Maria Eduarda Silva Leme - Faculdade de Educação
Unicamp
O presente trabalho tem por objetivo analisar aspectos
da apreensão e compreensão de uma realidade eminentemente
visual – um filme de cinema – por parte de jovens cegos desde
o nascimento.
A cegueira tem sido objeto de curiosidade e reflexão ao longo da
história, e em torno dela têm-se criado crenças e
concepções que determinam os modos de participação
possíveis das pessoas cegas nas práticas sociais. É
necessário repensar essas concepções e problematizar
certos sentidos estabilizados que relacionam o ver e o conhecer.
A questão da cegueira remete ao problema da construção
do conhecimento pelo ser humano. A falta desse canal sensorial certamente
determina formas peculiares de a pessoa cega relacionar-se com a realidade
e adquirir conhecimento, mas cabe a pergunta: essa peculiaridade implica
prejuízo na constituição das funções
psíquicas superiores necessárias ao conhecimento ou é
apenas uma especificidade e pode ser contornada?
É freqüente encontrarmos em crenças do senso comum
e também em pesquisas e trabalhos acadêmicos, concepções
que apontam dificuldades no desenvolvimento de pessoas cegas. A metodologia
da maioria dessas pesquisas adota, de modo geral, uma perspectiva comparativa:
compara-se, por exemplo, o desempenho de sujeitos com deficiência
visual e o de sujeitos videntes, ou o desempenho de sujeitos cegos com
o de sujeitos com baixa visão.
Muitos estudos referem que o desenvolvimento cognitivo no cego congênito
tem atrasos, como os trabalhos revistos e comentados por Hall (1981).
Tais pesquisas concluem que problemas no raciocínio espacial observados
em alguns cegos congênitos podem estar relacionados ao fato de utilizarem
sistemas de representação não tão eficientes
para esse tipo de raciocínio quanto o sistema de representação
icônico, que envolve imagens, utilizado pelos videntes.
No entanto, esses dados destoam dos altos níveis de competência
que se observam em algumas pessoas cegas, que não apenas não
apresentam dificuldade alguma na realização de tarefas intelectuais,
quanto mostram grandes habilidades.
Anderson (1984), Mills (1993), Norgate (1997), Landau (1997) e Warren
(1994) são alguns dos autores que têm assumido uma perspectiva
diferente em seus trabalhos e têm constatado desempenho muito mais
favorável em crianças e adultos com cegueira congênita.
David Warren é um autor de importância significativa na área
da deficiência visual que tem realizado amplas revisões da
literatura sobre o tema (Warren, 1984, 1994) e abordado o problema sob
uma perspectiva inovadora em relação à pesquisa mais
tradicional. Assume uma posição crítica em relação
a pesquisas que avaliam o desempenho de crianças com deficiência
visual pela média, tendo como referência a norma para crianças
videntes. Argumenta que mesmo que uma só criança, em um
grupo de sujeitos, apresente habilidades próprias de determinados
estágios do desenvolvimento ou encontre-se no limite superior de
um ranking, como mostram certas pesquisas, isso é suficiente para
invalidar a hipótese, habitualmente aceita, de que dificuldades
e atrasos se devem à cegueira em si; é preciso buscar outras
causas. Acredita que os princípios e a dinâmica básica
do desenvolvimento são os mesmos para crianças videntes
e não videntes, mas é necessário compreender que
fatores determinam ocorram atrasos, em vez de simplesmente atribuí-los
à cegueira (ibid., 1994).
Segundo suas concepções, os atrasos relatados em número
expressivo de pesquisas se relacionam com o fato freqüente de não
se oferecer à criança com deficiência visual a oportunidade
de ter experiências ricas e socialmente significativas. Salienta,
portanto, que o nível e a qualidade das interações
sociais é que vão determinar as condições
que redundarão em um desenvolvimento deficitário ou um desenvolvimento
adequado. Relata pesquisas que evidenciam que crianças que têm
um ambiente físico rico de estímulos e que são encorajadas
a explorá-lo, e além disso puderam estabelecer um vínculo
satisfatório com as figuras de apego, mostram um nível de
desenvolvimento mais alto do que outras crianças para as quais
esses fatores estão prejudicados. Assim, o que a análise
de Warren mostra é que as interações sociais têm
papel fundamental e decisivo sobre como se desenvolverá a criança
cega, e podem determinar se esse desenvolvimento será adequado
ou se será drasticamente prejudicado.
