Luiza Victor de Araújo - Universidade Federal
de Pernambuco
Apresentação
O presente trabalho foi elaborado durante a conclusão
do curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Pernambuco,
na disciplina Prática de Ensino de Português, ministrada
pela professora Lívia Suassuna. Primeiramente, levantaram-se dados
teóricos sobre o que seria poesia e sobre como esse tema deveria
ser utilizado em sala de aula. Posteriormente, baseando-nos nos estudos
teóricos previamente realizados, apontamos sugestões metodológicas
para o trabalho com poemas na escola. Elaborou-se assim um projeto didático
que foi executado em 2004, no período de outubro a dezembro, com
os alunos da 5a Série B da Escola Estadual Senador Novaes Filho,
no bairro Várzea – Recife.
O trabalho será dividido da seguinte forma: primeiro será
feita uma breve exposição sobre o porquê desse estudo
e sobre a constatação de certos problemas na utilização
de poemas em sala de aula que devem ser solucionados. Em seguida, serão
propostas sugestões metodológicas para o uso do texto poético
na escola, bem como será relatado como se procedeu à execução
do projeto didático de língua portuguesa baseado na aplicação
de poemas em sala de aula. Por fim, haverá na conclusão
uma reafirmação dos pontos positivos do trabalho com poemas
nas aulas de Língua Portuguesa.
Esse trabalho visa a mostrar que a literatura infanto-juvenil, especificamente
o poema, pode ser um gênero de referência para as produções
textuais dos alunos na escola, desenvolvendo neles um sentimento de confiança
em suas capacidades cognitivo-afetivas e promovendo a sua inserção
social através de uma leitura crítica da realidade. É
a partir do hábito de ler, do surgimento do prazer no momento da
leitura que se pode formar alunos-leitores e, conseqüentemente, produtores
dos mais diversos textos.
O significado do texto poético e sua situação
na escola
A escola é freqüentemente o ambiente em que
se entra em contato pela primeira vez com a literatura infanto-juvenil,
especificamente a poesia. Percebe-se que, dependendo de como foi construído
o ambiente de leitura, o aluno se aproxima ou se distancia dos livros
de poesias. Em virtude disso, se torna necessário que o trabalho
com poemas nas aulas de Língua Portuguesa seja realizado de forma
tal, que a criança ou o adolescente desperte para o hábito
de leitura e se transforme em um leitor capaz de perceber os signos (palavras,
sons, etc.) e expressões sociais criados pelo poeta para designar
os objetos da realidade. Assim, o estudante poderá produzir sua
própria escrita, expor seus dizeres e manifestar seu pensamento
crítico.
Na instituição escolar, comumente, não se proporciona
ao aluno a liberdade de escolha de leitura, distanciando-o desse mundo
mágico, crítico e reflexivo proporcionado pelos textos literários.
O discente é “obrigado” a ler algo que lhe foi imposto
pelo professor (muitas vezes fragmentos do texto poético) apenas
como pretexto para identificar certos aspectos gramaticais da linguagem,
não se trabalhando, dessa forma, o texto em si e o processo de
construção do mesmo. O poema surge na aula de português
apenas como subsídio para a realização de exercícios
que levam o aluno a identificar certos recursos lingüísticos
que serão trabalhados na aula de gramática – substantivo,
adjetivo, dígrafos entre outros. Dessa forma, os estudantes se
detêm na leitura superficial do texto poético e não
realizam o mais importante do processo de leitura – a atribuição
de significado ao texto que é lido, bem como relação
com outros textos, pretendo reconhecer os objetivos do escritor. Os alunos
não levam a prática de leitura para fora da sala de aula,
pois não se aborda a leitura como prazer, fruição.
