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CONSIDERAÇÕES
SOBRE O PAPEL DO DESENHO NO PROCESSO DE AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM
ESCRITA DE UM SUJEITO
Adriana de Paula – Universidade Estadual
de Campinas (UNICAMP)
1. Introdução
O desenho infantil tem sido objeto de estudo em diferentes
áreas do conhecimento. Psicólogos, psiquiatras, sociólogos,
pedagogos e outros profissionais, em diversos momentos, buscaram no desenho
uma forma de entender o desenvolvimento da criança. Desenvolvidos
sob enfoques cognitivos, afetivos, motores, gráficos, estéticos
etc, esses estudos, de um modo geral, podem ser divididos em duas vertentes:
de um lado, encontramos trabalhos de autores como Merèdieu (1979
[1974]), Luquet (1981 [1927]), Lowenfeld e Brittain (1977 [1947]) e Cox
(2000), que embora discordem em alguns momentos, tratam o desenho a partir
de uma perspectiva maturacionista e se preocupam basicamente com a maneira
como as crianças representam a realidade à sua volta. De
outro lado, encontramos trabalhos baseados na perspectiva histórico-cultural
defendida por Vigotsky e seus colaboradores, que consideram o desenho
infantil como um espaço, socialmente constituído, de representação
simbólica da criança.
Conforme Vigotsky (1991), o desenho é um estágio preliminar
do processo de aquisição da escrita, a partir do qual a
criança vai construindo processos de significação
que vão muito além de uma simples tentativa de representar
a realidade que a circunda. Sob essa perspectiva, entendemos que as imagens
figurativas produzidas pelas crianças podem fornecer pistas sobre
o modo como se desenvolve o seu processo de atribuição de
sentido (cf. Ferreira, 1998), revelando-se como um caminho fecundo para
a análise do desenvolvimento da escrita infantil.
Desse modo, a partir da análise de dados de um corpus longitudinal,
o presente trabalho pretende traçar considerações
sobre o papel do desenho no processo de aquisição da linguagem
escrita de um sujeito e, através desse acompanhamento longitudinal,
observar marcas do trabalho individual desse sujeito com a escrita e com
o desenho que possam ser tomadas como indícios de um estilo em
construção.
2. Pressupostos teórico-metodológicos
Este trabalho está fundamentado em uma concepção
sócio-histórica de linguagem, através da qual assume-se
que a linguagem é um lugar de interação humana, de
interlocução. Conforme Franchi (1987: 12), a linguagem é
ela mesma um trabalho pelo qual, histórica, social e culturalmente,
o homem organiza e dá forma a suas experiências. Nela se
produz, do modo mais admirável, o processo dialético entre
o que resulta da interação e o que resulta da atividade
do sujeito na constituição dos sistemas lingüísticos,
as línguas naturais de que nos servimos.
Tomando a linguagem como um trabalho, como um lugar de interação
em que sujeito e linguagem mantêm uma relação dinâmica
e constitutiva, esta concepção teórica permite-nos
não só visualizar a relação entre sujeito
e linguagem, como também analisar a maneira como cada sujeito em
particular vai construindo essa relação. A partir dessa
concepção, podemos olhar para histórias individuais
de envolvimento com a linguagem e buscar nessas histórias traços
que as singularizem, tornando-se possível, portanto, pensar em
uma concepção de estilo como escolha, como marca de trabalho
do sujeito com a linguagem (cf. Possenti, 1988). Desse modo, podemos observar
estilos em construção mesmo nas fases iniciais de aquisição
da escrita, uma vez que nessa fase já é possível
observar marcas, voluntárias ou não, das escolhas que o
sujeito realizou em seu trabalho com a escrita.
Ainda sobre a questão do estilo, são importantes as reflexões
bakhtinianas acerca da diferenciação estilística
própria dos gêneros discursivos. Tomando os gêneros
do discurso como tipos relativamente estáveis de enunciados (Bakhtin,
1992: 279), Bakhtin acredita que o estilo entra como elemento na unidade
de gênero do enunciado (1992: 284), estando indissoluvelmente associado
a unidades temáticas e composicionais desses enunciados. Conforme
o autor: quando há estilo, há gênero. Quando passamos
o estilo de um gênero para outro, não nos limitamos a modificar
a ressonância deste estilo graças à sua inserção
num gênero que não lhe é próprio, destruímos
e renovamos o próprio gênero (1992: 286). O trabalho estilístico
individual estaria, portanto, atrelado ao trabalho com os gêneros
discursivos, que seriam o ponto de partida para o desenvolvimento do estilo
individual.
