Sônia Aparecida Vido Pascolati? - Faculdade
de Educação São Luís – Jaboticabal –
SP
Introdução
O narrador do romance Menino de engenho, de José
Lins do Rego (1988, p. 94), recorda, ora com alegria e entusiasmo, ora
com certa tristeza e melancolia, vários episódios do período
vivido no engenho do avô, na Paraíba. Dentre os episódios
recordados com arrebatamento está a visita da Velha Totonha que
“andava léguas e léguas a pé, de engenho a
engenho, como uma edição viva das Mil e uma noites”,
constituindo “um acontecimento para a meninada”. Carlinhos,
protagonista do romance, encanta-se profundamente com as narrativas da
Velha Totonha por ela adaptar as histórias à realidade dos
ouvintes, por imitar vozes e atitudes das personagens, por saber dramatizar
com emoção os lances mais excitantes das histórias.
A escritora Clarice Lispector ([199- ], p. 193) diz fabular desde os 7
anos, emendando uma história na outra sem ter fim. Em entrevista
concedida ao jornal O Pasquim, em junho de 1974, Clarice confessa: “Eu
pensava que livro era uma coisa que nasce. Eu não sabia que era
coisa que se escrevia. Quando eu soube que livro tinha autor, eu disse:
‘Também quero ser autor’.”. Quem poderia imaginar
que a garotinha de 7 anos faria nascer tantos livros excepcionais e seria
reconhecida mundialmente tanto por seus romances e contos quanto por suas
narrativas infantis?
Esses exemplos ilustram o fascínio exercido pela literatura sobre
o público infantil e as estreitas relações entre
leitura e escrita. A infância é um período eminentemente
marcado pelo simbólico, pela imaginação e criatividade,
pelo “desejo de ficção”. A criança ocupa
confortavelmente tanto a posição de ouvinte quanto a de
autora de histórias, afinal, ela sente prazer em ouvir incessantemente
a mesma história e pode, ao recontá-la, fazê-lo a
seu modo, acrescentando elementos, incluindo personagens, transformando
os finais das histórias, misturando uma narrativa à outra.
Não raro o prazer de ouvir histórias mistura-se ao desejo
de contá-las; se esse prazer e esse desejo raramente fazem surgir
Clarices Lispector, podem certamente contribuir para a formação
de ávidos leitores e de produtores de textos mais criativos.
Fenômeno encantatório semelhante pode ser observado em espetáculos
infantis, mais especificamente na reação do público
às representações cênicas. É maravilhoso
observar a resposta das crianças aos estímulos do palco.
O apagar das luzes é como um código secreto, um “abre-te
sésamo” permitindo a entrada num universo de magia repleto
de sons, luzes, cores e movimentos que embalam a imaginação
infantil, alimentam seu “desejo de ficção” e
descortinam um mundo transfigurador do real. Se como afirma Cademartori
(1994, p. 22-3) “a obra literária recorta o real, sintetiza-o
e interpreta-o”, o teatro é capaz de criar no palco uma espécie
de universo paralelo no qual a fantasia é a regra e não
o limite. A literatura “manifesta, através do fictício
e da fantasia, um saber sobre o mundo e oferece ao leitor um padrão
para interpretá-lo. Veículo do patrimônio cultural
da humanidade, a literatura [sem esquecer o teatro infantil] se caracteriza,
a cada obra, pela proposição de novos conceitos que provocam
uma subversão do já estabelecido.”
A observação de espetáculos infantis e da reação
das crianças (e até mesmo dos adultos que as acompanham)
pode auxiliar a revelar as artimanhas utilizadas pelos grupos de teatro
a fim de tornar o espetáculo sedutor para seu público. Além
disso, é possível dar alguns tímidos passos na constituição
do que poderíamos chamar de “gramática” do espetáculo
dirigido a crianças, pois muitos recursos dramáticos são
recorrentes a um número significativo de espetáculos. Dito
de outro modo, é perceptível o uso de certos elementos especialmente
manipulados para seduzir as crianças, o que pôde ser comprovado
com a observação de espetáculos infantis realizados,
por companhias profissionais, nos palcos do SESI – Serviço
Social da Indústria e do SESC – Serviço Social do
Comércio, ambos na cidade de Araraquara – SP, durante os
anos de 2004 e 2005.
