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PROJETO
BIBLIOTECA: UM INCENTIVO À PRATICA DE LEITURA E ESCRITA
Renata Andréa da Silva – Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP)
A Secretaria de Educação do Estado de São
Paulo aplica, desde o ano de 1996, o Sistema de Avaliação
de Rendimento do Estado de São Paulo, o SARESP. Trata-se de uma
avaliação externa aplicada de forma sistemática nos
estabelecimentos de ensino estaduais e em escolas municipais e particulares
que aderirem ao sistema. Seu objetivo principal é o de coletar
informações sobre a qualidade da escola paulista com a finalidade
de identificar e corrigir possíveis problemas em seu sistema de
ensino. Desse modo, através da obtenção de indicadores
educacionais das escolas e de sua divulgação às instituições
ligadas à educação e à sociedade civil, espera-se
subsidiar educadores e técnicos das mais variadas áreas
de ensino no desenvolvimento de reflexões e ações
que visam à superação de problemas de aprendizagem
e à proposição de práticas de ensino que tornem
o espaço escolar cada vez mais significativo para os educandos.
O exame considera a competência leitora fundamental para o acesso
às diversas áreas do saber. Por isso, avalia as capacidades
cognitivas de leitura e escrita dos estudantes ao longo de seu trajeto
escolar.
Os instrumentos de avaliação utilizados pelo SARESP variam
de acordo com as séries. No Ensino Fundamental, por exemplo, as
provas dos primeiros e segundos anos constituem-se de questões
abertas. Já as das terceiras a oitavas séries são
compostas por trintas questões de múltipla escolha. No quesito
produção textual é proposta a todas as séries
do Ensino Fundamental a elaboração de uma redação
do tipo narrativo-descritiva.
Além das questões que avaliam as habilidades de leitura
e escrita, o exame possui um questionário do aluno. Por meio dele
são coletadas informações acerca da trajetória
escolar do estudante e de sua participação nos projetos
propostos pela Secretaria de Ensino. Suas percepções sobre
os trabalhos dos professores e da direção da escola também
são consideradas. Ainda nesse questionário são colhidos
dados culturais e sócio-econômicos dos educandos. Essa segunda
parte do exame tem como proposta verificar se há possíveis
interferências desses fatores na aprendizagem dos alunos.
Quando exames externos são aplicados, eles podem exercer influência
sobre os processos de ensino e aprendizagem que os precedem. Isso é
chamado efeito retroativo. Um dos efeitos retroativos do SARESP é
a adaptação das práticas de ensino para cumprir as
exigências da avaliação, já que, se o rendimento
dos alunos não for satisfatório, significará, em
geral, o fracasso da estrutura técnico-pedagógica da instituição.
Segundo Buck (1988:17, apud Retorta, 2005)
Existe uma tendência natural para professores e alunos de adaptar
atividades de sala de aula para as exigências de um exame, especialmente
quando o exame é muito importante para o futuro dos alunos e taxas
de aprovação são usadas para mensurar o sucesso do
professor. A influência do exame na sala de aula (referido como
efeito retroativo) é, logicamente, muito importante; tal efeito
pode ser tanto benéfico quando maléfico.
Essa é a situação comprovada em uma escola estadual
de Ensino Básico, na qual realizamos estágio supervisionado
referente à Licenciatura em Letras. A coordenadora pedagógica
da escola, face aos insatisfatórios resultados das redações
dos alunos da instituição no SARESP 2004, solicitou que
aproveitássemos, por um lado, a inauguração de uma
nova biblioteca no local – agora mais ampla e organizada –
e, por outro, a implantação do projeto “Hora de Leitura
na Biblioteca” para ajudarmos a potencializar as habilidades de
leitura e escrita dos alunos de forma que realizássemos atividades
de leitura e produção textual que fugissem do modelo das
produções que visavam preparar o aluno para o SARESP.
Nos primeiros contatos que estabelecemos com as crianças, perguntamos
o que elas gostavam, ou então, gostariam de ler. Durante nossa
prática de ensino no estágio partimos da premissa a qual
não basta que o aluno saiba ler. É indispensável
que, desde cedo, estimulemos o desenvolvimento de seu lado crítico,
que despertemos sua criatividade, sua individualidade, seja frente ao
material de leitura, seja perante o texto que ele próprio produziu.
