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LITERATURA
INFANTIL COM “CARA DE AULA”?
Silvia Letícia Gonsalves - FE/ Unicamp
– Universidade Estadual de Campinas
UM POUCO DE HISTÓRIA...
Se olharmos para as páginas iniciais da história
da literatura infantil e juvenil no Brasil, iremos nos deparar com uma
produção entrelaçada a um projeto político
de cunho nacionalista e patriótico. Por muito tempo, os versos
de Olavo Bilac “Ama, com fé e orgulho a terra em que nascestes”
soaram como mandamento assumido em muitos dos livros escritos para crianças
e jovens, nas primeiras décadas da República. Obras como
“Contos infantis” (1886) de Júlia Lopes de Almeida
e Adelina Lopes Viera, o livro “Pátria” (1889) de João
Vieira de Almeida, “Por que me ufano de meu país” (1901)
de Afonso Celso, “Contos pátrios” (1904) de Olavo Bilac
em parceria com Coelho Neto, “Histórias da nossa terra”
(1907) de Júlia Lopes de Almeida endossaram a idéia de fazer
da leitura instrumento de difusão do civismo e patriotismo, privilegiando-se
a dimensão pedagógica e moralizante do texto.
BITTENCOURT (1993) classifica esses livros como livros de leitura . Apresentavam
conteúdos de história, pois nessa época, concebia-se
que a história poderia ser objeto de estudo desde o início
da alfabetização. Segundo a pesquisadora, nesses livros
de leitura, dessa fase nacionalista,
“a História do Brasil passou a ocupar um
lugar mais destacado. Começaram a ser escritas histórias
sobre as tradições brasileiras, informações
sobre ‘costumes indígenas’, ‘heróis nacionais’
e seus feitos. Biografias de figuras da história nacional engrossaram,
freqüentemente, o repertório desta literatura. Os livros de
leitura que se constituíram como mais representativos na divulgação
da História nacional foram os de Olavo Bilac, especialmente Contos
pátrios e Através do Brasil” (BITTENCOURT, 1993, p.
214)
Diante disso, é relevante frisar que a história,
enquanto disciplina escolar, não foi ensinada somente nas aulas
específicas destinadas a este saber, pois desempenhava um papel
importante para a legitimação da tradição
nacional e para a institucionalização de uma memória
nacional. Os conteúdos de história circulavam em aulas de
música, de geografia, de artes... e também na literatura
para crianças e jovens. As obras de leitura até aqui citadas
(Contos pátrios, Pátria, História da nossa terra,
Através do Brasil...) apresentavam conteúdos de historia,
afinal, o ensino de história fazia parte do corpo das disciplinas
básicas para a formação do cidadão.
Os programas de ensino de história de 1918, por exemplo, traçavam
para os anos iniciais da escolarização o conhecimento da
Pátria, através de descrições que garantissem
despertar na criança o interesse e sentimento de entusiasmo pela
Pátria. Estudavam-se os vultos mais notáveis da história
do Brasil, configurando, por esse caminho, “ a construção
da imagem da pátria para se buscar a identidade nacional, a qual
só poderia se construir com agentes sociais únicos produtores
do passado histórico” (BITTENCOURT, 1990, p. 132). E tudo
isto, as tintas marcaram nas páginas da literatura infantil e juvenil
nas primeiras décadas do século XX, ou seja, a literatura
para crianças e jovens comungava com o projeto de construção
da memória nacional e do patriotismo, projeto que se estendeu até
a primeira metade do referido século.
As reformas educacionais Francisco Campos (1931) e Gustavo Capanema (1942)
definiram diretrizes do ensino de História do Brasil. A primeira
preocupava-se com a educação política dos adolescentes
e a segunda ampliava essa educação para a formação
de uma consciência patriótica. Segundo FONSECA (2003),
“As concepções unitaristas e nacionalistas
da educação, presentes desde o século XIX, foram
acentuadas pelas reformas Francisco Campos, de 1931, e Gustavo Capanema,
de 1942, que elegeram o estudo da História do Brasil como fundamental
na formação moral e patriótica. Essa educação
encontraria nos livros didáticos importantes instrumentos e junto
às festas cívicas, constituiriam eficaz arsenal pedagógico”
(p. 73)
E a literatura infantil e juvenil não ficou de
fora desse projeto traçado para o ensino de história, já
que andava em consonância com a política unitarista e nacionalista.