A importância da literatura infantil
Embora a ficção produzida para o público
infantil tenha sido a prima pobre nos estudos literários durante
muitas décadas, hoje é inegável a contribuição
da literatura para o desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança.
Estudos lingüísticos, literários, psicanalíticos
e pedagógicos têm destacado enfaticamente as contribuições
da contação de histórias e da leitura para o desenvolvimento
das crianças. O contato com narrativas desde os primeiros anos
da infância configura uma forma lúdica de interação
com o mundo, um caminho para descobertas sempre renovadas. O trabalho
com a leitura e a literatura na escola não pode perder de vista
a função desempenhada por elas no desenvolvimento da criança,
pois “a literatura [...] propicia uma reorganização
das percepções do mundo e, desse modo, possibilita uma nova
ordenação das experiências existenciais da criança.
A convivência com textos literários provoca a formação
de novos padrões e o desenvolvimento do senso crítico.”
(CADEMARTORI, 1994, p. 18-9). Não apenas as percepções
infantis do mundo exterior transformam-se, mas também aquelas produzidas
pelas crianças acerca de si mesmas. Partindo de um viés
psicanalítico, o estudo já clássico de Bruno Bettelheim
(2002, p. 13) acerca das contribuições dos contos de fada
para a compreensão e superação de conflitos infantis
destaca que não basta a uma história prender a atenção
das crianças:
[...] para enriquecer sua vida deve estimular-lhe a imaginação:
ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções;
estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações; reconhecer
plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções
para os problemas que a perturbam. Resumindo, deve de uma só vez
relacionar-se com todos os aspectos de sua personalidade – e isso
sem nunca menosprezar a criança, buscando dar inteiro crédito
a seus predicamentos e, simultaneamente, promovendo a confiança
nela mesma e no seu futuro.
A literatura pode servir-se do real como referente na
construção do objeto artístico, do texto literário,
mas esse real é modificado, transformado, transfigurado, apresentado
ao leitor de múltiplas perspectivas. Desse modo, o ficcional, o
fantasioso torna-se uma nova via de conhecimento, de interação
entre sujeito e mundo, de abertura para novas interpretações
de dados já conhecidos. Em vez de apresentar o real à criança,
a literatura infantil formula vias de subversão do real, abre possibilidades
de recriação dos conflitos propostos pela realidade.
Nessa medida, a literatura infantil cumpre um importante papel em todos
os níveis do desenvolvimento da criança: percepção
dos aspectos lúdicos da linguagem (músicas, parlendas, poemas);
resolução de conflitos internos; ampliação
do conhecimento de mundo; leitura de imagens (ilustrações);
habilidade de inventar suas próprias narrativas; estímulo
à criatividade, imaginação, mergulho no mundo do
sonho; inserção do livro como objeto de brinquedo, aproximando-a
gradativa e prazerosamente do universo da leitura.
Especificidades do gênero teatral
Textos teatrais estão entre as modalidades de literatura
infantil. O teatro infantil, antes de ser definido pelo público
a que se dirige (“infantil”), define-se como gênero
literário, possuindo características específicas
que o diferenciam da gênero lírico e do gênero narrativo.
Em grego, theatron designa o “lugar de onde se vê”,
o que corresponde ao espaço ocupado pela platéia (MAGALDI,
1991, p. 8); logo, a etimologia do termo teatro remete à idéia
de observação, de alguém que assiste a algo. Por
isso não é possível pensar na realização
plena da arte teatral sem levar em consideração seus três
elementos essenciais: a existência de um texto a ser encenado por
um ator diante de um público. Embora os estudos teatrais possam
limitar-se à análise de textos dramáticos, o fenômeno
teatral só tem existência plena quando ultrapassa as páginas
do livro e ganha o espaço do palco. A própria estrutura
do texto dramático aponta para essa dupla natureza do teatro, a
dupla existência textual e espetacular por trazer entremeadas às
falas das personagens indicações cênicas (gestos das
personagens, expressões faciais, marcação espacial,
vestuário, entrada e saída de cena, indicações
cenográficas, mudança de cenário, evoluções
temporais e variações espaciais, etc.) que prevêem
o desenrolar da ação da peça no palco.