Geraldi reforça a importância da leitura como fonte de fruição
ao afirmar:
No sistema capitalista, de uma atividade importa o seu
produto. A fruição, o prazer, estão excluídos
(para que alguns possam usufruir à larga). A escola, reproduzindo
o sistema e preparando para ele, exclui qualquer atividade “não-rendosa”:
lê-se um romance para preencher uma “famigerada” ficha
de leitura, para fazer uma prova ou até mesmo para se ver livre
da recuperação (você foi mal na prova Castigo: ler
o romance Z, até o dia D. Depois? Férias...) (2003a:97)
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) já
apontam a importância de se formar alunos leitores e a necessidade
de se despertar no discente o gosto pela leitura, através da criação
de bibliotecas na escola e de surgimento de momentos de leitura livre,
nas aulas de língua portuguesa, para que, assim, o aluno, em condições
favoráveis, tenha contato com uma diversidade de leituras e possa,
em seguida, levá-las para o ambiente familiar e para a comunidade
em que vive.
Segundo propõem os PCN, no decorrer das oito séries do ensino
fundamental, o aluno deve entender que a leitura pode ser uma fonte de
informação, de prazer e de conhecimento e deve se tornar
capaz de expressar seus sentimentos, experiências, idéias
e opções individuais, bem como de ouvir, interpretar e refletir
sobre as idéias de outros.
De acordo essa proposta de trabalho, essas habilidades apontadas devem
ser desenvolvidas no aluno durante todo o período escolar, e podem
ser realizadas através da utilização do texto poético.
A literatura infantil, em especial a poesia, não possui lugar de
prestígio no ambiente escolar. A instituição escolar
não estimula a capacidade criativa e crítica das crianças
e dos jovens. Há uma valorização do conhecimento
objetivo, em detrimento do conhecimento subjetivo, simbólico e
emotivo, próprios do homem. Em relação a esse desprestígio
do texto poético, Pinheiro (2002) diz que entre todos os gêneros
poéticos, é a poesia o mais desprestigiado na prática
pedagógica, já que, mesmo depois da massificação
da literatura infantil e juvenil, não houve nem produção,
nem trabalho efetivo com a poesia.
Observa-se que, na maioria das aulas de língua portuguesa, a poesia,
quando é utilizada, serve apenas para reforçar o estudo
dos elementos estruturais (verso, rima, estrofe) e dos recursos lingüísticos
(como retirar do texto substantivos, adjetivos, dígrafos etc.),
em detrimento dos outros aspectos da linguagem poética que são
essenciais para a explanação das idéias, da visão
de mundo e das intenções do poeta – a atividade criativa
com a língua, a construção de novas formas de ver
o mundo, a descoberta dos recursos estilísticos inerentes a poesia,
essenciais para que o estudante se torne capaz de reconhecer, interpretar
e criar, a musicalidade, o subjetivismo, o plano simbólico criado
a partir do mundo real e os recursos das figuras de linguagem. Esquece-se,
dessa forma, de abordar a importância dos recursos estruturais e
lingüísticos para a atribuição dos sentidos,
construção dos jogos com as palavras, do ritmo, do subjetivo
e do imaginário, presentes no texto poético.
O que são Poesia e Poema?
É através do texto poético que o
poeta exprime os pensamentos, sentimentos e desejos mais íntimos,
próprios do homem. Segundo Paixão (1983:30), “o gênero
textual poema é aquele pelo qual escutamos os dizeres ecoados de
regiões profundas do ser humano, presenciamos sentimentos desconhecidos
e gestos inesperados”. Cunha (1997:121) afirma que “a poesia
é fruto da sensibilidade e visa a sensibilidade do leitor,a emoção,
a pura beleza”.
Oriundo do grego “poíema”(‘o que se faz’),
o termo poema designa uma composição na qual o fenômeno
poético se realiza. Segundo Ferreira (1975), o poema é “a
obra em verso; é a composição poética de certa
extensão, com enredo”. Já a poesia, segundo o mesmo
autor, “advem do grego ‘poiesis’ (‘ação
de fazer algo’) e do latim poese + - ia e significa a ‘arte
de escrever em verso’; composição poética de
pequena extensão; entusiasmo criador; inspiração;
aquilo que desperta o sentimento do belo”. A partir dessas definições,
observa-se que ambos os termos originam-se da mesma raiz “poieín”
(fazer) e estão associados – o poeta exprime uma categoria
abstrata – a poesia – por meio de uma expressão, de
uma categoria formal – o poema.
