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PASSAPORTE
PARA A LEITURA
Marja Milene Belegante Costa - Centro de Educação
Infantil Anilda Batista Schmitt
Rosemarie Dolores Franco Da silva - Centro de Educação Infantil
Anilda Batista Schmitt
Trata-se de um trabalho de extensão comunitária
que nasce da necessidade despertar o interesse da comunidade pelos livros
e ampliar o repertório de histórias dos pais das crianças
regularmente matriculadas na infância. Histórias que poderão
ser lidas e ou contadas para os filhos nos espaços domiciliares.
O acervo de livros existentes no CEI , a relação das crianças
com a leitura e mediante e qualidade duvidosa de alguns livros disponíveis
no CEI instalou a necessidade de qualificar a realidade existente. O passaporte
da leitura foi o caminho encontrado para podermos sensibilizar as crianças
e suas respectivas famílias e construir uma biblioteca com acervo
de qualidade. Diante deste trabalho a comunidade pode ouvir histórias
sendo chamados a contribuírem para a aquisição de
obras de qualidade. O passaporte da leitura uma estratégia de sucesso
que otimizou a vinda dos pais no Centro de Educação Infantil.
A IMPORTÂNCIA DE UM TRABALHO VOLTADO À VALORIZAÇÃO
DO LIVRO E DA LEITURA
Atualmente busca-se um trabalho mais voltado à sensibilização
das crianças, oferecendo-lhes leituras e livros de qualidade, é
um trabalho que costuma-se encontrar em instituições de
Ensino voltado a infância que apresentam uma proposta séria
no que se refere ao desenvolvimento infantil. Entretanto poucas são
as instituições de educação que fazem um trabalho
voltado à sensibilização dos pais e da comunidade
em favor da literatura.
Como estabelecer um trabalho de valorização ao livro e a
leitura endereçada às famílias que fazem parte de
uma geração em que a leitura era obrigatória, uma
leitura de cobranças uma leitura imperativa? Mas, qual a verdadeira
importância da literatura? Como resgatar esta relação
com o livro de modo que faça diferença na relação
com seus filhos?
A literatura desenvolve a linguagem a reflexão
e criticidade ajudando na compreensão de si e do mundo. Pesquisas
e leituras sobre a mesma nos falam claramente qual a sua função:
“cultura e expressão”. Através da leitura podemos
expressar nossos sentimentos, movimentos, angústias e multiplicidade
dos sentidos. A leitura é importante para todas as pessoas, pois
atualmente o conhecimento se amplia de forma muito veloz e quando a leitura
se torna parte integrante da vida das pessoas é possível
pesquisar, e buscar respostas pertinentes a cada ocasião.
A leitura na infância é essencial, pois embora a criança
não tenha apreensão do código escrito pode fazer
a leitura das imagens tornando o seu olhar mais sensível e atento,
ampliando o conhecimento do mundo e da linguagem. Nesta fase a criança
começa a nomear a realidade a sua volta e o livro através
do texto pictórico possibilita a criança relacionar as imagens
com as palavras.
Os primeiros contatos da criança com a literatura se fazem na infância.
A voz da mãe e do pai soa deliciosamente aos ouvidos do bebê,
pois, é confortável inspira segurança e proteção.
Acriança reconhece a voz do pai, da mãe e das pessoas que
a rodeiam mesmo dentro do útero.
Ler e contar histórias para o bebê cria um relacionamento
forte entre pais e filhos. Além de fortalecer os vínculos
familiares as histórias são fundamentais para as crianças.
Conforme Abramovich (1989) ler significa abrir as comportas para entender
o mundo através dos olhos dos autores e da vivência dos personagens.
È importante que as crianças compreendam o mundo, o seu
mundo ao lado de sua família. E esta compreensão não
necessariamente necessita ser explicada, mas percebida, sentida pela própria
criança, por intermédio do livro. As histórias trazem
uma plurisignificação em que todos os leitores podem descobrir
e relacionar com a sua vida.
“È ouvindo histórias que se pode sentir
(também) emoções importantes como a tristeza a raiva,
a irritação, o bem estar, o medo, a alegria, o pavor, a
insegurança, a intranqüilidade e tantas outras mais, viver
profundamente tudo que as narrativas provocam em quem as ouvem –
com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas
fez (ou não) brotar... Pois ouvir é enxergar com os olhos
do imaginário.” (ABRAMOVICH, 1989, p. 17).
