Maria Alice Aguiar - Doutora em Teoria Literária.
Titular Fundadora - da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO.
1. Fundamentação teórica
Minha pesquisa se faz sobre a importância da leitura
de textos literários no universo infantil. O projeto em foco foi
proposto a partir da experiência de leitura de textos literários
com professores e alunos do ensino Pré-Escolar e 1º e 2º
ciclos do ensino fundamental – de 1ª a 4ª série
-, numa tentativa de mudar o enfoque do trabalho do professor com a literatura,
ou seja, dar um novo olhar à sua prática pedagógica.
Entendemos que, para tal, se faz necessário construir, com o professor,
o conhecimento da multissignificação do texto literário,
sua fruição, incentivando-o a, ao ler, atravessar superfície
das águas do texto para mergulhar nas suas diversas isotopias,
pela compreensão mais vertical da escritura, nascida no prazer.
Acreditamos que a literatura é, por excelência, um agente
formador que pode vir a suscitar uma nova postura no professor que se
propõe ler, que, com certeza, em assim fazendo, vai estar ligado
à necessidade de reconduzir sua prática, apontando para
toda a potencialidade criadora, inventiva, emocional, cultural e crítica
que a escrita literária possui. É fato que, ao longo do
tempo, tem-se dado somente à escola a responsabilidade pela formação
e desenvolvimento de leitores. Paralelo a isto, formam-se professores
que não têm nenhum vínculo com uma postura leitoral.
A importância da fantasia e do imaginário do ser humano é
extraordinária, dado que as vias de entrada e de saída do
sistema que coloca o organismo em conexão com o mundo exterior
não é o do cerebral. Este representa apenas 2% do conjunto.
O restante dos 98% se refere ao funcionamento interno. Constitui o mundo
psíquico relativamente independente, em que os meios - necessidades,
sonhos, desejos, idéias, imagens, fantasias – inserem, neste
mundo, nossa concepção do mundo exterior.
Trabalhando com o mascaramento do real, o discurso da literatura instaura
uma mentira necessária ao desvelamento deste mesmo real. Assim,
o prazer do texto como simulador surge na confluência das palavras
que trapaceiam, teimam, brincam, deslocam, descentram-se para o imprevisível.
E Barthes o diz textualmente: esta trapaça salutar, esta esquiva,
esse jogo magnífico que permite ouvir a língua fora do poder,
no esplendor de uma revolução permanente da linguagem eu
a chamo, quanto a mim, literatura.
É certo que para além dos enredos que se manifestam na narrativa,
que atravessam idades e idades e que instam um bem-estar nos leitores
adultos e crianças, encontra-se o lugar da linguagem simbólica
que os edifica. Essas histórias, construídas pela via do
imaginário como fonte de prazer encontram eco no pensamento de
Freud, quando assim se expressa: O escritor criativo faz o mesmo que a
criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva a sério;
isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção
enquanto mantém uma separação nítida entre
o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação
entre o brincar infantil e a criação poética . E
completa explicando que esta “irrealidade” do mundo imaginativo
do escritor é a mola mestra de seu êxito em relação
ao leitor, pois muita coisa que se fosse real, não causaria prazer,
pode proporcioná-lo como um jogo de fantasia, e muitos excitamentos
que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer
para os ouvintes e expectadores na representação da obra
de um escritor .
Os homens constroem a vida em sociedade através de seus símbolos,
crenças, costumes e formas diferenciadas de organização.
Ao originar um sistema de representações, que translada
e legitima a sua ordem, qualquer sociedade impõe, igualmente, espiões
do sistema que possuem uma certa técnica no manejo das representações
e símbolos. Como assevera Paul Ricoueur todo símbolo autêntico
possui três dimensões concretas: a dimensão cósmica
– a que retira toda a sua figuração do mundo visível
que nos rodeia; a dimensão onírica – a que se interna
pelas lembranças, pelos gestos que se manifestam em nossos sonhos
e fundam o território de nossa geografia mais íntima; a
dimensão poética - a que apela para a linguagem mais intensa.
Tecendo os fios deste tapete, entre laçadas de ponto cheio e de
ponto atrás, estabelecendo relações entre vida e
escritura, vai-se delineando uma construção e uma reconstrução
de realidades internas do ser humano. Nesse movimento de avesso e direito
da tecedura simbólica do discurso literário, vai ser possível,
ao leitor-mirim, perceber e assimilar uma visão de mundo de dentro
e de fora de si mesmo, pelos perfis projetados esteticamente nos textos.