Assim, a depender da perspectiva que se adota na investigação
do desenvolvimento do psiquismo, a pessoa com deficiência visual,
particularmente a pessoa cega desde o início da vida, fica em desvantagem
em relação aos videntes. Além disso, se a ênfase
é colocada sobre a relação da criança com
os objetos no que tange ao desenvolvimento do psiquismo, negligenciando-se
o aspecto das interações sociais, como se observa na maioria
das pesquisas sobre representações, a criança sem
visão desde o nascimento é vista como tendo prejuízo
irrecuperável em seu desenvolvimento.
Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934), autor que introduziu a perspectiva
histórico-cultural em psicologia, segundo a qual o psiquismo humano
se constitui socialmente, abordou o tema da cegueira em alguns dos textos
que compõem a coletânea publicada em 1924 sob o título
Fundamentos de Defectologia. Vygotsky defendeu a idéia de que as
deficiências físicas afetam primordialmente as relações
sociais das pessoas, e não sua relação com o mundo
físico, pois entre os seres humanos e o mundo há o meio
social, que intermedeia suas relações com esse mundo. Este
autor enfatiza a importância da educação social das
crianças com deficiência e seu potencial para um desenvolvimento
normal, e salienta que o principal problema decorrente da deficiência
é o problema social.
Vygotsky (1924/1997) desenvolveu a idéia de que a cegueira, assim
como outras deficiências, pode promover uma reorganização
completa no funcionamento psíquico, de modo a possibilitar uma
compensação do impedimento. Enfatizou que se se proporcionarem
ao cego formas alternativas de acesso aos aspectos da cultura inacessíveis
a ele devido à ausência de visão, o problema será
contornado, como no caso do sistema braile, que permite ao cego o acesso
à linguagem escrita. Para Vygotsky, a fonte da compensação
para o cego está na linguagem, na experiência social e na
relação com os videntes. Por meio da linguagem o cego pode
ter acesso às significações da cultura e participar
das práticas sociais. Assim, as relações sociais
são de fundamental importância para a criança cega
superar o impedimento orgânico e seguir o curso de seu desenvolvimento
cultural.
Como se observa a partir das diferentes perspectivas de pesquisa e dos
diferentes resultados que se obtêm, a maneira como se concebe o
homem determina a marca que se imprime à investigação,
influenciando as conclusões em uma determinada direção.
A perspectiva histórico-cultural: a mediação dos
signos
Este trabalho assume os pressupostos teóricos da perspectiva histórico-cultural
em psicologia, segundo as quais o psiquismo humano é socialmente
constituído: sobre a base biológica desenvolvem-se, a partir
da interação com os outros homens, as funções
psíquicas superiores, que caracterizam a mente humana. Os adultos
atribuem às experiências vividas pela criança os significados
próprios da cultura em que estão imersos, e a criança
gradualmente se apropria desses significados por meio de um processo ao
mesmo tempo transformador e constitutivo de seu psiquismo. Desta maneira
o ser humano transcende sua natureza biológica e se constitui como
ser cultural e histórico.
Vygotsky (1987) postula que as funções superiores têm
sua origem nas relações entre os seres humanos e foram um
dia funções sociais. Formula uma lei genética geral
do desenvolvimento cultural, segundo a qual as funções psíquicas
superiores surgem inicialmente como categorias interpsíquicas,
na relação entre as pessoas, e só num segundo momento
é que se tornam intrapsíquicas.
Nesse movimento de constituição do sujeito tem importância
fundamental o conceito de internalização, referida por Vygotsky
como “transferência de funções para o interior”
(Vygotsky & Luria, 1994, p. 156). Durante esse processo de internalização
ocorrem mudanças radicais na atividade das mais importantes funções
psíquicas, como a percepção, a memória, a
atenção; os processos psicológicos naturais, tal
como se encontram nos animais, deixam de existir e são reconstruídos
sobre uma base psicológico-cultural.
