Alaíde Pereira Japecanga Aredes - UEMS
– Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.
INTRODUÇÃO
A formação de professores é um dos
pontos de grande discussão no cenário atual, pois a ela
está intimamente relacionada à qualidade do processo ensino
e aprendizagem dos alunos da Educação Básica. Os
cursos de Licenciatura, de modo geral, não têm contribuído
para uma formação de qualidade. É preciso investimentos
que possibilitem a participação intelectual, capaz de promover
a reflexão sobre procedimentos, atitudes, comportamentos, enfim,
uma prática que seja sinônima da genuína valorização
do saber docente. Nesse sentido, acredita-se que á Universidade
cabe um papel fundamental, ou seja, formar professores reflexivos e conscientes
de que possam produzir conhecimentos, de que devem valorizar seus saberes
e práticas.
A formação continuada do professor é no Momento atual
uma temática incentivada no país inteiro. Com relação
à formação acadêmica, existe uma tendência
atualmente, segundo Lorieri, Pimenta & Leite (1996), de se pensar
a formação do professor tendo em vista a formação
do professor-reflexivo.
Segundo Pimenta (1996) existe um contraponto entre a sociedade que, de
certa forma, não dá importância ao profissional professor
e a necessidade desse como mediador dos processos formadores do cidadão,
mostrando que é de suma importância repensar a formação
dos professores tanto a inicial como a continuada, a partir da análise
das práticas pedagógicas e docentes.
Os saberes sobre a educação e sobre a pedagogia não
geram saberes pedagógicos. Estes só se constituem a partir
da prática, que os confronta e os reelabora desde que possuam um
estatuto epistemológico.
É necessário que se procure introduzir nos cursos de formação
o hábito da pesquisa a partir da prática docente, pois,
esta é anterior a aquela e as duas conservam uma estreita relação.
Segundo Schon (2000), outro ponto interessante refere-se á reflexão
na ação, sobre a ação a e sobre a reflexão
na ação, constituindo-se o professor como um profissional
autônomo.
Para Nóvoa (1995), deve-se considerar três processos na formação
docente: produzir a vida do professor (desenvolvimento pessoal), produzir
a profissão docente (desenvolvimento profissional), produzir a
escola (desenvolvimento organizacional).
Diante das novas tecnologias de comunicação e de informação
as salas de aula podem ser consideradas espaços privilegiados de
aprendizagem? Podemos ir mais longe, podem ser considerados espaços
onde os saberes da docência possam ser visualizados tendo em vista
a produção do conhecimento? Segundo Garrido (1998), pode
até ser que nos faltem referenciais teóricos-metodológicos
para mapear tais tecnologias de comunicação e de informação
no sentido de significá-las. Porém, a sala de aula precisa
ser um espaço de formação tanto para o professor
quanto para o aluno. Para o aluno, tendo em vista a promoção
de situações que o faça pensar, refletir, interpretar,
analisar, elaborar com palavras próprias. Para o professor, na
medida em que considere as práticas que aí acontecem como
objeto de análise, observando a proposição de alternativas
que qualifiquem o ensino e melhorem a aprendizagem. O fato é que
os saberes da docência precisam ser evidenciados e o melhor caminho
é enxergar o professor enquanto investigador de sua própria
prática, o sujeito de seu tempo, de seu espaço e seu trabalho.
Desse ponto de vista pode-se fazer uma afirmação: a atividade
docente é constantemente desafiada pela natureza imprevisível,
ambígua e contraditória das interações dentro
e fora da sala de aula. Na verdade encarar a prática como um momento
de investigação faz-se necessários vários
fatores, inclusive, este contexto é um desafio para os cursos de
formação de professores. Pois, na verdade, para que o professor
possa ser pesquisador, é necessária a formação
de professores reflexivos (SCHON, 1992).
O que são professores reflexivos e o que os cursos
de formação de professores podem fazer para formá-los?
Antes de ousar uma resposta à pergunta acima, considero
relevante uma rápida contextualização do assunto.