Isto acontece porque a literatura discute assuntos considerados
difíceis, assuntos como a morte, o medo, as diferenças,
relações sociais e afetivas, que precisam ser faladas que
não podem ser escondidas, principalmente porque há situações
na vida que necessitam ser vividas e a literatura possibilita compreender
com os olhos dos outros. Os contos de fadas vivem até hoje, pois
trabalham com conteúdos essenciais à condição
humana. Neste sentido as histórias que encantam as crianças
também encantam os adultos. Carlos Drummond de Andrade deixa claro
que uma obra literária pode ter uma abertura para várias
leituras e portanto se destinam a todas as idades. “[...] haverá
música infantil? Pintura infantil? A partir de que ponto uma obra
literária deixa de constituir alimento para o espírito da
criança e do jovem e se dirige ao espírito adulto?”
(ANDRADE Apud CUNHA pg 21).
Para aguçar o gosto pela leitura é importante envolver toda
a família para que a esta se torne parte integrante e significante
das mesmas. Abramovich (1989) questiona quando os pais sentam-se à
mesa e falam com prazer acerca do último livro que leram? Visitar
bibliotecas, livrarias, dar livros de presente tornou-se hábito
na família? Paulo Freire já alertava que ensinar exige a
corporeificação das palavras, mas nas condições
sociais existentes atualmente são poucos os privilegiados que conseguem
acesso a livros de qualidade ou por serem caros ou pela falta de bibliotecas
públicas e trabalhos voltados ao incentivo da leitura.
PASSAPORTE DA LEITURA CAMINHO ENCONTRADO PARA SENSIBILIZAR
AS CRIANÇAS
Zotz (1986) afirma que a literatura é um direito
de todos, e só quando existirem livros identificados com todas
as idades, para todos os gostos e toda a população pode
se afirmar que todos gozam do direito de ler e este é um direito
de todos que não pode ser negado. Sabendo da importância
de se ter um acervo de livros que atenda as necessidades das crianças
e da comunidade envolvida, os educadores do Centro de Educação
infantil começaram a refletir acerca dos livros existentes.
O Centro de Educação Infantil Anilda Batista Schmitt atende
268 crianças entre quatro meses e 6 anos necessitando um acervo
grande e de qualidade em que as crianças pudessem manusear os livros
e escolher aqueles que fossem de seu interesse. Entretanto discutindo
acerca deste assunto em reunião pedagógica o grupo percebeu
que os livros existentes no CEI não atingiam as necessidades das
crianças por conter conteúdos simplificados e imagens estereotipadas,
muitas vezes trazendo conteúdos pedagógicos, moralizadores
e sem relação com a infância. Nasce então o
desejo de criar uma Biblioteca Infantil.
“[...]
a decisão pela implantação de uma biblioteca escolar,
organizada através de uma iniciativa coletiva, deve aparecer em
conjunto com a revisão crítica das posturas dos educadores
e com a redefinição do papel social das escolas. Ou corajosamente
dizemos “não” ao sistema opressor e construímos
a escola para o povo ou nos acomodamos à injustiça social;
ou criamos condições concretas para fruição
e democratização da cultura, ou perpetuamos a pragmática
utilitária tecnicista do “isso me basta”, tão
amplamente divulgada pela indústria cultural da sociedade de consumo.”
(SILVA, 1991, p. 137).
Tendo conhecimento
destas questões decidimos criar condições para que
a biblioteca se tornasse realidade. Esta é fundamental, pois as
crianças necessitam de espaço e tempo para tocar o livro,
manusear, admirá-lo, folhear, observar as imagens fazendo a leitura
das mesmas. Percebemos a importância de um olhar diferenciado de
nós educadoras, pois, conforme aponta Nely Novaes Coelho, algumas
são características importante na escolha de livros para
esta faixa etária, que compreende a categoria do pré-leitor.
Não podemos oferecer a estas crianças que ainda não
dominam os códigos da escrita, livros com textos longos. Podemos
fazer leituras de obras e gradativamente oferecer textos maiores. A utilização
dos livros sem legenda, só imagens, ou texto visual, é um
grande recurso para seduzir o pequeno leitor no mundo da literatura, pois,
sabemos que a criança compreende a imagem visual e a mesma faz
parte do convívio diário da criança.
Hoje vivemos no mundo de imagem, em que a criança esta exposta
às imagens da TV, das revistas, nos rótulos de alimentos,
placas, anúncios e outros. O livro de imagem é um livro
que enriquece bastante, a formação do leitor, mas é
conveniente lembrar que precisamos, variar os tipos de livros para que
as crianças se familiarizem também com os signos da escrita
e comecem a dominá-los.
