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CONSTRUÇÃO
DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE “SER PROFESSOR”
Alberto Albuquerque Gomes - UNESP – Pres.
Prudente – São Paulo
Quando tratamos da educação escolarizada,
as questões relativas à formação de professores
aparecem no topo da agenda política e econômica, quer se
fale em globalização ou criminalidade, desenvolvimento ou
pobreza.
Este é um debate que progride aos saltos, ou pelo menos, emerge
à medida que as crises sociais, políticas e econômicas
assumem maior envergadura. É o que nos ensina a curta história
da educação escolar pública ocidental, ou seja, a
escola de massas. Nascida e embalada pelos ideais revolucionários
e pelo iluminismo, a escola deve a sua existência à intensa
propaganda em torno das noções de democracia e cidadania.
Assim, o destino e a orientação da escola de massas são
dominados pela necessidade inelutável de assegurar que a co-existência
do sujeito democrático e do sujeito individual, do eu e do outro
se constitua no motor de uma sociedade democrática. Consequentemente,
a expansão do direito à educação escolarizada,
parece ser um dos melhores exemplos, senão o mais emblemático
de como uma organização social como a escola exerce coações
sobre seus membros de forma a adequá-los à vida social.
Emile Durkheim, na introdução da “Evolução
Pedagógica em França”, afirma que, como todas as grandes
funções sociais, o ensino possui um espírito, expresso
nos programas, nas matérias ensinadas, nos métodos, e um
corpo, uma estrutura material que expressa, em parte, o espírito,
mas que também age sobre ele, que lhe imprime às vezes,
sua marca e impõe temporariamente seus limites. (DURKHEIM, 1995,
p. 4) Portanto, os ideais pedagógicos que marcaram a viragem do
século XIX para o século XX, voltavam-se para a consolidação
das sociedades democráticas e a garantia do usufruto de direitos
civis por todos os homens. Essa será a grande aspiração
burguesa do século XX, malgrado a ocorrência de duas guerras
que colocaram em risco este projeto.
O que assistimos na viragem do século XX para o século XXI,
é que o que parecia ser a melhor alternativa para a vida em sociedade,
pulveriza-se numa seqüência interminável de intolerâncias
políticas, religiosas e sociais que abalam toda a segurança,
que nós, “cidadãos de bem” (?) acreditávamos
estar garantida pelos aparatos do estado burguês (escolas, polícia,
tribunais, etc).
Que surpresa!!! Não há garantia de nada. Nossa propriedade,
nossos valores, nossos filhos, nossos cidadãos estão todos
em risco e não sabemos o que fazer. Nossa escola? Nossas escolas
não são mais capazes de atuar como mecanismos reguladores
da educação nacional. (DURKHEIM, 1961)
Portanto, somos testemunhas de um dilema: por que nossa escola e nossos
professores não são mais capazes de preparar o cidadão
livre para a vida em sociedade?
Na esteira desse dilema, nossos professores e nossas escolas tem sido
cobradas e responsabilizadas impiedosamente por mazelas como indisciplina,
violência, falta de qualidade do ensino, crise da moral e dos bons
costumes, consumo de drogas, segurança nas estradas, etc... etc...
etc...
O que não está bom, precisa ser mudado. Então, vamos
alterar os modos de formação de professores. Vamos em busca
de uma nova profissionalidade. Vamos em busca de um novo professor. Assim,
assistimos a uma infinidade de reformas educacionais em todo o mundo,
tendo como horizonte novos programas para a formação de
professores com novas competências e novos saberes que sejam eficientes
para o enfrentamento das novas situações sociais e escolares.
A princípio, estas características para um novo projeto
de formação de professores parecem ser bastante atraentes.
Entretanto, as mudanças sociais não ocorrem de modo linear
e as diferentes manifestações dos atores sociais, que ocorrem
no que poderíamos designar de plano microssociológico, podem
funcionar como obstáculos, principalmente quando se trata de grupos
sociais como é o caso do grupo profissional dos professores. O
grupo social funciona como uma unidade coletiva que estabelece com o conjunto
da sociedade na qual está inserida, relações de sociabilidade,
que evidentemente, provocam modificações internas, mas que
não alteram substancialmente a essência desse grupo.
Ora, como já anunciamos, as escolas e logicamente, os professores
têm sido cobrados e responsabilizados por uma série de eventos
negativos, e obviamente fecham-se em corporação, na tentativa
de construção de estratégias de defesa que lhes permita
sobreviver profissionalmente.
Ao considerarmos as dificuldades enunciadas, num contexto de reforma e
reestruturação do Estado, podemos iluminar melhor a questão,
uma vez que também o “ser professor” é alvo
das proposições de modernização, de construção
de novas competências, pois segundo (CORREIA, 2001)
As transformações [...] produzidas no sentido das políticas
educativas e, principalmente, as transformações do papel
do Estado na sua definição e desenvolvimento, foram acompanhadas
por mudanças significativas nos sistemas cognitivos acionados para
se conhecer, desconhecer e reconhecer a escola [...] (p. 12)
A pressão sobre os cursos de formação de professores
para que se adequem às novas lógicas do “mercado”,
desenvolvendo novas competências e habilidades que possam atender
às novas necessidades dos novos alunos da nova escola, camuflam
um perverso mecanismo de empobrecimento e fragilização da
escola e do profissional professor. Sob a aura do moderno e do inovador
temos assistido à perda de autonomia profissional pelo professor
que tem se tornado um simples executor de planos e programas, que contraditoriamente
são impostos por um Estado que se anuncia como mínimo, mas
que desenvolve estratégias e mecanismos que são capazes
de quebrar a resistência desse grupo profissional.
Tendo os aspectos descritos acima como pano de fundo, pretendo refletir
sobre a crise de identidade profissional do professor. Minha hipótese
é de que esta se insere numa crise mais ampla, cujos principais
aspectos são as radicais mudanças provocadas pela globalização
que atinge o mundo do trabalho. Estas mudanças têm demandado
o redimensionamento dos papéis desempenhados pelo professor, o
que sugere uma crise de identidade. Apoiado numa revisão bibliográfica
sobre identidade profissional, representações sociais e
na análise de dados recolhidos junto a alunos concluintes do curso
de Pedagogia, busco demonstrar que as representações construídas
sobre “ser professor” ao longo da formação inicial
são fortemente contraditas pelas representações que
os demais sujeitos constroem sobre esse profissional.
