Andrea Cristina Dias de Oliveira - Universidade
Católica de Brasília – UCB.
Fabíula Martins Ramalho - Universidade Católica de Brasília
– UCB.
Rafael Batista de Sousa - Universidade Católica de Brasília
– UCB.
Uma análise do Auto da alma, de Gil Vicente, coloca-nos
diante de algumas questões fundamentais para uma leitura satisfatória,
pois apresenta lacunas que exigirão do leitor um esforço
a fim de buscar elementos implícitos no texto, de maneira que seja
possível uma leitura mais completa. Umberto Eco trata destas questões
na obra Lector in fabula :
“Um texto é uma máquina preguiçosa
que exige do leitor um duro trabalho de cooperação para
preencher os espaços do não-dito ou do já-dito que
ficou em branco (...), o texto não é outra coisa senão
uma máquina pressuposicional”1
De acordo com Eco, todo texto exige um pacto de cooperação
texto-leitor, uma relação de interação que
deverá tornar a leitura mais completa, na qual o leitor deverá
decifrar o texto por meio desse jogo de regras implícitas. No Auto
da Alma, os vários ‘espaços vazios’ do texto
são ainda maiores que num texto convencional, pois um texto teatral
pressupõe uma série de “brechas”, devido à
presença de “signos não-verbais com os quais os verbais
se relacionariam”2, o que torna o texto teatral uma máquina
ainda mais preguiçosa do que outra tipologia textual. Nesse caso,
temos que colocar alguns pontos em questão: primeiro, é
importante pensar que este texto, datado do século XVI, requer
não só uma análise contextual, de seu conteúdo
e de suas metáforas – o que possibilitará posteriormente
estabelecer as relações intertextuais – como também
uma observação criteriosa de que se trata de um texto que
não foi construído para fim de leitura, mas que supõe
a representação.
Os princípios de contextualidade são muito importantes,
pois segundo Eco: “Existem (...) metáforas que podem funcionar
num dado universo cultural e intertextual mas são inconcebíveis
num universo diferente”3. Daí a necessidade de situar o leitor
na construção das personagens, na simbologia litúrgica,
nas canções apresentadas ao longo do auto.
Dessa maneira, ler um texto teatral (que se pretende como uma totalidade
que une palavra, corpo, movimento, espaço, tempo, elementos que
coexistem virtualmente no texto) torna-se algo bastante intrigante, pois
é necessário pensar que obras de grandes autores como Shakespeare,
Brecht, Racine e do próprio Gil Vicente foram escritas com objetivo
da encenação, sendo a publicação como um “acidente”.
No entanto, não se pode encarar a representação cênica
como o elemento que estaria faltando para a compreensão do texto,
uma vez que não está isenta de plurissignificações
e de lacunas. Do contrário, essa falta representará sempre
um barreira intransponível no momento da leitura.
O que se propõe aqui é justamente uma pesquisa que, observando
essas lacunas e esses obstáculos que o leitor encontra, consiga
realizar uma leitura do texto teatral que proporcione uma ampliação
da capacidade de interpretação, desvinculando a leitura
da dependência da representação. No caso de Gil Vicente,
por muito tempo ela foi necessária, devido à ausência
do texto impresso, de forma que a obra não contava com outras maneiras
de tornar-se conhecida, pois havia pouquíssimos manuscritos, geralmente
entregues pelo autor diretamente aos atores que iriam representar. Hoje,
para estabelecer a relação com esse texto o tomamos em sua
materialidade, buscando elementos inerentes ao texto, como o seu modo
de organização, a constituição das suas personagens
e o contexto a que está relacionado, lembrando que o Auto impresso
só chegou às mãos dos leitores cerca de 45 anos depois
de escrito, na edição da Copilação de todalas
Obras de Gil Vicente, publicada em 1562, por Luís Vicente, filho
do escritor.4 Com esses pontos em mente pode-se começar um estudo
do texto, analisando:
“O título e o gênero da obra, a maneira
como suas partes são nomeadas, a existência de indicações
cênicas , os nomes das personagens e o modo como os discursos se
distribuem sob esses nomes, eis as primeiras revelações
que a leitura em sobrevôo de uma peça permite.”5
Para uma leitura inicial, interessam-nos neste momento
os traços mais evidentes e exteriores do texto. Nesse auto vicentino,
temos uma personagem-título, a Alma, que vive as duas grandes partes
em que a moralidade se desenvolve. Num primeiro momento, a Alma percorre
um caminho em companhia do Anjo Custódio que tenta levá-la
adiante, em direção à Igreja (Estalajadeira), e por
conseguinte a Deus, e também em companhia do Diabo, que disputa
a Alma puxando-a para trás. Esse conflito se delineia entre o bem
e o mal, entre o material e o transcendental e insere discussões
sobre o livre-arbítrio, os valores afirmativos de otimismo, força
de vontade e sobre os desejos humanos, permitindo ainda um diálogo
com a parábola do Bom Samaritano, todos temas recorrentes no universo
medieval.