Nesta fase as crianças gostam de mistério, da fantasia,
do faz de conta, a graça e o humor podem fazer parte dos textos
oferecidos. A repetição e rimas são elementos que
encantam as crianças e fazem com que a mesma tenha mais facilidade
em prender-se na leitura. Características estilísticas como
dobraduras fazem com que as crianças fiquem fascinadas pelo mundo
da magia.
Para fazer um trabalho diferenciado sensibilizando as crianças
esbarramos com um problema, como constituir uma biblioteca diante da falta
de recursos e sem o apoio do sistema educacional? Neste contexto é
necessário que aconteçam rupturas na educação
para repensarmos nossa prática pedagógica e procurar outros
caminhos que possibilitam um trabalho mais voltado para a leitura, de
uma forma prazerosa e agradável. Nós educadores podemos
ousar e ir além das possibilidades oferecidas criando junto com
o Centro de Educação Infantil e comunidade meios que garantam
as nossas crianças o acesso a livros de qualidade.
Outro trabalho que é de responsabilidade do educador é levar
ao conhecimento dos pais e das crianças o que é um livro
de qualidade, se isso acontecer nossos pais também vão ofertar
a seus filhos este tipo de livro e contribuirão para que o CEI
possa constituir e disponibilizar um bom acervo para as crianças.
Entretanto, esta sociedade, fruto de uma escolarização tradicional
em que a leitura sempre vinha com um pretexto de ensinar conteúdos,
de desenhar ou de moralizar, sente aversão pelos livros. Foi pensando
em conseguir apoio da comunidade e sensibilizar as famílias tendo
em vista a importância das relações familiares fundamentais
para o hábito da leitura, que nasceu o Passaporte da Leitura.
A cada três meses antes de pegar o filho no Centro de Educação
Infantil os pais aguardam alguns minutos para escutar uma história,
então receberão o passaporte que será entregue a
educadora para poderem receber o seu filho. Neste dia também as
educadoras ressaltam a importância do apoio dos pais na campanha
do lixo reciclado para a compra de livros. Mas como sensibilizar adultos
para a leitura? Daniel Pennac em seu livro “Como Um Romance”,
mostra como despertar o prazer pela leitura e a forma principal é
ler, ler e ler. Mas adultos ouvindo histórias?
“[...]
– Bom já que vocês não gostam de ler sou eu
que vou ler livros para vocês.
[...] – eles não acreditam nos seus olhos, nem nos seus ouvidos.
Este tipo vai ler tudo isto?
[...] já passamos da idade.
[...] preconceito comumente propagado... Principalmente entre aqueles
a quem nunca se fez o verdadeiro presente de uma leitura. Os outros sabem
que não há idade para este tipo de delícia”.
(PENNAC 1998, p. 105,106).
Este movimento
de despertar prazer pela leitura se faz, lendo em voz alta e gratuitamente
para que se possa entrar na mágica do livro. Adultos e crianças
podem compartilhar desta mágica basta que o desejo seja estimulado
sem que a competência seja colocada à prova.
Um dos primeiros problemas enfrentados para realizar o projeto Passaporte
da Leitura bem como um trabalho direcionado às crianças
foi a falta de acervo de qualidade. Para resolver este problema buscamos
o acervo particular das pessoas envolvidas com a literatura. O primeiro
Passaporte da Leitura aconteceu no dia 20 de abril de 2004.
Todas as funcionárias do CEI participam na organização
deste movimento, cada qual com suas respectivas habilidades, algumas fazem
a decoração da sala, outras, elaboram cartazes para despertar
a curiosidade dos pais. Algumas ficaram responsáveis pela leitura,
organização do lixo e recepção dos pais. São
organizadas duas salas para receber os pais, de modo que não precisem
esperar muito tempo para ouvir a história.
As salas são organizadas de forma atraente com tapetes, almofadas
para acomodar as pessoas. Os livros são dispostos de forma que
possam ser manuseados. O movimento começa a partir das dez horas
da manhã e se estende pelo dia inteiro sendo que a partir das 17
horas há a maior participação de pessoas.
As educadoras responsáveis pela leitura recepcionam os participantes
entre eles, pais, tios, avós, irmãos e vizinhos, falando
sobre o prazer de ouvir histórias bem como a importância
das mesmas para a formação de crianças leitoras.
Após a leitura ressaltam que para as crianças terem acesso
a livros de qualidade é fundamental a contribuição
de todos para arrecadarmos fundos através da venda do lixo reciclado.
