Pode-se aprender
a ler e pode-se formar o gosto.
E mais: a passagem da qualidade para a quantidade de leitura (vice-versa)
não se dá num passe de mágica, mas pressupõe
um processo de aprendizagem.
M.do Rosário Magnani
A comunicação
proposta objetiva tratar de um estudo sobre a formação do
gosto pela leitura entre crianças, jovens e adultos, por meio da
obra Memória e Sociedade - Lembranças de Velhos (Companhia
das Letras, 1979), de Ecléa Bosi. A autora parte do pressuposto
de que as vidas mais comuns rendem as melhores ficções,
e assim relata as três fases da vida de oito personagens que têm
em comum uma cidade e uma época. A obra, portanto, traz para debate
as zonas limite entre história e memória, articuladoras
da vivência e, na nossa perspectiva, da leitura.
As vozes que atuam na recuperação da memória vêm
mostrar a interferência de muitos outros fatores no momento do relato.
O primeiro deles refere-se à relatividade da memória, que
envolve não apenas lembranças, mais também silêncios
e esquecimentos. O narrado é praticamente uma reconceitualização
do passado a partir do momento presente, da pessoa com quem se está
falando e do objetivo da narrativa. As pessoas não têm em
suas memórias uma visão fixa, estática, cristalizada
dos acontecimentos que ocorrem no passado. Pelo contrário, existem
múltiplas possibilidades de se construir uma versão do passado
e transmiti-la de acordo com as necessidades do presente. É nesse
momento, o da narrativa de uma versão do passado, que as lembranças
deixam de ser memórias para se tornarem histórias.
Da mesma forma, no relato oral ou escrito das memórias o sujeito
busca construir uma identidade pessoal que, em alguns casos, não
exatamente a que ele possuía no passado (e nem sempre ele sabe
disso!).
O que ocorre realmente quando as pessoas vão relatar situações
de suas vidas elas aproveitam para passar a limpo o passado e construir
um todo coerente em que se mesclam situações reais e imaginárias.
A obra Memória e Sociedade, nessa perspectiva, apresentam histórias
de vida que podem interessar ao leitor comum, posto que, ao lermos os
relatos nos interessamos pela vida do outro, mas também, pela mesma
matéria que compõe a vida de todos nós: Alegria e
Sofrimento.
No livro Memória e Sociedade, Ecléa narra o registro das
narrativas de oito personagens que cresceram com a cidade de São
Paulo de 1897 a 1904. Os relatos apresentados por velhinhos de um asilo,
sobre a cidade de São Paulo e que são o objetivo de estudo
do livro Memória e Sociedade, que fornecem uma feição
literária ao pensamento de Ecléa. Obra que ajudou a consolidar
a Psicologia Social – Disciplina que estuda a vivência social
dos indivíduos - no Brasil. Ecléa nos diz que descrevendo
a substância da memória, a matéria lembrada –
o modo de lembrar – é individual tanto quanto social: o grupo
transmite, retém e reforça as lembranças, mas o recordar,
ao trabalhá-las, vai paulatinamente individualizando a memória
comunitária e, no que lembra e no como lembra, faz com que fique
apenas o que signifique.
A partir de agora me remeterei a alguns pontos do estudo de Ecléa:
Memória e interação: Segundo Ecléa somos de
nossas recordações apenas uma testemunha, que ás
vezes não crê em seus próprios olhos e faz apelos
constantes ao outro para que confirme a nossa visão:
“ --Só eu senti, só eu compreendi...”.; “--Ai
está alguém que não me deixa mentir”.
São lembranças de alguém ou algo que guardamos para
falarmos de outras pessoas. Sem importância para o grupo mais importante
para mim, para você reproduzir. Fatos que não tiveram ressonância
coletiva e se imprimiram apenas em nossa subjetividade.
O indivíduo como testemunha: Os alunos de uma sala de aula lembram
do professor e o professor não se lembra de cada aluno. A memória
coletiva se desenvolve a partir de laços de convivência familiar,
escolares, profissionais. Esses atam a memória de seus membros,
acrescentam, unificam, diferenciam,corrigem e passam a limpo o passado.
