam
um certo humor e graça nos personagens que buscam cativar o leitor
infantil não por um ar sisudo ou de preocupado. Por outro lado,
os personagens ali estampados nos dão uma idéia de movimentação:
personagens pulam, voam, tocam, escapam ou apenas observam uma gota que
cai de uma torneira. Em Com prazer e alegria, em que três crianças
parecem voar de mãos dadas, ou em No barraco do carrapato onde
a “Sapa” que é ilustrada com características
humanizadoras (usa batom, vestido de bolinhas, cílios pintados),
sorri, parece estar em movimento. Indo para onde? Poderíamos pensar,
que estes personagens assim representados podem oferecer aos seus leitores,
uma imagem de criança não passiva, não estática,
não acomodada? Uma imagem de uma criança que gosta de situações
e personagens engraçados e felizes?
As cinco capas analisadas enquadram-se como qualquer outra do gênero
literatura infantil que se mostra chamativa pela cor, pelo personagem
principal ilustrado nelas que fazem parte do imaginário infantil
(bichos, crianças, brinquedos). O colorido, as ilustrações
mais chamativas que parecem ter sido pintadas com lápis de cor
ou giz de cera, o tipo de letra utilizado, de fôrma e em tamanho
maior, são instrumentos que buscam chamar a atenção
e conquistar o público alvo dessa coleção: o de crianças
que estão se iniciando na prática da leitura e da escrita
e adentrando no mundo da literatura infantil.
AS ILUSTRAÇÕES
As ilustrações presentes nos vinte livros que formam a coleção
são todas de autoria do mesmo ilustrador, Claudius, e apresentam
como marca um cuidado estético com estilo de traços simples,
caricaturais e cores fortes.
Nos livros selecionados, como também nos demais, as ilustrações
intercalam as páginas que contêm o texto escrito e têm
como objetivo principal elucidar a ação desenvolvida na
narrativa. Nesta perspectiva, as ilustrações reafirmam nas
imagens o que está escrito na página ao lado, dando condições
da criança que ainda não sabe ler acompanhar o desdobramento
da história.
O fato de toda ação que ocorre no texto escrito ser repetida
pela ilustração pode ser um indicativo da preocupação
do projeto editorial em facilitar a assimilação da criança,
que ainda está em fase de aquisição da leitura, entre
o que está escrito e o que está ilustrado. Porém
para Regina Zilberman “o paralelismo – a ação
repetindo-se e sendo suplementarmente reiterada pela ilustração
– prejudica o andamento da narrativa” (Zilberman, 1988 pp.
91), como também pode empobrecer, limitar os sentidos produzidos
pela leitura. Mas se a ilustração indica com conteúdo
o que os personagens principais fazem, cabe destacar nesta obra, que eles
estão ilustrados com humor e graça.
Interessante ressaltar que dois desses 5 livros selecionados trazem com
destaque a criança negra. Em Uma gota de mágica, livro da
série Mico Maneco II, da cor roxa, a ilustração apresenta
uma menina negra, ainda criança que deitada no chão observa
as gotas de água pingarem da torneira em uma lata. Em Com prazer
e alegria entre uma criança loira de olhos azuis e um menino branco
de cabelos castanhos, vemos também uma criança negra. O
fato das crianças das capas serem negras e não se encaixarem
na definição de “criança-padrão”
já que, de acordo com Abramovich (1997) “Sendo menino ou
menina, a criança-padrão é branca, de classe média,
bem alimentada, tratada, bem vestida, bem cuidada...” (ABRAMOVICH,
1997: 40), parece indicar a intenção de inclusão
por meio da presença da criança negra e também de
levar à criança leitora um pouco da diversidade real em
que vivemos no nosso país. Para Abramovich (1997) preconceitos
não são transmitidos apenas por meio de palavras mas também
por imagens e está aí a relevância de ilustrações
mais realistas e menos estereotipadas.