Com relação ao papel do desenho no processo de aquisição
da representação escrita da linguagem, tomamos como referencial
teórico as pesquisas de Luria (1988) e Vigotsky (1991) sobre a
pré-história da linguagem escrita.
Através de estudos experimentais, Luria (1988) constata que o desenvolvimento
da escrita começa muito antes do primeiro contato com o processo
institucionalizado de aquisição da escrita. Segundo esse
autor, a criança percorrerá uma série de estágios
até compreender o sistema de escrita. Começar a escrever
não significa, portanto, compreender o processo da escrita.
Compartilhando as idéias propostas por Luria, Vigotsky (1991) critica
a mecanização dos métodos de ensino tradicionais
que, segundo ele, ensinam as crianças a desenhar letras e formar
palavras, sem ensinar-lhes a escrita propriamente dita. Para o autor,
a escrita não é simplesmente uma habilidade motora, mas
um sistema particular de símbolos e signos cuja dominação
prenuncia um ponto crítico em todo o desenvolvimento cultural da
criança (p.120). Ao tratar do desenho, Vigotsky lembra que sua
produção efetivamente se inicia quando a linguagem oral
já está bastante desenvolvida, e é essa linguagem
que vai organizar o desenho.
Do ponto de vista metodológico, esse trabalho está fundamentado
no Paradigma Indiciário de Investigação explicitado
por C. Ginzburg (1986) e definido em Abaurre et alii (1997) como um modelo
epistemológico fundado no detalhe, no “resíduo”,
no episódico, no singular, a partir do pressuposto de que, se identificados
a partir de princípios metodológicos previamente definidos,
os dados singulares podem ser altamente reveladores daquilo que se busca
conhecer.
A observação de pistas, sinais, indícios que revelem
as marcas do trabalho que o sujeito realiza com a linguagem, mostrou-se
bastante produtiva na análise do corpus dessa pesquisa, uma vez
que seu objetivo era encontrar marcas nos desenhos e nos textos escritos
de M.L. que pudessem ser tomadas como indícios de um estilo em
construção.
3. O sujeito de pesquisa e o corpus investigado
M.L., o sujeito da pesquisa, é do sexo feminino
e nasceu em 1976 na cidade de Vitória (ES). Filha de professores
universitários, o sujeito mudou-se para Campinas (SP), onde sempre
freqüentou escolas particulares. Convivendo desde muito cedo com
a escrita em casa, M.L. revelou sempre muito interesse por atividades
de escrita.
Os dados que compõem o corpus desse sujeito foram coletados naturalisticamente
pela mãe e são representativos de materiais produzidos desde
os primeiros traços que o sujeito colocou no papel até a
redação que escreveu para o vestibular da Unicamp/1994.
Nesse trabalho especificamente, analisamos os textos escritos e os desenhos
desse sujeito desde suas primeiras produções até
o final do Ensino Médio, considerando tanto a produção
escolar quanto aquela produzida em ambiente doméstico. Observamos,
ainda, os relatórios das professoras de M.L. que comentam seu desempenho
escolar desde o Jardim da Infância até o final da quarta
série do ensino fundamental, documentos em que, em vários
momentos, é possível perceber a maneira singular com que
esse sujeito explora o desenho.
4. O percurso desenho/escrita de M.L.
Ao analisar longitudinalmente a produção
textual de M.L., percebemos que, nas primeiras produções,
iniciadas a partir de um ano e meio de idade, não há como
diferenciar, entre os traços distribuídos no papel, aquilo
que é escrita daquilo que é desenho, a não ser com
a própria indicação do sujeito. Assim, ao sobrepor
à escrita na agenda da mãe as suas “anotações”,
M.L. afirma estar escrevendo; já ao preencher toda uma folha de
sulfite com uma série de traços indiferenciados, diz ter
desenhado “peixes”, ou seja, embora os traços produzidos
nas duas situações não apresentem diferenças
significativas que pudessem caracterizá-los como escrita e/ou desenho,
ao serem produzidos numa agenda – suporte socialmente reconhecido
pelo sujeito como lugar da escrita – ganham status de escrita, enquanto
ao serem traçados numa folha avulsa são interpretados como
desenho.
