| |
A
FORMAÇÃO DOCENTE PARA O TRABALHO INTERDISCIPLINAR NO ENSINO
SUPERIOR
Eliana de Camargo Magalhães Pagliarini
- PUC - Campinas
Introdução
A questão da interdisciplinaridade no campo educacional
vem sendo debatida no Brasil desde o final da década de 60 do século
XX. Mesmo não se tratando de um assunto novo, insistimos neste
trabalho em discutir sobre essa alternativa pedagógica, partindo
da reflexão sobre a necessidade da formação do professor
como uma possibilidade de encarar o impasse em que se encontra o conhecimento
nos dias atuais.
O saber como vem sendo construído com base no paradigma-técnico-positivista
que fragmenta o saber, alimenta a especialização e tira
a noção do todo, é considerado o modelo em crise.
O saber mais abrangente torna-se a propensão atual.
Para se obter uma visão mais holística da sociedade parece-nos
que o transitar pela interdisciplinaridade seria uma condição
para atender aos ditames necessários para a construção
do conhecimento. Diante da nova exigência epistemológica
torna-se inevitável traçar um novo perfil docente.
Pensando em um caminho a ser percorrido para a formação
interdisciplinar docente foi possível delinear uma prática
partindo da atitude pessoal de abertura do professor para a construção
de um novo conhecimento que necessita do diálogo entre docentes
e o interesse na integração entre disciplinas, levando em
consideração o aluno/sujeito, parceiro na descoberta, comunicação
e reciprocidade de conhecimentos.
Em consideração aos desafios apontados para a educação
esta pesquisa busca refletir sobre a opinião dos professores universitários
a respeito da interdisciplinaridade.
Para a pesquisa, foram utilizados, como instrumento de coleta de dados,
questionários aplicados aos professores dos cursos de História,
de duas Universidades da cidade de Campinas, a fim de levantar dados,
referentes às atitudes dos docentes sobre a questão da interdisciplinaridade,
tendo em vista a abordagem qualitativa das entrevistas.
1. A questão da interdisciplinaridade: olhares
e leituras
A interdisciplinaridade há algum tempo, tem sido
uma referência para solucionar a crise em que se encontra o conhecimento.
Segundo Hilton Japiassu (1976), o problema que atinge o saber encontra-se
no grande número de especializações que culmina numa
fragmentação crescente do campo epistemológico. A
inteligência esfacelada, resultante dessa fragmentação,
é responsável pelas migalhas do saber que não dão
conta de uma realidade e, sobretudo, da vida em suas complicações,
porque falta ao sujeito cognoscente um olhar mais abrangente.
Em relação à ciência, pode-se dizer que ela
vive uma crise de crescimento e não de conhecimento porque produz
hoje mais do que nunca em toda a história da humanidade. Nesse
sentido, explica Morin (2002) que, apesar dos grandes avanços em
todas as áreas do conhecimento científico e tecnológico,
o que se produziu foi uma nova cegueira em relação aos problemas
globais, fundamentais e complexos, cegueira esta que gerou inúmeros
erros e ilusões em vista do saber parcelado e compartimentado que
impede apreender o que está junto.
Portanto, mesmo reconhecendo o lado virtuoso do saber especializado da
ciência, oriundo do paradigma positivista, este conhecimento precisa
ser repensado através de um novo enfoque com a possibilidade de
uma percepção maior de um dado a ser pesquisado.
A busca do conhecimento por meio da interdisciplinaridade não tem
a intenção de negar o conhecimento fracionado, mas, sim,
partir desse saber acumulativo como base, para o entrelaçamento
entre as ciências. Seria buscar na reciprocidade entre os diferentes
saberes, nas entrelinhas, a construção de um conhecimento
mais global, e ao mesmo tempo, abrangente de um fenômeno, sem excluir
as especialidades.
A educação, assim como a ciência, encontra-se atingida
pela crise. O ensino fragmentado, compartimentado e estanque desvincula
o conhecimento da realidade que é dinâmica e concreta. Ao
mesmo tempo, o ensino dividido em várias matérias, sem relação
entre elas, sem vínculo com a realidade dificulta um livre desabrochar
das potencialidades do sujeito e acaba por aliená-lo. Gera um conformismo
em conseqüência das idéias impostas, fragmentadas, restritas
à sala de aula e sem qualquer tipo de relação com
o cotidiano e o questionamento sobre o saber em construção.