A reforma Capanema colocava que para a terceira e quarta séries
do curso ginasial o estudo de História do Brasil visava à
formação da consciência patriótica, “através
de episódios mais importantes e dos exemplos mais significativos
dos principais vultos do passado nacional...” (p.102) e essa consciência
patriótica também foi endossada por várias produções
para crianças e jovens.
Segundo CAPELATO (1998), o período governado por Getúlio
Vargas (1930-1945) é marcado por uma política que objetivava
a formação de uma identidade, a identidade nacional coletiva.
Para isto, os meios de comunicação, a produção
cultural e a educação se tornaram instrumentos importantes
para transformar a identidade nacional de caráter individualista
em coletiva. O varguismo procurou transformar o imaginário coletivo
numa força reguladora da vida coletiva e peça importante
no exercício do poder. A constituição e preservação
da identidade nacional, confundia-se com a preservação do
Estado e dos interesses nacionais.
Já que a educação e a produção cultural
eram importantes instrumentos usados para a construção da
unidade nacional, muitos textos de cunho patriótico e nacionalista
foram postos em circulação para crianças e jovens,
a fim de construir a idéia de unidade, neutralizando divisões
e conflitos. Livros didáticos de história, assim como o
ensino de história privilegiavam a História do Brasil, enfatizando
a necessidade de formação da consciência nacional.
Aos leitores mirins de “O Brasil é bom” era passada
uma imagem de um Brasil bom na sua organização estadonovista
que prezava e procurava construir a unidade, e passava uma imagem ruim
da organização do governo anterior que provocava a desagregação.
O texto “Getúlio para crianças”, mostrava a
importância da Marcha para o Oeste, que fazia parte da política
de povoamento do interior. Tudo isso evidenciava que a educação
foi considerada elemento prioritário para a inculcação
de valores estabelecidos para conformar a identidade nacional coletiva
desde tenra idade.
É mais uma vez, a literatura para crianças e jovens assumiu
o “caráter utilitário” (PERROTTI, 1986), caminhando
ao lado de um projeto, agora, traçado por Getúlio Vargas.
Nas décadas de 1940 e 1950, o passado brasileiro permaneceu em
vigor neste tipo de produção, com uma particularidade: a
história dos bandeirantes estava em destaque, apontando dois temas,
o do alargamento do território nacional e o da abundância
natural do Brasil. O alargamento territorial estava relacionado a uma
política de povoamento e colonização de terras distantes,
no Oeste. Essa política reforçava ainda mais a propaganda
nacionalista e colocava em evidência a figura do bandeirante como
modelo de herói. CAPELATO (1998) nos aponta que
“as
imagens do interior/sertão constituíram um dos pilares da
construção da nova identidade nacional coletiva. A composição
dessa identidade também exigiu uma releitura do passado: o bandeirante
foi a grande figura recuperada como símbolo nacional. A Marcha
para o Oeste representava a continuação da epopéia
das bandeiras” (p. 218).
Nos anos
70, começa a fermentar uma preocupação crítica
com a história. A história positivista ensinada nas escolas
era considerada uma visão reacionária e “as gerações
saídas da universidade anos antes começam a encontrar legitimidade
intelectual e ensaiam um ensino mais preocupado com o social” (PINSKY,
2001, p.19).
Nessa mesma época, em que o país estava sob regime de força,
a literatura infantil e juvenil foi o lugar em que muitos progressistas
puderam investir num trabalho de caráter mais humanístico
e emancipatório.
“Como
se escrevia para crianças, um segmento social historicamente ignorado
pela assimetria de poder entre adulto e infante, este no máximo
encarado como futuro material humano da nação, foi neste
setor que a resistência ao regime militar passou despercebida e
plantou sementes de liberdade” (BORDINI, 1998, p. 38)
Muitos autores
como Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga Nunes e outros mergulharam
no universo envolvente da literatura infantil e puderam, através
dela, desconstruir os valores que sustentavam a política de linha
dura dos militares, suscitando as crianças a pensarem e a desconfiarem
de idéias que sufocam, alienam e matam. Era uma literatura em tom
de protesto, contestatória, expressando as insatisfações
populares ou humanistas, num contexto marcado pela política desenvolvimentista
do regime militar. Era uma produção que, além de
registrar o momento histórico, transformou-se num campo de resistência,
de transgressão. Entrelaçando realidade e fantasia, trazia
para discussão questões como abusos do poder totalitário
(ex: Reizinho mandão – Ruth Rocha, 1978), injustiças
sociais (ex: Pivete, Henry Côrrea de Araújo, 1977) e tantos
outros problemas da sociedade da época. Além disso, uma
geração de escritores retoma a postura iconoclasta de Lobato,
firmando um compromisso com o estético, com a arte e não
com a pedagogia.