Contudo, embora os movimentos sejam os mesmos, tanto nas garatujas definidas
por M.L. como escrita, quanto nos traços, por ela chamados desenhos,
é possível perceber que, apesar de ainda não conseguir
produzir efetivamente uma diferenciação entre seus desenhos
e sua “escrita”, M.L. reconhece estar diante de duas formas
de expressão diferentes e passa a explorá-las na manifestação
de seu querer-dizer.
Ainda sobre a produção textual de M.L., é importante
dizer que essa produção tem sido tema das pesquisas de Abaurre
desde 1992. Através desse longo percurso de investigação,
a pesquisadora identificou a ironia como traço estilístico
que singulariza a produção de M.L. De acordo com Abaurre
(1993), o trabalho individual desse sujeito com a linguagem passou de
um investimento inicial na criação de um efeito de humor
e de nonsense a um investimento na busca da ironia como efeito de sentido.
Conforme a autora, desde muito cedo M.L. parece caracterizar-se por um
certo distanciamento das situações que vive e observa, por
um certo “olhar crítico” que vai permitir, mais tarde,
o trabalho consciente com a ironia e com os recursos lingüísticos
que acabam por produzir esse efeito marcante nos seus textos mais recentes
(p.200).
Com base nas pesquisas de Abaurre e na observação dos desenhos
produzidos por M.L., percebemos que, a partir de um certo momento, eles
não só trazem os mesmos temas que o sujeito aborda na escrita,
como também apresentam as marcas de ironia observadas pela pesquisadora
nas produções escritas desse sujeito. O “olhar crítico”
e o distanciamento de que nos fala Abaurre (1993), caracterizados por
aquilo que Barros (2004) define como uma postura metaenunciativa do sujeito,
também podem ser encontrados nos desenhos de M.L., mesmo naqueles
produzidos ao longo da pré-história de sua linguagem escrita
(cf. Vigotsky, 1991).
Para observar de que modo o desenho e a escrita foram explorados por esse
sujeito como forma de manifestação de seu querer-dizer,
os dados aqui analisados foram divididos em três grupos distintos
que explicitam os diferentes momentos por que passaram as produções
textuais de M.L.
Composto por dados representativos do início do processo de aquisição
da linguagem escrita de M.L., o primeiro conjunto de dados é marcado
pela produção de desenhos que descrevem cenas variadas ou
a partir dos quais é possível inferir um relato ou uma narrativa,
seja oral que será ditada a um adulto, seja narrada através
do próprio desenho.
1- (1982 –produção espontânea)
2- (1982 – produção espontânea)

Nesse momento,
o desenho é o lugar encontrado pelo sujeito para a manifestação
de todo o seu imaginário, um imaginário que ainda não
consegue representar através da escrita. Nos dois dados apresentados,
é através da linguagem e da interação com
o outro que o significado de cada produção será construído.
Conforme Ferreira (1998: 34), no caso dos desenhos, os significados são
expressos não pelas figuras, mas pela linguagem. Esta mediatiza
as significações e o reflexo do mundo. É exatamente
esse processo de construção de significações
que podemos encontrar nos desenhos produzidos por M.L. ao longo dessa
fase. Em (1) temos um exemplar de uma série de desenhos em que
M.L. apresenta situações diversas e, ao ser inquirida sobre
o seu conteúdo, cria títulos que os expliquem, explorando
através do desenho aquilo que ainda não consegue representar
com a escrita. Com relação a este dado, é interessante
observar que ao desenhar gatos sem os pés e a cabeça e ao
intitular sua produção exatamente como Gatos sem pé
nem cabeça, o sujeito parece brincar com a relação
sentido literal/ sentido figurado, ou seja, ao literalmente produzir gatos
sem os pés e a cabeça, M.L. produz um desenho que, do ponto
de vista da realidade, seria sem sentido, que é justamente o sentido
figurado da expressão “sem pé nem cabeça”.