2 Em direção a uma atitude interdisciplinar
docente
Pensando em um caminho a ser percorrido para a formação
interdisciplinar docente, foi possível delinear uma prática
partindo da atitude pessoal de abertura do professor para a construção
de um novo conhecimento que necessita do diálogo entre docentes
e o interesse na integração entre disciplinas, levando em
consideração o aluno/sujeito, parceiro na descoberta, na
comunicação, na reciprocidade de conhecimentos.
2.1 Atitude pessoal de abertura do professor
O passo inicial para um trabalho interdisciplinar depende
da atitude de abertura do professor, de uma postura que parte da própria
vontade para buscar outros conhecimentos, ultrapassar os limites do próprio
saber e superar a visão parcial que a especialização
proporciona à realidade.
A vontade de praticar a interdisciplinaridade não é suficiente
para Nogueira (2001), “há de existir uma vontade política
que vai além do discurso e assuma uma atitude interdisciplinar”.
Para o autor, é preciso romper com os velhos paradigmas e acreditar
no novo para um verdadeiro comprometimento com o trabalho. É necessária
uma conquista interna, individual que, segundo Japiassu, depende de uma,
(...) atitude de espírito, feita de curiosidade,
de abertura de sentido da descoberta, de desejo de enriquecer-se com novos
enfoques, de gosto pelas combinações de perspectivas e das
convicções levando ao desejo de superar os caminhos já
batidos (1976, p. 82).
A postura heurística, de descoberta, o interesse
pela pesquisa, a abertura para o conhecimento mais abrangente e a iniciativa
de ultrapassar as fronteiras do próprio saber são atitudes
que caracterizam o docente determinado em ser um aprendiz para a vida
toda, não somente como uma satisfação pessoal, mas
consciente de uma necessidade para a qualidade de ensino.
Essa atitude marcada pela busca incessante do conhecimento é que
perfila a imagem do professor interdisciplinar que, ao optar em encontrar
outras fontes do conhecimento, rejeita a especialização
e anula o perfil do docente que se firma nos limites do seu saber, que
passa a vida contando o que aprendeu.
2.2 Capacidade de diálogo
O valor da atitude interdisciplinar como iniciativa individual
é importante também para a participação de
um trabalho que carece da orquestração de esforços
em direção de um saber mais aprofundado.
A interdisciplinaridade, enquanto prática coletiva, dependente
da relação dialógica entre os professores. Esse trabalho
em equipe tem muito mais chance de êxito que o empreendimento individual,
sobretudo quando se trata de superar o conhecimento isolado, fragmentado.
Se o professor tem a abertura para o diálogo, as ações
subseqüentes acontecem de uma maneira natural porque o docente está
aberto para o encontro com os seus pares, para a convergência entre
os conhecimentos e, possivelmente, para a construção de
um texto único, escrito a muitas mãos (DEMO, 1997, p. 104).
Para esse intento, o diálogo entre os especialistas é essencial
à competência de cada um e a capacidade de aprender juntos,
para a argumentação e o consenso nas decisões à
emersão de um novo conhecimento. E por competência se entende
como uma atitude em que o sujeito reconhece seus limites na boa tradição
socrática e que tenha o domínio de conteúdo da disciplina
que ministra para a argumentação com seus pares.
Sobre o sentido da competência, cabe ressaltar que, os professores
se conseguirem associar o seu conhecimento com ao dos outros, provavelmente
serão capazes de superar a dicotomia entre a teoria e a prática
social. Para eles não existem fronteiras entre o conhecimento e
a realidade. Sendo assim, mais um espectro poderá ser afugentado
das salas de aula ao unir a teoria e a prática que se distanciaram
em conseqüência da abstração e do recorte feito
no objeto de estudo ou num fenômeno pelo paradigma anterior.
Nesse momento, deixar-se aprender com os seus pares carece de uma “atitude
de humildade diante da limitação do próprio saber“
(FAZENDA, 1979), de abertura para aprender com o outro, de aceitação
dos próprios limites que a especialidade lhe impõe e de
reconhecimento da ignorância frente ao conhecimento que é
múltiplo. São encontros que provocam também uma reflexão
da própria prática, uma revisão para aperceber-se
dos aspectos a serem transformados e do quanto se pode avançar
na própria disciplina. É por essa leitura ampliada da ação
pedagógica que se consegue acionar o autoconhecimento, a conscientização
de que por mais que se saiba, ainda tem-se muito a aprender.