A partir de um mesmo texto dramático podem ser realizadas infinitas
representações cênicas, cada uma delas constituindo
um novo objeto artístico; isso evidencia um contraste entre a perenidade
do texto e a efemeridade do espetáculo. Um texto é sempre
o mesmo, mas as escolhas feitas por um grupo de teatro ou pelo diretor
de um espetáculo o modificam, ampliando (ou não...) suas
potencialidades de produção de sentido, transformando-o,
na verdade, em um outro objeto artístico. Além disso, cada
espetáculo teatral é único e irreproduzível.
Os mesmos atores, num mesmo palco, seguindo o mesmo roteiro textual e
cênico produzem a cada representação um objeto diferente,
não só porque os espectadores são sempre outros e
o que acontece no palco está mais ou menos subordinado à
reação da platéia, mas também porque os próprios
atores, ao realizarem determinados gestos ou reproduzirem certas falas,
nunca o fazem de modo idêntico à representação
anterior.
Ler uma peça de teatro é uma experiência completamente
diferente de assistir a um espetáculo. A leitura é –
em regra – silenciosa, individual, pessoal. Assistir a um espetáculo
teatral implica um espaço reunindo um grupo; as reações
de um espectador interferem na recepção dos demais espectadores.
Um espetáculo cômico pode trazer signos que não sugiram
comicidade a alguns, mas o riso de outros espectadores pode desencadear
um riso coletivo. Do mesmo modo em um espetáculo dramático:
as lágrimas de uns podem liberar a emoção de outros.
Ler um texto exige do leitor a competência da decodificação
de signos verbais, um trabalho com a palavra escrita (e com a imaginação,
é claro). Já a leitura de um espetáculo envolve uma
série de outros signos, pois a arte teatral recorre a muitas outras
como iluminação, pintura, música, indumentária,
maquiagem e máscaras, cenografia, dança e coreografia, etc.
Durante um espetáculo teatral lemos os gestos dos atores, suas
inflexões de voz, as roupas ou máscaras que portam, tudo
para compor um perfil das personagens por eles representadas e compreendermos
a ação desenrolada em cena. Assim também lemos a
função da música num determinado momento da representação,
o significado de uma luz vermelha ou amarela que tome conta do palco,
uma mudança de cenário ou indicação cênica
(aparecimento de uma lua e desligamento da luzes) que signifique mudança
temporal.
Essa multiplicidade de signos reunidos numa única forma artística
permite considerar a arte teatral uma das mais múltiplas de que
a civilização ocidental tem conhecimento. Todos esses artifícios
contribuem para a criação de um ambiente mágico,
capaz de transportar o espectador para um outro universo. Por muitos séculos
o teatro foi uma arte construída sobre o eixo da ilusão,
isto é, sobre o intuito de causar no espectador o efeito de estar
vendo no palco uma cópia de elementos do mundo real; o palco torna-se
um simulacro do mundo real. Cenografia, caracterização de
personagens, música, iluminação e outros recursos
são arranjados cenicamente com o intuito de ampliar o efeito de
real. Contudo, por mais que o palco pretenda criar efeitos realistas,
o espectador jamais abandona completamente a certeza de estar num teatro,
ocupando um lugar numa platéia (PAVIS, 1999, p. 202-3). No século
XX, diferentes experimentações dramatúrgicas procuraram
romper a ilusão característica do teatro, ou melhor, procuraram
diminuir os graus ou níveis de ilusão, lembrando constantemente
ao espectador que a representação segue convenções
artísticas, descortinando os bastidores e a montagem do espetáculo
teatral, desmascarando os efeitos de ilusão. Contudo, há
sempre um nível de ilusão, há sempre a sensação,
quando se está no teatro, de poder viajar por outros mundos.
Lúdico e teatro infantil
Na Poética, Aristóteles (1993, p. 27) assim
afirma ao tratar da origem da poesia : “Ao que parece, duas causas,
e ambas naturais, geraram a poesia. O imitar é congênito
no homem (e nisso difere de outros viventes, pois, de todos, é
ele o mais imitador, e, por imitação, aprende as primeiras
noções), e os homens se comprazem no imitado”. Pouco
adiante ele completa: a observação de imitações
é uma forma de aprendizado e “o aprender não só
muito apraz aos filósofos, mas também igualmente aos demais
homens, se bem que menos participem dele.” Notemos que o filósofo
reúne vários elementos para explicar a origem da poesia:
a tendência natural do homem à imitação, o
prazer em observar imitações e o conhecimento advindo dessa
observação.