Vale destacar que a década de 1970 é conhecida por ter sido
o grande boom da literatura, já que a indústria editorial
expandiu-se, graças à confiança nos ganhos com a
inflação da moeda e com o surgimento de um público
forçado a comprar, o das escolas, que se multiplicaram em massa
pelo país.
Nos anos de 1980, tudo podia ser matéria para a ficção
infanto-juvenil, a expansão mercadológica continuou e as
escolas foram abastecidas de livros não apenas didáticos
e paradidáticos, mas de literatura infanto-juvenil, graças
aos programas financiados pelo governo, principal cliente da indústria
editorial. Assim, tendo um mercado garantido (a escola), muitos temas
e gêneros surgiram e ainda surgem no mercado, abrindo espaço
para outras vertentes da literatura infantil: histórias policiais,
ficção científica e de modo especial, nos anos de
1990, cujo contexto é marcado pela violência, vida e morte,
aparece uma problematização do Mal, que como aponta SERRA
(1998), ganha mais força e consistência na literatura infanto-juvenil.
Porém, os temas que envolvem o passado brasileiro e vultos históricos
não desapareceram. Timidamente, marcaram presença, ganhando
maior destaque nos arredores da comemoração “Brasil
500 anos”, em que todo o país vivia um clima de rememoração
da história. Temas como descobrimento do Brasil, Escravidão,
Tiradentes, Independência do Brasil e outros foram adentrando nas
páginas coloridas da literatura infantil. E visualizando essa infinidade
de temas históricos, foi necessário fazer recortes e escolher
um dos fatos históricos para poder aprofundar, mergulhar nos textos
e imagens, nos traços e no colorido, visando olhar também
o avesso, as entrelinhas, possíveis sentidos e significados. Foi
escolhida, dentre os fatos históricos, a Independência do
Brasil, ainda hoje, fortemente marcada na escola e fora dela: Semana da
Pátria, rituais cívicos públicos, verde-amarelo nos
corredores das escolas, canto do Hino Nacional, moedas, cartões
telefônicos, revistas em quadrinhos, literatura infanto-juvenil.
São representações para a infância que geram
representações infantis acerca desse fato, que envolvem
concepções de sujeito histórico, de cidadania.
Portanto, adentrar nestas representações construídas
e que se estabilizam nas “inocentes” páginas do livro
infantil e juvenil implica iniciar discussões amplas referentes
às concepções de história, de sujeito histórico,
de cidadania, como diz SCHIAVINATTO (CEDES, 2002):
“O
tema da independência porta consigo, entre outros, as noções
de cidadania, patriotismo, sentimento identitário, reconhecimento
de cada um na vida coletiva e dessa por si mesma, disputa política,
sentidos dos símbolos nacionais” (p. 5)
E preparar
o educando para o exercício da cidadania é um dos fins da
educação nacional expressos na LDB (Lei 9.394/96, Art. 2?).
QUE HISTÓRIA
É ESSA?
Foram selecionados,
para o desenvolvimento da pesquisa, quatro livros, editados nos últimos
20 anos, que trazem como tema a Independência do Brasil, classificados
(nos índices dos catálogos sistemáticos) como literatura
infantil e literatura infanto juvenil, todos de editoras paulistas, por
ser São Paulo a sede do maior número de editoras, o pólo
da produção cultural. São eles:
BERGER, Milton.
O reino do outro lado do oceano. Ilustrações: Ricardo Paonessa.
São Paulo: DCL, 1999;
BERUTTI, Flávio. A Independência do Brasil- 1822: o sol da
liberdade não raiou para todos. Ilustrações: Cristina
Delara. São Paulo: Ediouro, 2001.
BUENO, Mariângela e DREYFUSS, Sonia. Pedro, o independente. Ilustrações:
Marco Aragão. São Paulo: Callis, 1999.
TOKUTAKE, Shiyozo. Os gnomos do Ipiranga. Ilustrações: Miriam
Iwai. São Paulo: Atual, 1988.