Ao compartilhar experiências, os professores são levados
à percepção das falhas, limitações
e mesmo soluções para problemas de ensino-aprendizagem.
Essa sintonia é que permite a passagem da subjetividade à
intersubjetividade, ao ponto de ver na experiência do outro a complementação
da sua própria.
2.3 Integração entre as disciplinas
A reciprocidade entre os campos do saber não significa
a interdisciplinaridade em si, mesmo que a palavra integração
em seu sentido léxico nos dê essa impressão. Integrar
significa incluir um elemento num conjunto, formando um todo coerente.
Se assim fosse bastaria uma simples inclusão de dados disciplinares
ou então um compósito de diferentes saberes, conservando
cada matéria em seus limites.
A interação entre as matérias tem o seu grau de importância
que, segundo Fazenda (1996, p. 49), surge “como possibilidade de
atingir uma ‘interação’, uma interdisciplinaridade
com vistas a novos questionamentos, novas buscas, enfim, para uma mudança
na atitude de compreender e entender”. Na reciprocidade entre os
diferentes conhecimentos ocorre a mutualidade de influências, e
assim torna-se possível promover não somente a transformação
do conhecimento mas também as pessoas, por torná-las capazes
de enxergar a realidade por diversas dimensões e, com isso, aumentar
as possibilidades de análises e mudanças.
Pela utilização de uma “disciplina-eixo”, na
expressão de Greco (1994, p.94), pode-se efetuar a relação
entre os campos do saber a partir de uma disciplina. As outras matérias
poderão ser integradas para facilitar um processo que busca ligar
as disciplinas sem a intenção de criar uma superciência,
mesmo porque não se elimina a identidade própria de cada
disciplina. O isolamento completo é que descontextualiza a disciplina
da realidade. É necessária a eleição de um
eixo integrador para uma visão mais holística do saber e
conseqüentemente interventor na realidade.
Os projetos interdisciplinares são, para Nogueira (2001), uma maneira
de atingir a integração entre as disciplinas e os diversos
saberes das diferentes áreas do conhecimento. Dessa forma, explica
o autor, espera-se que ocorra a interação entre todos os
participantes do processo de ensino-aprendizagem (professores e alunos),
e não que as diferentes matérias ministradas de forma compartimentadas,
embora tratando superficialmente da mesma temática, sirvam de subsídios
para que cada aluno realize mentalmente sua própria integração.
A reorganização do currículo por projetos é
a principal proposta do educador espanhol Fernando Hernández (1998b,
p. 52). Segundo o autor, a noção mais globalizada do conhecimento
é produzida quando o docente, a partir de um tema que surge da
turma ou que venha nos programas oficiais ou em livros texto, busca propor
aos alunos algumas relações. Para isso, vai fazendo confluir
diferentes conteúdos de várias disciplinas em torno do assunto
escolhido. Daí, todas as matérias se agrupam em torno de
um tema comum. Dessa maneira tem-se uma noção globalizada.
No momento de analisar as integrações entre disciplinas,
é preciso observar que não existe apenas um modelo que possa
predizê-las ou um único caminho para esse procedimento. Pode-se,
nesse caso, apostar na criatividade e encontrar uma trajetória
que conduza não a uma justaposição entre as matérias,
mas algo que possibilita uma complementação calcada na transformação
de cada uma.
2.4 Ação de trabalho pedagógico envolvendo o futuro
docente
Para trilhar os caminhos da interdisciplinaridade alguns
passos devem iniciar na Universidade, na formação do futuro
docente. Essa trajetória será possível se levar o
professorando a abandonar a condição de ouvinte e assumir
a de parceiro do mestre, aprendendo a dialogar e conhecer as dificuldades
que lhe aparecerão no percurso, no cotidiano pedagógico.
Ao mesmo tempo, experienciar a construção de um conhecimento
mais global, em parceria.
A apreensão da necessidade do trabalho interdisciplinar só
se consegue a partir da superação da dicotomia entre teoria/prática.
É preciso que o futuro docente tome conhecimento dos propósitos
teóricos que justificam a necessidade da ação interdisciplinar
para assumir uma atitude em defesa dessa prática que depende da
vontade e da disponibilidade de cada um para a construção
do conhecimento mais abrangente da realidade a partir da escola para a
vida.