Cria-se, por meio da poesia, uma realidade paralela diferente da histórica
e social. Cada leitor fará uma leitura diferente e única
do poema, dependendo de sua história de vida, de seus interesses,
apreensões e visão de mundo. Na voz do poeta estão
presentes as vozes de outras pessoas, de momentos históricos e
sociais diversos. Esse universo construído a partir do texto poético
leva o leitor a aprofundar suas competências a partir de novas leituras
do mundo e faz com que o mesmo conheça certos aspectos da realidade
até então desconhecidos, bem como novos sistemas de referência,
tornando-se assim sujeito crítico, capaz de agir e modificar a
realidade. Segundo Eliot apud Mermelstein (2004), a função
da poesia é “comunicar uma nova experiência, nova compreensão
do que é familiar ou expressão de algo que experimentamos
e para o que não temos palavras”.
Como toda obra de arte, o poema tem uma unidade, uma linguagem e artifícios
que lhe são próprios. Na criação do mesmo,
o poeta seleciona e combina palavras e sons, produzindo efeitos sonoros
(ritmo melódico e combinações de sons, rima, aliteração
e eco, entre outros) e de expressividade e uma plurissignificação.
Segundo Goldstein (2000: 6), “o poema, como tecido de palavra, pode
sugerir múltiplos sentidos, dependendo de como se perceba o entrelaçamento
dos fios que o organizam”.
Em relação ao processo de leitura de textos poéticos,
desde que o homem surge e entra em contato com a realidade, inicia a realização
de uma leitura da vida, por meio de sentidos. A leitura adquire um conceito
bem amplo – o de conhecimento, interpretação e decifração
do código, enigma que é o mundo. Nesse sentido, a leitura
do mundo antecede a leitura da palavra e o objetivo primordial desta implica
a compreensão melhor do mundo. No caso da palavra poética
encontrar-se-á, ainda, uma leitura emocional e subjetiva (Martins,
1982).
O poema realiza o milagre de aproximar o inaproximável, de nomear
o inomeável, de reunir diversos elementos nas mais variadas formas,
para dar voz a idéias intrínsecas ao ser humano, universais,
que nem sempre são expressas através da escrita.
Sugestões metodológicas para o trabalho
com a poesia
Serão explanadas a seguir sugestões de como
se trabalhar com a poesia em sala de aula, construídas a partir
de um contato teórico e prático com textos poéticos.
Primeiramente, no início das atividades com poesia, torna-se essencial
que o professor seja um leitor assíduo de poemas e sinta prazer
no momento de leitura desse gênero, para que assim possa despertar
nos alunos o prazer do ato de ler. Cabe aos professores de língua
portuguesa conhecer o real valor do texto literário, selecionar
bons textos, antes de introduzir o texto poético em sala de aula.
Segundo Yunes & Pondé (1988: 54):
“São diversas as variáveis que se
alinham quando se trata da questão de despertar o gosto pela leitura.
Não há como fazê-lo sem recursos e estratégias
para distribuição do livro, sem professores e bibliotecários
que tenham descoberto o prazer de ler. Em outras palavras, do ponto de
vista pedagógico, há que se ter em mente a política
da leitura, mas, sobretudo o gosto de ler que é possível
despertar”.
É fundamental que o educador conheça o perfil
do grupo-classe, para que, assim, seja possível elaborar procedimentos
adequados aos seus interesses e escolher poemas que sejam condizentes
com a realidade dos alunos que participarão da prática pedagógica.
Outro elemento fundamental para um bom andamento das atividades é
que os discentes conheçam antecipadamente quais procedimentos serão
realizados com o texto poético, bem como as finalidades dessa atividade,
para serem atuantes nesse processo e não meros receptores de informações.
