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PROPOSTA
DE LEITURA LITERÁRIA NO LIVRO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA
E SUAS IMPLICAÇÕES COM OS TEMAS TRANSVERSAIS
Paula Cristina de Almeida Rodrigues – FAE/CEALE/GPELL
/UFMG
O presente artigo apresenta um estudo exploratório
de como as atividades de leitura para os textos literários nos
livros didáticos se apropriam dos temas transversais. Buscou-se
analisar se esta apropriação se realiza a despeito de uma
proposta adequada de leitura literária dos textos.
No PCN sobre os Temas Transversais, para o terceiro e quarto ciclos do
ensino fundamental, é explicitado o objetivo de integrar as questões
relativas aos temas – ética, pluralidade cultural, meio ambiente,
saúde, orientação sexual, trabalho e consumo –
às áreas convencionais do conhecimento, “relacionando-as
às questões da atualidade e que sejam orientadores também
do convívio escolar” (p. 27). O objetivo central é
uma educação para a cidadania, que requer a apresentação,
para a aprendizagem e reflexão dos alunos, de questões sociais,
com suas complexidades e sua dinâmica e, que elas tenham a mesma
importância das áreas convencionais.
Nessa pesquisa, partimos de um pressuposto ressaltado por Zinani e Santos
(2004) de que a literatura poderia ser uma mediadora entre as várias
áreas do conhecimento para a implementação dos temas
transversais mencionados pelo PCN. Tal aspecto se justifica, por ser a
literatura um fenômeno social e, além de ser um elemento
conservador do patrimônio cultural, “pode ser o instrumento
que vai contribuir para a adequação a um mundo novo e para
a formação total do ser humano” (Zinani e Santos,
2003: 67).
Através da leitura, principalmente de textos literários,
os alunos, ao se verem imersos em histórias, poderão encontrar
instrumentos para compreender a sua experiência de mundo. Para entender
este papel atribuído à literatura, Soares nos dá
uma importante contribuição,
“a
leitura literária democratiza o ser humano porque mostra o homem
e a sociedade em sua diversidade e complexidade, e assim nos torna mais
compreensivos, mais tolerantes – compreensão e tolerância
são condições essenciais para a democracia cultural;
A leitura literária democratiza o ser humano porque traz para seu
universo o estrangeiro, o desigual, o excluído, e assim nos torna
menos preconceituosos, menos alheios às diferenças –
o senso de igualdade e de justiça social é condição
essencial para a democracia cultural; A leitura literária democratiza
o ser humano porque elimina barreiras de tempo e de espaço, mostra
que há tempos para além do nosso tempo, que há lugares,
povos e culturas para além da nossa cultura, e assim nos torna
menos pretensiosos, menos presunçosos – o sentido da relatividade
e da pequenez de nosso tempo e lugar é condição essencial
para a democracia cultural.”(2004: 31-32)
Na atual
realidade social brasileira, muitos alunos ainda continuam tendo acesso
ao texto literário através do livro didático, que
instaura, muitas vezes, um trabalho inadequado de recepção
estética da leitura e propostas inadequadas de estudo das condições
literárias do texto, contribuindo para a formação
de um cidadão não-leitor. Magda Soares (1999), ao discorrer
sobre a escolarização adequada da literatura, ressalta o
papel da escola em conduzir eficazmente o aluno “às práticas
de leitura literária que ocorrem no contexto social”, o que
nos leva a recuperar a noção de letramento. Afinal, a leitura
está articulada, segundo Rangel (2003), aos diferentes sentidos
e funções atribuídos à escrita por uma determinada
cultura, à intensidade da sua participação no cotidiano
e no imaginário dos sujeitos e à distribuição
e circulação da escrita.