Além da atitude interdisciplinar do professor, são necessárias
as aplicações de técnicas de ensino que levem o licenciando
ao gosto de aprender a aprender e a praticar o diálogo.
Na pesquisa - uma estratégia importante para a ultrapassagem de
um conhecimento que antes era considerado em seus limites e agora é
complexo - é importante que os futuros docentes sejam protagonistas
na descoberta como um exercício que chega a ser uma arte, o saber
perguntar. O trabalho sistematizado com leituras de publicações
diversas, a produção própria e coletiva de textos,
a utilização intensa da biblioteca, a investigação
de ordens socioeconômicas com vários pontos de vista, seriam
possibilidades para formar o docente incomodado com a verdade estabelecida
e partir em busca de uma visão mais abrangente daquilo que precisa
conhecer.
A pesquisa assinala Kincheloe( in HERNÁNDEZ, 1998, p. 25), é
o melhor caminho para ensinar alguém a pensar, aprender compreensivamente,
através da observação do contexto social quando os
aprendizes percorrem os caminhos necessários para tomar tenência
das versões dos fatos que permitem a interpretação
da realidade.
Através da comunicação, da reciprocidade dos saberes
adquiridos na pesquisa e da troca de informações, as fronteiras
do conhecimento vão sendo eliminadas e a conscientização
de um saber sem limites vai sendo amadurecida para que o futuro profissional
da educação consiga transformar a interdisciplinaridade
em uma prática natural, fazendo de qualquer assunto, por mais simples
que seja, passar a ser tratado de modo interdisciplinar, em parceria.
Na integração entre as disciplinas, uma das exigências
para diminuir as distâncias entre elas é partir da interação
entre os professores, estabelecendo uma espécie de circularidade
do conhecimento. Nessa ação em que o conhecimento vai para
o outro e se transforma necessariamente o educando precisa fazer parte
desse circuito para poder refletir sobre os conhecimentos e estabelecer
sentido do saber integrado com a realidade.
Dessa forma, professores e professores, docentes e licenciandos em parcerias,
conseguem um enriquecimento maior não somente na aprendizagem coletiva,
mas em cada um.
Nesse momento de alteridade (como produção/construção
de conhecimento), os mestres que levam em consideração as
informações trazidas pelos licenciandos , inteirando-se
delas, revitalizam-se, visto que hoje os acessos às fontes de informação
estão cada vez maiores e disponíveis. Os educandos envolvidos
no processo da busca se enriquecem, ampliando a sua visão de mundo
e de vida.
O professorando, ao ser inserido como sujeito parceiro no processo de
ensino e aprendizagem, estará sendo preparado para viver a interdisciplinaridade,
para criar situações possíveis para praticá-la
no cotidiano escolar e, assim, induzir os seus futuros alunos a buscar
sempre a apreensão da realidade nas suas mais diferentes facetas.
A tendência atual de ensinar e aprender tira o professor da trajetória
solitária, passando a seguir o seu intento, partindo da solidariedade,
da colaboração entre os sujeitos para a construção
de um saber que não se acaba, mas que se abre para mais buscas.
Na perspectiva do desenvolvimento de uma atitude interdisciplinar no futuro
docente, foi possível elaborar um diagrama demonstrativo das relações
interdisciplinares entre dois professores (P1 e P2) responsáveis
pelas disciplinas d1 e d2. Vejamos como essa representação
se configura:
A – região/espaço da relação
atitudinal de iniciativa de cada docente (motivação para

iniciar o
trabalho interdisciplinar) = vinculação com a energia (lâmpada)
B – região/espaço da relação de abertura
do docente em relação aos outros colegas com o intuito de
iniciar concretamente a interação. (bocal da lâmpada)
C – região/espaço da relação de natureza
epistemológica entre as disciplinas onde efetivamente se integram
conteúdos, objetivos, bibliografias, tarefas comuns, provas e trabalhos
para avaliação. (haste que segura o filamento)
D – região/espaço da relação avançada
de docentes e discentes na realização do diálogo
interdisciplinar (luz derivada do filamento).