Além da Alma, do Anjo Custódio e do Diabo, há ainda
as personagens provenientes da tradição cristã, que
representam a Igreja e seus doutores (Santo Agostinho, Santo Ambrósio,
São Tomás e São Jerônimo), que aparecem durante
a refeição mística que simboliza as estações
da paixão de Cristo.
Tendo sido escrito para ser encenado numa quinta-feira santa, o Auto não
poderia deixar de ter elementos religiosos, ensinamentos cristãos
para quem o assiste ou lê.
Segundo pesquisadores, esta peça pertence à mesma série
das barcas, pois nos mostra a Alma Humana entre a perdição
e a salvação; trata-se de uma alegoria, ou seja, abstrações
personificadas. “A alegoria é particularmente grata ao pensamento
e a arte da Idade Média e é ela que caracteriza o gênero
da moralidade”6. A alegoria é um recurso utilizado em todo
o Auto, e sua significação se explica no argumento inicial:
“Assi como foi cousa muito necessária haver
nos caminhos estalagens para repouso e refeição dos cansados
caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse
ua estalajadeira para refeição e descanso das almas que
vão caminhando para a eterna morada de Deus. Esta estalajadeira
das almas é a madre Santa Igreja, a mesa é o altar, os manjares
as insígnias da paixão”.7
Neste trecho, a alegoria é evidenciada pela descrição
da Igreja, que deixa de ser apenas um nome comum, ou um local da busca
de Deus, para ganhar vida própria e agir como uma personagem.
A alegoria é explicada por Santo Agostinho, que com os três
outros grandes Doutores da Igreja rodeiam a Igreja “estalajadeira”.
Em linhas gerais, podemos dizer que a peça é dividida em
duas partes: a primeira é quando a Alma Humana, representada por
uma mulher, vai seguindo o caminho da Igreja ao lado do Anjo, que procura
lhe mostrar o caminho da salvação, enquanto o Diabo a desvia
para trás, mostrando-lhe a luxúria, objetos profanos, de
uma forma sedutora para que a alma deseje esse caminho, e é o que
realmente acontece num trecho do Auto. Enquanto um a chama para o sacrifício,
o outro convida-a a se divertir. Mas a Alma é livre, livre para
divertir-se ou sacrificar-se, e parece (durante alguns trechos) que irá
ceder às tentações do diabo (quando aceita os ornamentos),
mas logo em seguida, através da intervenção do Anjo,
retoma o domínio de si, prossegue seu caminho e chega à
estalagem, à Igreja.
“ALMA - Isto não me pesa nada,
mas a fraca natureza
me embaraça.
Já não posso dar passada
de cansada:
tanta é minha fraqueza,
e tão sem graça!
Senhor, ide-vos embora,
que remédio em mim não sento,
já estou tal...
ANJO - Sequer dai dous passos ora,
até onde mora
a que tem o mantimento
celestial.
Ireis ali repousar
comereis alguns bocados
confortosos;
porque a hóspeda é sem par
em agasalhar
os que vêm atribulados
e chorosos.
ALMA - É longe?
ANJO - Aqui mui perto,
Esforçai, não desmaieis!
E andemos,
qu’ali há todo concerto
mui certo:
quantas cousas querereis
tudo tendes.
A hóspeda tem graça tanta.
far-vos-á tantos favores!
ALMA - Quem é ela?