Em seguida os alunos devem ser incentivados a fazer a leitura de poemas,
para assim criarem uma rotina de leitura. O estudante então será
despertado para a polissemia, o jogo de palavras, o sentido figurado,
a subjetividade, as diversas visões de mundo presentes num texto
poético. O contato com o texto poético será importante
para que os discentes desenvolvam valores e atitudes próprios e
compartilhem conhecimentos e experiências, habilidades essas já
destacadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais, documento em que
se apontam, por exemplo, as seguintes habilidades:
“... o interesse por ouvir e manifestar sentimentos,
experiências, idéias e opiniões; a valorização
da leitura como fonte de fruição estética e entretenimento;
o interesse por ler e ouvir a leitura especialmente de textos literários
e informativos e por compartilhar opiniões, idéias e preferências
(ainda que com ajuda); o interesse em tomar emprestado livros de acervo
da classe e da biblioteca escolar” (1997:41)
Depois de introduzidos no universo da poesia, os discentes
devem seguir na segunda etapa do processo – o momento de criação.
Nessa fase, os alunos ingressam no mundo simbólico, sensível
e reflexivo proporcionado pela poesia e obtêm embasamento para produzirem
suas argumentações, seus próprios textos a partir
de suas convicções.
Yunes e Pondé (1988:37) reforçam essa importância
do texto literário para a construção da criticidade:
“O texto literário, por sua natureza particular,
veicula a crítica e a contradição de uma linguagem
não-linear, isto é, distinta da linguagem comum. Desse modo,
ele assume um papel político muito mais amplo,pois deixa de ser
apenas sinal de erudição,para contribuir para a formação
do pensamento crítico e atuar como instrumento de reflexão
, uma vez que pode questionar, através de sua linguagem, a hegemonia
do discurso oficial e o consenso estabelecido pela ideologia dominante”.
O professor não deve utilizar a poesia como pretexto
para estudar gramática e ortografia, ou insistir apenas nos seus
aspectos formais (conceituar estrofe, rima e verso). O educador também
deve evitar priorizar um único gênero e os mesmos autores
e obras. Por último, o docente não deve realizar atividades
que não conduzem à análise dos aspectos literários
dos textos. Todas essas atitudes acima negadas são exemplos de
má escolarização da literatura. Magda Soares (1999:21)
afirma ser inevitável a escolarização da literatura,
uma vez que é da essência da escola pedagogizar, didatizar
os seus saberes, mas é necessário escolarizar a literatura
sem distorcê-la ou desvirtuá-la de seu fim estético,
artístico.
Ainda quanto ao modo de se trabalhar a poesia em sala de aula, esta deve
ser introduzida através de bons recursos – música
sugestiva, boa ilustração, “slides”, poemas
gravados por um grande intérprete ou leitura expressiva, e, em
seguida, deve-se realizar atividades prazerosas, lúdicas, como
debates, jograis, composição de músicas, leitura
crítica, comparação de poemas com outras leituras,
trabalho em grupo, entre outros, mas nunca com o único objetivo
de dar nota ao aluno, como resultado de leitura. Segundo Cagneti e Zotz
(1986), “o importante não é o resultado, mas sim o
processo”. Cunha (1997) afirma que seria importante partir do poema
para outras formas de expressão, como por exemplo: desenhos, montagens,
coro falado, tentativa de criação de novos poemas, para
assim, desenvolver a criatividade do aluno.
Com a utilização da poesia na escola não se pretende
formar poetas, mas sim desenvolver no estudante-leitor o hábito
da leitura de textos literários, bem como a habilidade de perceber
a essência da linguagem presente nesses textos. O aluno não
necessita, a princípio, como fator primordial, entender o poema,
pois este deve ser sentido e não traduzido. Segundo Andrade (1974),
o papel da poesia no ensino de língua portuguesa não é
tornar o aluno um exímio poeta, mas sim desenvolver no mesmo habilidades
para sentir a poesia, apreciar o texto literário, sensibilizar-se
para a comunicação através do poético e usufruir
da poesia como uma forma de comunicação com o mundo.