Assim, as ilustrações, além de oferecerem boa qualidade
e de serem mais um atrativo da obra, proporcionam uma variedade ampla
na caracterização dos personagens, baseando-se na identidade
nacional para compor seu repertório, já que apresentam índios,
negros e brancos, pessoas de diferentes tons de pele e cabelo, frutos
de várias etnias, tentando aproximar-se mais do cotidiano real
do leitor infantil e da realidade brasileira
No primeiro projeto editorial da série lançado no mercado
pela editora Melhoramentos, as ilustrações eram mais opacas,
menos coloridas e em alguns casos, mais simples, de fundo branco. Nas
edições disponíveis para a compra hoje, publicadas
pela Salamandra, as ilustrações sofreram modificações
em busca de mais vivacidade para os desenhos: seu colorido é mais
forte, as expressões dos personagens estão mais acentuadas,
o contorno melhor definido e os planos de fundo estão mais elaborados,
causando um resultado melhor na produção das imagens.
Podemos pensar que as ilustrações tão bem cuidadas
para provocar o riso no leitor, para complementar a história contada
com palavras, para permitir uma leitura apenas visual ainda que voltada
para o público infantil, não trazem explicitamente o conteúdo
de quem quer alfabetizar apresentando determinada família silábica.
Na ilustração, o leitor pode “ler” sem decifrar
letra por letra, palavra por palavra, acompanhando o movimento dos traços
feitos por Claudius, participando da cultura letrada no folhear dos livros.
Assim, esse projeto mais do que alfabetizar com letras, deixa a criança
em contato com práticas de leitura, com textos de qualidade, para
que se familiarize com a escrita e seus símbolos mesmo antes de
compreendê-los e participe do mundo letrado. Além disso,
qualidade e beleza das ilustrações criam para o leitor mais
do que uma coerência e reprodução do escrito contido
nas páginas, contribuem para a concretização de um
bom projeto gráfico. Os desenhos de qualidade permitem que o leitor
se identifique e se sinta atraído pelo material, convidando-o a
ler e a interagir com essa produção cultural voltada ao
público infantil.
DISPOSIÇÃO GRÁFICA
Todos os livros que compõem a obra de Ana Maria Machado apresentam
a mesma tipologia gráfica: a mesma fonte é utilizada, apresentando
variações apenas quanto ao seu tamanho. Em ambos os projetos
gráficos conhecidos, o tipo de letra utilizado na impressão
dos livros da série Mico Maneco é a letra de fôrma
ou de imprensa, sendo que de acordo com o número de palavras presentes
na página, as letras podem ser maiores ou menores. O texto se dispõe
na parte superior da página, alinhado à esquerda e as frases
têm amplo espaçamento entre si, deixando ainda, na maioria
das vezes, a página quase pela metade, em branco. Verificamos também
que nos livros que compõem a série I, o texto é sempre
composto por poucas frases e por isso é curto, apresentando letras
em tamanho maior. À medida que se avançam as séries
da coleção (I, II, III, IV e V), cresce a complexidade dos
textos escritos e as letras vão diminuindo para que, conseqüentemente,
caibam mais palavras e frases na página, que parece convir às
expectativas, competências e habilidades do jovem leitor a que se
destinam.
Cagliari, 1999 defende primeiramente apenas a utilização
do alfabeto de letras de fôrma maiúsculas pois “é
uma forma mais fácil (...) de se chegar ao aprendizado da leitura”
(CAGLIARI, 1999 p. 49) e que a adoção desse alfabeto desde
os primeiros contatos da criança com as letras, pode evitar uma
série de problemas na aquisição da escrita mais tarde.
Desde a produção do projeto visual da série estão
presentes elementos que indicam a preocupação com a faixa
etária de leitores a que o livro se destina, que são as
crianças em fase de aquisição da leitura e da escrita.
Por esse motivo os livros apresentam um formato maior, letras de fôrma,
e um conjunto de textos que se desenvolvem gradativamente, aumentando
sua complexidade de acordo com a série a que pertencem, visando
trabalhar em cada um grupos silábicos diferentes e assim contribuir
à alfabetização do leitor.
São marcas como essas presentes na elaboração e concretização
do texto, de sua tipologia e disposição que colaboram para
a percepção e compreensão dos objetivos pedagógicos
que norteiam a concepção da série, já anunciada
pela autora na capa de trás dos livros.