Por meio da interação com as outras pessoas, a cultura passa
a constituir o psiquismo e a determinar sua estrutura. Mas o que articula
a cultura com o pensamento? Uma concepção fundamental da
teoria de Vygotsky vem responder a essa questão: as relações
dos seres humanos uns com os outros e com seu próprio pensamento
são mediadas pelos signos. Enquanto os instrumentos medeiam a relação
do homem com a natureza e são utilizados para controlar e transformar
os objetos, os signos medeiam a relação do ser humano com
seu psiquismo, controlando e organizando as ações psicológicas.
É através da mediação dos signos, ou mediação
semiótica, que o ser humano se apropria da cultura e, nesse processo,
transforma seu pensamento. “A internalização de formas
culturais de comportamento envolve a reconstrução da atividade
psicológica tendo como base as operações com signos”
(Vygotsky, 1998, p. 75). Por ter criado esse instrumento psicológico
mediador da sua relação com o mundo é que o homem
emerge de sua natureza biológica e alça-se à condição
de ser cultural e histórico.
Com o uso de signos, as reações passam de imediatas a mediadas,
a ação impulsiva é inibida em favor de uma ação
planejada, o indivíduo passa a poder deslocar-se em pensamento
no tempo e no espaço – enfim, o comportamento submete-se
à sua vontade e não apenas aos estímulos externos,
o que implica liberdade. Entre a realidade e a captação
sensível de estímulos introduz-se o signo que, graças
à ação reversa, que consiste na propriedade de o
signo agir sobre o próprio indivíduo modificando qualitativamente
seu pensamento, instaura-se uma nova forma de relação com
o mundo, própria do ser humano.
O mais importante sistema de signos é a linguagem, e Vygotsky confere
a ela estatuto fundamental em sua teoria do desenvolvimento cultural do
ser humano. Ao mesmo tempo que é instrumento de intercâmbio
social, é também instrumento do pensamento. O significado
é componente indispensável da palavra para cumprir sua função
de comunicação, mas ao mesmo tempo é uma generalização,
que é um fenômeno do pensamento. Quando se nomeia algo com
uma palavra, ao mesmo tempo se está realizando uma categorização
e uma generalização, o que organiza o pensamento e impulsiona
o psiquismo para formas mais elaboradas e complexas de .funcionamento
(Vygotsky, 1996). Assim, o signo lingüístico tem dupla função
– comunicação e pensamento – o que lhe possibilita
articular a cultura com o psiquismo humano.
O processo de desenvolvimento das funções psíquicas
superiores está intrinsecamente relacionado ao meio social e à
interação com as outras pessoas, na medida em que é
o uso dos signos – que são coletivos e têm seus significados
compartilhados nessas interações -, mais particularmente
a linguagem, que promove as profundas modificações no psiquismo
que caracterizam o desenvolvimento cultural da criança (Vygotsky
e Luria, 1994).
Remetendo agora às pessoas cegas desde o início da vida,
pode-se considerar que o papel central que Vygotsky atribui às
relações sociais e à linguagem no desenvolvimento
das funções psíquicas superiores permite que se compreenda
a problemática da cegueira sob um ponto de vista otimista no que
se refere às possibilidades de desenvolvimento das crianças
cegas e de acesso ao mundo por parte dessas pessoas.
O papel atribuído às relações sociais na constituição
do psiquismo permite vislumbrar a possibilidade de um desenvolvimento
sem problemas para a criança cega congênita ou cega desde
o início da vida, desde que ela esteja imersa na cultura e participe
das práticas sociais. É através da linguagem que
o homem internaliza as formas culturalmente dadas de organizar o real
e se apropria das significações de seu meio. Assim, a posição
central que ocupa a palavra na concepção de Vygotsky sobre
o desenvolvimento psíquico abre um universo de possibilidades aos
cegos em geral e particularmente às pessoas sem visão desde
o nascimento. Na coletânea Fundamentos de Defectologia o autor exalta
a possibilidade de a linguagem fornecer ao cego tudo que ele necessita
para conhecer o mundo, pois o conhecimento se dá fundamentalmente
pela significação, que é da ordem do semiótico.
Tendo como referencial teórico as concepções da perspectiva
histórico-cultural e adotando a posição de focalizar
as competências e não as dificuldades das pessoas cegas,
abordaremos neste trabalho alguns aspectos relativos à maneira
como quatro jovens cegos desde o nascimento representam uma realidade
eminentemente visual, reconstituindo a narrativa de um filme de cinema.