O conceito de representações sociais
No curso da vida social, os indivíduos e os grupos aos quais pertencem
pensam e constroem representações sobre o mundo em diversos
ambientes. Esse processo é caracterizado por uma dialética,
ou seja, os indivíduos pensam e produzem representações
sobre o mundo em que vivem, ao mesmo tempo em que partilham das representações
construídas por outros indivíduos dos grupos aos quais pertencem,
reelaborando-as e partilhando-as novamente num movimento infinito de recebimento,
processamento, construção/reconstrução de
significados sobre a realidade social partilhada. Essas representações
podem ser denominadas de representações sociais que segundo
Moscovici, (1978, p. 181)
[...] são um conjunto de conceitos, proposições e
explicações criado na vida cotidiana no decurso da comunicação
interindividual. São o equivalente, na nossa sociedade, dos mitos
e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; podem ainda
ser vistas como a versão contemporânea do senso comum.
Partindo desse conceito, é possível dizer que o indivíduo
torna-se sujeito social na medida em que consegue representar e se apropriar
de outras representações sobre um dado objeto, ou seja,
“a representação é sempre representação
de alguma coisa. Ela exprime a relação de um sujeito com
um objeto, relação que envolve uma actividade de construção
e de simbolização”. (VALA, 2002, p. 461)
Essas construções, de certo modo, asseguram ao sujeito social
a construção de sentimentos de pertença social e
a possibilidade de que estabeleça com seus pares, relações
de comunicação e representação, o que caracteriza
a representação como social, pois é partilhada por
vários indivíduos e é coletivamente produzida.
A representação é social na medida em que é
coletivamente produzida, ou seja, as representações sociais
são um produto das interações e dos fenômenos
de comunicação no interior de um grupo social, refletindo
a situação social desse grupo, seus projetos, problemas
e estratégias além das suas relações com outros
grupos. (VALA, 2002, p. 461)
A representação social, portanto, cumpre o papel de dar
significado às coisas tanto para o indivíduo quanto para
o grupo constituindo-se em elemento fundamental para que se possa pensar,
interpretar e compreender a realidade vivida, caracterizando-se assim
como uma forma de conhecimento social. Essa propriedade das representações
a torna, na sua dimensão discursiva, elemento de mediação
social, resultado de outras formas de mediação social.
Segundo Madeira (2003, p. 120),
A representação assim entendida não é ato
isolado e estático, nem provém de uma individualidade abstrata.
É processo no qual o sujeito, ao se apropriar do objeto, circunscreve
espaços e aponta conflito. Ao tornar o objeto palavra, o sujeito
o articula e integra à linguagem do seu viver; àquela que
o particulariza, ao mesmo tempo em que o insere entre iguais, secularizando-o
frente à angústia do isolamento.
Assim, a teoria das representações sociais revela-se importante
instrumento de análise do fenômeno educacional. Segundo Gilly
(1989), o interesse essencial da noção de representação
social para a compreensão dos fatos educativos é o foco
sobre o conjunto organizado de significações sociais no
processo educativo.
Associando essa concepção à idéia de educação
escolarizada, observam-se várias representações sociais
como escola, professor, aluno, status social são construídas
pelos sujeitos em interação social e eventualmente tornam-se
hegemônicas em dado grupo (VALA, 2002), alimentando as expectativas
destes sujeitos. Na medida em que essas representações são
objetivadas, ou seja, tornam-se expressões de uma realidade pensada
coletivamente e se naturalizam (VALA, 2002), estabelecem-se relações
de causalidade como, por exemplo, escola-status social, professor-autoridade,
aluno-aprendiz assegurando a atribuição de sentidos às
diversas relações sociais.
A compreensão destes “sentidos” leva os sujeitos sociais
(no caso, pais, alunos e professores) a construírem expectativas
em relação à educação/escola com base
em representações hegemônicas favorecendo comportamentos
sociais uniformizantes, apesar das diferenciações da tessitura
social, dos conflitos socioeconômicos e socioculturais e da diversidade
de identidades sociais. A conjunção desses fatores permite
sugerir a existência de outro tipo de representações
denominadas discutíveis. Segundo Vala (2002, p. 2001),
Há representações que se impõem aos indivíduos,
que são hegemônicas e, em larga medida, indiscutíveis.
Mas há também as representações discutíveis,
e discutidas pelos diferentes grupos sociais, e cuja consensualidade,
no interior dos grupos e entre grupos, se vai construindo e desconstruindo,
a par com a conflitualidade, contextual ou estrutural, que atravessa as
relações sociais e a atividade cognitiva e estratégica
dos atores sociais.
As representações sociais, como foi demonstrado, constituem-se
ao longo do processo de organização social, política,
econômica na confluência de sociedades e culturas, simbolizando
as relações de poder, de parentesco, concepções
religiosas e morais, enfim, as práticas cotidianas que marcam as
existências individuais e coletivas.
Assim, pode-se dizer que as existências individuais e coletivas
operam uma simbiose que pode ser percebida ao analisarmos os efeitos dos
eventos coletivos num indivíduo, embora não se perca de
vista as individualidades; tal qual uma alma coletiva, as pessoas “formam
um ser psíquico de uma nova espécie que, por conseguinte,
tem a sua própria maneira de pensar e de sentir”. (DURKHEIM,
2000, p. 393). Esse ser psíquico referido por Durkheim, característico
de cada grupo social, se concretiza em padrões éticos, morais
e culturais que norteiam a vida social e que são introjetados e/ou
impostos na forma de ideologia, aqui concebida como “conjunto articulado
de idéias, valores, opiniões, crenças, etc., que
expressam e reforçam as relações que conferem unidade
a determinado grupo social” (Dicionário Aurélio Eletrônico,
1999).
Aqui se pode retomar a idéia de dialética das representações
sociais, pois fica evidente que tais representações resultam
do diálogo entre o particular e o geral, entre o individual e o
coletivo, constituindo-se de forma dinâmica, e em vários
sentidos, prestando-se a processos de dominação de grupos
ou classes sociais sobre o conjunto da sociedade.