Relato de experiência: trabalho com poemas
No período de vivência da disciplina Prática
de Ensino de Português I, ministrada no curso de Letras da Universidade
Federal de Pernambuco pela professora Lívia Suassuna, criou-se
um projeto de pesquisa na área de língua portuguesa, especificamente
sobre o estudo da poesia – Formando produtores de texto através
da literatura infanto-juvenil. Pesquisou-se sobre o que seria poesia e
sua função social, bem como sobre qual era a melhor forma
de aplicá-la em sala de aula para que assim se pudesse desenvolver
no aluno o prazer da leitura e a habilidade de produzir textos. No semestre
seguinte, durante a disciplina Prática de Ensino de Português
2, ministrada no mesmo curso e pela mesma professora, surgiu o desejo
de dar continuidade às pesquisas e desenvolver um trabalho com
poesia na sala de aula .
A turma escolhida para a realização do projeto na área
de língua portuguesa foi a 5a série B, turno manhã
da Escola Estadual Senador Novaes Filho, situada no bairro da Várzea,
na cidade do Recife. Antes do início da elaboração
do projeto didático tornou-se necessário um contato prévio
com o grupo-classe e o tracejar de seu perfil. Era essencial esse contato
anterior com a turma para que o projeto se adequasse àquele grupo
específico, às suas necessidades, à realidade em
que vivia.
No decorrer das aulas observadas percebeu-se que os alunos da 5a série
B possuíam uma faixa etária de 11 a 17 anos e, em sua maioria,
residiam nas proximidades da escola, na favela Vila Arraes. Em virtude
de um baixo nível sócio-econômico, esses estudantes
eram obrigados a conciliar o estudo e o trabalho para que então
pudessem ajudar na renda da família. Observou-se também,
através da caderneta escolar, um baixo índice de freqüência
e um grande número de transferências e desistências.
Havia um total de 43 alunos matriculados nessa turma. Desses alunos, acreditava-se
que em média 15 tenham desistido ou se transferido para outra instituição
escolar. Freqüentavam a aula por volta de 25 estudantes diariamente.
Essa evasão escolar se justificava na medida em que os estudantes
chegavam cansados em sala de aula em virtude de trabalho excessivo e não
encontravam na escola um ambiente dinâmico, prazeroso e de aprendizagem.
Ao serem questionados, os alunos diziam: “Para que estudar para
a matéria de português? Vou deixar português na pendência!”.
Notava-se que esses alunos não tinham sido estimulados, despertados
para a importância da disciplina Língua Portuguesa no decorrer
do trajeto escolar. O estudo tornava-se então enfadonho, sem objetivos,
sem valor para a realidade daqueles estudantes.
Percebeu-se que a biblioteca da escola possuía um bom acervo, mas
os alunos não costumam consultá-lo por falta de um estimulo
dos professores da instituição. Isso evidencia um total
descompromisso com o incentivo à leitura e à pesquisa na
comunidade escolar. Geraldi reforça a importância da utilização
da biblioteca pelos alunos, enfatizando o incentivo às primeiras
leituras do discente:
“Caso exista biblioteca na escola, o professor poderá
usar os livros existentes, combinando com o responsável que as
obras selecionadas serão utilizadas por tais classes e tais alunos.
É importante que a biblioteca possibilite ao aluno a retirada de
livro, pois ele iniciará a leitura em aula, mas o enredo o levará
a querer saber o fim da história. Certamente ele lerá fora
da aula, independente da solicitação do professor”.
(GERALDI 2003b : 62)
Constatou-se, durante o período de observação,
que os alunos da 5a série B não tinham um contato prévio
com a literatura, como também não possuíam interesse
pela leitura. Diante disso buscou-se aproximar o grupo das práticas
sociais de leitura através do uso texto poético. O poema
pode ser utilizado na sala de aula como um texto, entre outros, para facilitar
o aprendizado da leitura e mediar o conhecimento do subjetivo, do simbólico,
do emotivo e dos elementos da escrita.
Em relação à extensão dos
textos que devem ser trabalhados nas séries iniciais, Geraldi afirma:
“A sugestão é trabalhar preferencialmente
com narrativas longas. A prática de sala de aula vem mostrando,
no entanto, que com o uso de coletânea de contos, crônicas
e poemas, entre os livros selecionados para construir a biblioteca de
classe, pode-se atingir o mesmo objetivo proposto.” (2003b: 60).