Através dos símbolos e das alegorias de que os escritores
lançam mão para configurar esteticamente sua escritura,
a voz do narrador vai compondo rituais de passagem, resgatando a memória
ancestral, configurando desejos e possibilidades de um impossível
até então cristalizado no interior de cada um de nós.
Por ser fantástica e poética, a literatura é, antes
de tudo, fonte de maravilhamento, de reflexão pessoal, de espírito
crítico. Isto porque, quando descobrimos a beleza tornamo-nos mais
exigentes e mais críticos diante do mundo. E porque o objeto semiótico
quebra clichês e estereótipos, instiga uma recriação
que desbloqueia e fertiliza o imaginário pessoal do leitor, dinâmica
indispensável para a construção de uma criança
que, amanhã. saiba inventar o homem. É fato que a criança
inventa e (re)inventa a própria vida no jogo lúdico da linguagem,
articulando real e imaginário. Sendo plurissignificativo, ecoam,
no discurso literário, várias vozes, vários significados
que são colhidos e acolhidos pelos leitores. Temos trabalhado com
os chamados clássicos da literatura infantil e com os livros que
trazem histórias da atualidade. Confrontando as duas situações
de narrativa, percebemos que os personagens das histórias atuais
- sempre calcados, de alguma maneira, nos fundamentos instituídos
pelos contos de fadas tradicionais – muitas das vezes parecem ser
mais próximos do humano e suas atitudes têm mais a ver com
os dias de hoje.
As princesas ou heroínas dos contos modernos não são
mais tão submissas. Os heróis, por sua vez, não precisam
ser lindos. A linguagem tem mais apelo visual. Até aspectos da
sociedade informatizada já permeiam o reino do faz de conta. No
entanto, insisto no fato de que uma só uma coisa não mudou:
a fantasia. E, junto com ela, a fonte de prazer. Tomamos como exemplo
livros e histórias infantis apresentadas no cinema, como Harry
Portter, desenhos do tipo Pokémon e os recentes longa-metragem
Shrek 1 e 2, Atlantis, Os pequenos Espiões e Os Incríveis,
que podem ser chamados de conto de fadas moderno, pois cumprem bem sua
função junto à abertura de trilhas para o crescimento
da criança, permitindo que ela viva a encenação de
uma situação conflitante e de sua resolução.
É o mesmo padrão de comportamento que elas vêem no
dia-a-dia, só que contada de uma forma mágica. É
através desta linguagem mágica que as crianças se
relacionam com o mundo, aprendendo regras e éticas da sociedade.
Como escritora de livros infantis, já tive muitos contatos com
leitores-mirins e já presenciei o quanto as crianças são
capazes de escavar o não dito do texto e, ao mesmo tempo serem
“massacradas” pelos professores que impedem o desenvolvimento
de sua leitura, achando que somente o que eles pensam é o correto.
Estabelecem uma verdade interpretativa única com tamanha convicção
que não sobra espaço para o aluno ter dúvidas. Quando,
em verdade, as dúvidas deviam repousar sobre as certezas. Segundo
Nietzsche, o homem constrói para ele, a partir de suas criaturas
movediças, um novo mundo regrado como uma praça forte, mas
nem por isso se deixa subjugar por este mundo. Sai em busca de “um
outro território” para sua atuação, de “um
outro leito de rio” e vai encontrá-lo particularmente no
mito e, portanto, na arte. É ai que o homem, então, mostra
o desejo de dar ao mundo de que dispõe, enquanto acordado, uma
forma tão cromaticamente irregular, tão inconseqüente,
tão incoerente, tão estimulante, tão nova como a
do mundo do sonho. Isto porque, somente pela teia rígida do conceito,
o homem, acordado, tem a certeza de estar acordado. E, exatamente por
isso, ele crê estar sonhando, quando a trama conceitual é
rasgada pela trama da arte.
É com base nestes pressupostos teóricos e com base numa
experiência de mais de 25 anos trabalhando com crianças desta
faixa etária que temos planejado e desenvolvido um trabalho com
professores e alunos de uma escola de Pré-Escolar à 4ª
série, acreditando que a literatura é uma das vias de acesso
do ser humano à sua subjetividade, ao seu desenvolvimento psíquico,
intelectual, cultural. Desta forma, cremos que os professores são
como artesãos que trabalham com o barro ainda macio. Esculpir ou
não uma obra de arte com este barro, depende do que vai tentar
construir com suas mãos.