Lançando um olhar para o universo infantil, podemos estabelecer
algumas relações. Segundo a teoria piagetiana do desenvolvimento
infantil, o jogo está presente em todas as fases de crescimento
da criança. As brincadeiras infantis, desde a mais tenra idade,
são meios de reconhecimento do próprio corpo, do corpo do
outro e do mundo que cerca a criança (WADSWORTH, 1993). Os jogos
simbólicos e os jogos de regras, particularmente, têm muito
dos elementos caracterizadores dos jogos dramáticos. As brincadeiras
infantis envolvem representações, simulações
e simbologias, tal como acontece no teatro: o palco não passa de
uma simulação de fatos e objetos do mundo real. Assim também
os jogos pressupõem a existência de regras, de normas de
ação coletiva; no campo teatral diríamos que se trata
da distribuição de papéis. Quando crianças
reúnem-se para brincar de papai, mamãe e filhinhos estão
criando um pequeno espaço de ilusão, de simulação,
espaço este que exige distribuição de papéis
e obediência a certas regras. Portanto, parece mesmo próprio
do desenvolvimento humano e do universo infantil o jogo, a brincadeira,
a representação. Nesses jogos, aliam-se, como afirma Aristóteles,
o prazer e o conhecimento.
Também o teatro infantil edifica-se sobre esse dúplice pilar:
o encanto e o deleite do jogo e o aprendizado inerente ao desenvolvimento
infantil. Nas brincadeiras, a criança é a protagonista,
a diretora, a encenadora, a coadjuvante, isto é, ela é o
sujeito do jogo. Acontece o mesmo quando se trata de teatro feito por
crianças em brincadeiras espontâneas ou jogos dirigidos nos
quais a criança tem liberdade para criar seu próprio espetáculo.
Mas a modalidade de teatro infantil mais difundida é o teatro feito
para crianças e ele sempre esteve ligado a finalidades pedagógicas.
Na década de 70, no Brasil, há uma ampla discussão
sobre arte-educação. Duas grandes correntes surgem dessas
discussões teóricas: o “contextualismo”, segundo
o qual a arte é utilizada para atingir fins não artísticos,
e o “essencialismo”, para o qual a arte tem função
em si mesma, sem necessidade de subordinar-se a qualquer objetivo pedagógico
(LOMARDO, 1994, p. 67). Infelizmente, o contextualismo predominou tanto
na prática teatral quanto nas concepções pedagógicas
de utilização do teatro na escola. Assim como a literatura
infantil tem sua origem na necessidade – ou melhor, no desejo –
de moralizar e condicionar comportamentos (lembremos de muitas fábulas
de La Fontaine...), também o teatro infantil não escapa
dessa relação com o ensino.
Na condição de manifestação e prática
artística, o teatro não tem obrigação de ensinar
nada, não tem qualquer compromisso pedagógico, embora seja
inegável sua contribuição para o aprendizado e o
desenvolvimento infantil. A arte tem finalidade em si mesma; não
é necessário ao espetáculo transmitir uma mensagem,
passar uma lição. A arte é uma das dimensões
humanas e o contato com a dramaturgia desenvolve essa dimensão.
Todas as artes são criações humanas necessárias
para saciar a sede caracteristicamente humana de expressar sentimentos,
idéias, desejos e sensações. São linguagens
criadas pelo homem para traduzir a si próprio e ao mundo que o
cerca.
Mecanismos de sedução nos espetáculos infantis
Crianças correm por entre plantas, em meio às
pernas dos adultos, movimentam-se, procuram pelos colegas, travam novas
amizades. Ou então ficam calmamente ao lado dos adultos, no colo
dos pais, esperando na fila que leva à entrada do teatro. Ingressos
nas mãos, os olhinhos brilham de ansiedade. A entrada no teatro
é acompanhada de músicas infantis. Cada um procura o melhor
lugar para fruição do espetáculo. Muitos convidam
os colegas para ficar por perto. Os momentos que antecedem o espetáculo
são de experimentação do espaço e do ambiente.
Ainda com as luzes acesas são transmitidas orientações
aos espectadores: cuidados com a conservação do espaço,
proibição de portar alimentos, recomendação
de que a atenção é importante para melhor entendimento
do espetáculo. Tudo pronto. As luzes apagam-se. Movimentos e sons
desaparecem rapidamente. Todos estão com os olhos fixos no palco,
aguardando o abrir das cortinas; todos prontos para o mergulho num universo
de cores, formas, movimentos e principalmente de fantasia.
