Lucas Padim era um menino comprido apesar dos seus 5
anos. Eu o conheci nas sessões de leitura, do Jardim Azul (Educação
Infantil, 3º período), com a professora Fátima em 2003,
na Sala dos Sonhos do Colégio Santa Rosa de Lima, em Botafogo/RJ.
Na sala dos sonhos ele e seus parceiros de turma começaram a mexer
nas estantes. Ele, especificamente, foi até as prateleiras com
literatura poética. Encontrou o livro organizado pela Vera Aguiar
e outras professoras – Poesia fora da estante, v 2, editora Projeto
– e começou a folheá-lo espontaneamente. Eu não
estava ligada no garoto e nem ele em mim. Até que percebi a chegada
dele para mostrar-me algo no livro escolhido. Ele foi logo perguntando
– “Lauren, como a lua foi no cinema?” Engasguei. Não
consegui dizer-lhe nada além de “bem... vá lendo...”
Minha cabeça foi até a 5ª série com quem havia
estado há semanas atrás. O poema A Lua no cinema estava
no livro de português dos alunos e pude, com a Vera, professora
de português e a turma 51, fazer a apresentação performática
do poema e discutir os efeitos e sentidos do texto.
Olhava agora para o Lucas de cinco anos e ficava com vários pensamentos
sobre como o Leminski conseguira atrair aquele guri. Que genial dialogar
a quatro: Padim, Leminski, Vera e eu... Que inusitado travar uma relação
entre Padim e a lua, a sala dos sonhos, a poesia... Pirei de emoção!
Sonhei, flutuei em leveza de conquista poética e estética
ao presenciar esse encontro tão surpreendente entre o Padim e o
Leminski.
Entendi: eu era a testemunha ocular dessa belezoca poética! Estava
com tudo na emoção para contar um pouco daquela cena/experiência
de um pequeno leitor com um autor/poeta brasileiro.
Nas sessões que se seguiram a essa do primeiro encontro do Padim
com o Leminski, foram surpreendentes os constantes olhares e entreolhares
do Padim ao texto. Todas as crianças da turma também faziam
descobertas. Contudo, focalizo para essa comunicação de
15 minutos o recorte da relação intensa do menino Padim
com o poeta. Ele tinha escolhido o Leminski como seu companheiro na sala
de leitura. Não largou mais o livro desde então! Começou
a pedir papel e lápis para copiar o poema A Lua no cinema. Parecia
não mais se contentar em ver, ler e reencontrar o texto, queria
registrá-lo, apreendê-lo de uma forma definitiva: a escrita.
Esse novo movimento diante do poema gerou em alguns parceiros de turma
uma vontade de também copiar e escrever, como eles mesmos falavam,
a história. Assim, providenciei papel e lápis para o Padim
copiar o Paulo Leminski do seu jeito pessoal e particular. Mais tarde,
a idéia de copiar foi ampliada. Segundo Padim, seu interesse agora
era fazer um livro. Disse-me que estava conversando em casa com sua avó
sobre a idéia. Diante dessa “deixa” fui saber dele
sobre sua avó, o que acontecia em sua casa e como eram as coisas
por lá. Eu estava interessada em pesquisar aquele “fenômeno”
de garoto. Minha intenção era desvendar sua cultura familiar
e ambiente de acesso aos textos. Descobri que seus avós cuidavam
dele durante o dia. E realmente ele estava exposto às histórias
e aos textos dos adultos. Parecia ser a única criança em
casa e deveria conviver, fora do colégio, exclusivamente com adultos
(pais, avós e empregada).
No ano seguinte, em 2004, já promovido à classe de alfabetização
(CA 1), com a professora Cláudia Poppe, Padim continuou a procurar
o livro Poesia fora da estante, v 2. Agora, trazia uma novidade: “Lauren,
eu comprei esse livro”. Feliz, parabenizei-o pela conquista. Mesmo
assim, foi difícil levá-lo a perceber outros textos. Os
incentivos da professora Cláudia eram constantes para ele pegar
e abrir outros livros, contudo ele demorou para assumir outros textos
e autores.
Ficava imaginando o que aquele menino de 6 anos agora buscava naquele
livro e texto. As minhas observações me contavam que ele
estava diante de um enigma: “Como a lua foi ao cinema?” Ele
ficava horas diante do mesmo poema parecendo argüí-lo sobre
sua questão. Eu ficava junto. Filmei em minha mente a entrada e
a saída do Lucas Padim das várias sessões de leitura
naquele ano. Via quando folheava, no mesmo livro, outros poemas e inventava
novas formas de encará-los: lendo em voz alta, copiando, lendo
silenciosamente. Ah, preciso dizer que nesses encontros-confrontos com
o livro e o poema de Paulo Leminski, Lucas estava, na maioria das vezes,
sem companheiros de turma, ou seja, a sós com o Leminski. O livro
em questão tem 111 páginas. Depois que Lucas descobriu que
nele havia vários autores, era como se não precisasse de
mais livros... Essa minha suposição surgiu ao ver e ler
os movimentos do Lucas com o livro “preso” ao seu corpo e
adquiriu novas nuances a cada sessão de leitura em que eu buscava
entender a relação do Lucas com o Leminski, do Lucas com
o livro e seus autores. Ansiava perceber as questões que poderiam
surgir a partir daquela relação. Enfim, eu sabia que a cena
era certa: Lucas ia buscar e achar o livro organizado pela Vera Aguiar
na estante das poesias. Eu ficava esperando, como num filme, as cenas
de uma relação/trama de amor e paixão! Lucas mostrava-se
vivendo um romance com e pelo livro. Não encontro outra palavra
tão contundente para descrever a experiência que envolvia
aquela cena tão encantadora: um leitor amando o livro.