Diante desta reflexão inicial e das propostas do PCN para os temas
transversais, há que se perguntar: Será que o texto literário
não é utilizado no livro didático como meio para
estudar um tema transversal? O texto literário é transformado
em texto informativo, quando a sua leitura é prescindida do estudo
de um tema escolhido pelo autor do livro didático? Preserva-se
o estudo dos elementos literários do texto quando a proposta é,
também, estudar um tema transversal pré-determinado? Durante
a leitura a ficção é “controlada”?
A seguir apresentarei reflexões a cerca da escolarização
da literatura através do livro didático, bem como, sobre
a possibilidade da literatura ser uma mediadora entre as várias
áreas do conhecimento para os estudos dos temas transversais e,
para finalizar, irei dar alguns exemplos de propostas de leitura para
uma narrativa literária presente em uma coleção didática,
que considera ao trabalhar os temas e os conteúdos a interdisciplinaridade
e a transversalidade.
Escolarização
da literatura: inevitável e necessária
A literatura
infantil, historicamente, possui um caráter educativo, formador
e, por isso, quase sempre, se vincula à escola, podendo-se dizer
que em alguns momentos e em alguns casos, é produzida para ela.
Tanto que o “bomm” da literatura infanto-juvenil coincide
com o momento do aumento de vagas nas escolas e o seu desenvolvimento
acompanha o ritmo da educação escolar.
Segundo Soares (1999), o termo escolarização, quando utilizado
em relação ao conhecimento, saberes e produções
culturais, costuma ser tomado no sentido pejorativo. Entretanto, a autora
ressalta que essa conotação pejorativa não é
correta e justa, principalmente se pensarmos que não há
como ter escola sem a escolarização dos saberes humanos.
A criação da escola, de um tempo de ensino e de um espaço
de aprendizagem pressupõe a “constituição de
saberes escolares, que se corporificam e se formalizam em currículos,
matérias e disciplinas, programas, metodologias” (Soares,
1999: 20). A escolarização é um processo que constitui
a escola e por isso é inevitável, fator esse que torna inevitável
a escolarização da literatura para que essa seja um saber
escolar. No entanto, o que costuma ocorrer nas escolas é uma escolarização
da literatura inadequada, passando a ter um sentido negativo, e por ser
errônea e prejudicial, afasta os alunos das práticas sociais
de leitura, desenvolvendo aversão e resistência a ela.
Segundo a autora,
“os
objetivos de leitura e estudo de um texto literário são
específicos a este tipo de texto, devem privilegiar aqueles conhecimentos,
habilidades e atitudes necessários à formação
de um bom leitor de literatura: a análise do gênero do texto,
dos recursos de expressão e de recriação da realidade,
das figuras autor-narrador, personagem, ponto-de-vista (no caso da narrativa),
a interpretação de analogias, comparações,
metáforas, identificação de recursos estilísticos,
poéticos, enfim, o “estudo” daquilo que é textual
e daquilo que é literário”. (1999:43)
O processo
de escolarização da leitura exige um estudo do texto que
conduza o aluno à análise e à explicitação
de sua compreensão e interpretação. Os exercícios
devem proporcionar a percepção da literariedade do texto
e dos recursos de expressão do uso estético da linguagem.
No entanto, os exercícios, ao contrário, centram-se nos
conteúdos e não na recriação que deles faz
a literatura, voltam-se para as informações que os textos
veiculam, mas não para o modo literário como os veiculam.
O texto é utilizado para ser estudado tornando-se informativo e
formativo, deixando de ser lido para emocionar, para divertir, para dar
prazer. Nesse sentido, é importante ressaltar as interferências
do autor do livro didático durante a leitura que o aluno faz de
um texto literário, “atingindo desde a integridade dos textos
através de adaptações, cortes ou supressões
até a condução invasiva das atividades de compreensão
que estreitam as possibilidades de leitura do aluno” (Brandão
e Martins, 2002: 262).