A construção de identidades sociais
Aqui, me interessa particularmente considerar a construção
da identidade social como uma das representações ora denominadas
sociais. Porém, antes de avançar nessas considerações,
é necessário precisar melhor o que entendo por identidade.
O que significa identidade? Identidade pode ser definida como um conjunto
de características pelas quais alguém pode ser reconhecido.
Do ponto de vista sociológico, identidade pode ser definida como:
Características distintivas do carácter de uma pessoa ou
o carácter de um grupo que se relaciona com o que eles são
e com o que tem sentido para eles. Algumas das principais fontes de identidade
são o gênero, a orientação sexual, a nacionalidade
ou a etnicidade, e a classe social. O nome é um marcador importante
da identidade individual, e dar um nome é também importante
do ponto de vista da identidade do grupo. (GIDDENS, 2004, p. 694)
Entendo que a identidade social é construída pelos sujeitos
sociais de uma perspectiva interacionista, na qual as expectativas que
os membros do grupo têm sobre os papéis a serem desempenhados
pelos sujeitos constituem os pilares de sustentação. Em
outras palavras, a aceitação de determinada identidade social
supõe que haja interação entre os sujeitos na sua
construção e partilha, assegurando assim um compromisso
do/com o grupo, definindo os sentimentos de pertença social que
sustentam a existência do grupo.
Ou seja, a identidade possui simultaneamente uma dimensão individual,
isto é, as idéias, concepções e representações
que construímos sobre nós mesmos; e uma dimensão
coletiva, isto é, os papéis sociais que desempenhamos em
cada grupo do qual pertencemos (familiar, profissional, escolar, religioso,
etc.). Para a construção da identidade, portanto, concorrem
dois processos distintos, a saber: um processo autobiográfico (a
identidade do eu) e um processo relacional (a identidade para o outro).
(DUBAR, 1991)
Os modos como vivemos nossos papéis nos diferentes grupos se influenciam
mutuamente, de forma que nossa identidade se constitui pela interação
das especificidades desses grupos aos quais pertencemos. Isso significa
que ela possui variadas dimensões, que se articulam e mudam no
tempo: na verdade, não temos uma identidade, mas sim identidades.
(MEKSENAS, 2003).
Em outras palavras, o conteúdo das identidades sociais construídas
no interior de um grupo social define as diversas dimensões das
comparações sociais, que reforçam o sentido dessa
identidade, ou seja, as identidades sociais estão marcadas pelas
semelhanças entre si. Normas típicas do grupo como atitudes
e comportamentos explicitamente reconhecidos como valores coletivos são
formas relevantes de expressão da identidade de seus membros. Isso
quer dizer que nossas identidades se configuram no nosso sentimento de
pertença a determinados grupos levando-nos a agir prioritariamente
em termos dos interesses coletivos.
Identidade profissional
Quando se trata de sujeitos sociais que partilham espaços, tempos
e representações sociais na/sobre a escola, não podemos
deixar de considerar que o contexto mais amplo em que cada um dos sujeitos
está inserido interfere profundamente em suas expectativas e percepções.
Em outras palavras, isso quer dizer que todo o processo descrito na introdução
desse artigo, marca indelevelmente a forma como os atores que chegam à
escola - sejam professores ou alunos – vêem a escola e os
sujeitos que a povoam. Assim, a antiga imagem de um professor como símbolo
da autoridade e da providência moral tem sido substituída
pela imagem de um adversário a ser derrotado pelo aluno; a imagem
da escola como ambiente seguro onde crianças e jovens poderiam
desenvolver os valores morais e democráticos é substituída
pela imagem de um território conflagrado; a imagem do aluno como
aprendiz dócil a ser encaminhado para vida em sociedade é
substituída pela imagem de um aluno rebelde, problemático,
portador de todos os vícios e de nenhuma virtude. Os extremos dessas
“representações” não deixam dúvidas
de que as expectativas em relação à escola, alunos
e professores mudaram radicalmente. A representação de “ser
professor” assume outros sentidos para os quais nem sempre os candidatos
ao magistério estão devidamente preparados.
Essas mudanças podem ser explicadas a partir de três aspectos:
1. a identidade dos professores deve ajustar-se à concepção
de educação da nação; 2. uma das formas de
acompanhar a escola e os professores é a criação
de mecanismos, através do discurso oficial, que sejam capazes de
monitorar a identidade dos professores; 3. a identidade de professores
pode, de forma sub-reptícia, ser manobrada a favor de interesses
que não são necessariamente dos próprios professores
e dos demais sujeitos que partilham o espaço escolar. (LAW, 2001)
Crise de identidade profissional
Existe uma crise de identidade do professor? Para responder a essa questão
é preciso antes de qualquer coisa que se explicite de que crise
se está falando, para evitarmos os riscos de absolutização
de conceitos, perdendo assim a dimensão abrangente que pode ter
uma crise. Sanfelice (1996) sugere que a generalização da
idéia de crise da educação, e por extensão,
da formação de professores, da identidade profissional dos
professores, decorre de julgamentos apressados que nascem da urgência
com que alguns problemas têm que ser resolvidos. Assim não
se justifica que a crise da educação possa ser analisada
somente em função dos baixos salários percebidos
pelos profissionais da educação. Raciocínio similar
pode ser estendido à crise de identidade profissional de professores.
Já expus nesse artigo minha concepção sobre identidade
social. Entendo que a identidade profissional é uma das identidades
assumidas pelos sujeitos sociais. Porém, para caracterizar tal
identidade é preciso demonstrar o adjetivo profissional.
Segundo Ferréol et al (2002), o termo profissão tem sido
usado de forma corrente na sociologia das profissões para designar:
1) o tipo de trabalho habitual de uma pessoa; 2) o conjunto de interesses
de uma coletividade onde uma pessoa exerce seu trabalho; 3) ou ainda um
grupo de profissionais liberais como, por exemplo, os médicos.
Do ponto de vista absolutamente semântico, podemos dizer que profissão
é o designativo daquele que professa publicamente uma crença,
sentimento, opinião ou modo de ser. (Dicionário Aurélio
Eletrônico, 1999).