Os autores que trabalham o tema da reflexão no ensino referem-se,
a um comportamento reflexivo, a um exercício de reflexão
em relação às ações de variada natureza,
ou seja, o cerne da reflexividade está na relação
entre o pensar e o fazer, entre o conhecer e o agir.
Giroux (1997, p.167) defende a idéia de que o trabalho docente
é intelectual, trabalho que une a teoria na prática e não
simplesmente técnico ou instrumental, trabalho cujo o desempenho
é extremamente tecnicista, argumentando-se que, se nós dignificamos
a capacidade humana de integrar pensamento e prática, [...] destacamos
a essência do que significa entender os professores como intelectuais
transformadores.
O Que é Reflexividade?
Reflexividade é uma característica dos seres
racionais conscientes; todos os seres humanos são reflexivos, todos
pensamos sobre o que fazemos. A reflexividade é uma auto-análise
sobre nossas próprias ações, que pode ser feita individualmente
ou com os outros. O dicionário Houaiss menciona reflexivo + dade,
caráter do que é reflexivo, reflexivo – o que reflete
ou reflexiona, que procede com reflexão, que cogita, que se volta
a si mesmo. O termo original latino seria “reflectere” –
recurvar, dobrar, ver e voltar”. Segundo Libâneo (apud PIMENTA,
2002, p. 55) reflexividade parece ser, pois, um termo adequado para designar
a capacidade racional de indivíduos e grupos humanos de pensar
sobre si próprio
Pérez Gómez (1999, p. 29) afirma:
A reflexão é a capacidade de voltar sobre
si mesmo, sobre as construções sociais, sobre as intenções,
representações e estratégias de intervenção.
Supõe a possibilidade, ou melhor, a inevitabilidade de utilizar
conhecimento à medida que vai sendo produzido, para enriquecer
e modificar não somente a realidade e suas representações,
mas também as próprias intenções e o próprio
processo de conhecer.
O autor se refere a um dos tipos de Reflexividade, ou
seja, reflexividade como consciência dos nossos próprios
atos, isto é, da reflexão como conhecimento do conhecimento,
o ato de pensar sobre o próprio indivíduo, pensar sobre
o conteúdo da minha mente. Penso sobre minhas idéias, examino-as,
quer dizer, a reflexão me leva a formar uma teoria, um pensamento
que orienta minha prática.
Num segundo significado, a reflexão é entendida como uma
relação direta entre a reflexividade e as situações
práticas. Nesse caso reflexividade não é introspecção
e sim algo imanente a prática. É um sistema de resultados
relacionados à experiência, ou melhor, formado no discurso
da experiência de um indivíduo. Dizendo em outras palavras:
a capacidade reflexiva se faz numa situação concreta, externa,
ou, conforme diz Dewey (1979, p. 158) “o estágio inicial
do ato de pensar é a experiência”, ou seja, o professor
reflete criticamente mediante sua experiência, seus alunos e seu
embasamento teórico. Esta é a posição formulada
por.
Para ele,
O pensamento ou a reflexão [...] é o discernimento
da relação entre aquilo que tentamos fazer e o que sucede
como conseqüência [...]. Na descoberta minuciosa das relações
entre os nossos atos e o que acontece em conseqüência delas,
surge o elemento intelectual que não se manifesta esse elemento
aumenta proporcionalmente o valor da experiência. Com isto, muda-se
a qualidade desta, e a mudança é tão significativa
que poderemos chamar reflexiva esta espécie de experiência
- isto é, reflexiva por excelência. [...] Pensar é
esforço intencional para descobrir as relações específicas
entre uma coisa que fazemos e a conseqüência que resulta, de
modo a haver continuidade entre ambas.(DEWEY, 1979, P. 158).