Em (2) o sujeito explora o recurso da história em quadrinhos para
compor uma narrativa a partir de desenhos, que mais tarde será
complementada por uma narrativa oral ditada a um adulto. Nesse dado vão
aparecer fantasmas, monstros e bruxas, personagens constantes na produção
desse sujeito a partir desse momento.
A observação dos dados referentes a essa fase revela um
profundo interesse do sujeito pelo desenho, o que fica evidente não
só pela quantidade de material produzido como pelos relatórios
de suas professoras, que, freqüentemente, destacam o interesse de
M.L. por atividades que envolvam o desenho:
(...) participa de todas as atividades em sala, pedindo-me sempre para
desenhar, mesmo quando essa atividade já foi feita naquele dia
(Relatório/Maternal I – 1979).
(...) percebo que tudo o que a L. faz tem um significado, uma explicação
muito profunda por parte dela, por exemplo, quando ela faz um desenho,
ou um recorte, eles sempre vêm seguidos de uma longa estorinha (Relatório/Jardim
II – 1981).
Ao olhar
para as primeiras produções de M.L., percebemos que, num
primeiro momento, o desenho foi o lugar encontrado pelo sujeito para elaborar
seu discurso. Tal opção manifesta-se também em momentos
posteriores, quando a escrita já pode assumir essa função,
como veremos no grupo seguinte.
O segundo grupo de dados corresponde a um período que se estende
da terceira série do ensino fundamental (1985) até a primeira
série do ensino médio (1991), e reflete um momento em que
o sujeito já tem um certo domínio da escrita e passa a explorá-la
juntamente com o desenho de modo a manifestar seu interesse pela discussão
de questões sociais. Essa fase corresponde ao maior período
de tempo e ao maior número de produções, especialmente
domésticas.
3- (1985
– 3a. série – produção espontânea)
4- (1986 – 4ª. Série – produção
espontânea)

Transcrição:
Dado 3
Destino
Nasceu uma
criança
E ela era pobre
7 anos ela entra na escola
no 6 ano ele repetiu por causa da fala
– Fessora cumé qui iscrevi zoreia
Mas mesmo
assim ele passou no ginásio e foi para a cidade
Aos 26 anos ele se casou e teve 3 filhos
Mas eles eram muito pobres e passava fome
Vendo isso ele voltou pro campo
Mais la ele tinha uma casinha
La ele comia bem e tinha uma vida sosegada
A observação
desses dados mostra que, nessa etapa da produção de M.L.,
desenho e escrita vão ser explorados simultaneamente e, freqüentemente,
trarão como tema questões de caráter político-social,
o que, conforme discutido em Abaurre (1997) e Barros (1998), reflete uma
tendência estilística do sujeito. Em (3) M.L. recorre a uma
história em quadrinhos para explorar a temática político-social
que, a partir da terceira série, passa a ser uma constante em suas
produções. De acordo com Barros (2004), uma das características
de M.L. é “dar voz ao outro” em suas produções
e, desse modo, falar em nome desse outro, e é exatamente isso que
podemos observar nessa produção. Ao “dar voz”
ao ursinho pobre que é discriminado na escola pela variedade lingüística
que fala, o sujeito registra sua crítica a esse tipo de situação.
No dado (4) estamos diante de um exemplar das muitas produções
em que M.L. ironicamente critica o cenário político-social
em que está inserida. Embora tanto desenho quanto texto sejam extremamente
simples, o significado que o conjunto ganha reflete uma percepção
aguda do sujeito acerca da desigualdade social que domina seu país.
A visão crítica aqui expressa é a mesma presente
no dado anterior ou nos muitos textos expositivos em que, nesta fase,
o sujeito aborda essa questão.
Na terceira etapa desse processo, correspondente ao final do Ensino Médio,
momento em que o sujeito prepara-se para o vestibular, a escrita adquire
um espaço privilegiado, uma vez que, nessa etapa, o sujeito já
domina uma série de recursos formais e semânticos da linguagem
que podem ser mobilizados para produzir os efeitos que pretende, e, assim,
o desenho ganha uma função mais abstrata e introspectiva.