Esta é uma possibilidade de desenvolver a atitude interdisciplinar
no futuro docente. A iniciativa pessoal e o diálogo são
atitudes fundamentais para que o educador possa despertar no licenciando
o interesse em trabalhar a interdisciplinaridade, em parceria e, assim,
atender a atual formulação teórica sobre a complexidade
do real.
O trabalho pode ser realizado entre dois ou mais professores. Uma iniciativa
individual também se apresenta significativa, mas para Japiassu
(1976) não passa de um autodidatismo injustificável. O trabalho
é mais enriquecedor se for feito em equipe. A atitude singular
é apenas um facho de luz para clarear o trajeto que conduz até
a interdisciplinaridade.
A união dos esforços dos professores em direção
à construção de um saber mais geral se transforma
em fontes geradoras de energias, capazes de iluminar as mentes e os caminhos
dos futuros docentes para a prática interdisciplinar.
Olhando o diagrama, é possível destacar que, se os docentes
envolverem os alunos em um trabalho interdisciplinar, qualquer nível
de ensino, seja fundamental, médio e superior provavelmente vai
despertar nele a atitude de buscar sempre para a compreensão dos
acontecimentos de maneira mais abrangente.
Mais uma vez podemos reforçar a questão da formação
do professor interdisciplinar para trabalhar em equipe, conscientizar
de que as especialidades servem como nexo de comunicação
para que se possa construir um saber mais complexo e integrado à
realidade.
5 Pesquisa sobre o trabalho interdisciplinar de professores do curso de
História.
Levando em consideração os desafios apontados para a educação,
este trabalho tende a refletir sobre a opinião dos professores
universitários do curso História sobre a importância
da proposta do trabalho interdisciplinar na educação, as
suas experiências e dificuldades para aplicar a alternativa pedagógica
baseada na interdependência entre as disciplinas e na interação
entre os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.
O recorte feito para saber o que pensam os professores de História
se justifica pela formação em História e a prática
pedagógica da pesquisadora. Sobre essa escolha Oliveira (2001,
p.19), comenta a explicitação de Wright Mills que os pensadores
mais admiráveis não separam seu trabalho de suas vidas.
Encaram ambos demasiados a sério para permitir tal dissociação,
e desejam usar cada uma dessas coisas para o enriquecimento da outra.
A discussão sobre a interdisciplinaridade a partir da visão
do professor especializado surge da própria proposta de ensino
que, para a construção do conhecimento global, é
preciso a união entre os diferentes olhares. Isto é, a partir
da especialização é possível estabelecer a
troca entre os diferentes saberes.
A pesquisa de natureza qualitativa foi a metodologia escolhida por se
tratar como melhor “alternativa para a investigação
em educação” (TRIVIÑOS, 1987, p.118). Esse
tipo de análise foi escolhida por se perceber que as informações
sobre a experiência dos professores dificilmente poderiam ser quantificadas.
A trajetória feita pela pesquisadora, em busca da opinião
dos professores sobre o trabalho interdisciplinar, iniciou-se com o pedido
de autorização aos professores responsáveis pelo
departamento do curso de História, das Instituições
de Ensino Superior, para efetuar a distribuição dos questionários.
A departamentalização das universidades foi referenciada
por diversos autores como um obstáculo para a implantação
da prática interdisciplinar. Dentro desse raciocínio, Japiassu
(1976, p.110) esclarece que as funções bem precisas das
faculdades ou departamentos universitários desempenham tarefas
definidas com vistas à formação de determinada categoria
de profissional. Assim, divididas em “feudos”, a Instituições
tendem a formar o especialista, aquele capaz de enxergar a realidade por
meio de um único facho de luz. A dificuldade de comunicação
distancia os profissionais de uma ação pedagógica
baseada na inter-relação dos conteúdos.
De acordo com Demo (1997, p.96-97), a reclusão departamental ao
favorecer a especialização isolada faz com que cada departamento
venha a se bastar. Mesmo em espaços considerados comuns, como os
das Ciências Humanas e Sociais, ou Naturais e Exatas não
se comunicam, quanto mais entre campos teóricos diferentes, afirma
o autor. Ele cita o exemplo de se colocar um pedagogo e um biólogo
para trabalharem e concluiu que juntos a iniciativa é pouco produtiva,
porque ambos aprenderam que são de áreas diferentes, opostas.