ANJO - É a Madre Igreja Santa,
e os seus santos Doutores”.8
A segunda parte da peça, em que se evidencia a
moralidade, é quando a Alma confessa suas culpas, sendo assim acolhida
pela Igreja e pelos quatro Doutores. Ao som de uma bela oração
rezada por Santo Agostinho, é-lhe servida uma refeição
constituída pelas insígnias da paixão (açoite,
a coroa de espinhos e os pregos da cruz). A Alma despe-se dos ornamentos
considerados profanos e adora o crucifixo. Resistindo assim às
tentações do demônio e optando pela via difícil
do sacrifício, será reconfortada pela Igreja graças
a seu arrependimento.
Na moralidade do Auto, tem-se muitos símbolos, e há nela
muito mais que a comparação tradicional da vida com um caminho.
Reváh demonstrou que ela provém da interpretação
alegórica da parábola do Bom Samaritano.
Esta Parábola está no Evangelho de São Lucas e conta
a história de um homem que vai de Jerusalém para Jericó
e é atacado por ladrões que o maltratam e o roubam. Um sacerdote
e um levita passam por ele, mas não o socorrem. Um samaritano em
viagem ajuda-o, trata-lhe os ferimentos e leva-o a uma estalagem, deixando
ao dono da estalagem dinheiro, para que tome conta dele.
Segundo a interpretação alegórica de Fernando de
Mello Moser, o viajante representa Adão, que por sua vez representa
o gênero humano. Os salteadores que o atacam são os diabos
(no Auto aparecem dois). O samaritano é Cristo, e a estalagem é
a Igreja. Segundo Mello Moser, a semelhança da Parábola
com o Auto da Alma é evidente. Mas, segundo ele, a moralidade na
obra de Gil Vicente é mais rica de sentido. Ele explica que a refeição
mística da Alma é a dramatização das duas
missas da Quinta-feira Santa – a missa da reconciliação
dos penitentes e a da “Cena Domini”, em que se fazia a “reservatio”
das hóstias que seriam ministradas no dia seguinte.
As virtudes morais eram lembradas e enaltecidas nos autos, sempre visando
alcançar o perfeito equilíbrio entre a saúde do corpo
e do espírito. É isso eu se refere a primeira parte do Auto,
em que a Alma não aguarda um julgamento, mas tem a liberdade de
escolher seu caminho.
Além dessas referências religiosas, temos também,
na introdução da peça, referência a quatro
Santos Doutores da Igreja Católica. Parece-nos importante que o
leitor saiba quem foram esses santos e qual foi a contribuição
deles à Igreja.
Santo Agostinho é o primeiro a falar no início do auto,
justamente por ser um dos mais importantes Doutores da Igreja. Viveu entre
354 e 430 na Itália. Depois de uma vida mundana converteu-se ao
Cristianismo e tornou-se grande estudioso e filósofo da Igreja
Católica. São Tomás provavelmente é aquele
que viveu no século IV, tendo sido teólogo escolástico
e que viveu na Itália e na França. São Jerônimo
também viveu no século IV na Itália, foi o primeiro
a traduzir a bíblia do hebraico para o latim. E Santo Ambrósio
curiosamente é do século IV, foi bispo de Milão e
grande escritor de obras dogmáticas e morais da Igreja. Santo Agostinho
foi batizado por Santo Ambrósio e foi seu grande ouvinte.
Na segunda parte do auto, quando a Alma entra na igreja, Santo Agostinho
reza uma oração na qual “Gil Vicente glosa parte da
seqüência “Stabat Mater”, da autoria do franciscano
Giacoponi da Todi (séc.XIII)”9.
Em seguida os quatro Doutores cantam o primeiro dos sete hinos que estão
contidos na peça. Esta cena é introduzida com a seguinte
rubrica: “Estas cousas, estando a Alma assentada à mesa,
e o Anjo junto com ela, em pé, vêm os Doutores com quatro
bacios de cozinha cobertos, cantando: Vexilla Regis prodeunt.”10
A Alma é então convidada a participar da encenação
da Paixão de Cristo que se faz através da apresentação
das insígnias, chamadas iguarias.
Os hinos são as principais lacunas do texto. Se o leitor tiver
acesso aos hinos completos, ele poderá entender a relação
destes hinos com as iguarias apresentadas e assim preencher e interpretar
os vazios do texto.
Dos sete hinos, não se encontra registro de dois: “Ave Flagellum”
e “Ave Corona Espinarum” .