O primeiro
e o terceiro foram editados concomitantemente aos preparativos para a
comemoração Brasil 500 anos, destacando-se O reino do outro
lado do oceano, que faz parte da coleção Brasil mágico
500 anos, composta por 12 livros. Isso evidencia que o momento histórico
da comemoração incentivou a produção de livros
infantis que contassem a nossa história. A Independência
do Brasil, embora tenha sido editado em 2001, também desempenha
esse papel. O livro faz parte da coleção “Vamos repensar
a nossa história”. O livro Os gnomos do Ipiranga não
faz parte do conjunto de livros lançados nos arredores da comemoração
Brasil 500 anos. Foi editado em 1988, momento em que o ensino de história
nas escolas era fortemente caracterizado pela data cívica, pelo
herói, pelo fato.
Já nas capas dos livros selecionados, vislumbra-se o que está
por vir. Deparamos-nos com a representação da espada erguida,
ora na mão de D. Pedro (O reino do outro lado do oceano, Os gnomos
do Ipiranga), ora na mão de crianças (A Independência
do Brasil; Pedro, o independente). Representação que faz
parte da memória visual de muitos que freqüentaram os bancos
escolares.
Tantos livros (O reino do outro lado do oceano, Os gnomos do Ipiranga)
... uma história! Permanências! História não
só implícita no conteúdo escrito, mas também
nas capas, nas ilustrações. D. Pedro, cavalo, espada, Ipiranga,
Independência ou morte! Homem construído como bondoso, generoso,
romântico, de temperamento apaixonado, amante das nossas coisas,
verdadeiro herói de uma história a ser celebrada, não
questionada, que obscurece desigualdades sociais e conflitos. História
feliz com final feliz! História de um único homem que decide
proclamar a Independência... Permanências! A criança
personagem e o leitor infantil e juvenil são colocados como espectadores
de uma história que se repete como a reza de um rosário,
sem sentido, mecanicamente.
“Quando
D. Pedro e sua comitiva, seguindo viagem, alcançaram as margens
do córrego do Ipiranga, veio ter com eles o mensageiro real, trazendo
algumas cartas. Entre elas, uma da princesa Leopoldina e outra do ministro
José Bonifácio de Andrada e Silva.
D. Pedro leu as cartas e achou que tinha chegado a hora de tomar uma decisão
corajosa. Desembanhou a espada e, levantando-a, gritou:
_ INDEPENDÊNCIA OU MORTE!
Os Dragões e a comitiva responderam em coro:
_ INDEPENDÊNCIA OU MORTE!
O brado heróico ecoou nos céus da Pátria: tinha sido
proclamada a Independência do Brasil. Era 7 de setembro de 1822...
Assistindo à cena , Chiquinho pensou em voz alta:
_ Nossa! Agora estou entendendo o que Xem-xem tentava me dizer hoje cedo!”
(Os gnomos do Ipiranga, p. 40)
João
VI e sua família fugiram correndo de Portugal, pois as tropas de
Napoleão estavam invadindo Lisboa.
Viajaram meses pelo oceano até chegar ao Brasil. Do dia para a
noite o Brasil também virou Reino. Com rei, rainha, príncipes
e princesas.
Junto com o rei vieram os cientistas, escritores, artistas e homens de
negócio do mundo todo.
Belas casas e palácios começaram a ser construídos.
Os animais e vegetais brasileiros estavam sendo estudados. E a arte, a
música, a pintura, se desenvolveu muito.
Apareceram os primeiros jornais e as pessoas começaram a ler e
se informar mais. O Rio de Janeiro, que naquela época era a capital,
parecia uma cidade européia.
Os portos se abriram para o mundo todo e o Brasil recebeu muitos visitantes.
Ficou conhecido pelas pessoas de outros países. Uma terra verdejante
e farta, com grande potencial.
Pedro, o príncipe brasileiro, cresceu brincando com seus amigos
e animais brasileiros. Se sentia brasileiro e amava muito todas as nossas
coisas.
Anos depois, foi ele que proclamou a Independência do Brasil.”
(O Reino do outro lado do oceano- frases que compõem o livro todo)
O uso de
frases curtas e objetivas, detendo-se na superfície dos acontecimentos,
acaba desempenhando uma função estratégica para melhor
fixar o conteúdo, pautado no fato, na data (7 de setembro), no
lugar (Ipiranga), no sujeito (D. Pedro), na frase (Independência
ou Morte!). Esta é a fórmula principal expressa nos livros
Os gnomos do Ipiranga, O Reino do outro lado do oceano e nos conhecimentos
prévios de Pedro, em Pedro, o independente e do garoto em A Independência
do Brasil. São livros e história que não desafiam
o leitor à reflexão e ao questionamento, podendo se reverter
em instrumentos de alienação, ao mesmo tempo que procuram
incorporar, implicitamente, uma concepção de história
e de sujeito histórico, excluindo o próprio leitor do rol
dos sujeitos que constroem história. São histórias
delineadas por narrativas cheias de “conceitos”, unívocas,
fechadas em si mesmas. São livros com “cara de aula”
de história. Esse procedimento empobrece a literatura infantil
e, além disso, nada contribui para um movimento de inovação
deste conhecimento histórico preso ao passado, marcado pela data,
pelo fato e pelo herói. A literatura criou suas próprias
limitações, ao procurar resgatar a história.