No entanto, as intenções pedagógicas ficam “escondidas”
na forma como os livros são apresentados (as ilustrações
coloridas, os personagens ligados ao imaginário infantil) assemelhando-se
a qualquer outra obra de literatura para crianças, apresentando-se
como livros para entretenimento, lazer, ficção, imaginação
que procuram conquistar o leitor criança.
O TEXTO ESCRITO
Em geral, como já dissemos, os textos são escritos em frases
curtas, em letra de fôrma, apresentando repetições
de grupos silábicos, o que evidencia a intenção pedagógica
que os norteia. Em alguns livros da série o texto sofre modificações
do antigo para o novo projeto editorial. Em Cabe na mala, por exemplo,
foram acrescentadas ou alteradas pontuações e palavras,
o que pode ter ocorrido para melhorar a compreensão do texto por
parte do leitor, já que antes, no projeto antigo, onde estava escrito:
“Na vila a vaca vê tudo. (...) E nada cabe na mala. A mala
leva o tatu” (pg. 12) hoje, no atual projeto se lê “Na
vila a vaca vê tudo. Mas nada cabe na mala. A mala já leva
o tatu.” (grifo nosso).
A inclusão das conjugações “mas” e “já”,
não só dá ao leitor um novo sentido na leitura, como
também revela uma explícita revisão na linguagem,
talvez evitando a noção de texto formada de frases soltas,
desarticuladas, apenas orientadas pela repetição de sílabas
que se pretende ensinar no momento de aprendizagem da escrita.
Segundo Chartier (1996) editores, autores e ilustradores operam intervenções
nos textos em novas edições e novos projetos editoriais
com objetivo de remodelar a própria apresentação
do texto “fazendo-o em função dos leitores que desejam
ou pensam atingir”.(CHARTIER, 1996 p. 174).
Em Mico Maneco, livro da série I, a narrativa se desenvolve em
torno de dois personagens de natureza animal: o “Mico Maneco”
e a “Mona Maluca”. Os dois macacos que são apresentados
nas primeiras páginas, já com palavras que têm as
famílias silábicas m – n, c, d, etc., e depois interagem
juntos dividindo um doce, a bananada, como podemos ler no trecho a seguir:
(8) “Mico Maneco pede
banana.
Mona Maluca
dá bananada.
(12) Epa!
Mico Maneco
ficou todo melado...
De lama?
Não!
De bananada
danada de mole.
(14) Mona Maluca
pede o caneco
de bananada.
(16) O levado
do Mico Maneco
dá uma canecada.
De bananada?
Nada.
Canecada na cuca
de Mona Maluca.” (pp. 8/16).
As repetições fonética e gráfica visam facilitar
a assimilação do alfabetizando entre o visual e o sonoro,
demonstrando mais uma vez o caráter didático presente em
toda a obra. Entendemos que os livros foram produzidos em uma época
onde as cartilhas tradicionais imperavam nas escolas alfabetizando por
meio do “ba – be- bi- bo- bu” e que a autora pensou
em oferecer diferentemente de forma mais atraente para a criança
o ensino das letras.
Neste caso embora possamos afirmar que há um direcionamento para
a apresentação de palavras com sílabas simples (sem
dígrafos, por exemplo) na criação do texto verbal,
a autora optou também por apresentar simultaneamente três
consoantes, diferentemente do que ocorre nas cartilhas, o que mostra uma
inovação na concepção de alfabetização.
Percebe-se no texto a literalidade com que escreve Ana Maria Machado,
procurando mesmo em meio às repetições de sons e
fonemas da grafia, que mais uma vez evidenciam as intenções
pedagógicas entrelaçadas à sua literatura, “rechear”
o enredo com humor e jogos lingüísticos que atraem o leitor
infantil.
Neste caso, as rimas (cuca, maluca; canecada, danada; caneco, Maneco);
o jogo de uma sílaba dentro de outra (nada, bananada; banana, bananada;);
a troca de uma letra na criação de outra palavra (bananada,
danada; cuca, maluca); o jogo na pontuação (! ? . ...);
mais o humor de um macaco melado de banana, que enraivecido com a Mona
Maluca lhe dá uma canecada, dá ao texto um cuidado em sua
construção, uma preocupação com sua literalidade
em condições de igualdade com a pedagogia.