O terceiro caminho de entender a reflexividade é
a reflexão dialética, uma reflexão que busca apreender
as leis sociais, históricas dos fenômenos na sua concretude,
nas suas contradições, de modo que os objetos sejam considerados
nas suas relações, no seu contexto, na sua totalidade
Há uma realidade dada, independente da reflexão, mas que
pode ser captada pela reflexão. Essa realidade ganha sentido com
o agir humano. Mas há duas considerações a serem
levadas em conta: primeiro, essa realidade – o mundo dos fatos,
dos acontecimentos, dos processos, das estruturas – é uma
realidade em movimento. Segundo, essa realidade é captada pelo
pensamento, cabe ao pensamento, à teoria, à reflexão
captar o movimento dessa realidade, isto é, suas relações
e nexos constitutivos, e construir uma explicação do real.
A realidade, assim, é uma construção teórico-prática.
Ainda na perspectiva dialética, a chamada teoria crítica
acentua o caráter político da teoria em relação
à prática, o conhecimento teórico tem a função
de revelar condições que produzem alienação,
as injustiças, as relações de dominação.
Mas para isso, este conhecimento precisa ser crítico, implicando
uma auto-reflexão sobre si próprio, seus compromissos e
limites.
A História do Conceito de Reflexividade no Brasil
A história da reflexividade começa desde que o homem se
faz homem, mas Libâneo (apud PIMENTA, 2002, p. 58) nos mostra o
percurso do conceito reflexividade no Brasil, por exemplo, desde 1960,
segundo o autor, os métodos mais importantes com relação
à reflexidade no Brasil foram:
1) Método de reflexão do Ver-Julgar-Agir : um movimento
de ação católica por volta dos anos de 1960, em que
se agrupavam a JUC (Juventude Universitária Católica), JOC
(Juventude Operária Católica) , JEC (Juventude Estudantil
Católica) e JAC (Juventude Agrária Católica). O objetivo
deste método era sistematizar o exercício de reflexão,
tendo em vista formar a consciência histórica ou consciência
crítica dos militantes. De acordo com os escritos dos Jesuítas,
fica bastante provável que a adoção desse método
por militantes católicos leigos tenha sido influenciada pelos jesuítas,
a partir dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.
Jesuítas (1994, p. 32):
Característica singular do paradigma da pedagogia Inaciana é
que, considerado à luz dos Exercícios Espirituais de Santo
Inácio, não só é uma descrição
adequada da contínua Interação da experiência,
reflexão e ação do processo de ensino/aprendizagem,
mas também uma descrição ideal da inter-relação
dinâmica entre professor e o aluno, na caminhada deste último,
rumo à maturidade do conhecimento e da liberdade.
2) A proposta de reflexividade de Paulo Freire: É uma proposta,
assentada no processo da ação-reflexão-ação,
também visa à formação da consciência
política. No conhecido “Método Paulo Freire”
começa-se por tomar distância do contexto concreto para uma
análise crítica dos fatos, através da codificação
ou representação de situações existenciais
dos educandos e, num segundo momento, passa-se à descodificação
feita pelo diálogo educador – educandos, abrindo possibilidades
à análise crítica em torno da realidade codificada.
Afirma Freire (1976, p. 135):
No contexto concreto somos sujeitos em relação
dialética com o objeto: no Contexto teórico assumimos o
papel de sujeitos cognoscentes da relação sujeito-objeto
que se dá no contexto concreto para, voltando a este, melhor atuar
como sujeitos em relação ao objeto. Estes momentos constituem
a unidade [...] da prática e da teoria, da ação e
da reflexão.[...] A reflexão só é legítima
quando nos remete sempre [...] ao concreto, cujos fatos busca esclarecer,
tornando assim possível nossa ação mais eficiente
sobre eles. Iluminando uma ação exercida ou exercendo-se,
a reflexão verdadeira clarifica, ao mesmo tempo, a futura ação
na qual se testa e que por sua vez, se deve dar uma nova reflexão.
3) O método da reflexão dialética
no marxismo humanista: por volta dos anos 1980 , com o revigoramento do
marxismo, sente-se a necessidade de uma idéia de formação
da consciência crítica tendo como base a práxis, na
unidade teoria – prática, reflexão – ação.