Buscando uma síntese entre a concepção sociológica
e a semântica, pode-se propor que profissão caracteriza-se
pela exposição pública de alguma crença, opinião
ou habilidade cuja característica principal é o fato de
ser comum a um grupo de indivíduos. Fazendo uma aproximação
com o sentido da palavra professor - aquele que professa ou ensina uma
ciência, uma arte, uma técnica, uma disciplina (Dicionário
Aurélio Eletrônico, 1999), é possível dizer
que ser professor refere-se a uma atividade especializada, uma profissão,
cuja principal função é a de ensinar determinados
conteúdos, sejam científicos, artísticos ou técnicos.
Pressupondo-se que toda profissão afirma uma identidade, logo existe
uma identidade profissional do professor, ou seja, uma maneira de ser
professor. Ao se falar em crise da identidade profissional do professor,
fala-se de uma crise na maneira e no jeito de ser professor.
Parece que esse caminho é excessivamente tortuoso, se não
se considerar que a ação profissional do professor está
condicionada por uma série de outros fatores e inserida num processo
muito mais amplo que o seu espaço/tempo de atuação.
Evidentemente que não pretendo ignorar que os problemas advindos
das dificuldades na interação social com as comunidades
onde trabalha, a insatisfação com as condições
de trabalho, baixo reconhecimento social, sentimentos de insegurança
em relação à sua integridade física afetam
diretamente o trabalho do professor. Porém, esses fatores não
podem ser os únicos indicadores para analisarmos uma suposta crise
de identidade profissional do professor. Há outros indicadores
a serem considerados, como por exemplo, crenças, valores éticos
e morais, representações construídas/adquiridas sobre
ser professor, etc. Isso significa que se deve considerar que a formação
de um professor, e conseqüentemente a construção de
sua identidade profissional, resulta de um processo de construção
de múltiplas identidades que repercutem direta e significativamente
no fazer docente. Além disso, não se pode perder de vista
outras implicações desse processo, como por exemplo, as
políticas públicas e a forma como o Estado lida com seus
professores.
Law (2001, p. 120) ao analisar as formas como as identidades profissionais
de professores são fabricadas, demonstra esse fato. Segundo o autor,
[...] à medida que, neste século [XX], o sistema da “escola
de massas” se foi desenvolvendo e se tornou significativo, no âmbito
do planeamento do Estado, a produção de uma identidade fidedigna
do professor também se tornou relevante. Este facto constituiu
um problema em vários aspectos: primeiro, para o seu sentido enquanto
colectivo – os professores cresceram em número e, por vezes,
encontram-se em grupos alargados; segundo, para o seu posicionamento social
– os professores do Estado eram um grupo socialmente instável,
com baixos rendimentos, mas, com formação superior; terceiro,
para os seus deveres e obrigações – os professores
eram vistos como exemplos morais, quase missionários ou servos
civis; finalmente, para o seu processo de trabalho – os professores
tinham de ser regulamentados e eficientes [...]
Os reflexos desse processo são nitidamente visíveis nos
comportamentos e representações que os professores constroem
sobre sua profissão. Isso fica demonstrado no relato feito por
Meksenas (2003) sobre uma pesquisa desenvolvida por Fullan e Hargreaves
(2000) sobre o que os professores pensam sobre sua profissão, na
qual identificaram algumas questões que podem diagnosticar uma
crise de identidade profissional.
Dentre as questões mais comuns os autores destacam: 1) a sobrecarga;
2) o isolamento; 3) o pensamento de grupo.
1) A sobrecarga. Professores estão conscientes que a profissão
mudou nas últimas décadas. Ensinar não é mais
visto como em ‘tempos atrás’, pois as obrigações
ficaram diversificadas. Esses profissionais atuam em contextos com expectativas
crescentes acerca do seu trabalho e a respeito da educação
escolar. Assim, ficam mais inseguros.
A sobrecarga de atividades, em muitos casos, decorre da falta de diálogo
dos professores com a população por eles atendida, ou com
a equipe administrativa da escola em que lecionam. Quando não fica
muito claro o que o professor pretende fazer junto com os seus alunos
e os modos com que exerce a docência, podem ocorrer "cobranças".
Em vez de "quebrar" o excesso de expectativas sobre o seu modo
de trabalhar e fazê-lo por meio do diálogo, o professor reage
elaborando novos projetos; assumindo atividades extracurriculares (passeios
com seus alunos, gincanas, competições, etc.). Organiza
uma série de atividades que o leva para fora da sala de aula, com
a intenção de chamar atenção à qualidade
do seu trabalho: a sobrecarga, então, afirma-se.
2) O isolamento. Ensinar a muito tempo, é conhecido como "uma
profissão solitária". Considere-se que o individualismo
é mais uma questão cultural e menos uma peculiaridade da
profissão. Entretanto, parece mais fácil e rápido
preparar aulas sozinho. Nesse aspecto, muitos dos professores nem sequer
imaginam a organização do seu trabalho com a participação
de outras pessoas.
O problema do isolamento tem suas raízes: a) Uma arquitetura escolar
que isola espaços, segrega pessoas; b) Horários rígidos
e uma organização inflexível da rotina escolar impede
interações sociais; c) Além disso, a sobrecarga de
trabalho dá sustentação ao individualismo. Combater
os contextos que levam o professor a isolar-se dos seus pares constitui
umas das questões fundamentais pela qual vale a pena lutar.
3) O pensamento de grupo. Quando se destaca que o trabalho cooperativo
pode ser um fator importante contra o isolamento a que os professores
estão submetidos, é comum ouvir as expressões: "Mas
os professores desta escola sempre formaram pequenos grupos de colaboração!"
ou, "estamos sempre conversando, quando podemos", ainda, "há
tanta colaboração que formam-se ‘panelinhas’
de professores para disputar o poder de comando na escola". Tais
expressões são o retrato de que as propostas de trabalho
coletivo possuem os seus problemas, muitos dos quais não podem
ser ignorados. A princípio não existe nada instantaneamente
bom no trabalho de parceria. As pessoas podem cooperar para realizarem
coisas boas ou coisas más, ou, até para não fazerem
nada. Um coletivo pode afastar os professores de atividades valiosas com
os estudantes.