Em meio a histórias em quadrinhos e contos de fadas, a poesia também
foi citada como preferida de muitos meninos e meninas. Optamos por trabalhar
com alguns textos retirados dos livros do acervo da própria escola.
Os alunos mostraram-se muito receptivos em nossos encontros. No novo espaço
da biblioteca, organizavam-se em grupos de seis ou setes integrantes para
realizar as tarefas por nós propostas. A primeira delas foi a leitura
e discussão de poesias.
A cada poesia lida, íamos nos encantando com o que as crianças
falavam e escreviam. Suas “palavras” orais e escritas eram
realmente brilhantes: os alunos faziam significações das
poesias, as aliavam ao seu projeto pessoal de escrita; também possuíam
noções textuais de gênero, coesão, progressão
referencial, intertextualidade, etc. Foi nesse contexto que nos demos
conta de que a maioria das crianças não tinha tantos problemas
de leitura escrita. O que enxergávamos, o que presenciávamos
em cada uma das aulas, era o contrário do que os resultados do
exame SARESP 2004 denunciaram.
Solicitamos à coordenadora pedagógica da instituição
que nos permitisse olhar os documentos do SARESP 2004 referentes às
questões da prova, à prova resolvida pelos alunos e à
avaliação realizada pelos corretores. Ao olhá-los,
notamos que nem todas as séries haviam tido baixo rendimento no
exame. Mas que, em especial, a maioria dos estudantes da quarta série
do ano de 2004 obteve baixos conceitos no quesito redação.
Porém, ao ler as redações da prova, uma surpresa:
não eram insatisfatórias como os indicadores mostravam.
Segundo os resultados divulgados, muitas dessas produções
textuais apresentavam problemas como, por exemplo, o da adequação
ao tema/contexto proposto. Contudo, as redações que lemos
mostravam que as crianças realizaram operações lingüísticas
tais como a da progressão temática: procuravam desenvolver
uma história com início, meio e fim acerca do que lhes foi
pedido. Para isso, utilizaram-se de elementos coesivos que garantiam a
coerência de seus textos. Não podemos deixar de salientar
que a presença de títulos nos textos demonstrou que os alunos
sabiam a importância e a função desse elemento textual,
adequando-o às suas historinhas.
Diante deste fato, decidimos conhecer melhor alguns dos fatores que possivelmente
contribuíram para que houvesse tamanha discrepância entre
os resultados do exame e entre as redações realizadas, naquela
escola, pelos alunos das quartas séries.
Nosso primeiro passo nessa jornada consistiu em analisar a proposta de
redação referente à quarta série do período
da tarde no SARESP 2004. Essa primeira investigação forneceu-nos
pistas valiosas para compreendermos as razões da discordância
entre resultados.
No quadro que segue (Fig.1), podemos notar que a proposta de produção
textual tem como apoio um texto não-verbal . Logo abaixo da figura,
há a apresentação da proposta propriamente dita e
das instruções para a realização da atividade.

Primeiramente,
chama a atenção na proposta de avaliação acima,
o fato de ela conter uma grande imagem que atua não só como
estímulo visual para o aluno, mas também como suporte ou
complemento da parte verbal da avaliação. Porém,
há divergência entre a figura e a proposta de produção
textual, já que na primeira, há a foto de um gato e um pato
e é solicitado aos alunos que escrevam uma história entre
um pinto e um gato. Trata-se de um detalhe que demonstra certo descaso,
por parte dos idealizadores do SARESP, na elaboração das
propostas de atividades do exame. Como sabemos, as imagens também
contribuem para o sentido do texto e, nesse caso, o fato de haver a foto
de um pato e um gato e não de um gato e um pinto, poderia causar
certo estranhamento, ou então, até confusão nos alunos,
que poderiam ficar indecisos em relação ao significado da
palavra “pinto”: pinto quer dizer pintinho, filhote da galinha,
ou pinto quer dizer pato?