Muitas pesquisas demonstram que, apesar da literatura ser imprescindível
para o ensino de língua portuguesa, sendo um dos critérios
de classificação do livro didático no PNLD, continua
sendo negligenciada e reduzida a texto informativo e formativo. Talvez
isso se deva ao tratamento que a literatura recebe no PNLD. Segundo Passos,
“o Guia de livros didáticos deve apresentar critérios
eliminatórios – e não apenas classificatórios
– fundamentados no tratamento adequado de textos literários,
para a avaliação da forma como a literatura é trabalhada”
(2003, pag. 25).
Leitura Literária
e Temas Transversais: uma relação possível?
Ricardo
Azevedo (1999), em texto intitulado “Livros didáticos e livros
de literatura: chega de confusão!”, faz um comentário
sobre os paradidáticos, caracterizando-os como, “aqueles
que pretendem distrair educando”, que pode contribuir para a reflexão
proposta neste artigo. O autor ressalta que,
“eles
se utilizam (os paradidáticos) da ficção de forma
utilitária e têm necessariamente uma mensagem única
(uma utilidade) no final: ensinar a não ter medo do escuro; a preservação
da Natureza; preceitos morais; a educação sexual etc. (..)
Não há nos paradidáticos espaço para a livre
ficção, para o poético, para o desconhecido, para
o irracional, para o paradoxal, para o ponto de vista particular, para
a ambigüidade, para a dupla existência da verdade.” (1999:88)
Diante desta citação de Azevedo, pesquisar as relações
da literatura com o estudo dos temas transversais nos livros didáticos,
se constitui um paradoxo. Principalmente, se pensarmos que a mudança
de suporte do texto literário para o livro didático e as
propostas de leitura que o acompanham, já são questões
de grande discussão no campo educativo.
Assim como os paradidáticos, os livros didáticos possuem
especificidades que valem a pena serem destacadas: são veículos
do conhecimento científico e oficial, transmitem informações
objetivas, tem o objetivo, principal, de ensinar. Diferentemente, os livros
de literatura são veículos da arte, permitem várias
leituras, várias interpretações. Os assuntos tratados
pela literatura, segundo Azevedo, não entram em matéria
escolar, como: a paixão; a busca do autoconhecimento e da identidade;
a dupla existência da verdade; os limites entre a razão e
a loucura; a passagem irremediável do tempo; a luta do novo contra
o velho (1999:87). O objetivo principal da literatura é a motivação
estética, ou seja, a diversão e o prazer, ela apresenta
uma especulação sobre o exercício da existência.
Todas estas características fazem da literatura “uma forma
de conhecimento, uma tentativa de compreender a vida e o mundo”
(Azevedo, 1999:86).
É nesse sentido que Zinani e Santos (2004), defendem que a literatura
pode servir de eixo para interligar as várias disciplinas no estudo
dos temas transversais, para elas
“(...)é
o conhecimento humanístico que vai possibilitar ao sujeito refletir
sobre o domínio da ciência. São as artes e as ciências
humanas que possibilitam ao homem debruçar-se sobre seu próprio
pensamento e descobrir a si mesmo e também o seu lugar no mundo.
Entre as artes, a literatura é a que mais facilita esse trajeto,
uma vez que reflete os conflitos humanos de maneira mais radical”
(2004:72).
Continuando o raciocínio das autoras, a literatura precisa estar
fundamentalmente vinculada à vida dos alunos. É importante
que o professor, ao trabalhar com o texto literário, esteja atento
e tenha “sensibilidade para captar os acontecimentos e os problemas
que envolvem a sociedade” (Idem: 68). Com isso, pelo viés
da literatura os alunos terão uma compreensão mais efetiva
do mundo.