Embora ambos os autores (LAW E FULLAN & HARGREAVES) refiram-se especificamente
à Inglaterra é possível estabelecer algumas analogias
com a situação do professorado em geral.
Outro aspecto a ser considerado é que o tipo de formação
que recebe o profissional da educação, pretensamente o prepara
para atuar no mesmo sentido do Médico, do Engenheiro e de outros
profissionais, pois tem acesso a conhecimentos profissionais especializados;
a aspectos específicos da ética profissional (Deontologia)
e o sentido de responsabilidade e compromisso profissional. Ou seja, a
formação recebida faz com que o professor construa sobre
si uma representação positiva reforçando uma noção
de superioridade intelectual em relação aos demais sujeitos
que atuam no ambiente escolar.
Isso demonstra como as representações que determinados sujeitos
e/ou profissionais constroem sobre si e suas práticas vão
se cristalizando, tendendo a ser contraditas pelas representações
que os usuários da escola fazem sobre o professor. O confronto
entre esses consensos – o consenso dos grupos profissionais sobre
si e sua prática e o consenso que os usuários de determinado
serviço fazem sobre esses grupos profissionais e suas práticas
– tende a gerar um conflito que pode resultar em graves conseqüências:
de um lado, o grupo profissional tende a se fechar corporativamente, agindo
sempre em autodefesa; de outro lado, os usuários dos serviços
prestados por esse grupo, tendem a se tornarem mais agressivos e impacientes
com a suposta incompetência e insuficiência dos serviços
prestados.
Em síntese, sem pretender apresentar todas as respostas ao problema,
entendo que a sobrecarga, o isolamento e o pensamento de grupo são
aspectos cruciais nos enfrentamentos que ocorrem entre professores e alunos/pais
de alunos que podem gerar uma crise de identidade do professor. Ou seja,
mesmo admitindo-se que a suposta crise profissional do professor insere-se
numa crise mais ampla da sociedade contemporânea, é inegável
que determinadas condições internas da escola e próprias
do trabalho docente podem contribuir para agravar ou minimizar os efeitos
dessa crise.
Em entrevista concedida ao jornal “A Página ”, a Professora
Amélia Lopes corrobora com esse entendimento ao afirmar que
[...] é um avanço conceptual relativamente a outros pontos
de vista possíveis, que relaciona a crise de identidade dos professores
- mas também de outras profissões e de outras crises das
sociedades modernas - com a própria crise da modernidade. Um dos
problemas é pensarmos que a sociedade em que vivemos existiu sempre,
o que faz com que não tenhamos uma perspectiva relativa do actual
estado da sociedade por relação com o seu próprio
desenvolvimento, ou seja, que a crise e as soluções possíveis
para ela fazem parte do próprio processo social e do seu desenvolvimento.
Quando me perguntei sobre a existência de uma crise de identidade
do professor tinha a intenção de trilhar essa discussão,
exatamente para demonstrar que há aspectos mais amplos a serem
refletidos sobre esse fenômeno. Não se trata de negar ou
ignorar que problemas de formação e de atuação
profissional do professor ocupam a agenda de discussões sobre a
escola. Ainda falando sobre o tema, Lopes nos chama a atenção
para o fato de que o modelo da “escola de massas” como elemento
regulador central da nova sociedade passa por transformações
que afetam diretamente a construção das identidades profissionais.
Portanto, para responder à pergunta inicial, e decorrente dessa
relação entre a crise da modernidade e a crise de identidade
profissional - que é mediada pela crise da escola - diria que ela
está intrinsecamente ligada ao facto de a instituição
escolar ter sido fundamental para a construção da sociedade
moderna tal como ela existiu até meados do século XX. A
sociedade moderna baseia-se na escola como elemento regulador central
da nova ordem social, até porque o saber - ou, melhor, o diploma
que a escola confere - é o novo critério de hierarquização
social e distinção social. A emergência da escola
e da instrução está ligada a duas intenções,
que poderemos sintetizar por regulação e emancipação.
O modo como ela depois se realiza na instituição escolar,
no sistema educativo, nos processos de socialização escolar,
coloca a ênfase na regulação e não na emancipação.
E isto vai ter impacto nos factores que poderão estar hoje subjacentes
à construção das identidades profissionais .
Creio que assim fica demonstrada a necessidade de ampliarmos a discussão
sobre a crise de identidade do professor para círculos mais amplos,
isto é, considerá-la como uma crise inserida numa crise
mais ampla, como nos sugere Law (2001, p. 127-8):
Estando o edifício do Estado-nação a mudar as suas
idéias, a gestão da identidade do professor, quer para o
controlo, quer para a mudança (pela inserção tecnológica)
tornou-se a nova crise. Parecem ser mudanças significativas as
que surgem no modelo corrente. Pelos anos 80, a identidade do professor
estava tranquilamente limitada pelas paredes da sala de aula. A idéia
do professor tinha sido extorquida do seu carácter de reconstrução
social e dos elementos que apelavam ao facto de serem profissionais responsáveis.
Hoje em dia, a sua eficácia é julgada em função
da sua capacidade para se manter no interior das simbólicas paredes
da sala de aula e de não se comprometer com valores do mundo alargado
[...] O professor é agora um trabalhador da escola, com deveres
para além da sala de aula, sobre os quais serão inspeccionados
[...]
Ser professor: expectativas e representações sociais sobre
o magistério
As representações e expectativas dos alunos do curso de
Pedagogia em relação à profissão docente
Pretendemos aqui desvelar algumas expectativas e representações
identificadas a partir de investigação feita junto a ex-alunos
do curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade
Estadual Paulista com relação à escolha do curso
e perspectivas profissionais. Foram consultados 47 sujeitos, ex-alunos
ingressantes no curso entre 1989 e 1998 que o concluíram entre
1993 e 2001 (Vide Tabela 1). Os dados foram coletados através de
questionário com questões fechadas e abertas, aplicado ao
longo de 2003.