Tantos livros (Pedro, o independente; A independência do Brasil)...
tantas histórias! O sol da liberdade não raiou para todos!
Rupturas... Outras vozes, outros sujeitos, outras versões, outros
olhares. Versões dadas (como em Pedro, o independente) e versões
investigadas/ questionadas (A independência do Brasil), versões
que desconstróem o herói D. Pedro, que olham o avesso da
história, os conflitos, as revoltas, a situação da
população.
“_
É Pedro, existem outros fatos que podem contar esta história
e que também são muito importantes. Acho que você
não sabe que a vida das pessoas daquela época pouco mudou
depois daquele famoso grito.” (p. 16)
(Monitor do Museu para Pedro, em Pedro, o independente)
“_
É isso aí. O índio continuou perdendo terras e vendo
desaparecer sua cultura. O escravo continuou sem liberdade. Os pequenos
comerciantes e artesãos continuaram sobrevivendo com muita dificuldade
e pagando impostos altíssimos” (p. 25)
(Monitor para Pedro, em Pedro, o independente)
“Eles
(grandes proprietários de terra) queriam a separação
de Portugal, mas não queriam que muita coisa mudasse. Essa elite
agrária desejava que a Independência rompesse os laços
coloniais (laços que ligavam o Brasil a Portugal), mas que não
alterasse a chamada estrutura social. Acho que o autor está querendo
dizer que essa elite não admitia que a Independência fosse
acompanhada da libertação dos escravos e de uma possível
redistribuição de terras. O importante naquele momento,
era garantir a preservação da escravidão, do latifúndio
e da unidade territorial (o território brasileiro não poderia
dar origem a vários países após a Independência.”
(p. 52)
(Reflexões da personagem principal em A independência do
Brasil)
Estes livros
não ficam centrados no “grito”, nem em D. Pedro, ampliam
informações a respeito desta história, destacando
a situação da grande parcela da população
(índio, escravos, pequenos comerciantes e artesãos), para
a qual a Independência não foi significativa.
A espada levantada é colocada nas mãos de pessoas comuns,
representadas pelas personagens (crianças). São histórias
que podem reascender a imagem da criança partícipe (A independência
do Brasil), sujeito que pensa, reflete, questiona, constrói.
Portanto, ambos os livros descentram da história construída
por um único sujeito, não ficando presos à fórmula:
fato, data (7 de setembro), lugar (Ipiranga), sujeito (D. Pedro) e frase
(Independência ou Morte!). Mas são histórias que não
deixam de ter também “cara de aula” de história.
Fanny Abramovich (1989) defende que através de uma história
infantil pode-se “descobrir outros lugares, outros tempos, outros
jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica... É
ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política,
Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que
tem cara de aula” .
Os livros, abordados nesta pesquisa, têm “cara de aula”
de história. Três deles (Os gnomos do Ipiranga; O reino do
outro lado do oceano; Pedro, o independente) adotam a relação
professor- aluno: professor = livro, aluno = leitor e no interior da narrativa
de Pedro, o independente, professor = monitor do Museu do Ipiranga (personagem),
aluno = Pedro (personagem) e leitor. Em A independência do Brasil,
a personagem está inserida em um contexto escolar e a narrativa
envolve um processo de aprendizagem: o personagem (e o leitor), ao estudar
a história, investiga, questiona e a (re)constrói, a partir
de suas reflexões e relações que faz. Embora, tenha
também “cara de aula”, o livro, de certa forma, justifica
seu “ato pedagógico” pelo fato de levar o aluno a pensar
e a construir uma outra história.