A escolarização da literatura é inevitável
e desejável, na escola nunca a leitura de um texto literário
será um “ler para ler”, como acontece fora dos muros
escolares, então ela será sempre avaliada, terá que
ser demonstrada e comentada, pois tudo isso faz parte da essência
da escola (Soares,1999:24). Além disso, é preciso considerar
que nos livros didáticos um pacto de leitura é estabelecido
pelo autor para a leitura dos textos literários, pacto este que
está explícito na apresentação do texto, na
organização editorial do livro e, sobretudo, na seção
de exercícios de compreensão, que deveria ter como objetivo
“aprofundar o entendimento e conduzir a uma reflexão crítica
sobre o texto” (Marcuschi, 1996: 64). O livro didático, por
ter uma organização específica, produz várias
interferências entre o aluno/leitor e o autor do texto literário.
Muitas vezes, o que acontece não é uma leitura literária,
pois a intenção do autor do livro didático, pode
ser a de que o aluno produza um sentido sobre o texto, já previsto
e que esteja interligado ao conteúdo didático (podendo ser
um tema transversal).
Todas essas reflexões demonstram a grande preocupação
que norteou esta pesquisa, ou seja, buscar possibilidades de uma escolarização
adequada da literatura, mesmo quando essa está relacionada ao estudo
de um tema transversal. Para isso, como corpus de análise da pesquisa,
foi selecionado, através do Guia do PNLD 2005, uma coleção
de livros didáticos de língua portuguesa de 5a a 8a série.
Privilegiou-se para o processo de análise as narrativas literárias
presentes nos livros. A seguir serão apresentadas e analisadas
algumas propostas de leitura.
Propostas
de Leitura Literária de uma Coleção Didática
O processo
de escolha da coleção didática a ser analisada se
deu pela leitura das resenhas do Guia do PNLD 2005. Buscou-se identificar
uma coleção que a sua resenha declarasse: uma preocupação
em trabalhar com os temas transversais; a presença significativa
de textos literários; a existência de propostas de leitura,
que se aproximassem com a escolarização adequada da literatura.
Em relação aos temas trabalhados na coleção
didática, na resenha do Guia são encontrados os seguintes
comentários,
“Os
temas norteiam a estruturação de praticamente todas as seções
– à exceção de Conteúdos Gramáticas
– e são enfocados sob diferentes perspectivas por gêneros
e tipos de textos distintos. Discutem-se, por exemplo, assuntos relacionados
ao preconceito e à discriminação em diferentes campos,
como questões de gênero, de raça e de classe social.”
Sobre as propostas de leitura a resenha declara que,
“Os
procedimentos, ou estratégias de leitura, trabalhados envolvem,
dentre outros, a generalização (...); a produção
de inferências e apreensão do sentido global do texto(...).
A checagem de hipóteses (...). A comparação de informações
aparece mais entre textos da mesma unidade, e a localização
e/ou cópia de informações é utilizada em vários
exercícios. (...) Os conhecimentos prévios dos alunos são
bastante explorados e, adequadamente, a coleção busca ampliá-los
por meio da análise dos textos (...) A intertextualidade figura
em meio de algumas indicações para o trabalho com temas
transversais e outras disciplinas (...).”
No Manual do Professor buscamos identificar os objetivos para as estratégias
de leitura do texto literário e as proposta de trabalho com os
temas transversais. Na introdução, ao explicar que a coleção
foi reestruturada tomando como base as novas discussões sobre o
ensino de língua materna, as contribuições dos PCNs
e os subsídios fornecidos pela análise do MEC, é
explicitada a intenção de,
“aproveitar
diferentes momentos do livro para introduzir o trabalho com os temas transversais,
principalmente reflexões sobre o comportamento ético, as
relações com o meio ambiente, o respeito á pluralidade
cultural.”
Ainda no
Manual do Professor, na seção - “A Proposta”
da coleção -, é explicitado que foram selecionados
textos,
“que
apresentem motivações variadas de leitura (ler por prazer,
para descobrir informações, para fazer algo, alimentar e
estimular o imaginário, localizar partes de um raciocínio,
justificar uma inferência, verificar a validade de uma hipótese,
localizar dados para a solução de um problema, por diversão).”