Percebe-se a satisfação na maioria dos presenteados com
a leitura. Alguns se expressaram dizendo que costumam ler para os filhos
e acham o trabalho importante. Outros se emocionaram e até mesmo
choram com o envolvimento pelas histórias que algumas vezes traziam
temas relacionados à família. Outros se divertiam rindo,
alguns ficaram inicialmente envergonhados, como os adolescentes que vêem
buscar os irmãos no CEI. Alguns acharam que é perda de tempo.
Entretanto sabemos que é necessário tempo e mais livros
que possam contribuir para que estes venham a entrar na história.
Juntamente com a parceria entre o CEI, a APP e a comunidade adquirimos
algumas obras literárias e paralelamente a este trabalho com os
pais desenvolvemos no CEI um trabalho dirigido às crianças,
onde elas podem ouvir histórias manuseando os livros. Com a qualificação
do acervo percebeu-se um interesse maior das crianças em torno
da leitura, demonstram cuidado ao manusear os livros, reconhecem vários
títulos e questionam acerca do autor, ilustrador e editora. No
momento em que estão manuseando os livros, fazem a leitura das
imagens e imitam a educadora lendo as histórias para os colegas.
A cada momento de leitura é colocada na sala uma placa revelando
que o grupo está ouvindo histórias e não pode ser
interrompido. Existem momentos, entretanto em que são ofertadas
leituras em locais diferenciados, ás vezes no parque, onde reúnem-se
crianças de várias idades este movimento ocorre no corredor
ou agrupam-se turmas nas salas. Também são realizadas periodicamente
oficinas, piquenique e nestes momentos a leitura também está
presente. Algumas turmas tiveram a oportunidade de participar de um movimento
de leitura na Fundação Cultural de Blumenau, ouvindo histórias
do grupo Monteiro Lobato. São movimentos tímidos que pretendemos
estender levando as crianças a visitarem livrarias e bibliotecas
da cidade.
O resultado deste trabalho tem-se refletido refletindo em casa pois a
cada passaporte realizado os pais tecem comentários sobre o que
as crianças falam sobre o acervo do CEI, sobre as histórias
que ouvem e que incansadamente pedem aos pais para livros e que estes
contem histórias, mais e mais histórias.
Este ano todas as crianças participaram do Passaporte da Leitura
no horário em que o movimento da comunidade era menor. Foi importante
vivenciarem o que é o passaporte da Leitura compreendendo o que
a família vem fazer no CEI neste dia. Percebemos que as crianças
ficaram entusiasmadas com o evento esperando ansiosas a chegada dos pais
questionando se já tinham ouvido a história e se tinham
o passaporte.
Hoje com um acervo de 105 obras a nossa preocupação está
em ampliar este acervo e organizar um local para a Biblioteca onde as
crianças poderiam ter um contato direto com o livro, levando-o
para casa.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Percebe-se
que este projeto esta produzindo efeitos tanto nos adultos bem como nas
crianças. Percebe-se o prazer que as crianças sentem ao
ouvir as histórias, pois se mostram atentas na escuta sempre pedindo
para que as educadoras leiam mais, ou contem de novo a mesma história.
Observa-se também que as crianças mudaram quanto a importância
dada ao manusearem os livros, pois antes do projeto rasgavam, riscavam
e hoje com a conscientização têm demonstrado cuidado
ao manusearem os mesmos, fazem a leitura das imagens e sabem quase de
cor o texto de algumas histórias.
Percebemos que os pais após ouvirem as histórias no Passaporte
da Leitura têm demonstrado satisfação e ao serem chamados
para contribuir com o projeto estão trazendo seu lixo reciclado
demonstrando sua contribuição.
REFERÊNCIAS
ABRAMOVICH,
Fanny. Literatura Infantil: Gostosuras e Bobices. Scipione, 1989
CAGNETI, Sueli de Souza; ZOTZ, Werner. Livro Que Te Quero Livre. Rio de
Janeiro: Editorial Nórdica, 1986.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: Teoria, Análise e Didática.
6º edição. São Paulo, SP: Ática 1993.
CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura infantil Teoria e Prática.
São Paulo, SP: Ática.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à
prática educativa. 12º edição. São Paulo,
SP: Paz e Terra, 1999.
PENNAC, Daniel. Como Um Romance. 4º edição. Rio de
Janeiro, RJ. Rocco, 1998.
ZILBERMAN, Regina (org). Leitura Em Crise Na Escola: As Alternativas do
Professor. 10º edição. Porto Alegre, RS: Mercado Aberto,
1991. |
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