A reflexão dialética busca apreender as leis sociais, históricas
, dos fenômenos, de modo que os objetos sejam considerados nas suas
relações, no seu contexto, na sua totalidade. Segundo Ianni
(apud PIMENTA, 1988, p. 145):
A dialética compreende a realidade como movimento, modificação,
devir, história. Trata-se de refletir sobre os fatos, tendo em
vista apanhar os nexos internos, constitutivos desses fatos. [...] Assim,
parte-se do dado concreto, sensível e pela reflexão, apanham-se
as determinações que constituem o dado. [...] O resultado
é o concreto.
4) O método da reflexão fenomenológica:
a fenomenologia propiciou aos educadores um instrumental de leitura crítica
da realidade, especialmente em oposição a uma visão
positivista do conhecimento. O método fenomenológico compreende
toda ação humana como intencional e, por isso, o homem é
criador de significados. A reflexão, a análise de objetos,
situações, experiências, dependem do sentido que damos
a realidade.
5) O movimento das competências do pensar: chamado como movimento
do pensar ou desenvolvimento das competências, originou-se no final
dos anos 1970 nos Estados Unidos e na Europa, atribuindo-se à escola
a preocupação com o desenvolvimento da qualidade do pensar
de alunos e professores. O que constituiu-se novidade nesse movimento
foi acreditar que, para além da forma natural e espontânea
de pensamento e do domínio das chamadas “competências
básicas” (matemática, ciências, ler e escrever),
é preciso desenvolver, de forma metódica, competências
do pensar que levam à reflexão, implicando, portanto, formação
e utilização de conceitos, resolução de problemas,
tomada de decisões, criatividade. Esse movimento foi incluído
como uma das recomendações da Organização
de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),
já no início dos anos 1980, para atender à necessidade
de melhorar a qualidade de ensino nos países europeus e fazer frente
às necessidades do mercado de trabalho e à cidadania democrática.
De acordo com Libâneo (apud PIMENTA, 2002, p. 60), esse movimento
desenvolve-se em vários países da América Latina,
com vinculações a diferentes aportes teóricos como
a teoria piagetiana, a teoria histórico-cultural da atividade e
a filosofia para Crianças de M. Lipman, as idéias de Bruner
e outros autores, e também, pode se dizer que nas origens da temática
do professor reflexivo está o movimento das estratégias
de pensar.
Não é nova essa idéia de que uma das funções
da escola é o desenvolvimento de pensar e de que se trata de uma
capacidade que pode ser desenvolvida, estimulada e aperfeiçoada,
especialmente no âmbito da educação formal, ela está
implícita em Dewey, Piaget, Vygotsky, entre outros. Mas o que muda
é a ênfase, no currículo e na metodologia de ensino,
na construção de estratégias intencionalmente planejadas
“que ajudem o aluno a utilizar de forma consciente, produtiva e
racional o seu potencial de pensamento e que permitam torna-lo consciente
das estratégias de aprendizagem a que recorre para construir e
reconstruir os seus conceitos, atitudes e valores.
6) O movimento do professor reflexivo – No final dos anos 1970,
já aparecia na literatura relacionada com os paradigmas de formação
de professores. A formação e a profissionalização
de professores é um tema que emergiu no quadro das reformas educativas,
nos anos 1980, dentro de um conjunto de mudanças educacionais associadas
à reestruturação produtiva e políticas de
ajustes no âmbito do capitalismo. As reformas educativas expressavam
os seguintes termos: novos tempos requerem nova qualidade educativa, implicando
mudança nos currículos, na gestão educacional, na
avaliação dos sistemas e na profissionalização
dos professores. Seja por esse motivo seja pela constatação
empírica do efetivo papel dos professores na melhoria do ensino,
é certo que a abordagem reflexiva da formação dos
professores ou enfoque do professor reflexivo virou um movimento em torno
do conceito de reflexão, levando o tema da formação
de professores a uma visibilidade temática sem precedentes.