Uma evolução que dependerá da interação
do grupo. Por muito que deva a memória coletiva, é o individuo
que recorda. Ele é o memorizador das camadas do passado que podem
reter objetos que são para este, e só para este, significativos
dentro de um tesouro comum.
O tempo e a memória: Uma forte impressão que esse conjunto
de lembranças deixa é a divisão do tempo que nelas
opera. Mudança de casa ou de lugar, morte de um parente, formatura,
casamento, empregos, festas. O tempo tanto pode apagar quanto intensificar
a memória. As festas que toda a família participa são
mais lembradas que as que têm importância mais individual.
Formaturas e aniversários perdem para o natal. Para Halbwachs,
cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória
coletiva.
O compasso social do tempo. Absorve o tempo individual que aproxima cada
grupo, o individuo vive diferentemente o tempo da família, o tempo
da escola em meios diferentes.
Cada geração tem de sua cidade, a memória de acontecimentos
que permanecem como ponto de demarcação em sua história.
Para os velhos que se desvelam em Memória e Sociedade estão
as grandes festas como o “Centenário da Independência
em 1922”,o” Carnaval na Avenida Paulista”,” a
chegada do Rei da Bélgica no Brasil”. Uma crônica policial
“O crime da mala”,”O simpático ladrão
Meneguetti”. Tragédias, “a morte da corredora francesa
“Helle Nice”; “a gripe espanhola”; Acontecimento
político,” Getúlio Vargas foi o melhor presidente
que o país já teve”. Acidentes e tantos outros fatos
(relatos do livro Memória e Sociedade).
E hoje, o que podemos lembrar? A memória individual é mais
fiel que a coletiva?
Ecléa Bosi afirma que as histórias mais simples rendem as
melhores ficções. Nossas primeiras lembranças não
são apenas nossas, estão ao alcance da nossa família,
de todos, de nossas próprias mãos, no relicário transparente
da sociedade, da humanidade. Fazendo com que acreditemos que é
a memória a melhor parte do que há em nós.
O livro Memória e Sociedade Lembranças de velhos foi sugerido
como objeto de trabalho em seminário na disciplina Prática
de Leitura e Produção de Textos II, ministrado pela Professora
Dr.Sheila Dias Maciel no curso de Letras – Licenciatura –
Hab. em Português e Inglês no ano de 2002 na UFMS. Este trabalho
foi vinculado ao estágio na disciplina Prática de Ensino
em Literaturas de Língua Portuguesa da UFMS, desenvolvido no ano
de2004 na E.E. João Ponce de Arruda situada na Rua João
Silva n. 33 no Bairro Santa Luzía no Município de Três
Lagoas, Mato Grosso do Sul.
Durante uma discussão compartilhada com a professora regente da
disciplina de literatura Thébis J.Silva, de como incentivar alunos
do ensino fundamental e médio pelo gosto da leitura, não
só para o vestibular, mas para que adquiram o hábito de
ler, surge à idéia de apresentar aos alunos da oitava série
C e os alunos da terceira série A do segundo grau, ambos do período
matutino, o livro de Ecléa Bosi.
Sabemos que o jovem de hoje anseia por diferentes ideais, influenciado
pela TV, Internet, uma enxurrada de informações, fica difícil
um professor competir na formação do gosto pela leitura
de seu aluno. Tendo como arma textos clássicos ou fragmentos de
textos, necessários como conhecimento, mas como gosto e vibração,
estão longe de agradar adolescentes, principalmente os de periferia.
A experiência obtida nesse estágio nos faz acreditar que
o professor, principalmente o de ensino fundamental e médio de
alunos da periferia, para competir com os “ãos e inhos”
da mídia, é preciso trabalhar com algo que faça parte
deste contexto. Algo que esse aluno vivencie que seus pais comentem que
seus avós, vizinhos e amigos contem, ou seja, algo que esse aluno
se identifique, a ficcional vida real.