O livro Uma gota de mágica, por sua vez, apresenta uma narrativa
que tal como a poesia concreta, desenha o que diz, concretiza visualmente
o que o texto narra, descreve, anuncia. O livro tem como personagem principal
Joana, que todos os dias acorda, come bolo de fubá e vai com uma
lata buscar água da bica:
(4)
“Lá a gota cai
na lata gota a gota,
gota
a
gota,
e Joana
imagina,
imagina...
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A configuração
do texto na página nos remete ao pingar das gotas, apresentando
um sentido poético e metafórico, como se o texto também
gotejasse e como se, a cada gota, um pensamento de Joana surgisse e ela
desse asas a esses pensamentos entrando no mundo da imaginação.
Essa ludicidade visual presente no texto pode cativar o público
alvo dessa coleção que por ser criança também
se identifica com a personagem pensativa, imaginativa.
Diferentemente de Mico Maneco em que o texto escrito joga com espaço
em branco da folha apenas aumentando ou diminuindo frases, no trecho acima
destacado de Uma gota de mágica, a repetição da mesma
palavra desenha na folha o trajeto da gota que cai e metaforiza o som
repetido de uma gota que cai insistentemente ( gota, gota, gota, imagina,
imagina).
Nesta obra, que retrata uma menina simples, habitante de casas populares
e que busca água na lata da bica, algo que dificilmente ocorreria
com a “criança padrão” de Abramovich (1997),
Machado retrata o cotidiano e a realidade de muitas crianças que
comumente são excluídas da literatura infantil, sem com
isso estigmatizá-la como “pobre coitada”, criando uma
Joana criança capaz de imaginar e com isso mantêm viva a
possibilidade da personagem penetrar outros mundos e de libertar seu pensamento,
como qualquer outra criança.
No texto escrito de Uma gota de mágica se encontra a qualidade
literária esperada de uma obra de autoria renomada como esta, sem
com isso fugir dos propósitos que norteiam o projeto: de apresentar
por meio da literatura infantil e brasileira, textos capazes devido à
sua composição, de auxiliarem crianças na aquisição
das práticas de leitura e de escrita.
O livro No barraco do carrapato, premiado com “Altamente Recomendável”
pela Fundação Nacional do Livro Infanto-juvenil em 1985,
narra o passeio da “Sapa” que sai em uma “jornada”
em busca de seus sapatos e tenta ir de carroça até o morro
onde fica o barraco do “Carrapato”. A personagem interage
com outros três personagens também animais: o “Mico
Maneco”, o “Burro” e o “Sapo”. A história
começa com a apresentação da personagem, ao mesmo
tempo em que apresenta sua intenção didática: trabalhar
os grupos de sílabas.
(2)
“A sapa saiu pela rua toda catita.
Uma sapa muito bonita.
De roupa nova e saia de fita.
Mas no pé, nada de sapato.
Sem bota,
sem botina,
Sem pé-de-pato.”
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Além
do humor e da qualidade perceptíveis no trecho acima, há
sempre presença da rima, o que dá uma sonoridade e um ritmo
diferentes, que deixam a leitura mais agradável e fluente, que
caracterizam um personagem no jogo do que tem e não tem (pé
de pato) e no jogo entre o texto e ilustração (pé
de pato). Teria um sapo que ter pé de pato? Por que na ilustração
ele o tem?
Nas últimas frases escritas acima, pode-se ver que a rima leva
à repetição de sons semelhantes como: “corro”
e “morro”, “terra” e “serra”, “barraco”
e “carrapato”entre muitos outros, que não somente contribuem
para o aspecto poético do texto mas também aproximam-se
do popular “trava-língua”, que segundo Zilberman (1988),
leva
“ a
criança, de certo modo, a prestar atenção à
sua leitura, sob pena de trocando as letras, modificar o sentido das palavras.