O cinema, justamente pela posição central que a imagem visual
ocupa em sua constituição, é instrumento muito rico
para se investigar aspectos da relação do cego com o mundo
pois, embora seja um produto cultural baseado em imagens visuais, é
constituído também por sinais de outra natureza. Por outro
lado, utilizar filmes de cinema possibilita investigar aspectos da apreensão
da realidade por parte de cegos em uma situação significativa,
relativa às práticas sociais de nossa cultura, mobilizadora
de interpretação e produção de sentidos. O
cinema é uma prática social que produz e reproduz significados
culturais; suas narrativas e significados evidenciam como nosso cultura
dá sentido a si própria (Turner, 1997).
Embora um filme de cinema seja constituído por imagens visuais,
não se resume a elas; tais imagens são condição
necessária para o filme, mas não suficiente. Outros signos,
além dessas imagens, constituem o filme, sendo os signos lingüísticos
de fundamental importância para a narrativa fílmica. Assim,
os cegos se defrontam com uma situação eminentemente visual,
porém passível de ser apreendida por eles de alguma forma,
o que possibilita investigar que estratégias utilizam para realizar
essa apreensão.
Ao lado disso, a analogia visual e auditiva entre o cinema e a realidade
às quais se refere Metz (1977) oferecem uma situação
que, em alguma medida, remete à relação dessas pessoas
com a própria realidade. Pode-se considerar que a situação
do cego diante de um filme falado é, em alguns aspectos, similar
a sua relação com a realidade na medida em que as imagens
visuais compõem parte da informação sobre o mundo,
assim como constituem parte das informações de um filme
de cinema. Nas duas situações, entretanto, outras informações,
acessíveis às pessoas privadas de visão, possibilitam
o conhecimento; entre elas, a linguagem, condição imprescindível
para a aquisição de conhecimento por parte de todo ser humano.
A situação de cinema permite investigar outras vias de acesso
à significação, as quais o cego utiliza em sua realidade
cotidiana, nas práticas sociais.
Almeida (1999) refere-se ao conceito de intervalo de significação
– intervalo entre as cenas, aquilo que é estabelecido pelos
cortes e não está materialmente no filme. Isto permite que
se narre uma história ocorrida durante anos ou mesmo séculos,
em cem minutos - ou quinze, no caso dos filmes de curta-metragem. Esse
intervalo é preenchido com as significações do espectador,
que costura uma cena à outra com seus próprios significados
e sentidos. Esse intervalo de significação, portanto, é
da ordem do simbólico, e não apenas do sensorial. Abordando
o processo de inteligibilidade da narrativa em geral, Almeida salienta
que é a relação entre as cenas que possibilita haver
sentido. Uma narrativa não é uma mera justaposição
de eventos isolados, mas é a relação entre eles que
constitui o enredo, e essa relação é construída
pelo espectador, que traz para essa construção sua história
pessoal, que é ao mesmo tempo história social.
Pode-se pensar que no caso do cego é necessário que ele
amplie o preenchimento entre as cenas, pois além dos intervalos
a que o espectador vidente estaria exposto, defronta-se com lacunas determinadas
pela não visão de imagens. Se completamos os textos, os
enunciados, com nossas imagens e significações, como o cego
elabora essa construção e preenche as lacunas de modo a
encontrar significação na narrativa do filme?
A pesquisa
Para problematizar e investigar a questão da representação
da realidade por pessoas cegas que nunca tiveram qualquer experiência
visual, ou seja, que não dispõem de memória visual,
realizamos uma pesquisa em que quatro jovens com cegueira desde o nascimento
assistiram individualmente a um filme brasileiro de curta-metragem, narrativo,
e em seguida, em uma entrevista também individual, narraram a história
do filme e descreveram como imaginaram cenas e detalhes. As entrevistas
individuais foram gravadas em fita cassete, e a entrevista grupal foi
gravada em vídeo, sendo esses registros posteriormente transcritos.