A música, presente mesmo antes do início da apresentação,
é um ingrediente imprescindível nos espetáculos infantis.
Ela marca o ritmo dos movimentos dos atores – ou dos bonecos –,
estimula emoções, convida a criança a acompanhar
o compasso com palmas. Alguns atores tocam instrumentos ao vivo (violão,
tambor, gaita, pandeiro, etc.) como acompanhamento musical, como no caso
do Grupo 4 na trilha durante a representação de “Os
saltimbancos”. A música é sempre um convite ao movimento
e as crianças não o ignoram: batem palmas, pés, movimentam-se
nas poltronas. Alguns espetáculos estimulam a memorização
de canções, caso de Pluft, o fantasminha, texto de Maria
Clara Machado, no qual a canção da menina Maribel, cheia
de rimas (Maribel/ céu/ mel), facilita a apreensão por parte
das crianças.
A iluminação é um recurso cênico importante
para estimular a imaginação. O apagar das luzes da platéia
e a iluminação do palco são sinais para que o público
concentre sua ação no espaço diante dos olhos . O
escuro na platéia gera expectativa e atenção. Efeitos
de iluminação no palco podem tornar imprecisos objetos,
bonecos, atores, estimulando a curiosidade e a imaginação.
Muitas vezes as cores das luzes marcam mudanças temporais ou espaciais,
como o nascer do dia, com uma forte luz amarela projetada sobre o palco,
ou o chegar da noite, com o apagamento gradativo da luz e o aparecimento,
por exemplo, de uma esfera iluminada no alto da cena representando a lua,
como acontece no espetáculo “A menina que descobriu a noite”,
da Cia. Urbana de Teatro. O uso da iluminação também
leva a criança a fazer associações entre cores e
emoções – a escuridão está quase sempre
associada ao medo ou à solidão – ou entre cores e
objetos do mundo concreto – o amarelo representando o sol, o azul
sobre um objeto metálico representando o mar ou projetado no fundo
do palco representando o céu. Há técnicas mais elaboradas
como as utilizadas pela Cia. Truks Teatro de Bonecos. Nos espetáculos
“Avô” e “Contar até 10” aparecem
no palco vários painéis coloridos confeccionados com tinta
fosforescente; com o uso de luz negra é possível fazer parecer
que os cenários têm luz própria, que são iluminados,
o que chega a tirar exclamações da platéia mirim
e também a maravilhar os adultos.
O cenário está subordinado ao tipo de técnica utilizada
pela companhia teatral. De modo geral, a ação de um espetáculo
infantil é dinâmica, exigindo movimentação
constante dos atores, o que pode acontecer também não raras
vezes com o cenário. A versatilidade dos objetos é comum:
uma capa torna-se manta de dormir, depois vira vela para barco ou cortina.
A decoração dos objetos também é importante:
uma mala cujos lados representam objetos diferentes pode surpreender ao
transformar-se em parede e logo depois em porta de onde saem bonecos que
completam a representação. Uma armação de
madeira representando um móbile é ora o castelo da princesa,
ora um pessegueiro, ora um almoxarifado de onde o jardineiro real retira
diversos objetos. Por vezes os cenários são bem simples,
o que poderia supor a diminuição do encantamento do público.
Mas não: a singeleza de um cenário estimula a fantasia na
medida em que a criança se vê obrigada a imaginar aquilo
a que o ator refere-se no discurso. Os objetos, portanto, não têm
existência cênica, mas a existência discursiva é
suficiente para levar o público a imaginar, cada pessoa a seu modo,
as características do objeto em questão. Para a criança,
o recurso tem o mesmo efeito da comidinha de mentira: ela não existe
de fato no prato que nos oferece, mas existe em sua imaginação.