Em uma conversa com o chefe de departamento de uma universidade, ele comentou
sobre a rivalidade entre professores de diferentes departamentos. Professores
do bacharelado não estabelecem nenhum vínculo com docentes
do curso de licenciatura. Esta postura inibe qualquer iniciativa de diálogo
e cria uma resistência à interdisciplinaridade por causa
da exacerbação da competição (DEMO, 1998).
Além da rivalidade entre docentes, o chefe de departamento mencionou
existência de uma disputa entre universidades, enfraquecendo a troca
de saberes entre especialistas de diferentes instituições.
Nesse caso, o entesouramento epistemológico (JAPIASSU, 1976) esconde
o conhecimento como se fosse um bem particularizado que não pode
ser partilhado. O saber é um bem que pertence à humanidade
e não um monopólio de uma determinada Instituição
de Ensino e Pesquisa.
Para esta pesquisa, foi utilizado um questionário com questões
fechadas e abertas. O primeiro momento tratou da identificação
do entrevistado, para uma sondagem da trajetória do profissional,
levando em consideração o tempo que leciona e a formação
profissional. A segunda parte centrou-se na opinião dos professores
entrevistados, partindo da sua vivência em relação
ao trabalho interdisciplinar.
Muitos questionários foram distribuídos e poucas respostas
retornaram. Para a primeira Instituição, foram levados 24
questionários e apenas três professores se dispuseram a contribuir
com a pesquisa. A segunda Instituição, dos 11 docentes,
também três responderam à pesquisa.
O silêncio dos professores que se omitiram a pesquisa abre espaço
para que a imaginação nos permita questionar como os mesmos
têm preparado o educando diante das novas propostas paradigmáticas.
Não nos cabe julgar, apenas conhecer e analisar as palavras dos
professores que expuseram a sua maneira favorável ou não
à prática interdisciplinar.
O resultado da pesquisa mostrou a falta de experiência interdisciplinar
do docente universitário a partir da idéia de que a interdisciplinaridade,
quando é feita, restringe-se à integração
de disciplinas. Pensando também dessa mesma maneira, a própria
pesquisadora, percorreu caminhos penosos para se livrar dos preconceitos
e acabar com os resíduos de uma idéia concebida sem um estofo
teórico-científico. Somente depois de muita leitura sobre
a temática foi possível fundamentar essa pesquisa e perceber
que trabalhar a interdisciplinaridade, a reciprocidade entre as matérias,
significa apenas um momento do processo interdisciplinar.
A necessidade da integração para Fazenda (2000, p.49) surge
como possibilidade de atingir-se uma “interação”,
uma interdisciplinaridade com vista a novos questionamentos, novas buscas,
mudanças na atitude de compreender e entender.
A nosso ver, a reciprocidade entre as disciplinas, não deixa de
ser uma alternativa interessante. O caminho da integração
virá de uma dinâmica de busca, de pesquisa e de entre - ajuda.
O diálogo, a parceria e os encontros determinantes para a troca
de saberes aproximam os especialistas tirando-os dos limites do conhecimento
e, em território neutro, estreitam as relações interpessoais.
O sentido de cooperação toma o lugar do isolamento disciplinar.
Os professores pesquisados apresentaram um discurso interdisciplinar em
que reconhecem a importância de se estabelecer uma relação
entre as diferentes áreas do conhecimento. Contudo, para as perguntas
sobre a própria prática, o silêncio foi registrado
no espaço deixado em branco de quase todos os professores. Essa
ausência denota a desvinculação da intenção
e do gesto docentes. A fala sem o compromisso com a prática é
vazia. A prática sem a luz da teoria acaba por ofuscar o verdadeiro
sentido sobre o que vem a ser um trabalho interdisciplinar. E sem saber
como fazer os especialistas reduzem o fazer da nova epistemologia a uma
simples justaposição de conteúdos. Por conseqüência,
a intenção acaba em gestos pouco significativos, ou, como
afirma Nogueira (2001), em práticas simplistas nas escolas frente
ao que se propõe a construção do conhecimento de
modo interdisciplinar.
Em relação à dicotomia intenção/gesto,
Fazenda (2000) afirma que é necessária uma interação
entre a teoria e a prática, fundamentando-se como um treino constante
no trabalho interdisciplinar, lembrando que a interdisciplinaridade não
se ensina, nem se aprende, apenas vive-se, exerce-se. Todas as pessoas
envolvidas neste processo deixarão de ser aprendizes para se tornarem
criadores de novas estruturas voltadas para a transformação
da ação e do espaço pedagógicos.