Esses jovens são cegos em decorrência da retinopatia da prematuridade,
patologia que acomete crianças prematuras de baixo peso que precisam
receber oxigênio em incubadoras, o que muito freqüentemente
danifica a retina ocasionando a cegueira (Rocha, 1987). São duas
garotas e dois rapazes e sua idade, por ocasião da realização
da pesquisa, estava na faixa compreendida entre os 19 e os 23 anos; o
de menor escolaridade tinha na ocasião o ensino fundamental completo,
e o mais adiantado nos estudos cursava jornalismo.
Resultados e discussão
Assumindo os pressupostos teóricos da perspectiva histórico-cultural,
particularmente as concepções de Vygotsky, em que a linguagem
ocupa papel fundamental, analisaremos excertos do material empírico
de modo a dar visibilidade analítica à importância
da significação na compreensão da realidade por parte
das pessoas cegas.
Os jovens cegos mostram de maneira muito clara que a busca por atribuir
sentido aos elementos apresentados, interpretar sinais, compreender o
contexto, entender o enredo, enfim, encontrar significação
naquilo a que assistiram é que norteia a reconstrução
que fazem da narrativa do filme. Pode-se observar em um trecho da narrativa
de um dos sujeitos o trabalho de síntese que realiza, em que é
dada uma interpretação global da significação
da história:
João: Mas assim, o que deu pra perceber em geral,
assim, é que ele na verdade está contando a história
de um amigo dele, né... de faculdade... Eles acabaram se encontrando,
e devido à confusão que rolou dentro da rua que tinha sido
cercada, né, com grades, então, eles acabaram indo um pra
um lado e o outro pro outro, e depois, com a confusão do cachorro,
eles acabaram saindo correndo. E depois, o parceiro dele, o colega dele,
acabou sumindo, né... Ele diz que... No final, ele conta que ele
ia acabar indo viajar, ia acabar indo cuidar da vida dele, né,
e acaba não procurando mais o amigo dele.
Embora não tenha visto as imagens dessas cenas,
e portanto tenha sido privado de boa parte das informações
transmitidas por elas, João pode compreender o filme e construir
sua própria narrativa, norteando-se pela busca da significação,
pela compreensão do todo da história. A linguagem presente
no filme, nas falas do narrador e dos personagens, lhe permite reconstituir
a narrativa, e no contexto de significação que assim se
institui, João pode atribuir sentido a sinais e pistas que passam,
então, a ter o estatuto de signos, ou seja, a ter significação
e a permitir uma interpretação. A linguagem lança
luz sobre os outros sinais sonoros, que se tornam signos, remetendo à
realidade que representam. A idéia de desencontro, isolamento,
precariedade dos vínculos interpessoais contida no filme foi captada
por João, como se observa em trechos de sua fala: (...) eles acabaram
indo um pra um lado e o outro pro outro; (...)E depois, o parceiro dele,
o colega dele, acabou sumindo, né...; (...) ia acabar indo cuidar
da vida dele, né, e acaba não procurando mais o amigo dele.
É porque participa das práticas sociais, compartilhando
os significados da cultura em que vive, que João pode organizar
as imagens sonoras, interpretar os indícios, relacioná-los
uns aos outros e constituir a narrativa mesmo não tendo acesso
aos aspectos visuais. Pode compreender, imaginar, interpretar uma realidade
constituída eminentemente por estímulos visuais por meio
da palavra, da busca de significação.
Pode-se constatar a força da palavra analisando-se um trecho da
entrevista de Júlio, em que ele narra uma cena e dá detalhes
descritivos do local.
Júlio: Eles pularam a cerca.
Pesquisadora: Então pelo som você deduziu essa seqüência?
Júlio: É, a rua escura, né, o som... E aí
eles começaram a correr, a correr, e aí o som do cachorro
começou a ficar longe, a ficar mais baixo.
Pesquisadora: Certo...
Júlio: Pelo que a rua começou a ficar escura, porque não
se ouvia mais o barulho do cachorro, mais, nem deles, por isso eles tinham
deixado o cachorro pra trás, já, depois da cerca.
Pesquisadora: A rua ficou escura?
Júlio: É, porque já era noite, né, então...
E era deserto ali, e porque só se ouvia o som do cachorro... E
eles pularam a cerca depois.
