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  AFETIVIDADE E COGNIÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DO LEITOR

Ana Flavia Alonço Castanho

A formação do leitor é uma das grandes questões que tem mobilizado a sociedade brasileira nos últimos anos. Embora o Brasil tenha conseguido diminuir seu índice de analfabetismo consideravelmente nas duas últimas décadas, ainda persiste uma situação de exclusão de grande parte dos cidadãos do domínio da leitura e da escrita. Isso se deve ao fato de que a alfabetização por si só não é suficiente para instrumentalizar o indivíduo para os diversos usos e suportes da escrita e, também, ao fato de que a demanda social de capacidade de leitura tem crescido ano a ano, devido às características da vida nas grandes cidades e à presença cada vez maior da informática e da internet, no trabalho e no cotidiano das pessoas, dentre outros fatores.
Diante dessa situação a sociedade tem se mobilizado: campanhas de alfabetização e de leitura têm sido realizadas tanto pelo governo quanto por organismos da sociedade civil, assim como a criação de bibliotecas públicas e renovação de seu acervo; tem sido buscado o estabelecimento de indicadores mais fiéis da situação da leitura no Brasil (como é o caso do Índice de Alfabetismo Funcional – INAF, desenvolvido pelo Instituto Paulo Montenegro) e por parte das universidades observa-se o crescimento da produção acadêmica no campo da leitura, através de pesquisas que possibilitem compreender melhor a dinâmica da formação do leitor.
Este artigo se inscreve nessa última linha de reação, e tem como objetivo apresentar alguns resultados preliminares da pesquisa que ora realizamos sobre a influência da afetividade no desenvolvimento de habilidades de leitura pelo indivíduo. Nosso objetivo, nessa pesquisa, é estabelecer relações entre o lugar que a leitura ocupa na hierarquia de valores estabelecida pelo sujeito e o desenvolvimento, por parte dele, de estratégias mais ou menos elaboradas para o ato de ler.
Para discutir essa questão é interessante retomar alguns elementos da teoria psicogenética de Jean Piaget e do trabalho de Roger Perron sobre as representações de si, marcos importantes do referencial teórico que nos sustenta:

Sujeito e objeto do conhecimento na teoria piagetiana
O sujeito que a teoria piagetiana nos dá a conhecer é um sujeito ativo, que aprende a partir da sua interação com o mundo e dos valores que confere a certos objetos desse mundo (no caso, a leitura). É a partir de suas ações sobre os objetos que o sujeito constrói suas próprias categorias de pensamento e, ao mesmo tempo, organiza seu mundo.
Desta forma, segundo Piaget (1964/2002), o contato com um mesmo objeto vai despertar diferentes perguntas de acordo com o estágio do desenvolvimento que se encontra a criança (pensemos, por exemplo, na diferença de possibilidades entre uma criança ainda incapaz de classificações e uma criança que já possui essa capacidade). Assim, os interesses da criança, ao longo do seu desenvolvimento, vão depender de seu desenvolvimento cognitivo e de suas disposições afetivas, que os interesses tenderão a completar, levando-a a um melhor equilíbrio.
Para esse autor, toda e qualquer ação (ou seja, todo movimento, pensamento ou sentimento) está ligada a uma necessidade que é sempre uma manifestação de um desequilíbrio (aqui Piaget nos remete a Claparède). A ação visa sanar esse desequilíbrio: se inicia devido a ele e se finda quando ele for satisfeito, ou seja, quando o equilíbrio tiver se restabelecido.

Interesses, hierarquia de valores e força de vontade
Para Piaget, toda conduta envolve aspectos afetivos e cognitivos, sendo, os aspectos afetivos, a motivação e o dinamismo energético, e os aspectos cognitivos, as técnicas e meios empregados na ação.
O interesse, enquanto mobilizador da ação, existe, assim, desde o início da vida psíquica, estabelecendo a relação entre um objeto e uma necessidade. “O interesse é a orientação própria a todo ato de assimilação mental. Assimilar, mentalmente, é incorporar um objeto à atividade do sujeito, e esta relação de incorporação entre o objeto e o eu não é outra que o interesse no próprio sentido do termo (‘inter-esse’).” (1964/2002, p.37). À essa primeira forma indistinta de interesse, Piaget distingue os interesses que se diferenciam e se multiplicam em resultado do desenvolvimento do pensamento intuitivo.
Dessa forma, na teoria piagetiana, o interesse apresenta dois aspectos complementares entre si: como regulador, mobilizando as reservas internas de energia, de forma que as tarefas que são interessantes para o sujeito lhe parecem mais fáceis e menos cansativas que aquelas que não lhe despertam o interesse, e , num outro aspecto, temos que o interesse, ao longo do desenvolvimento da criança, se diferencia, partindo de formas mais elementares, relacionadas com a satisfação das necessidades orgânicas fundamentais até chegar a se constituir como um sistema de valores, e com isso designando objetivos cada vez mais complexos para a ação.
Piaget, no Curso da Sorbonne (1953-54, p.229), coloca que “o valor está ligado a uma espécie de expansão da atividade, do eu, na conquista do universo. Esta expansão põe em jogo a assimilação, a compreensão etc., e o valor é um intercâmbio afetivo com o exterior, objeto ou pessoa.”
Desse modo, desde o estágio do desenvolvimento da inteligência sensório-motora, - no qual se dá a diferenciação entre meios e fins -, observa-se processos de valorização ou desvalorização pessoal, fruto dos os êxitos ou fracassos obtidos pela criança nas suas experiências anteriores, além disso, nesse estágio encontramos coordenações de interesses, através das quais objetos que não apresentavam interesse por si mesmos passam a fazê-lo devido à sua relação com objetos valorados pela criança. É a partir desses sentimentos de valorização e desvalorização ligados à atividade própria e dessas primeiras coordenações de interesses que os valores começam a se hierarquizar, e constituem a finalidade da ações.
No estágio seguinte, com o início da socialização