Após a confissão da alma à Igreja, entram os quatros
Doutores com uma bandeja contendo as iguarias que vão ser apresentadas
à alma para sua purificação. É aqui que eles
cantam “Vexilla Regis Prodeunt” que “é um hino
de saudação á Cruz de Cristo cuja letra é
conhecida; é da autoria de S. Venâncio Fortunato. Canta-se
no domingo de Ramos durante a Semana Santa.11
Vexilla Regis prodeunt:
Fulget Crucis mysterium,
Qua vita mortem pertulit
Et morte vitam protuli.
Quae vulnerata lanceae
Mucrone diro, criminum
Ut nos lavaret sordibus,
Manavit unda et sanguine.
Impleta sunt quae coincinit
David fideli carmie,
Dicendo nationibus:
Regnavit a lingo Deus.
Arbor decora et fulgida,
Ornata redis purpura,
Electa digno stipite
Tam sancta membra tangere
Beata, cujus brachiis
Pretium pependit saeculi:
Statera facta corporis,
Tultique praedam tartari.
O Cruz. Ave, spes única,
Hoc passionis tempore,
Piis adauge gratiam,
Reisque dele crimina.
Te gons salutis Trinitas,
Collaudet omnis, spiriyus:
Quibus Crucis victoriam
Largiris adde praemium.
Amem.
Tradução:
Já do Rei se arvora o estandarte,
Da Cruz alto mistério resplandece.
Da vida o divo Autor morte padece,
E co’ ela nova vida nos reparte.
Pois ao violento impulso dum soldado,
Ferido com a lança cruelmente,
Para lavar ao homem delinqüente
Água e sangue manou do seu costado.
Cumprida se vê já a profecia
Que em verso sempre fiel David cantava.
E a todas as nações anunciava
Que Deus em madeiro reinaria
Lenho o mais brilhante e mais formoso,
Com sangue do Rei enobrecido,
De tronco digno e fértil escolhido,
Para tocar o corpo mis precioso.
Ditoso, em cujos braços encravado
Dos séculos o preço está pendente,
Feito peso do corpo e juntamente
Arrancando aos abismos o roubado.
Saudamos-te, Ó Cruz, firme esperança:
Em este tempo e dias dolorosos
A graça acrescente aos piedosos
E o perdão de sua culpa ao réu alcança.
Da vida clara fonte, ó Trindade
Todo espírito renda a ti a glória,
Àqueles que da Cruz dás vitória
Concede-lhes feliz eternidade. — Amém.
O segundo hino é o “Salve Sancta Facies”,
cuja letra é conhecida. Ele é cantado depois da adoração
à toalha com que Verônica enxugou o rosto de Cristo durante
a sua subida ao Calvário.
Após esse hino, temos a apresentação da primeira
iguaria das insígnias da paixão, que são os “Açoutes”
de Cristo. Eles são apresentados à alma e todos em adoração
cantam o terceiro hino da peça, “Ave Flagellum”, que
é desconhecido. Então temos a entrada da segunda iguaria,
que é a “Coroa de Espinhos”, e se canta o quarto hino,
“Ave Corona Espinarum”, do qual também não se
tem indício.
A terceira iguaria são os cravos e vão ser cantados os versos
“Dulce lignum, dulcis clavus” do hino “Lustra Sex”,
de São Fortunato, que é cantado na Festa de Adoração
da Cruz, que acontece na sexta-feira Santa.
Na quarta iguaria temos a entrada do crucifixo apresentado por São
Jerónimo , todos em adoração cantam “Domine
Jesu Christe” do qual não se tem nenhum indício nem
da letra e nem da música, mas existe uma oração na
cerimônia católica que começa com essas três
palavras.
No final, depois de adorarem a Cruz de Cristo, que é a quarta iguaria,
canta-se o hino final: “Te Deum Laudamus”. “É
um dos mais antigos e conhecidos hinos religiosos; nele se sucedem uma
acção de graças, uma prece e uma manifestação
de confiança em Deus.” 12
De posse dessas informações podemos preencher grande parte
dos vazios que encontramos no auto. Os hinos são de fundamental
importância para o preenchimento dos vazios existentes no texto.
Seria importante que durante a leitura do auto, o leitor pudesse ter acesso
à letra e à música dos hinos, pois eles não
aparecem no texto teatral, mas somente o título ou um verso de
cada hino. Se o leitor obtiver essas informações ele vai
conseguir compreender melhor o texto, pois terá condições
de preencher algumas de suas lacunas.
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