Planejamento do Projeto
Face este fundamento teórico, desenvolvi um trabalho
com as professoras e as crianças de uma escola de Niterói
que tem uma clientela que vai do pré-escolar à 4ª série.
No primeiro momento, a coordenação da área de Ciências
e Humanas se reuniu com as professoras, em final de 2004, para planejar
o Projeto que se desenvolveria no ano de 2005. Título do Projeto:
Eureca! O sonho da criação e a criação do
sonho, baseado no ano da física – 100 anos das publicações
dos trabalhos de Einstein – nos 200 anos da morte de Hans Christian
Andersen e nos 400 anos da publicação de Dom Quixote de
la Mancha.
O projeto foi dividido em quatro subprojetos, dos quais eu, aqui, falarei
do primeiro, que ficou a cargo da coordenação da área
de Língua e Literatura, para ser trabalhado nos meses de fevereiro,
março e abril. Antes de começar qualquer atividade, fizemos
uma palestra para as professoras, com propostas de leitura e de pesquisa,
momento em que elas ficaram conhecendo a história de Arquimedes
e do como e do porquê ter ele dito a palavra Eureca. Elas deveriam
fazer o mesmo com as crianças, para que todas soubessem –
no nível de seu entendimento – o significado do que iriam
realizar. Feito isto, Passamos, então, a projetar um trabalho com
os símbolos, na busca de lermos o mais verticalmente possível
cada livro, em cada série. Já que a culminância do
projeto seria uma Feira de Livro, a ser realizada em fins de abril, e
para não incorrermos em repetição, dividimos os temas
por séries, seguindo alguns dos temas das estantes da Biblioteca
da escola, quais sejam: A descoberta da escrita; Mistérios e Calafrios;
Quem conta um conto...; Histórias de Príncipes e Princesas,
Hans Christian Andersen.
• À quarta série coube a leitura do livro Uma aventura
da escrita: o desenho que virou letra, de Lia Zatz (Editora Moderna) e
qualquer outro livro que a criança pegasse na Biblioteca para ler
e realizar, na sala, com a professora, o estudo do livro adotado, comparando-o
com o livro escolhido, já que cada um apresentava especificidade
diferente em seu discurso: um deles era a história da escrita,
enquanto o outro, um livro de literatura.
• À terceira série, coube desenvolver o tema Mistérios
e Calafrios, lendo o livro Fantasma só faz BUUU!, de Flávia
Muniz (Editora Moderna) e qualquer outro livro também escolhido
na Biblioteca da escola, que tivesse o mesmo tema.
• À segunda série, coube ler Fábulas de Esopo,
(Editora Scipione), e analisar, cada grupo, cerca de cinco fábulas,
compará-las e descobrir o que simbolizava cada animal da sua fábula
e o porquê.
• A primeira série leu o livro A história da princesa
que sabia de quase tudo... menos de uma coisa, de Rosane Pamplona e Dino
Bernardini Júnior e qualquer outro Conto de Fadas tradicional.
Coube a ela o estudo dos símbolos de amor nos contos de fadas.
• A Alfabetização ficou incumbida de ver o filme O
Patinho Feio do Andersen, ler, com a professora, O pintinho que nasceu
quadrado, de Regina Chamlian (Editora Pioneira), O pintinho pelado, de
Noel de Pádua Filho (Editora Seed) e fazer pesquisa e um livro
sobre animais que têm o corpo revestido de penas e sobre o cardápio
das aves.
• A Pré-Escola teve distribuída a sua leitura assim:
O primeiro período – crianças de 03 anos – leu
o livro do Maurício Veneza Chapeuzinho Vermelho do jeito que o
Lobo contou comparando com o conto tradicional. O segundo período
leu o livro Troque-Troque, de Mirna Forti (Editora do Brasil) e cada turma
do terceiro período – são três – leu um
livro da Coleção Bilbeli, de Edimilson de Almeida Pereira,
que depois foram trocados, para que eles comparassem as histórias.
Foram eles: Carlito, o Elefante, Zuzi, a abelha, Zefa, a girafa (todos
da Franco Editora).
À leitura dos livros, sucedeu-se o estudo dos mesmos,
o estudo de seus símbolos e, finalmente, a produção
de um livro, artesanalmente construído, onde cada criança
tinha chancelada sua presença na produção, passando
uma parte a limpo e ilustrando-a.