Tabela 1 – ANO DE INGRESSO
| ANO DE INGRESSO |
FREQUENCIA |
PERCENTUAL |
| 1989 |
2 |
4,3 |
| 1990 |
5 |
10,6 |
| 1991 |
7 |
14,9 |
| 1992 |
3 |
6,4 |
| 1993 |
6 |
12,8 |
| 1994 |
5 |
10,6 |
| 1995 |
5 |
10,6 |
| 1996 |
5 |
10,6 |
| 1997 |
4 |
8,5 |
| 1998 |
5 |
10,6 |
| TOTAL |
47 |
100,0 |
Fonte: Pesquisa
de campo – 2003.
Uma das características mais marcantes dessa população
é a juventude. Como podemos observar 78,7% dos sujeitos encontra-se
na faixa etária entre 21 e 35 anos, o que evidencia o precoce ingresso
no mercado de trabalho e em parte justifica as respostas otimistas em
relação à profissão quando perguntamos sobre
a opção profissional. Um dos sujeitos responde da seguinte
forma a essa questão: “Eu atuo por que sempre investi na
minha formação por opção profissional. Acredito
e gosto do meu trabalho”. (P. 18, 26 anos, concluinte em 2003 ).
Tabela 2 - IDADE
| FAIXA ETÁRIA |
FREQUENCIA |
PERCENTUAL |
| 21 – 25 |
11 |
23,4 |
| 26 – 30 |
17 |
36,2 |
| 31 – 35 |
9 |
19,1 |
| 36 – 40 |
4 |
8,5 |
| 41 – 45 |
3 |
6,4 |
| 51 – 55 |
3 |
6,4 |
| TOTAL |
47 |
100,0 |
Fonte: Pesquisa
de campo – 2003.
Além da juventude, podemos observar a predominância de mulheres
entre os formandos em Pedagogia no período investigado, 91,5% (Tabela
3), tendência que pode ser observada entre aqueles que optam pela
profissão docente conforme explicitado por alguns autores (Lopes,
2001; Lelis, 1989; Toledo et al, 1983). Segundo Lopes,
Nos estudos sobre os professores, a feminização é
freqüentemente apontada como razão de perda de estatuto ou
como um obstáculo maior à realização plena
de uma profissão com vocação social ou militante.
Entretanto, os estudos realizados sobre os professores optam, em geral,
por termos genéricos ou abstractos, fazendo tábua rasa do
facto de o ensino, e sobretudo o ensino primário, se ter tornado
feminino, não só estatisticamente como também na
forma como é apreendido, corporizando atributos femininos. (Lopes,
2001, p. 263)
Tabela 3 – SEXO
SEXO FREQUENCIA PERCENTUAL
M 4 8,5
F 43 91,5
TOTAL 47 100,0
Fonte: Pesquisa de campo – 2003.
A profissão atual declarada pelos sujeitos pode ratificar a tese
de feminização da profissão docente. Da população
total, 76,6% (Tabela 3) exercem profissões ligadas à educação
predominando as mulheres. Dos quatro sujeitos do sexo masculino da população,
somente dois são professores. Além de se destacar a maciça
presença feminina entre aqueles que optaram pela profissão
docente, há que se destacar a tendência a que os alunos concluintes
de um curso de formação de professores dediquem-se ao exercício
da profissão, sinal claro de uma opção profissional.
Observamos ainda, alguns depoimentos nos quais o sujeito declara que apesar
de não estar inserido profissionalmente, pretende ainda ingressar
na área educacional.
No momento estou em processo de concurso, o que significa que ao ingressar
na Rede Municipal quero me empenhar pela melhoria da educação
fazendo com que as crianças das séries iniciais tenham a
oportunidade de qualidade de ensino. (P. 2, 24 anos, concluinte em 2001)
TABELA 4 – PROFISSÃO ATUAL
| SEXO |
FREQUENCIA |
PERCENTUAL |
| M |
4 |
8,5 |
| F |
43 |
91,5 |
| TOTAL |
47 |
100,0 |
Fonte: Pesquisa
de campo – 2003.
Uma vez estabelecido o perfil da população investigada,
passaremos a uma análise mais cuidadosa acerca das representações
construídas pelos sujeitos da população investigada
sobre “ser professor”.
Opção profissional
A escolha da profissão está ligada a condições
culturais e sociais típicas. A tendência, segundo Lopes (2001)
e Toledo et al (1983) de feminização e desvalorização
profissional do professor, ainda que em condições bastante
específicas, se faz presente entre os sujeitos dessa investigação.
As justificativas pela opção profissional abrangem desde
uma escolha consciente por ser professor até declarações
apaixonadas em favor da educação. Um dos sujeitos declarou
que Atuo na área educacional por que quero seguir carreira; como
escolhi essa área, pretendo prosseguir e continuar os estudos.
(P. 5, 27 anos, concluinte em 1997), revelando alguma clareza na sua opção.
Por outro lado, outro sujeito, afirma que Porque além de ser a
minha profissão, amo o que faço, e sei que a educação
é o melhor caminho para diminuir as diferenças. (P. 14,
36 anos, concluinte em 1998), num misto de paixão e compromisso
social com sua opção profissional.
Também podemos observar em alguns depoimentos, sentimentos de admiração
pela profissão e de responsabilização pelos destinos
do mundo, para além de um compromisso social, revelando alguns
resquícios dos sentidos de vocação e sacerdócio
que por muito tempo marcaram a profissão docente.
Por que gosto muito, sempre admirei o trabalho realizado nesta área.
Considero um dos setores mais importantes para o futuro do nosso país.
(P. 21, 28 anos, concluinte em 2000).
Por que fiz magistério, e depois de terminado já consegui
a profissão e optei por fazer pedagogia – motivo maior por
gostar muito de ser educadora e ensinar, pois se não fossem nós,
o que seria do mundo. (P. 23, 25 anos, concluinte em 1996)
Além de ser uma paixão, acredito no potencial que crianças
e adolescentes podem ter em relação ao contexto social e
de suas próprias vidas (promoção de valores). (P.
5, 27 anos, concluinte em 1997)
A construção destes “sentimentos” de responsabilidade
social, admiração pelo trabalho docente e paixão
tem todos os componentes de uma representação social que
segundo Moscovici (1978) é uma forma através da qual as
pessoas dão sentido às suas práticas sociais.