Os cenários mais mágicos são os construídos
pelas companhias de teatro de bonecos. O Giramundo, um dos grupos mais
renomados nesse segmento, especializado tanto em espetáculos para
adultos quanto para crianças, chega a construir bonecos gigantescos
que impressionam pelo verismo alcançado. Somados à perfeição
na construção dos bonecos, há os jogos de luz que
valorizam os bonecos em cena. No espetáculo “Cobra Norato”,
adaptação teatral de uma importante obra do Modernismo brasileiro,
o boneco representando a cobra lendária ocupa toda a extensão
do palco; como é produzida com luz fosforescente e iluminada por
luz negra, o efeito cênico é belíssimo. Outro espetáculo
impressionante pela riqueza do cenário é “O velho
da horta”, baseado na obra do dramaturgo português Gil Vicente.
A ação é concentrada na horta de um velho que, tolamente,
apaixona-se por uma jovem. Os bonecos, embora pequenos, são construídos
com grande riqueza de detalhes; mas o que encanta as criança, levando-as
inclusive a subir no palco após o espetáculo para conhecer
de perto a horta do velho, é a veracidade do cenário: há
um lago com água de verdade correndo sobre o palco; as cenouras,
rabanetes ou outros legumes da horta parecem de verdade, assim como as
flores colhidas pela jovem.
Há inúmeras técnicas à disposição
dos grupos teatrais: teatro de sombras, efeitos em 3 dimensões,
projeção de imagens (às vezes ocupando o lugar de
um cenário concreto). Esses recursos são sedutores, é
inegável, mas a observação permite concluir que os
campeões na preferência infantil ainda são o teatro
de bonecos e o teatro de objetos. A criança, com seu poder imaginativo,
é capaz, mais do que o adulto, de abstrair a presença do
manipulador dos bonecos – isso quando o manipulador não interage
com a personagem. O espetáculo “A Flor e São Nicolau”
(Cia. das Cores) tem como personagem uma abelha que carrega a florzinha
por todos os cantos do mundo à procura de São Nicolau. Em
cada parte do mundo Nicolau adquire aparência e sotaque diferentes:
na China tem olhos puxados, na Rússia usa um boné característico,
na índia aparece de turbante. As crianças acompanham com
muita atenção todas essas transformações dos
bonecos e esforçam-se para tentar mostrar à pequena Flor
que se trata sempre de São Nicolau. O teatro de objetos é
uma técnica que estimula ainda mais a criatividade da criança
porque demonstra que objetos comuns podem transformar-se no que quisermos,
basta soltar a imaginação. Isso acontece em dois ótimos
espetáculos: “Zôo-ilógico”, com a Cia.
Truks Teatro de Bonecos, e “Circo dos objetos”, produzido
por Mariza Basso Produções e Tato Criação
Cênica. O primeiro conta a história de dois rapazes que decidem
passar o dia no jardim zoológico mas encontram-no com as portas
fechadas. Munidos de uma cesta de piquenique, resolvem ali mesmo montar
seu próprio zoológico. E aí começa a brincadeira:
um bule e um guardanapo transformam-se em galinha, mãos e uma sacola
plástica conseguem dar vida a uma foca, duas pequenas tigelas verdes
são a boca de um sapo, um espanador imprimi alegre movimento às
penas de uma ave. O segundo espetáculo reproduz um show circense.
Tudo começa com um guarda-sol que se transforma em lona de circo;
instaurado o espaço circense, os números mais conhecidos
aparecem em cena. O corpo do domador de feras é uma mochila, seu
chapéu um penico e uma pequena bengala permite que ele controle
o tigre. Este último nada mais é do que uma bandeja decorada
com listras. A bailarina entra em cena ao som de uma música suave:
seu tronco é um espanador e suas pernas duas escovas de lavar banheiro.
As mesmas escovas são as pernas do atirador de facas que lança,
num clima de suspense, pentes em direção a uma tábua
de carne. A equilibrista – um simples molinete representando um
triciclo – a custo se equilibra sobre uma trena. Um borrifador de
água faz a vez do cuspidor de fogo, um pedaço de mangueira
de jardim é uma serpente que obedece aos comandos de um pano enrolado
na mão em forma de turbante. Um dos pontos altos do espetáculo
é a apresentação do globo da morte. As luzes apagam-se
e aparecem apenas as luzes de dois isqueiros que, ao som de motores de
motos, fazem as evoluções comuns a esse tipo de espetáculo.
Além da magia da transformação dos objetos em seres
do espetáculo circense, a representação ainda tem
o mérito de tirar gargalhadas da platéia quando a serpente
toma a flauta do encantador e passa a manipulá-lo, quando o tigre
rebela-se contra o domador, quando o corpo da contorcionista – um
simples pedaço de pano com nós que delimitam as partes do
corpo humano – dá um nó e ela sai de cena toda desconjuntada.