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“(...)
A campanha contra a fome nasceu da mesma incompetência estatal que
gera a miséria. O objetivo principal da campanha contra a fome é
justamente resgatar a cidadania, e fazer com que os miseráveis passem
a exercer os direitos de cidadão que estavam cada vez mais restritos
as elites. A sociedade é capaz de mudar o estado. Por isso a mobilização
social incomoda tanto as elites. O estado brasileiro funciona para
tirar, e não garantir os direitos de seus cidadãos. Cada vez mais
brasileiros estão abaixo da linha da miséria, e cada vez mais essas
elites arcaicas fazem questão de ignorá-los. Criticam a campanha
contra a fome, mas não vêem que só tomando-se alguma atitude imediata
contra a miséria combate-se o desemprego e a violência. Talvez as
elites não percebam que são elas as mais atingidas pela violência
que a fome gera. Enquanto as elites se fecham, a miséria evolui.
(...)”.
Dado
5: Não existem cidadãos famintos (1994 – 3ª série do Ensino Médio
– trecho da Redação apresentada no Vestibular Unicamp/94) |
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Os dois exemplos
dessa fase explicitam bem os extremos que a permeiam: temos de um lado
a redação que o sujeito fez para o Vestibular da Unicamp
de 1994 que propôs como tema para a dissertação: “Dar
o peixe ou ensinar a pescar?”. Esse texto revela, agora de uma forma
bem mais elaborada e precisa, a preocupação social manifestada
na infância. De outro lado, temos um desenho espontâneo de
forte caráter abstrato, mostrando que a partir do momento em que
o sujeito torna-se proficiente em vários gêneros da escrita,
o desenho passa a desempenhar predominantemente outra função.
Diante de produções como a apresentada no dado 5, percebemos
que, nessa etapa, M.L já é capaz de manipular os recursos
da escrita para expressar aquilo que pretende dizer, o que fica bastante
evidente, por exemplo, nas suas escolhas lexicais. A partir do tom irônico
e até mesmo agressivo de expressões como “incompetência
estatal” e “elites arcaicas”, M.L. vai conduzindo o
seu interlocutor a concordar com a visão que ela tem do Estado
e da elite brasileira. Ao olhar para os textos argumentativos de M.L.,
percebemos que, nesse momento de sua produção, o sujeito
encontrou na escrita uma forma de elaborar o seu discurso e dizer, agora
de forma ainda mais explícita e elaborada, aquilo que há
muito tempo já vinha dizendo com o auxílio do desenho.
5. Considerações finais
O acompanhamento longitudinal desse percurso mostra o caminho percorrido
por M.L. até atingir um grau de letramento que lhe permite produzir
textos capazes de manifestar de forma precisa questões de seu interesse,
podendo utilizar apenas a escrita para atingir o efeito desejado. Através
desse acompanhamento, é possível observar também
a emergência e a manutenção de um traço estilístico
ao longo de suas produções, o que mostra que o sujeito foi
capaz de fazer escolhas em seu trabalho com a linguagem, o que lhe permitiu
desenvolver um estilo próprio através do qual M.L. pôde
imprimir uma marca pessoal a suas produções. O desenho constituiu-se,
portanto, para esse sujeito, numa atividade intelectual complexa (cf.
Luria, 1988) ao longo de todo o seu processo de aquisição
da escrita, permitindo-lhe, inclusive, deixar marcas de seu estilo também
nesse tipo de produção.
A partir dessas observações torna-se possível afirmar
que o desenho infantil pode ter mais do que a intenção de
figurar a realidade que rodeia uma criança. As produções
de M.L. mostram que, mais do que figurar, seus desenhos têm como
função expressar suas idéias, provocar, brincar,
manifestar suas escolhas, marcar sua posições. Seus desenhos,
enfim, assim como seus textos escritos, são um espaço no
interior do qual M.L. se constitui como sujeito de sua linguagem.
Olhar para o desenho como um lugar a partir do qual a criança se
constitui como sujeito de sua linguagem parece ser, portanto, um dos grandes
desafios dos trabalhos sobre o desenho infantil.
6. Bibliografia
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