(...) a criança acha graça enquanto decodifica a obra, dado
o efeito cômico previsto nas armadilhas lançadas pelas palavras,
fonicamente aparentadas” (ZILBERMAN, 1988: 91)
O conflito
gerado pela perda do sapato e por sua busca prende o leitor ao desenvolvimento
da narrativa e o faz esperar por uma solução. Porém,
quando a “Sapa” desiste de buscar o sapato e desce da carroça,
há uma quebra na seqüência dos acontecimentos onde aparece
um terceiro personagem, o “Sapo”, que a auxilia a chegar até
o barraco do Carrapato e achar seus sapatos com seus próprios meios,
o que gera um final inesperado. Assim, “No barraco do carrapato”
se constitui como uma leitura prazerosa não só por sua qualidade,
mas também por não ser previsível, surpreendendo
o leitor. Em busca de algo perdido, ela encontra diferentes amigos dispostos
a ajudá-la, mas que apenas um (o Sapo) a ensina a ir a algum lugar
conforme sua própria natureza e capacidade.
O livro A zabumba do quati, que pertence à série IV, destacado
para nós por ter sido editado em braile e por isso ter ampliado
o público consumidor da Série. Aqui, como em No barraco
do carrapato, o texto se estrutura em torno da resolução
de um conflito, que no caso é a procura por uma zabumba. Porém
os fatos que ocorrem durante a busca são surpreendentes e despertam
no leitor infantil a curiosidade, algo comum na faixa etária a
que se destina o livro e que contribui para que a criança fique
atenta à leitura. Novamente, a repetição de palavras
contendo fonemas semelhantes ocorre no texto, que contém várias
palavras escritas com “x” e “ch” e as com sons
de “z” e “s”, palavras com as quais, em geral,
a criança já alfabetizada ou em processo de aquisição
da escrita possui dificuldades para grafá-las corretamente.
(20)
“Mas aquela caixa veio
para a dança.
O quati mexeu daqui,
virou um pouquinho dali,
Tirou uma rodela de madeira,
esticou um pedaço
de couro de zebu,
e a caixa virou zabumba.
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22)
Agora o batuque dela
toca baião e xaxado.
E se você quiser,
venha para o remelexo da dança,
Lá na palhoça.”
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É
visível o trabalho que Ana Maria Machado realiza com as palavras,
repetindo sons diferentemente do modo como acontece nos textos cartilhescos,
pois constrói um texto que conta uma história, que significa
algo para a criança e que lhe apresenta de forma mais natural as
palavras formadas, sem dividí-las aos pedaços, sem criar
um texto desconexo de compreensão.
Com criatividade e leveza, Machado conta uma história simples,
que contém elementos regionais da cultura brasileira em seu enredo,
como o forró, a zabumba, pífano de taquara e o xaxado, trabalha
grupos silábicos considerados difíceis no momento da aquisição
da escrita, sem tornar com isso o texto cansativo e encerra a narrativa
de forma a se aproximar do leitor, convidando-o para adentrar a história,
levando-o a sentir-se como alguém que participa dela também,
criando com esse conjunto uma literatura de qualidade, onde a criança
se identifica, aprende e se diverte. Não simplesmente são
mais frases simples com palavras também formadas de sílabas
simples que subestimam a competência de leitura da criança.
O último livro escolhido por nós para análise, Com
prazer e alegria, da série V, encerra toda a Série de livros,
abordando a amplitude que a leitura traz ao sujeito e os diversos mundos
que podem ser descobertos por meio dela. A narrativa se inicia com dois
personagens, Benedito e Janaína, que fizeram um passeio diferente.
Eles conversam no texto com outras crianças que ficam curiosas
para saberem o que eles fizeram. Cada um conta o que fez e o que viu:
O diálogo entre os três personagens – narradores parece
ser o que conduz a história, revelando o que crianças viveram:
aventuras diversas, pela floresta, pelo mundo de fadas e de príncipes.
A busca dos personagens crianças aguça a curiosidade do
leitor, que acompanha lugares visitados por Benedito e Janaína
e se identifica com eles:
–
Eu andei pela floresta e encontrei
um tigre pelo meio das plantas –
disse Benedito.
(6) – Eu procurei um tesouro
numa praia de areia branca...
- explicou Janaína.
(8) – Vocês estavam sozinhos? –
quis saber André.
- Não, havia uma porção de gente...
– disseram eles, rindo.
– Homens e mulheres, príncipes
e princesas, nobres e pobres.