Nos primeiros contatos com a turma percebeu-se uma certa
resistência à leitura de poesias e a existência de
certos mitos sobre o trabalho com poesia: “poesia é coisa
de menina”, “eu não tenho o dom para fazer poesias”.
Mas com o decorrer das aulas de língua portuguesa, à medida
que os alunos foram tendo contato com o lado metafórico, simbólico
e estrutural do poema, eles foram capazes de desenvolver a criticidade,
de solicitar mais textos poéticos para serem lidos dentro e fora
do ambiente escolar, e de produzirem bons textos poéticos.
Geraldi (2003b) sugere que o ensino de língua deve centrar-se na
integração de três práticas no processo de
ensino-aprendizagem – leitura de textos, produção
de texto e análise lingüística. Segundo o autor (2003a:
88), “essas práticas têm dois objetivos interligados:
tentar ultrapassar, apesar dos limites da escola, a artificialidade que
se institui na sala de aula quanto ao uso da linguagem e possibilitar,
pelo uso não artificial da linguagem, o domínio efetivo
da língua padrão em suas modalidades oral e escrita. Baseando-nos
no que foi proposto por Geraldi, dividiu-se em três eixos o processo
de ensino-aprendizagem de língua portuguesa: leitura, análise
lingüística e produção textual.
No primeiro momento do processo, observou-se que uma das pessoas que integravam
o grupo estava grávida. Então, sentimos a necessidade de
abordar em sala a temática namoro na adolescência. Iniciou-se
o trabalho com uma discussão sobre os pontos positivos e negativos
do relacionamento amoroso dos jovens, na qual os alunos puderam expor
suas opiniões, bem como suas dúvidas em relação
à temática. Em seguida os discentes, já introduzidos
na temática, entraram em contato com diversos poetas, entre eles,
Sérgio Caparelli, Carlos Drummond de Andrade, Elias José,
Vinícius de Moraes, Camões e Cecília Meireles, através
da leitura dos mais variados poemas que abordavam o amor na adolescência.
Nessa etapa enfatizou-se o porquê da atividade – inserir a
turma no universo da leitura de poemas e abordar uma temática essencial
para aquele grupo. Maia (2001:23) acrescenta que “os objetivos da
escolha dos textos devem estar claramente justificados dando sentido a
atividade”.
Essa primeira fase do projeto propunha a formação de alunos-leitores
capazes de reconhecer as sutilezas, as especificidades, a extensão
e a profundidade de textos literários, particularmente poemas,
a partir de um contato diário com os mesmos. A partir daí,
os estudantes perceberam alguns traços típicos de um texto
poético, como a presença de aspectos polissêmicos
e polifônicos. Os discentes também puderam reconhecer os
elementos estruturais de um poema (verso, rima, ritmo, estrofe) e compreender
a função destes para a construção do texto.
Lajolo (2004:50) afirma que “é necessário que os elementos
do texto selecionado como gerador de atividades levem o aluno a observar
mais de perto procedimentos realmente relevantes para o significado geral
do texto”.
Numa segunda fase do processo de ensino-aprendizagem, os discentes entraram
em contato, a partir de novas leituras de poemas, com certos recursos
lingüísticos e suas funções (adjetivo, sinais
de pontuação, linguagem conotativa e denotativa) comuns
a um texto poético e constataram que esses elementos eram essenciais
para a construção de significação do texto.