Portanto, para dar sentido às suas opções profissionais,
esses jovens constroem uma representação sobre um “compromisso”
que se não espelha exatamente antigas idéias de sacerdócio
e missão profissional, aproxima-se da excessiva responsabilização
por parte da sociedade em geral, que tem visto na escola, e conseqüentemente
no professor, a alternativa segura para a educação de seus
filhos. Ou seja, o cenário que temos então, é o seguinte:
há uma grande demanda por cursos de formação de professores
e conseqüentemente, grande demanda por empregos de professores por
parte de jovens oriundos de classes sociais menos favorecidas, cujas famílias
apostam na escolaridade como forma de ascensão social. O alargamento
de possibilidades de escolha de profissões de nível superior
é um dado incontestável, ainda que isso não se aplique
a todos os jovens. Em contrapartida, aumentam as exigências em relação
ao professor, o que em parte pode explicar alguns dos fundamentos dessas
representações que povoam o discurso dos jovens professores
sobre sua escolha.
Ainda sobre a opção profissional, podemos dizer que o discurso
hegemônico e exaustivo sobre o valor da educação (Domingos
Sobrinho, 2004) veiculado pela escola em sentido mais restrito e pelas
mídias, em sentido mais amplo parece impregnar esses discursos
sobre paixão, responsabilidade e compromisso com o ensino.
Como nos diz Hargreaves (2004, p. 15), “o ensino está de
novo a tornar-se uma profissão de jovens. Aqueles que vão
entrar no ensino e o modo como abordarem o seu trabalho, irão definir
a profissão e aquilo que ela poderá realizar com os nossos
filhos nos próximos trinta anos”.
Porém, não são somente as perspectivas otimistas
sobre a profissão que povoam os discursos dos nossos jovens professores.
Um desses jovens diz que
Prestei concurso passei, achei que estava preparado para dar aulas, que
daria conta da nova função e resolvi sair da área
profissional antiga e entrar na nova. Não atuo nessa área
por paixão, sacerdócio seja em seu lado positivo ou negativo,
muito menos por “amor”, mas também por necessidade.
Quando entrei descobri que não estava preparado. (P. 31, 34 anos,
concluinte em 2000)
O mesmo sujeito afirma ainda que
Sai do emprego anterior para ganhar hoje praticamente a metade. Somos
mal remunerados. Não somos respeitados. Trabalhamos muito. Ajudamos
pessoas a se educarem para um mundo melhor, temos o título de “doutores
e senhores do saber” mas parece que não estamos usando isso
na prática. (P. 31, 34 anos, concluinte em 2000)
Neste “desabafo” podemos perceber uma certa frustração
com a opção profissional, que se reflete numa representação
negativa da profissão e do profissional, pois “somos mal
remunerados e não somos respeitados” apesar de “ajudarmos
as pessoas a se educarem para um mundo melhor”, denotando uma certa
expectativa prévia de “bom status” que não se
confirmou no cotidiano profissional.
Há ainda aqueles que gostam do que fazem, mas não gostam
do salário, apesar de saberem que não ficariam ricos sendo
professores, o que sugere uma representação negativa sobre
as perspectivas profissionais de ser professor, do ponto de vista econômico-financeiro.
Faço o que gosto, o que acho que sei fazer, me sinto bem sendo
professora. Só não me agrada muito o salário, mas
nunca pensei que ficaria rica sendo professora... (P. 15, 28 anos, concluinte
em 1996)
Atuação profissional
Com relação à atuação profissional,
percebe-se nos discursos dos sujeitos uma reafirmação daquilo
que se apresentara quando falaram sobre sua opção profissional.
Uma jovem professora declarou que está satisfeita com seu trabalho
Porque a educação representa toda a possibilidade da construção
de uma sociedade transformadora e consciente do seu papel na cidadania.
(P. 2, 24 anos, concluinte em 2001)
Ou ainda:
Porque cada vez mais, vejo a necessidade de uma educação
continuada, que começa na casa, se estende até a escola
e se completa com a visão social do ser completo. (P. 24, 23 anos,
concluinte em 1999)
Podemos perceber aqui que a crença na “missão redentora”
da educação marca profundamente o sentido de ser professor,
o que nos permite inferir que a representação do que é
ser professor tem sido construída e reconstruída alicerçada
nas expectativas que o conjunto da sociedade tem em relação
ao professor (que também podem ser compreendidas como representações
sociais) e no próprio repertório adquirido ao longo da formação
inicial.
Uma terceira professora justifica sua satisfação com sua
escolha:
Porque acredito ter muito a contribuir neste processo de qualificação
do ensino público, e também porque é um emprego satisfatório
para o município em que moro. (P. 27, 28 anos, concluinte em 1996)
Como podemos observar, a construção da identidade de professor
depende muito das representações sociais que tais sujeitos
partilham e do contexto interacional que vivenciam no cenário de
formação inicial e no cenário de atuação
profissional.
Considerações finais
Características desejáveis no bom professor
Como professor, espera-se que o sujeito conheça os conteúdos
a serem ensinados, compreenda como foram construídos, como podem
ser ensinados, como podem ser articulados a diferentes conteúdos
e como podem contribuir para que os sujeitos educados se humanizem.
Com todos os riscos que se possa correr, de maneira geral, é assim
que se constrói academicamente a representação do
ser bom professor. Essas são características desejáveis
para um bom professor. A estas se juntam ainda aspectos relativos à
plena cidadania, compromisso com a cidadania, qualidade do ensino e com
a democratização da sociedade.
Entendendo as representações sociais a partir de seu caráter
relacional, pode-se perceber como “pesam” essas expectativas
que os “outros” projetam sobre a figura do professor. Assim,
é natural que seu discurso seja permeado por sentidos de compromisso
e de responsabilidade social, que muitas vezes não são realizados
por absoluta falta de condições objetivas no exercício
cotidiano da profissão. Não raro, testemunhamos julgamentos
sumários de professores “descomprometidos” com sua
profissão e com seu “fazer pedagógico”, como
forma de justificar determinadas mudanças de cima para baixo: afinal,
o professor não quer mesmo mudar!!!