Esta coleção é constituída por quatro livros,
com seus respectivos manuais do professor. Cada livro é dividido
em doze unidades temáticas, que foram estruturadas da seguinte
forma: 1) Abertura; 2) Texto 1 (principal); 3) Entendimento do texto (Compreensão
do Vocabulário, As Idéias do Texto, Análise e Interpretação
do Texto e Estudo do Vocabulário); 4) Texto 2; 5) Conversando sobre
o Texto; 6)Pensando e Criando a Partir dos Textos; 7) Usando Outras Linguagens;
8) Produção de texto; 9) Estudo da Língua; 10) Leia
Mais; 11)Divirta-se; 12) Aprenda Brincando.
Selecionamos como objeto de análise, em virtude do tempo exíguo
e do espaço para este texto, a segunda unidade do livro da 6ª
série. Para atender aos objetivos deste texto a análise
se concentrará nas sete primeiras seções descritas
acima.
O tema proposto para esta unidade é a Mitologia. No manual do professor
existem orientações específicas para cada unidade
do livro, com dicas de como tratar os temas e os conteúdos, considerando
a transversalidade. O tema transversal sugerido é a Pluralidade
Cultural, com a seguinte orientação para o professor: “reconhecer
e respeitar mitos de outros povos, por mais ilógicos que pareçam
ao homem de hoje, pois o mito está profundamente enraizado no tecido
social do povo que o cultiva”. Tal sugestão baseia-se na
orientação do PCN para trabalhar este tema, que encontra-se
em um dos blocos de conteúdos – O ser humano como agente
social e produtor de cultura – para trabalhar a Pluralidade Cultural
(PCN,1998:159-160):
“Oferecer
informações para que a criança possa perceber que
existem formas de interpretação das origens do universo
e da vida, diferentes sistemas de construção do saber que
coexistem e podem ser, muitas vezes, complementares, auxiliará
o desenvolvimento de atitudes de diálogo e respeito a culturas
distintas daquelas de origem”.
O Texto 1
é a história “Píramo e Tisbe”, retirada
do livro “As melhores histórias da mitologia de todo o mundo”
editada pela Ediouro. Conforme foi explicitado acima antes da leitura
do Texto 1 os alunos precisam passar pela seção de Abertura,
que segundo o Manual do Professor tem o objetivo de preparar e motivar
a leitura proposta na Unidade, sendo que os objetivos mais específicos
são: resgatar os conhecimentos prévios a respeito do assunto;
desenvolver senso estético e observação. A seção
é composta por reproduções de telas e esculturas
apresentando personagens da mitologia e epígrafe escrita pelos
autores do LD e por quatro perguntas, sendo que as três primeiras
exploram as personagens tratadas nas figuras, perguntando se os alunos
as conhecem e também se conhecem outros personagens que não
estão retratados nas imagens. Na última questão é
perguntado aos alunos se eles conhecem a história de Romeu e Julieta,
bem como, se são capazes de contá-la para a classe.
Antes da leitura do Texto 1 os autores informam que a história
pertence a mitologia greco-romana, antecipando para os alunos, que trata
do amor impossível entre dois jovens, que inspirou Shakespeare,
como também, fornecem informações sobre os mitos.
No início da Unidade, o livro didático já possibilita
o trabalho com o tema transversal, pluralidade cultural, ao propor uma
discussão sobre a mitologia, mas é importante ressaltar
que cabe ao professor a leitura das orientações que estão
no Manual, pois em toda a unidade as propostas do PCN aparecem implicitamente.
É importante ressaltar que no Manual do professor, antes da leitura
dos textos, sugere-se sempre, primeiramente, uma leitura silenciosa para
levantar dúvidas de vocabulário e compreensão e segundamente,
sugere-se a leitura oral bem expressiva, enfatizando a pontuação
e a entonação.