Diante da pergunta da pesquisadora se o som o teria levado
a deduzir a seqüência, Júlio assinala que foi a inferência
sobre a rua escura, além do som, que o auxiliou nessa dedução.
Explica que a dedução sobre a cena se deve ao fato de a
rua ter começado a ficar escura e pelo fato de já não
se ouvir o latido do cachorro.
Pode-se observar esse processo nas narrativas de outros sujeitos da pesquisa.
Selecionemos um trecho da entrevista de Denise, em que ela reconstitui
toda uma seqüência de ações que o filme mostrou
em imagens visuais, captando pela linguagem a significação
da cena.
Denise: Pelo que deu pra entender, ele estava fora, assim,
e o cara jogou a chave pra ele, porque ele ainda pegou o elevador... E
aí ele pegou o elevador e foi até a casa do Ângelo,
abriu a porta, e aí os dois, né... E ele comendo... falando
que estava com fome e o amigo dele ofereceu uma bolacha... E ele comendo
bolacha... Aí eles pegam e saem pra uma boate, e eles vão
pra lá.
Embora não tenha tido acesso visual às imagens,
Denise constitui seu conhecimento sobre a seqüência pelas falas
dos personagens, que dão significação a outros indícios
presentes no filme, e todo esse conjunto lhe permite a compreensão
da história. O que ocorre é um processo integrado de interpretação,
apropriação e reconstrução, regido pela busca
da significação, em que a palavra exerce função
essencial.
Considerações finais
As reflexões que o material da pesquisa nos proporcionou estimulam
que se revejam sentidos cristalizados no imaginário social sobre
a deficiência visual e sobre a extensão dos limites que ela
determina. Os sentidos estabilizados sobre a cegueira e as (im)possibilidades
das pessoas cegas de certo modo acabam avalizando a exclusão social
e o alijamento dessas pessoas dos bens culturais, na medida em que instituem
como naturais certos impedimentos que na verdade não existem, ou
pelo menos não na forma e extensão com que são habitualmente
concebidos.
Naturalizou-se a noção de que a visão é primordial
para a aquisição de conhecimento, e que por isso as pessoas
cegas têm uma impossibilidade “natural” de acesso a
grande parte das produções da cultura. Naturalizou-se também
a idéia de que o cinema é a “arte da imagem”,
o que se deve questionar, pois embora um filme seja constituído
por imagens visuais, há outros elementos que compõem sua
significação. Um filme é uma narrativa, e suas significações
estão nas relações que se estabelecem entre os diversos
signos – relações entre as imagens visuais, entre
as imagens visuais e as imagens sonoras, entre essas imagens e a linguagem
verbal, entre as cenas, entre as seqüências -, portanto, diz
respeito à ordem do simbólico, transcendendo a mera sensorialidade
das imagens visuais. Neste estudo procuramos assumir uma posição
que favorecesse a quebra dessas naturalizações através
da investigação de uma questão insólita –
a relação de cegos com o cinema –, buscando aprofundar
a compreensão de certos temas para além do discurso estabelecido.
Devemos estar alertas para poder compreender as pessoas com deficiência
a partir de seu referencial, entendendo suas especificidades e diferenças,
seus significados. É necessário também estarmos conscientes
de que o técnico ou o pesquisador estão imbuídos
de sua própria cultura, de seu lugar social, o que inevitavelmente
afeta seu olhar sobre esse outro. No que se refere às pessoas cegas,
deve-se procurar entender sua relação com o mundo não
a partir do referencial das pessoas que vêem, mas a partir de seu
próprio referencial.
O imaginário social é muito poderoso e nos afeta a todos,
inclusive às próprias pessoas com deficiência, que
muitas vezes não acreditam em suas possibilidades, o que acaba
sendo corroborado por práticas pedagógicas que negligenciam
suas capacidades e enfatizam as dificuldades. Se o homem é um ser
cultural, se seu psiquismo é de natureza semiótica, então
a apreensão do mundo se dá sobre bases simbólicas;
não importa qual seja o aporte sensorial de estímulos, o
importante é que haja a possibilidade de significar e interpretar.
O que é essencial para seu desenvolvimento é ter acesso
ao convívio social e participar das práticas sociais de
seu meio, de modo a apropriar-se das significações que permeiam
sua cultura e poder compreender o mundo.
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