A ação interdisciplinar segundo os professores se reduz
a uma prática solitária, não conseguindo perceber
a necessidade da abertura para o diálogo e nem mesmo envolvendo
o aluno como parceiro principal do processo de aprendizagem. Os educandos
não estando integrados à prática, na ótica
dos professores, são objetos, resultado final de uma pedagogia
centrada no isolamento do mestre e do seu conhecimento.
Para os professores que participaram da pesquisa, o número de aulas
e o tempo que possuem para ensinar não são suficientes para
discutir a interdisciplinaridade. Para Fazenda (2000, p.57), a prática
da interdisciplinaridade exige uma nova articulação de espaço
e tempo que favoreça os encontros e trabalhos em pequenos grupos,
assim em contatos individuais entre professores e alunos.
Muitas vezes as próprias escolas não incentivam a prática
interdisciplinar. De acordo com a pesquisa realizada por Araújo
e Lopes (2003, p.96), junto a um grupo de professores da PUC-Campinas
e docentes da rede pública, “as diretrizes e as pesquisas
recomendam uma nova postura pedagógica frente a novos paradigmas
educacionais que se despontam, mas a escola não está sendo
preparada para trabalhar uma nova relação tempo-espaço”.
Mesmo atentando contra a falta de tempo, os professores não deixaram
de expor a sua opinião sobre as possibilidades de realização
da prática interdisciplinar. São idéias que envolveram
sugestões como mudanças ambiental e curricular, mas sem
a menção da atitude entendida como propulsora para a realização
de um trabalho que depende da colaboração de todos os participantes
do processo, ao nosso entender, de mestres e aprendizes.
O educador preso na armadilha de sua especialidade não é
capaz de recuar em relação a ela, conforme esclarecimento
de Gusdorf (in Japiassu, 1976, p. 94). Por isso, continua o autor, “cativado
pelo detalhe, o especialista perde o sentido do conjunto, não sabendo
mais situar-se em relação a ele”.
A prática interdisciplinar carrega consigo a necessidade do trabalho
em equipe. Ensinar o professor a dialogar, a incentivar a busca de outros
conhecimentos diferentes é papel da Universidade. É nesse
espaço que as discussões e práticas serão
determinantes para que o futuro docente possa chegar às escolas
de ensino fundamental e médio e exercer a interdisciplinaridade
ciente das reais implicações sobre o que, quando, como e
por que da importância dessa prática.
Considerações
finais
A lacunidade
das respostas dos questionários revela a insegurança sobre
o assunto, de que os professores ouvem falar e até são cobrados
pelas Instituições na ação pedagógica,
mas sobre o qual ou quase nada acumulam de experiência. O que nos
parece é que as Instituições de ensino e pesquisa
costumam alardear sobre o ensino-aprendizagem baseado na interdisciplinaridade
apenas como um símbolo de modernidade sem criar as condições
necessárias, como o diálogo entre docentes, para que a interdisciplinaridade
funcione em sua plenitude.
Ao insistir sobre a importância do docente na formação
interdisciplinar do licenciando não queremos aferir ao mestre a
missão salvífica do ensino em crise, mas pela sua própria
capacidade em gerir transformações para melhor atender aos
seus discípulos.
O professor disposto a enfrentar o que ainda parece ser um desafio, eliminando
barreiras pessoais e institucionais, ao integrar o licenciado na ciranda
do conhecimento estará preparando- o para seguir em frente, envolvendo-se
sempre em uma rede interativa, para a construção de um saber
mais abrangente.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ABRAMOWICZ,
Mere. A importância dos cursos de formação reflexiva
docente no interior dos cursos universitários. In, CASTANHO, Sérgio
e CASTANHO, Maria E. (orgs.). Temas e Textos e metodologia do ensino superior.
Campinas-SP, Papirus, 2001.
ALVES, Alda Judith, O Planejamento de Pesquisa Qualitativas em Educação.
Cad. Pesq., São Paulo (77), maio 1991, p. 53-61.
ALVES Mazzoti, A.J. e GEWANDSNAJDERF. O método nas ciências
naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo:
Pioneira, 1998.
ANGELIS, Sérgio. Fundamentos filosóficos para a interdisciplinaridade
in WACHOWICZ, Lilian Anna (org). A interdisciplinaridade na universidade.