Na segunda metade dos anos 1990 aparecem vários estudos que inserem
a formação de professores numa perspectiva mais ampla sem
se deter a apenas um aspecto dessa formação, no caso, o
professor prático reflexivo ou que abordam o tema numa linha crítica
(Pimenta e outros (2000) abordam as idéias de Donald Schön
mas destacam a importância das trocas reflexivas sobre as práticas
entre os professores, da cultura interna das escolas que também
demarcam as práticas, da escola como comunidade crítica
de aprendizagens. Daí propõem a pesquisa colaborativa. É
fértil, portanto, a produção especializada sobre
a formação de professores, sobre a reflexividade e para
além da reflexividade na formação de professores.
Donald Schön é um dos maiores críticos do modelo tecnicista.
Ele não só analisa a formação de professores,
mas também a de profissionais de diferentes categorias, apontando
os limites de uma formação voltada para a reprodução
(prática), e defende a substituição deste modelo
por outro, onde possa haver uma capacitação, ou seja, uma
melhor preparação, para que esse profissional possa interferir
na construção de um currículo pedagógico e
refletir criticamente sobre suas ações. Com relação
à formação de professores, Schön considera que
a teoria é insuficiente para orientar a prática docente,
para ele, o professor não deve ser o especialista que aplica conhecimentos,
mais um “prático-reflexivo”, alguém que age
e toma decisões a partir da avaliação de seu trabalho
em sala de aula.Tal prática, no seu entender, deveria ser re-elaborada
em função de uma reflexão sobre a ação,
que ocorre antes, durante e depois da atuação do professor
junto aos alunos, tendo como objetivo superar as dificuldades experienciadas
no dia-a-dia. Desta maneira, entende que a formação do professor
não se dá em momentos distintos – primeiro a formação
teórica e depois a experiência prática – mas
no diálogo da prática com a teoria. E neste diálogo,
problematizando sua experiência prática – buscando
alternativas para os desafios enfrentados, testando-as, observando as
reações dos alunos, procurando entender o significado das
perguntas e respostas formuladas pelos alunos, avaliando-as e avaliando
suas próprias ações - que o professor aprende e aperfeiçoa
seus conhecimentos. Ou seja, ao refletir sobre a prática o professor
desenvolve uma atividade investigativa que irá caracterizá-lo
como produtor de conhecimentos práticos sobre o ensino, e não
mais como um especialista técnico, que apenas reproduz estes conhecimentos.
(SCHÖN, 1991, p. 98).
Outro autor que faz a crítica ao modelo de racionalidade técnica
é Giroux (1997, p. 158), para quem este modelo está calçado
em “ideologias instrumentais”, que reduzem os professores
a técnicos, de modo que, dentro da burocracia escolar, têm
a incumbência de “administrar e implementar programas curriculares,
mais do que desenvolver ou apropriar-se criticamente de currículos
que satisfaçam objetivos pedagógicos específicos”.Contrapondo-se
a este modelo, o autor defende a idéia de que o trabalho docente
é um trabalho intelectual e não puramente instrumental ou
técnico, argumentando que, se “nós dignificamos a
capacidade humana de integrar pensamento e prática, [...] destacamos
a essência do que significa entender os professores como profissionais
reflexivos”. Assim, diz ele, é preciso “encarar os
professores como intelectuais transformadores”, o que significa
conferir à docência uma dimensão política.(GIROUX,
1997, p. 161).
Os Dois Tipos Básicos de Reflexividade
Segundo Libâneo (apud PIMENTA, 2002, p. 61-62), existem dois tipos
básicos relativamente opostos de reflexividade: a reflexividade
de cunho neoliberal e a reflexidade de cunho crítico. No campo
neoliberal, o método reflexivo situa-se no âmbito do neopositivismo
ou, ainda, do tecnicismo, cujo denominador comum é a racionalidade
instrumental, que de acordo com Schön pode ser chamada de racionalidade
técnica (SCHÖN, 2000, p. 15):
A racionalidade técnica é uma epistemologia da prática
derivada da filosofia positivista, construída nas próprias
fundações da universidade moderna, dedicada à pesquisa.