Mas nessa cena faltam elementos...
Uma das verdades do meu arrebatamento de sentidos e sentimentos ao ver
o Padim encontrando o Leminski é que eu me vi no Padim. Explico
melhor. Eu já conhecia de longas datas o poema. A Lua no cinema
me foi apresentado pelo falecido professor da UFF, no curso de especialização
em literatura infantil e juvenil, Jorge de Sá, lá pelos
idos de 1997. Na verdade, o poema era o livro todo – Editora Arte
Pau-Brasil, SP, 1989. Com ilustrações simples a lua apareceu
para mim tão forte e contundente que eu simplesmente me apaixonei
por todo aquele drama da estrela pequena, solitária e sofrida.
O professor leu o poema enquanto ia mostrando e folheando o livro. Eu
me rendi ao Leminski na mesma hora. Meus pensamentos inquiriam: Quem era
o Leminski? Onde vivia? O que escrevia?
Nessa altura estávamos quase terminando a especialização
e o professor Jorge de Sá começava a ficar gravemente doente.
Poucos meses depois faleceu e veio a ser substituído por um outro
professor, infelizmente sem poesias. A imagem da lua e do professor ficaram
gravadas em minha mente. Passei a ler repetidas vezes o poema. Não
safisteita, comecei a travar diálogos com ele em voz alta.
Coloquei uma cópia do poema na minha geladeira e sempre que passava
pela cozinha – diga-se de passagem um ambiente muito agradável
no apartamento em que morei sozinha – dizia algo ao Paulo e a sua
lua. Fazia perguntas em voz alta para travar um diálogo a três,
olhava calmamente a organização física da página,
tocava em cada palavra com reverência e ousadia ao mesmo tempo.
Em poucos dias a lua já era minha. Decorei todo o poema. Repetia-o
sozinha. Enchia quarto e sala com seu som. Até então era
ele, eu e o Paulo. Depois, resolvi apresentá-lo aos amigos.
Em 2002 tinha com um grupo de amigos encontros esporádicos para
ler poesias, ouvir músicas, cantar e jogar conversa fora. Fazíamos
isso nas casas dos amigos. Entre a diversão e amizade, apresentávamos
os textos que tínhamos trazido. Bem, eu estava com a lua na ponta
da língua. Tive que soltá-la. Com todas as apreensões
e tensões possíveis, consegui ler o poema. Outros encontros
vieram e conseguimos dar uma certa estrutura às apresentações
colocando horário, participações de musicistas, leitura
e declamação de textos. Diante do crescimento da proposta,
procuramos um espaço para divulgá-la. Três amigos
conseguiram gratuitamente o salão da igreja Presbiteriana de Icaraí,
na rua Otávio Carneiro, em Niterói/RJ.
Toda primeira sexta-feira de cada mês lá estávamos
nós, a equipe do sarau, incluídos no Projeto Sexta Maior
da Igreja Presbiteriana. Batizamos oficialmente os encontros de sarau
e um programa impresso foi montado para o público acompanhar as
apresentações. Sempre tivemos um público pequeno,
mas emocionado com as leituras de Clarice Lispector, Marina Colasanti,
as músicas do compositor Joel Bezerra e o som instrumental dos
alunos do curso de Educação Artística da UNI-Rio.
O que valia para mim era poder mostrar a nossa boa literatura. Também
apresentar alguns textos e declamar o poema A lua no cinema.
Consegui apresentar o poema no sarau. Mesmo assim, o impacto da trama
do Leminski provocava em mim algo mais...
Ao iniciar o trabalho de consultoria pedagógica no Colégio
dominicano Santa Rosa de Lima, em 2003, nunca iria esperar essa cena inusitada
de um menino de 5 anos encontrando A lua no cinema, o Leminski e tudo
isso recriando algumas das relações e reações
que eu havia inaugurado anos atrás. Reflito sobre como é
surpreendente e subjetivo o encontro do leitor com o texto. Olhar, participar
e envolver-me na descoberta apaixonante e arrebatadora do Lucas Padim
com o poema do Paulo Leminski era reviver, rever, reencontrar minhas emoções
de sala de aula, quando o professor Jorge de Sá apresentou-me o
poema. Eu só tive acesso ao Leminski porque um professor universitário
decidiu ler o livro em sala de aula para uma turma de Especialização.
Como aquela leitura me marcou! Como essa nova cena do Lucas me preenchia
e transbordava de significados e sentidos de liberdade, verdade, beleza
e conhecimento estético. Eu podia imaginar o que o Lucas estava
vivendo... Me senti profundamente enriquecida com esse presente do meu
exercício de leitora e amante de poesias...
O fato poético vivo e transbordante de vida estava diante dos meus
olhos mais uma vez. Se antes tinha sido eu o alvo do encantamento poético,
vazado pela mediação importantíssima do professor-leitor
Jorge de Sá, agora era o Lucas Padim, menino-aprendiz-leitor com
olhos ávidos e fome febril pela pergunta a me chamar para a sua
leitura – “Lauren, como a lua foi no cinema?”
Não pude ter outra reação a não ser de paixão
pelo garoto, pela sala dos sonhos, pelo colégio que me empregou,
pelo Paulo Leminski, pelo Jorge de Sá, pela palavra poética
que me atravessava e me unia em comunhão profunda a um menino e
suas muitas perguntas À Lua no Cinema. Assim, estava aberta a relação
intransferível do Padim com o Leminski, acompanhada por mim, pesquisadora
das cenas poéticas e inventariante atenta dos desdobramentos que
viriam a seguir e me levariam a desejar relatar no seminário de
Literatura para crianças e jovens essa experiência.