Em segundo lugar, trata-se de uma proposta de produção textual
pouco significativa para o aluno. Com certeza, a maioria das crianças
de quarta série já tiveram inúmeras experiências
de mundo em que presenciaram ou escutaram alguma história relacionada
aos bichos: muitas possuem animaizinhos de estimação; outras,
medo de animais venenosos ou ferozes; lembram-se de terem visto um bichinho
morto na rua; ou ainda, assistiram ou leram alguma reportagem sobre um
animal exótico...Enfim, são numerosas e variadas as experiências
e relações das crianças com o universo dos bichos.
Uma proposta inteligente de redação seria aquela que contemplasse
e valorizasse os saberes e vivências dos estudantes. Ao exigir que
escrevam uma história entre o gato e o pintinho/pato da ilustração
estamos bloqueando as relações afetivas, criativas e subjetivas
que os alunos estabelecem com a leitura e escrita durante os anos iniciais
como leitores.
Nossas primeiras análises levaram-nos a crer que a própria
formulação da proposta, inadequada tanto na parte verbal
como na não-verbal, pode ter contribuído para que as crianças
não tenham sentido-se estimuladas o bastante para escreverem suas
redações.
O principal intuito do SARESP é o de estabelecer, através
de indicadores educacionais, uma cultura avaliativa que realmente se estenda
para a sala de aula com o propósito de possibilitar à equipe
escolar a realização de uma análise da sua própria
realidade pedagógica. Contudo, a aplicação do exame
não garante a concretização de seu objetivo, visto
que ainda existem muitos obstáculos a serem superados para sua
efetivação. Oliveira (1998:68-69) aponta que:
um sério
risco que se corre na implantação de uma avaliação
externa é que esta passe a determinar o currículo. No SARESP,
os testes foram elaborados a partir de conteúdos considerados nucleares
em cada uma das disciplinas e série avaliadas, tendo como referencial
as propostas curriculares da SEE. Isso favoreceu a minimização
do risco. No entanto, o que se observou, em muitas unidades escolares,
foi a supervalorização da avaliação do SARESP
em detrimento daquelas realizadas no dia a dia da sala de aula. São
estas que oferecem indícios mais seguros dos aspectos curriculares
e das práticas pedagógicas que precisam ser revistos.
Na escola
em questão, verificamos que “o SARESP passou a ser uma ameaça
para os professores” (Oliveira, 1998: 68): não só
a coordenadoria pedagógica do estabelecimento de ensino, mas também
seus educadores, estavam aflitos com os resultados divulgados, já
que interferem diretamente na conceituação e na reputação
da escola frente à Diretoria de Ensino e à comunidade. Além
disso, como pudemos averiguar, também há a interferência
direta desses resultados nas práticas escolares cotidianas do professorado,
e, por conseguinte, na qualidade de ensino oferecida às crianças.
Na escola onde estagiamos, as práticas escolares parecem ter sido
bem sucedidas no que diz respeito ao ensino/aprendizagem da leitura e
produção textual, se aceitamos a evidência na hora
de leitura na biblioteca. Porém, começaram a ser mudadas
justamente para atender às exigências de um exame externo,
o qual traz aos alunos uma proposição de redação
mal elaborada. Sem dúvidas, trata-se de uma questão que
inspira muita atenção e preocupação.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
GRIBEL, Christiane.
“Minhas férias, pula uma linha, parágrafo”.
Ed. Salamandra. Rio de Janeiro, 1999.
OLIVEIRA, Duzolina Alfredo Felipe de. “Uma avaliação
política do projeto SARESP”. Dissertação (mestrado)
– Unicamp, Faculdade de Educação. Campinas, 1998.
RETORTA, Miriam Sester. “Percepções do professor sobre
o SAEB: um estudo do efeito retroativo”. Dissertação
(doutorado) – Unicamp, Instituto de Estudos da Linguagem. Curitiba,
2005.
VERDINI, Antonia de Sousa. “A sala de aula como espaço de
leitura significativa”. Texto extraído do site
http://www.leiabrasil.org.br/material_apoio/formacao_leiturasignificativa.htm |
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