Divisão dos trabalhos por série
Pré-Escolar : Brincando de ler
As crianças compraram os livros, leram em conjunto,
ouviram outras historias que tinham relação com o tema da
história lida e, depois, construíram sua própria
história e, cada um, ficou responsável por ilustrar uma
frase da história feita por ele e pela turma.
Alfabetização: Hans Christian Andersen
As crianças da Alfa viram o desenho do Patinho
feio, ouviram a história de Andersen e outras histórias
que se baseavam no tema. Construíram seus livros por turma. Foram
fazendo a história com a professora que escrevia, no quadro, a
criação dos alunos. Depois, coube a cada criança
a cópia de uma frase da história e a ilustração
da mesma para elaborar o livro.
1ª série: Coisas de Amor
Cada turma da primeira série produziu três
livros. Cada uma das quatro turmas fez uma história em conjunto.
Os demais livros, foram distribuídos de acordo com os seguintes
temas:
O que é o que é? As crianças fizeram pesquisa sobre
este tipo de adivinhação que tivesse por resposta coisas
de amor; Amor em Poesia – as crianças fizeram pesquisa sobre
quadrinhas de amor e, em conjunto, escolheram quais deveriam constar no
livro; Que mentira, que lorota boa! A pesquisa sobre simpatias de amor
e discussão sobre superstição; Onde o Amor Acontece.
A pesquisa aqui foi sobre espaço na narrativa: lugares do amor
nos Contos de Fadas; Símbolos de Amor nos Contos de Fadas- Neste
livro as crianças fizeram um levantamento dos elementos que simbolizavam
o amor, de acordo com o que entenderam. Por exemplo, o sapatinho de cristal
na Cinderela, as tranças em Rapunzel, etc.; Recados de Amor - foram
pesquisadas frases que falavam de amor; Sabor de Amor - cada criança
trouxe uma receita que tivesse ‘gosto de amor’; Adivinhações
de Amor.
As capas dos livros foram feitas pela turma, com orientação
do professor.
2ª Série: Quem conta um conto...
Cada uma das cinco turmas da segunda série produziu
cinco livros, sendo um livro por grupo. Sua produção foi
de Fábulas. Tendo por base as Fábulas lidas, eles as reescreveram,
mas inserindo nas suas fábulas coisas que achavam que deveriam.
Um segundo livro foi produzido por toda a turma. As crianças fizeram
um levantamento do significado simbólico de cada animal que fazia
parte das fábulas desenvolvidas pela turma e construíram
um livro a que deram o nome de Símbolos dos Animais nas Fábulas.
3ª Série: Mistérios e Calafrios
Na terceira série, o número de livros aumentou,
por turma. Os grupos foram menores e cada turma produziu cerca de sete
livros. Toda a turma realizou uma pesquisa sobre símbolos do medo
e da coragem e construíram um livro de símbolos com o significado
de cada elemento concreto que escolheram como símbolo e o ilustraram.
Alguns dos símbolos escolhidos foram: caveira, caverna, etc., todos
eles referentes aos elementos que eles puseram nas histórias que
escreveram.
4ª série – O desenho que virou letra
Cada criança da 4ª série fez o seu
próprio livro. Como haviam lido o livro que contava a história
da escrita e, nele, tomaram conhecimento dos diversos e diferentes símbolos
que a escrita foi desenvolvendo através dos tempos, solicitamos
que, no desenvolvimento de suas histórias, eles trabalhassem com
códigos diversos, enigmas, etc. Cada aluno escreveu sua própria
história, criou os códigos de acordo com sua imaginação
e fez suas lustrações. Além dos livros citados, a
quarta série teve contato, também com um livro escrito por
Gláucia Lewicki – Paloma – que também foi editado
em Braille. Apresentamos o livro para as crianças, e, aproveitando
a questão do estudo dos símbolos e dos diversos códigos,
mostramos o código de leitura dos cegos. E elas puderam comparar
o livro publicado normalmente, de acordo com a realidade em que vivem
– com ilustrações e escrita comum - e o livro publicado
sem ilustrações, somente com a página em branco e
o código Braille.
Foi trazida, para fazer uma palestra nas turmas de 4ª série,
uma pessoa que ficou cega depois de já adulta. Foi uma experiência
riquíssima que incentivou o interesse das crianças pelos
deficientes visuais, auditivos, dentre outros. O projeto seguinte tratará
mais especificamente disto. Neste, procuramos, apenas, trazer à
baila o tema, no sentido de acender nas crianças e nos professores
um maior interesse pelo assunto.