Cabe ressaltar que a presença de protagonistas crianças
é um dos procedimentos mais comuns na literatura infantil e os
livros, trabalhados aqui, não fogem à regra. Um projeto
de criança foi sendo arquitetado, produzindo-nos muitas imagens:
Criança passiva, conformista, espectadora da história, de
pés no chão, pobre, que fala com animais, que engraxa os
sapatos de D. Pedro e que só tem a oportunidade de estudar graças
ao presente do príncipe (uma bolsa de estudos). Este é Chiquinho,
criança personagem do livro Os gnomos do Ipiranga.
Criança que ouve com atenção os ensinamentos do adulto
e que se decepciona com o que aprende, que imita D. Pedro no ato de levantar
a espada (na ilustração da capa). Este é Pedro, que
recebe o adjetivo de independente (em Pedro, o independente).
Criança projetada para ser herói, que cresceu com seus amigos
e animais brasileiros, sentindo-se brasileiro e amando as nossas coisas...
D. Pedro (em O Reino do outro lado do Oceano).
Criança transformadora, que busca, questiona, faz relações,
protagoniza em sua aprendizagem. Criança que também imita
D. Pedro na ação de levantar a espada e que, no decorrer
da narrativa, proclama sua liberdade ao (re) construir a história,
ao mesmo tempo em que vai construindo sua história de aluno autônomo
no processo de construção do conhecimento (livro A independência
do Brasil).
Usam-se personagens crianças na tentativa de levar o leitor infantil
a se identificar com as histórias e, nos livros Os gnomos do Ipiranga
e O reino do outro lado do oceano, a tomar o herói D. Pedro como
modelo de conduta a ser seguido e cultuado.
Não se trata aqui, de negar o caráter pedagógico,
a transmissão de saberes e de valores ( que é inerente a
qualquer ato de linguagem); a grande questão está em não
reduzir a literatura para crianças e jovens ao discurso didático,
à história ensinada, privilegiando esta função
em detrimento da estética, da imaginação, da fantasia,
da alegria, da curiosidade, da criação... A literatura infantil
e juvenil não pode perder sua essência! O livro deve ser
objeto cultural de qualidade total, ou seja, em todos os aspectos: textual,
literário ou informativo, ilustração e ser alimento
fecundo para o pensamento, para a criação, para a imaginação.
É claro que não desconsideramos que o conhecimento histórico
não está pronto no texto da literatura, a ser decodificado
pelos leitores, mas é uma construção interacional
livro-leitor. Se considerarmos que o conhecimento histórico é
informação a ser assimilada pelo leitor, estaremos valorizando
mais o livro que o ato de ler. E o ato de ler, as significações
feitas (pelo leitor infantil e juvenil) acontecem a partir de conhecimentos
já existentes, resultando em deslizamentos de significados, em
rupturas! A permanência pode estar presente na literatura infantil
e juvenil, mas isso não quer dizer que o leitor não possa
fazer rupturas.
Vimos, portanto, que a literatura infantil, desde os seus primórdios
no Brasil, tem abordado temas relacionados à história nacional,
sendo marcada fortemente por um projeto nacionalista, patriótico
e moralizante, expressando e instituindo visões de mundo, de cidadão
e de história. E essa literatura para crianças e jovens,
caracterizada pela linguagem atraente, envolvente, pelo lúdico,
pelo prazer, trouxe no colorido de suas páginas a Independência
do Brasil, tornando-se recurso didático. O texto virou pretexto
para se “ensinar” a história da Independência.
Ilustrações, textos, palavras intencionadas pelo adulto.
Palavras que têm avesso e que “ensinam” a história
da Independência.
Os livros abordados, de modo geral, não fazem bem nem uma coisa,
nem outra: nem literatura infantil (por desprezarem a estética,
o trabalho com a linguagem, deixando de ser alimento fecundo para o pensamento,
para a criação, para a imaginação), nem história
da Independência (por trazerem uma história unívoca,
fechada em si mesma, cheia de conceitos, construída por um único
sujeito – o herói D. Pedro, como acontece nos livros Os gnomos
do Ipiranga e O Reino de outro lado do oceano ). Portanto deixo em aberto
algumas questões: afinal, que história é essa? Literatura
infantil? Ter como destinatário o público infantil e juvenil
é suficiente para receber o nome literatura infantil ou infanto-juvenil?
O que realmente vem a ser literatura infantil? Qual a sua essência?
Nesta pesquisa, percebemos que a literatura infantil, ao contar a história
da Independência, tornou-se recurso didático, abrindo espaço
para a pedagogização da história ensinada nos bancos
escolares, além do mais, ao trazer para suas páginas um
fato histórico assumiu pontos de vista, concepções
de história e de sujeito histórico.
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