A racionalidade técnica diz que os profissionais são aqueles
que solucionam problemas instrumentais, selecionando os meios técnicos
mais apropriados para propósitos específicos. Profissionais
rigorosos solucionam problemas instrumentais claros, através da
aplicação da teoria e da técnica derivadas de conhecimento
sistemático, de preferência científico.
No campo crítico, fala-se da reflexividade crítica,
crítica-reflexiva, reconstrucionista social, comunicativa, hermenêutica,
comunitária. Diz Libâneo (2000) que em cada um desses tipos
básicos há variações e que estão ocorrendo
hoje com um grande transvasamento de discursos e termos com significados
de uma posição teórica, em princípios antagônicos,
são apropriados no sistema conceitual da outra. E que as duas acepções
têm origens epistemológicas na mesma fonte teórica:
a modernidade e, dentro dela, o iluminismo. A modernidade tem uma crença
forte na sua supremacia da razão. A potencialidade reflexiva, nesse
sentido, é considerada intrínseca ao ser humano. É
a capacidade de pensarmos sobre nossos atos, sobre as construções
sociais, sobre as intenções, representações
e estratégias de intervenção. Esse tipo de conhecimento
é usado para mudar a realidade e também para mudar nossas
intenções, nossas representações e o próprio
processo de conhecer.
Em suma, SHON (1991), ousou enfatizar as características do professor
crítico reflexivo. Para este autor, as principais residem no fato
de o professor fazer e pensar a relação teoria e prática,
ser um agente numa realidade social construída, preocupar-se com
a apreensão das contradições, ter atitude e ação
críticas frente ao mundo capitalista e sua atuação,
apreender teórico e praticamente do real, ter reflexividade de
cunho sociocrítico e emancipatório.
Diante dessas características vejo um grande desafio à Universidade
ou aos cursos de Formação de Professores. Talvez uma das
saídas seja a construção de projetos de extensão
que privilegiem a intervenção. Nesse contexto, escolas e
Universidade devem manter-se em constante diálogo. Ao contrário
os saberes da docência continuarão sendo um desafio à
produção do conhecimento.
Ouro fato preocupa-me neste patamar, ou seja, é possível
observar que a prática educativa de modo geral está contaminada
pelo que chamamos de Síndrome de Burnout, ou seja, a Síndrome
da desistência do professor (CODO, 1999). Muitos deles não
enxergam soluções para seus problemas e problemas que têm
enfrentado no cotidiano escolar. Os que acreditam na educação
sonham com uma escola melhor, mais ativa, com salários menos aviltados,
enfim, de poder ver o resultado positivo de suas prática. A Universidade
não pode fazer vistas grossas aos problemas da escola pública,
como tem feito nos últimos anos. Se ela não tem a solução,
precisa buscá-la de forma coletiva, com humildade e sensibilidade,
afinal estamos lidando com valores e crenças deferentes, o que
nos fazem afirmar que estamos lidando com pessoas deferentes entre si.
Vale a pena abraçar esta causa.
Considerações Finais
A Universidade no momento atual é chamada para
assumir o compromisso de formar professores reflexivos. Tendo em vista
a histórica relação entre as escolas e a Universidade,
ou seja, muitos mitos precisariam ser desmistificados, provavelmente o
desafio se torna ainda maior. Porém, de qualquer forma as Instituições
que formam professores devem revisitar seus paradigmas e assumir o seu
real papel.
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e trabalho – Burnout, a síndrome da desistência do
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NÓVOA, Antônio. (org). Para uma análise das instituições
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Lisboa, dom Quixote, 1995 - 2 Ed.
____________ (Coord.) Os professores e sua formação. Lisboa:
Dom Quixote. (1991).
PIMENTA, Selma Garrido; GHEDIN, Evandro (Orgs). Professor Reflexivo no
Brasil: Gênese e crítica de um conceito. São Paulo:
Cortez Editora, 2002.
SCHÖN, Donald A. Educando o Profissional Reflexivo: um novo design
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