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As viagens
por mundos desconhecidos são possíveis de serem feitas com
o domínio da competência da leitura, é a mensagem
da obra. Aqui, o texto e a ilustração tematizam uma concepção
do ato de ler bastante significativa no discurso sobre a Leitura: “ler
é viajar”, “ler é entrar na história”,
“na emoção”. Nesta perspectiva o mundo da ficção
e o mundo real ficam sem barreiras, são possíveis de serem
rompidos pelo leitor através da leitura.
Este livro encerra a Série composta pelos outros vinte, tematizando
o ato de ler, de maneira poética e cativante, dando à literatura
um caráter lúdico e a idéia de que a leitura é
capaz de transportar pessoas, ampliando seus conhecimentos e evidenciando
mais uma vez os objetivos da série, de iniciar a criança
na leitura. Segundo as próprias palavras de Machado:
“Já
escrevi uma porção de livros, mas poucos têm me dado
tanta emoção como os dessa série Mico Maneco: para
tantas crianças, o primeiro livro lido na vida. Umas espécie
de chave mágica para a literatura, todas as leituras futuras, todos
os livros do mundo!” (MACHADO, na quarta capa dos livros da série).
É
como se criança após ouvir, ver, ler toda a série
Mico Maneco, tenha se consolidado como um leitor capaz a partir de então,
de “ler qualquer história, de qualquer livro, com tudo o
que existe.”
CONCLUSÕES
Enquanto
proposta de literatura com a intenção de auxiliar as crianças
que estão começando a ler, essa série responde às
características desse gênero através dos propósitos
explicitados pela autora já na capa de trás do livro, do
seu projeto visual com cores e traços fortes e com textos organizados
para serem lidos segundo a numeração das séries (I,
II, III, IV e V).
Os conteúdos das histórias também deixam evidentes
as intenções pedagógicas, já que todos os
livros são desenvolvidos baseados em determinados grupos silábicos,
na repetição e no uso destes de diversas formas, na apresentação
de forma gradativa de dificuldade de aprendizagem (sílabas simples,
sílabas mais complexas, uma mesma letra que apresenta vários
sons). A preocupação na criação de personagens
e enredos em torno de uma ênfase em determinadas “famílias”
de letras, lembram à organização das cartilhas.
Nesta perspectiva pode-se perceber uma concepção de alfabetização
que se aproxima do tradicional, considerando a ênfase nas famílias
silábicas e na concepção de ensino/aprendizagem da
aquisição da língua de forma gradativa e a partir
de um nível de dificuldade indicado pelo adulto. Porém,
esta concepção de alfabetização se distancia
daquela presente na cartilha tradicional porque pressupõe o alfabetizando
como alguém que terá interesse e prazer de aprender a ler,
se for com textos bem humorados, com crianças e bichos, com jogo
de palavras, trazendo a ele o mundo da criança e a possibilidade
de alfabetizar não se limitando a textos sem significado.
Machado consegue construir textos que partem do princípio alfabetizador
orientador da série usando uma literatura lúdica, envolvente,
que prende a atenção do leitor e o cativa, atingindo os
objetivos pedagógicos de sua obra de uma maneira leve, divertida,
dinâmica e mais significativa para o leitor e por isso mais atraente
e provavelmente mais eficaz, pois não só auxiliando a aquisição
da leitura como também contribuindo para adentrar a criança
no universo literário e para torná-la assídua de
suas produções.
A série de livros “Mico Maneco” constitui-se como uma
obra de relevância, pois além de trazer à criança
que adentra ao mundo letrado mais um instrumento de auxílio na
aquisição de suas práticas de leitura e escrita,
o faz por meio de uma literatura de boa qualidade, que se preocupa com
a elaboração e a constituição de seu projeto
editorial e visual, deixando evidente o cuidado com seu destinatário.
Além disso, a série introduz a criança ao mundo literário
de forma cativante, envolvente e agradável, tornando a aprendizagem
e o ato de ler aprazíveis, contribuindo assim não só
à continuidade de uma literatura infantil de alto padrão,
capaz de efetivamente acrescentar aos leitores mais informações
e conhecimentos, mas também à formação de
crianças que desfrutem da arte literária e concebam a leitura
como uma atividade tão gostosa e compensadora quanto o brincar,
algo para ser realizado com prazer e alegria, como se a leitura de cada
livro fosse mais uma gota de mágica no seu oceano de saberes.
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