Segundo Lopes (2005), não é bem assim.
Em princípio todo o professor tem vontade de mudar. Mas esse desejo
é mais ou menos escondido na medida em que a mudança "obriga"
a mostrar resultados; e dado que esses resultados são por vezes
um pouco difíceis de concretizar, a posição mais
aceitável, para os próprios, do ponto de vista psicossocial,
é a de não assumir essa vontade e criticar o que se faz
no domínio da inovação e manter-se no plano tradicionalista.
À medida que a mudança se afirma como alternativa à
tradição, o que acontece, do ponto de vista da vivência
quotidiana das escolas, é que as diferenças se polarizam,
o que é, aliás, típico das relações
sociais modernas. Uma das contribuições da reflexão
sobre a diversidade actual na sociedade e, portanto, a sua consideração
no plano escolar e no plano das identidades, quer das crianças
e dos jovens, quer dos professores que com eles convivem, é exactamente
diversificar as possibilidades da inovação, obviando às
competições que os dualismos provocam [...] Nessa medida,
temos professores que são capazes de querer sentir-se em progressão,
em crescimento, mas de acordo com o seu estado actual, com o seu ponto
de partida e com a sua visão sobre a identidade e sobre a profissão
[...] .
Isso foi possível perceber em alguns excertos de textos produzidos
pelos jovens professores que responderam ao questionário da pesquisa.
Ainda que se perceba uma concepção marcada por antigos estereótipos
de ser professor, observa-se algum avanço no sentido de um “compromisso
mais profissional” com a profissão docente. Como diz Lopes
(2005), há vários modos de ser professor, de ser bom professor
que se traduzem naquelas características desejáveis que
apontamos acima articuladas com a realização pessoal.
Ao relacionar os diversos aspectos destacados nesse texto (representações
sociais, representações sobre o magistério, identidade
profissional e crise de identidade profissional) pretendia visualizar
a rede de dilemas que se entrelaçam no processo de formação
de professores e na sua profissionalização. Porém,
apesar desse confuso contexto, percebe-se a existência de um núcleo
identitário entre os professores que se traduz na crença
de que o professor tem que ensinar com responsabilidade social como vimos
entre os sujeitos de nossa pesquisa. Lopes (2005) nos explica esse aspecto
da seguinte forma:
O conteúdo desse núcleo, que simultaneamente permaneceu
e mudou, pode ser explicado a partir do dilema do amor e do controlo,
e por outro lado, do dilema do rigor e da pertinência. São
estes dilemas que hoje ocupam as dimensões do processo de profissionalização
da actividade docente propostas por António Nóvoa: respectivamente,
a dimensão das normas e valores e a dimensão do conhecimento
e das técnicas. Estes dilemas, no passado, foram resolvidos a favor
do controlo (externo), no domínio da relação, e a
favor do rigor, independentemente da pertinência do seu significado,
no domínio do conhecimento. A construção de identidades
profissionais passa pela comunicação entre as pessoas. São
elas, em relação e em comunicação, que constroem
novas identidades colectivas. [...] A construção de novas
identidades docentes está a ser feita, agora, pelos professores,
nos lugares, e pela sociedade em geral. Portanto persiste um sentido comum
aos professores hoje, e esse sentido está presente no próprio
processo social, enquanto sentido da transformação. Há
qualquer coisa ligada a estas duas dimensões e a estes dois dilemas,
a estas duas opções possíveis, da pertinência
e do amor, que passa por aquilo que tem sido sempre a característica
essencial da docência, qualquer que seja o nível de ensino,
que é a preocupação em acompanhar os nossos parceiros
de interacção, dar-lhes e permitir-lhes ter do mundo uma
visão segura e coerente, que não é encerrada e imutável
.
Embora esta exposição tenha se apoiado na idéia de
que as representações sociais e a identidade profissional
do professor sejam resultados da confluência de inúmeros
fatores (exógenos como o fenômeno da globalização
e as mudanças das políticas públicas para educação;
e endógenos como a formação inicial e atuação
profissional do professor), não pudemos resistir à tentação
de recorrermos a um texto de Correia & Matos (2001) que trata da solidão
nos cotidianos de professores para tentarmos exemplificar o que estes
vivem em relação aos dilemas da profissionalização.
Apesar de ser habitado por seres dotados de vontade e capazes de se narrarem
e de se transformarem nas narrativas que produzem sobre si próprios,
o campo educativo [...] parece ser estruturado por um conjunto de entidades
onde estes seres estão ausentes ou têm o sentido da sua existência
exclusivamente dependente das relações que estabelecem com
estas entidades. A ter-se em conta estes estudos, com efeito, os modos
de existência dos professores reduzir-se-iam às representações
que eles têm dos currículos escolares, das escolas, dos sistemas
de formação que os envolvem ou das suas propriedades socioculturais,
da mesma forma que as propriedades socioculturais das famílias
dos alunos, a sua participação ou a representação
que têm da escola ou as expectativas escolares dos alunos ou das
suas família definiram os modos de existência dos alunos
ou dos jovens na escola.
Ora, esta tendência para povoar o universo escolar de entidades
que se definem exclusivamente pelas propriedades que este mundo lhes atribui,
ou seja, a tendência para se admitir, no plano cognitivo, que é
o mundo escolar que habita os seres e não estes que o constroem
e produzem, para além de parecer incompatível com a vocação
que a escola se atribui a si própria , contribui também
para que o mundo escolar viva na ignorância dos mundos de vida dos
seus habitantes. (p. 11)
Ao me deixar levar pela tentação da sugestão da solidão
do professor em meio a tantos atores que representam o “espetáculo
da escola”, quero dizer que o professor, principalmente os jovens
professores que tive oportunidade de “ouvir” estão
abertos a mudanças e à consolidação de uma
nova identidade, sem abandonar o “núcleo duro” da profissão,
ou seja, o professor deve ensinar com compromisso social. Trata-se, portanto,
de reconhecer o professor como um dos construtores da escola e da sua
própria identidade. Aliás, me parece que estas tarefas estão
tão “siamescamente” ligadas, com o perdão do
neologismo, que desvinculá-las me parece o sinal certo da falência
de ambas.
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