A nosso ver, atrair a atenção do ser humano hoje em qualquer
estágio de sua vida, ao gosto pela leitura, só é
possível quando essa pessoa, o aluno aqui em questão, realmente
se identificar com essa a leitura, de outra maneira não teremos
sucesso. A descoberta de que não é somente ele que sofre
daquele mal, ou passa por tal dificuldade ou alegria. Que ao longo dos
tempos a humanidade têm traçado caminhos relativamente parecidos
e que a literatura nos dá à certeza disto.
Partindo do pressuposto de que tudo já foi dito, podemos crer que
tudo também já foi vivido. Quando o individuo vê sua
infância, sua família, suas crenças, seus costumes
e ideais dentro de um livro, a curiosidade fala mais alto.
O primeiro desafio nos trouxe a tarefa de levar o questionamento indagado
em Memória e Sociedade aos alunos. Sua memória é
ou não é individual? Dando exemplo das personagens do livro
pergunto: Sua memória é mais fiel que a coletiva? E hoje
se você fosse chamado a contar, o que contariam?
Afirmo a eles que sua história já foi escrita por alguém
e que basta ter a paciência e a curiosidade de ler que encontrará.
Num romance, conto, ou crônica estará lá você
ou alguém muito próximo a você.
Num primeiro momento tive o resultado que queria. Várias histórias
foram surgindo dentro da sala. Meu avô contava, minha mãe
contava, meus tios diziam minha madrinha conta enfim uma série
de histórias contadas por adolescentes que também se interessaram,
mesmo jovens, estavam fazendo uso de suas memórias.
A paixão pelo estudo de Ecléa, nos fez ir para o segundo
passo e apresentar para os alunos o livro Velhos Amigos – Crônicas
poéticas ou contos poemas, obra que traz 20 textos curtos, definidos
editorialmente como infanto-juvenis, mas que agrada a todos que se emocionam
com histórias de afetos. Resultado do trabalho do estudo em Memória
e Sociedade Lembrança de Velhos, o livro é um convite para
a descoberta de um mundo maravilhoso dentro do mundo que o aluno vive.
As crônicas são escritos que procuram contar e comentar histórias
da vida hoje, independente da época em que foram escritas. Histórias
que podem ter acontecido comigo, com você, sua família, seus
amigos. É ai que começa a alegria de ler, de contar histórias.
Também passei aos alunos este trabalho de Ecléa, que o resultado
dos depoimentos dos velhinhos o livro de contos. E sintetizei alguns na
sala apenas para despertar o interesse que foi surpreendente e gratificante.
Temos a certeza de que o problema de se adquirir gosto pela leitura não
se resume a uma questão que se resolve com determinados escritos
ou utilizações de métodos mirabolantes. E sim, que
devemos pensar em gosto, prazer pela leitura, do ponto de vista de seu
funcionamento sócio econômico cultural histórico de
cada individuo.
Acreditando como professora estar contribuindo com um caminho que possa
ser trilhado por qualquer individuo, o ato de contar histórias,
contadas por nossos pais, avós, lembranças, memórias
e de que tudo isto serve como grande estímulo para despertar o
gosto pela leitura, não só entre crianças e jovens
mais em adultos também. À maneira de Ecléa foi a
experiência de mais valor emocional, profissional e humano durante
os quatro anos do curso de graduação em Letras. Quando digo
ser uma experiência humanizadora, e pelo fato de como o livro Memória
e Sociedade juntamente com seu fruto Velhos Amigo, nos fez ter outra visão
de literatura, de emoção e consequentemente de leitura neste
período, como conseqüência, com um pouco de sorte, para
o resto dos dias.
Referências
Bibliográficas:
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças
de Velhos- 3. Ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
BOSI, Ecléa. Velhos Amigos
KENSKI, V.M. Memória e ensino. Caderno de pesquisa. - n: 90 (jul.
1994). São Paulo: Fundação Carlos Chagas.
MAGNANI. M. do Rosário. Leitura, Literatura e Escola. (Martins
Fontes)1980 p.29