Conclusão
No sábado – dia 26 de abril - fizemos a exposição
dos livros das crianças para os pais e comunidade. Foi um sucesso.
E, o que posso dizer é que, após o resultado – a exposição
dos livros – temos tido, como resultado do resultado uma febre de
escrita, de feitura de livros, de construção de poesias,
de empréstimos na biblioteca. As redações, cada dia
escritas com mais cuidado, detalhes, estrutura, minúcias, prazer.
Toda aprendizagem só acontece a partir de um desejo. Todo leitor
só se faz leitor a partir de um desejo. E este desejo se realiza
no prazer. É necessário que as crianças se sintam
erotizadas pela delícia da leitura, pela sua magia, pelo seu mistério.
É necessário oferecer à criança a chave que
abre seu coração para o encanto que habita dentro de um
livro. Rubem Alves nos diz em seu livro Por uma educação
romântica, da Papirus, no texto sobre O prazer da leitura que o
texto literário é uma partitura musical. E que as palavras
são as notas. [...] Diz ainda que ler é fazer amor com as
palavras. E essa transa literária se inicia antes que as crianças
saibam os nomes das letras. E a missão do professor? Mestre do
Kama-sutra da leitura.
Paralelo ao trabalho que as turmas foram desenvolvendo em suas salas com
suas professoras, eles recebiam, nas aulas de Artes, informações
sobre a primeira manifestação artística do homem,
suas representações nas pedras, via as ilustrações
e faziam, em papel craft, bisões, cavalos, touros, tais como os
desenhos dos homens das cavernas. Por quê? Para quê?
No dia da Feira do Livro, quando as crianças chegaram à
escola, havia uma caverna montada, com toda a escuridão necessária
a uma caverna, com musgos fechando-lhe a entrada e, para penetrar nela,
cada pessoa recebia uma lanterna. E a surpresa das crianças? Ver
seus desenhos pelas reentrâncias dos papéis levemente amassados,
imitando as paredes de pedras. Ver a reprodução dos desenhos
das cavernas feitas por elas próprias. Foi uma verdadeira delícia!
À entrada, uma professora do Jardim fazendo recortes de figuras
para as crianças, ao lado de uma televisão que expunha os
recortes de Andersen e informações sobre ele. Um espaço
a que chamamos Recort-Andersen. Duas salas de oficinas de marcadores de
livros. Uma sala de Oficina de Pintura, com uma faixa larga de papel branco
envolvendo as paredes e livros de Hans Christian Andersen espalhados numa
mesa central para serem ilustrados por quem ali entrasse, a que chamamos
Ilustr-Andersen. Uma sala com quinze computadores em que as crianças
entravam, liam histórias e realizavam atividades sobre elas. Uma
sala com teatro de sombra interativo. Na Biblioteca, um contador de histórias.
Nos pátios, livros e mais livros – cerca de 300 – feitos
pelas crianças e expostos à visitação, além
de duas Livrarias cheias de crianças e adultos manuseando livros,
comprando livros, vivendo livros.
Uma festa! Uma festa do livro. Uma festa da leitura! Uma festa da literatura!
Um tempo em que as histórias fizeram a história de cada
criança daquela escola. E, para abrir o projeto seguinte, autores
dos livros que seriam adotados no próximo projeto, lá na
feira, distribuindo autógrafos. Porque, todos os projetos da escola
se apóiam no imaginário. Apóiam-se em leituras de
livros de literatura e, a partir delas, as discussões sobre Ciências,
Educação Ambiental, História, Geografia, etc. Enquanto
lê, a criança, ao dialogar com os personagens da história,
está dialogando consigo mesma, e, neste diálogo, encontrando
espaço para reconhecer o mundo e reconhecer-se no mundo.
Se estamos falando em Literatura, estamos falando em arte. E arte é,
sem dúvida, um fenômeno de interação. É
certo que o homem se descobriu por força do instinto estético
que o anima, sendo este sentido o primeiro encontro que ele faz com o
despontar de seus valores. Se arte é revelação e
redescoberta da vida do homem, e se educar e apontar para a revelação
e redescoberta do ser em sua possível totalidade, só se
educa humanizando e só se humaniza pela sensibilidade, e, mais
proximamente, pela arte, matéria pela qual o homem desenvolve,
harmonicamente corpo, espírito em sua longa caminhada para a civilização.
E eu escrevi isto na epígrafe de uma revista literária e
repito aqui: A Literatura é como uma sala de espelhos parabólicos,
côncavos, convexos que tem no centro o homem e sua linguagem.