Além desses recursos específicos, há ainda outros
elementos bastante explorados nos espetáculos, incluídos
na “gramática” do teatro infantil: a) repetição
de cenas ou de efeitos de humor; b) desejo de emocionar, seja fazer rir
ou despertar ternura; c) estímulo à participação
do público fazendo perguntas sobre onde estão as personagens
ou se as crianças imaginam o que acontecerá no desenrolar
do espetáculo; d) uso da “técnica do tribunal”,
difundida no Brasil desde a década de 60, consistindo na instauração
de tribunais para que a platéia infantil decida o destino de alguma
personagem (como acontece no espetáculo baseado no livro A verdadeira
história dos Três Porquinhos, de Jon Scieszka); e) emprego
de linguagem poética, falas rimadas ou explicação
de palavras que possam ser desconhecidas do público mirim (exemplos:
quinquilharias, peripécias, fábula, coxia, teatro de revista,
etc.); f) estratégias metateatrais seja para explicar algo acerca
do espetáculo, seja para romper a ilusão teatral e mostrar
que tudo é um espetáculo previamente ensaiado. Os espetáculos
engraçados parecem ganhar a preferência infantil em detrimento
de espetáculos mais reflexivos ou que exigem abstrações,
o que não quer dizer que as companhias deixem de tratar de assuntos
sérios como a fuga dos judeus na Segunda Guerra Mundial (“Vovô”),
a guerra entre países e a necessidade da solidariedade (“Contar
até dez”), a união como forma de força política
e garantia de direitos (“Os Saltimbancos”), exclusão
social e reciclagem de lixo (“Poema do lixo”, com a Cia. Guardiões
do Sonho), etc.
Espontaneidade das crianças e suas reações
aos espetáculos
Não há prova maior do envolvimento das
crianças com os espetáculos do que as gargalhadas, as intervenções
– muitas vezes obrigando os atores a improvisar –, o sorriso
exibido na saída do teatro, os comentários com adultos ou
colegas. Ao final do espetáculo “Contar até dez”
uma garotinha diz: “Ah, eu quero ver mais”, sinal de que o
encantamento do teatro infantil deixa na criançada um gostinho
de quero mais. Uma outra garota, ao final do espetáculo “Teatro
Maravilhoso”, da Cia. Mevitevendo, que inclui uma representação
do clássico Chapeuzinho Vermelho, incomodada com a demora para
acender as luzes ao final do espetáculo, grita sem a menor cerimônia:
“Ei! Acende a luz!”. Depois de horas na fila aguardando um
convite para assistir ao espetáculo “Os Saltimbancos”
e não conseguir entrar no teatro, uma criança sai do recinto
aos prantos no colo da mãe, choramingando: “Eu quero ver...
não quero ir embora...”. Num país em que o acesso
à arte é restrito, em um país em que se fala incansavelmente
sobre a necessidade da formação de leitores enquanto poucas
medidas efetivas são tomadas pelo poder público, reações
como a dessas crianças – de envolvimento com a arte, de espontaneidade,
quase de reivindicação de direitos – deixam-nos maravilhados.
Sinal de que a condição cultural brasileira tem chances
de transformação e um bom começo é o público
infantil receber sempre mais atenção e ser respeitado como
sujeito de direitos, incluído o direito de acesso a bons espetáculos
e a boas leituras.
Referências
ARISTÓTELES. Poética. Tradução
Eudoro de Souza. São Paulo: Ars Poética, 1993. Edição
bilíngüe grego-português.
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fada. Tradução
Arlene Caetano. 16. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
CADEMARTORI, Lígia. O que é literatura infantil. 6. ed.
São Paulo: Brasiliense, 1994.
LISPECTOR, Clarice. Entrevista ao jornal O Pasquim. Almanaque Abril. São
Paulo: Abril, [199- ].
LOMARDO, Fernando. O que é teatro infantil. São Paulo: Brasiliense,
1994.
MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. 4. ed. São
Paulo: Ática, 1991. (Série Fundamentos).
PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva,
1999.
REGO, José Lins. Menino de engenho. 41. ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1988.
WADSWORTH, Barry J. Inteligência e afetividade da criança
na teoria de Piaget. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1993.