Eliminou-se assim qualquer forma de trabalho com o poema como pretexto
para se ensinar elementos lingüísticos. Lajolo reforça
a importância do reconhecimento, pelo aluno, dos elementos de linguagem
que o autor do o texto poético utiliza:
“Na medida em que os elementos de que se constitui
a especificidade do poema estão na linguagem e na medida em que
a linguagem é uma construção da cultura, para que
ocorra a interação entre leitor e o texto, e para que essa
interação constitua o que se costuma considerar uma experiência
poética, é preciso que o leitor tenha a possibilidade de
percepção e reconhecimento – mesmo que inconscientes
– dos elementos de linguagem que o texto manipula”. (2004:
45)
No terceiro momento, no qual os estudantes já
estavam despertados para a leitura de poemas e já eram capazes
de conhecer características particulares dos mesmos, solicitou-se
que os alunos produzissem poemas. Primeiramente se produziu um texto poético
em grupo (ver anexo I), tendo os membros do grupo-classe a chance de realizar
várias versões, até se chegar naquela que eles considerassem
definitiva e adequada. Nessa situação, todos interagiram
e comentaram sobre o que consideravam adequado ou não para aquele
gênero.
Em seguida, cada estudante se dirigiu a um varal repleto de imagens (casais
jovens se beijando, casais jovens brigando, adolescente grávida,
entre outros) e escolheu aquela que mais havia despertado o seu interesse.
Individualmente, os alunos, escreveram um poema a partir da imagem escolhida
(ver anexo II). Essa produção textual não foi feita
de forma aleatória, havia um objetivo para a realização
daquela atividade – preparação de uma coletânea
de poemas, e pessoas a quem se dirigia o texto – o próprio
grupo-classe. Geraldi (2003b: 65) defende essa prática de produção
textual ao criticar a forma como se costuma abordar a produção
escrita em sala de aula : “a produção de textos na
escola foge totalmente ao sentido de uso da língua: os alunos escrevem
para o professor(único leitor, quando lê os textos). A situação
da língua é, pois, artificial. Afinal qual é a graça
em escrever um texto que não será lido por ninguém
ou que será lido apenas por uma pessoa (que por sinal corrigirá
o texto e dará nota para ele?)”.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997:40) já propõem
a produção do gênero literário poema e recomendam
que essa produção deve estar associada às estratégias
de escrita e aos recursos de linguagem. Os Parâmetros sugerem que
a produção do texto poético pode ser realizada de
duas formas – criação de uma coletânea de poemas
e a transformação de um gênero em outro. Segundo os
PCN (1997: 41), o ponto de apoio da análise e da produção
do texto deve englobar os elementos lingüísticos que confirmem
as apropriações de sentido.
Após essa etapa, os discentes produziram manualmente o livrinho
de poemas da turma e fizeram a declamação dos seus poemas.
Os estudantes analisaram todos os poemas e elegeram aquele que mais despertava
a sua atenção. O aluno que escreveu o texto poético
eleito pelo grupo recebeu como prêmio a coletânea de poemas
da turma. Verificou-se assim que aqueles alunos que antes do projeto não
tinham tido contato com o texto literário puderam produzi-lo, utilizando
jogos metafóricos, construções que brincam com as
palavras e com sentidos. Essa habilidade dos alunos só foi despertada
a partir do contato com a poesia, com o despertar para a leitura.
Conclusão
Como já foi visto no decorrer da explanação
teórica e do relato de experiência, torna-se fundamental
que o professor de língua portuguesa utilize o texto poético
em sala de aula. Através desse instrumento, o discente desenvolve,
de forma prazerosa, o hábito de ler, transportando a leitura para
fora da sala de aula, bem como se torna um sujeito capaz de expor, por
meio da escrita, suas experiências, seus pensamentos críticos
em relação ao mundo e os seus desejos mais íntimos.
Com a ampliação de seu poder de argumentação,
construído a partir do contato com os poemas e os seus ensinamentos,
o discente se torna capaz de produzir os mais variados textos.
Ressaltou-se também que não se deve trabalhar com poemas
de forma aleatória, utilizando-os como pretexto para abordar conteúdos
gramaticais, ou impor valores morais e sociais. O professor precisa elaborar
procedimentos metodológicos que sejam condizentes com a realidade
e o estágio cognitivo dos alunos, que sejam compatíveis
com a função simbólica e subjetiva do poema; alimentem
nos alunos o prazer da leitura e desenvolvam a habilidade de escrita.
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Anexo I
Produção coletiva de poemas