No Manual do Professor encontramos a seguinte orientação
para a seção Entendimento do Texto, que visa a “compreensão”:
reconstituir o enredo dos textos; reconhecer características do
mito; reconhecer a estrutura narrativa presente nos textos míticos.
As atividades desta seção são divididas em duas partes,
sendo que a primeira, “As idéias do texto”, são
atividades a serem realizadas apenas oralmente e têm como objetivo,
segundo Manual do professor, levar o aluno a captar o sentido mais global
do texto; eliminar possíveis dúvidas de compreensão;
resgatar experiências pessoais; emitir opiniões apresentadas
na leitura. As cinco primeiras questões que a compõem, trabalham
com informações que os alunos podem “copiar”
dos textos e acompanham a seqüência da história, confirmando
constatações de pesquisas que dizem que são meros
exercícios de “copiação”, conforme argumenta
Marcuschi (1996). Na sexta questão - Você conhece a história
de Romeu e Julieta? O que ela tem em comum com a história de Píramo
e Tisbe? – podemos perceber uma preocupação em trabalhar
a intertextualidade. Aspecto relevante, pois antes da leitura do texto
é informado aos alunos que a história Píramo e Tisbe
serviu de inspiração para Shakespeare escrever Romeu e Julieta.
É importante ressaltar que no Manual, se o professor ler as orientações
para esta seção, poderá encontrar sugestões
para proceder de formas diferentes, apresentando aos alunos propostas
de um trabalho de compreensão mais interessante, talvez mais apropriado
para a leitura de um texto literário como, propor uma roda de leitura
para que os alunos expressem opiniões sobre o texto, mencionando,
por exemplo, o que fariam ou como se sentiriam vivendo a situação
em que se envolveram as personagens .
A segunda parte da seção - Análise e interpretação
do texto - é composta por 9 questões. A primeira e a sétima
questões trabalham com o conceito de mito e a explicação
fantasiosa ou mitológica que o texto apresenta para um fato da
natureza, pedindo para que os alunos apontem este aspecto no texto. Aqui,
o professor pode resgatar a proposta para o tema Pluralidade Cultural,
mas novamente se tiver lido as orientações do Manual do
Professor. As questões de 2 a 6, são de mera localização
de informações no texto, acompanhando a seqüência
da história, apenas uma questão trabalha com a capacidade
de inferência do aluno. Na questão 8 a intertextualidade
volta a ser trabalhada através de fragmentos de diálogos
de Romeu e Julieta, entretanto, o livro didático não ressalta
a diferença que existe entre os dois textos: Píramo e Tisbe
é um texto da mitologia greco-romana, uma narrativa literária,
enquanto Romeu e Julieta é um drama, um texto teatral. A orientação
para o professor é apenas que chame a atenção dos
alunos para a poesia existente nos diálogos de Romeu e Julieta.
Na questão 9 trabalha-se a estrutura narrativa do mito, para isso
pede-se aos alunos que localizem os parágrafos do texto que se
relacionam a cada segmento do enredo, como: a) situação
inicial; momento de mudança (complicação); ações
das personagens em decorrência da complicação; climax;
desfecho.
No Manual do Professor, são feitas duas sugestões de pesquisas,
uma para o aluno e outra para o professor, sobre o tema da unidade, talvez
aí esteja explicito a proposta dos autores do Livro Didático
em considerar a proposta dos PCN’s para os temas transversais.
O Texto 2 “O Olhar que mata”, foi tirado do livro A Grécia
– mitos e lendas, traduzido por Ana Maria Machado, da editora Ática.
Antes da leitura fala-se sobre a presença de seres sobrenaturais,
como os deuses, nos mitos. Os autores ressaltam que a próxima história
também pertence a mitologia e antecipam que no texto tem a presença
de deuses, adivinhos, seres monstruosos e heróis valentes e destemidos,
componentes característicos desse tipo de narrativa.
A seção Conversando sobre o Texto propõe atividades
de compreensão, no manual aparece a seguinte sugestão: pode
ser feita apenas oralmente, a critério do professor. É composta
por 8 questões, que trabalham, também, com informações
que os alunos podem copiar do texto, as respostas acompanham a seqüência
da história.
A seção Usando outras Linguagens é uma continuidade
do trabalho de compreensão da história “O olhar que
mata”. É importante destacar uma questão sobre a reprodução
da tela de Piero de Cosino, “Perseu liberta Andrômeda”.
Aos alunos é proposta a seguinte atividade: “conte, com suas
palavras, o episódio que ela representa, narrado também
no texto 2”. Ao professor é sugerida uma resposta, ou seja,
o próprio autor do livro didático conta um trecho da história,
o que pode induzir a resposta do aluno ou inibir outras possíveis
leituras e compreensões, tanto da tela, quanto do texto. Nesta
seção, aproveita-se para mostrar que a mitologia serviu
de inspiração para muitas outras obras de arte.
Considerações
Finais
Podemos
perceber diante destas reflexões e análises, que é
uma tarefa complexa para o livro didático utilizar o texto literário
como mediador para o estudo dos temas transversais.
Em relação as proposta de leitura literária, é
possível encontrar um trabalho com algumas capacidades de compreensão
referendadas nos atuais estudos sobre o ensino de língua materna:
ativação de conhecimentos de mundo, antecipação
ou predição de conteúdos ou propriedades dos textos,
checagem de hipóteses e outras que já foram explicitas no
decorrer da análise.
Entretanto, é trabalhada de forma excessiva a localização
e cópias de informações do texto, principalmente
em atividades orais, em que a discussão sobre a história
fica comprometida quando o autor faz perguntas que o aluno pode copiar
do próprio texto. Cabe ao professor ler o manual e propor as atividades
mais interativas que estão indicadas. Tal aspecto se agrava, quando
a leitura do texto literário é permeada pelo estudo de um
tema pré-determinado, passando a ter o objetivo de informar e formar,
comprometendo uma leitura por prazer, que alimente e estimule o imaginário.
Esta análise confirmou a constatação de Brandão
e Martins (2002) sobre as interferências que o autor do livro didático
faz durante as atividades estreitando as possibilidades de leitura dos
alunos. Em quase todas as perguntas, inclusive aquelas de respostas pessoais,
os autores têm uma proposta para orientar o professor. O aluno pode
ser induzido a dar uma resposta que seja igual a do livro didático
ou que se aproxime dela.
As propostas do PCN para trabalhar o tema transversal “Pluralidade
Cultural” só será concretizada se o professor consultar
o manual do professor, conhecer os objetivos do PCN, sua metodologia de
trabalho e sobretudo se estiver atento aos acontecimentos e problemas
sociais. Sem este conhecimento, por parte do professor, o tema mitologia
será estudado como uma informação a mais, sem um
comprometimento com a formação humana e para cidadania.
Conforme explicitado no início deste texto, a referência
central deste estudo exploratório são os estudos sobre a
escolarização adequada da literatura infanto-juvenil, tais
aspectos, leva-nos a pensar, também, em uma escolarização
dos Temas Transversais. Nesse sentido, gostaríamos de terminar
este artigo propondo algumas questões para reflexão: Com
que critérios o livro didático ou a escola seleciona o tema
transversal a ser estudado? Questões sociais, quando transformadas
em conjunto de temas transversais, não podem ser apropriadas pela
escola como um tópico ou conteúdo a mais, e ter uma adesão
aligeirada, ou uma escolarização inadequada?
Finalizando, é importante ressaltar, que este foi um estudo exploratório
e que as conclusões a que chegamos estão relacionadas ao
tempo e espaço desta pesquisa. Um tema como este exigiria, com
certeza, um estudo mais amplo e mais aprofundado.
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