Curitiba, Champagnat, 1998.
ARAÚJO, Elizabete Adorno e LOPES, Jairo de Araújo. Práticas
Interdisciplinares: Análise dos obstáculos Didáticos
e Epistemológicos nas Áreas de Ciências Humanas e
Ciências Sociais Aplicadas. Revista de Educação PUC
– Campinas. n.15 – Novembro 2003.
BARRETO, Maria da Apresentação. Os fantasmas da escola:
da fragmentação a totalidade. Revista de Educação,
AEC, n 121, 2001.
BIANCHETTI, Lucídio e JANTASCH, Ari Paulo (orgs) Interdisciplinaridade
para além da filosofia do sujeito. Petrópolis, RJ: Vozes,
1995.
CAPRA, Fritjof.
O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.
CASTANHO, Maria Eugênia L.M e PASSOS, Veiga Ilma (orgs.) Pedagogia
Universitária: a aula em foco. Campinas, SP: Papirus, 2000.
COSTA, Marisa C. Vorraber. Pesquisa em educação: concepções
de ciência, paradigmas teóricos e produção
de conhecimentos. Cad. de pesq., São Paulo, n. 90, p. 15-20, ago.
1994.
DAMAS, Luiz Antônio. Novo paradigma e seus desafios. Revista de
Educação. PUC-Campinas. p.23 – 39, n. 10, junho, 2001
DEMO, Pedro. Conhecimento Moderno, sobre ética e intervenção
do conhecimento. Petrópolis (RJ): Vozes, 1997.
____________. Pesquisa: princípio científico e educativo
- 3ª ed. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1992.
ETGES, Noberto J. Ciência, interdisciplinaridade e educação,
BIANCHETTI, Lucídio e JANTASCH, Ari Paulo (orgs) Interdisciplinaridade
para além da filosofia do sujeito. Petrópolis, RJ: Vozes,
1995.
FAZENDA, Ivani C. Arantes. Integração e Interdisciplinaridade
no Ensino Brasileiro-Efetividade ou Ideologia. São Paulo: edições
Loyola, 1979. 5ª ed. 2000
________________. Interdisciplinaridade: História, Teoria e Pesquisa.
Campinas, Papirus, 1994
________________ (org). Práticas Interdisciplinares na Escola.
São Paulo, Cortez Editora, 1996.
_______________ (org.). Dicionário em Construção:
interdisciplinaridade. São Paulo, Cortez, 2002.
FOLLARI, Roberto. Algumas considerações práticas
sobre interdisciplinaridade, in BIANCHETTI, Lucídio e JANTASCH,
Ari Paulo (orgs) Interdisciplinaridade para além da filosofia do
sujeito. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
GARCIA, Joe. Notas sobre o professor interdisciplinar. Quaestio. Revista
de estudos de educação. Ano 5. Número 02. Novembro
2003.
GRECO, Milton. Interdisciplinaridade e Revolução do Cérebro.
São Paulo: Pancast Editora, 1994. 2º ed.
HERNÁNDEZ, F. Transgressão e mudança na educação:
os projetos de trabalho. Trad. Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre:
ArtMed, 1998.
______________ e VENTURA, M. A organização do currículo
por projetos de trabalho. Trad. Jussara Haubert Rodrigues. 5ª ed.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro,
Imago, 1976.
_______________. A atitude interdisciplinar no sistema de ensino. Rev.
Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n 108, p.83-94. Jan.- mar., 1992.
LOURINHO, Silvana de Souza. Por uma docência interdisciplinar no
ensino superior. 2003. 120p. Dissertação (mestrado) –
Puc- Campinas. Campinas 2003.
LÜCK, Heloisa. Pedagogia Interdisciplinar: fundamentos teóricos
e metodológicos. Petrópolis (RJ): Vozes, 1994. 2ª ed.
MACHADO, Carmen Lucia Bezerra, Maria Aparecida Bergamaschi, Marlene Ribeiro
e Eliane Ribeiro Pardos. Interdisciplinaridade como solidariedade: desafio
à formação de professores. Educação
e Cultura, 26 (2): 127-156, jul/dez. 2001.
MINAYO, Maria Cecília (org.) O desafio do conhecimento: pesquisa
qualitativa em saúde. São Paulo-Rio de Janeiro: HUCITEC-ABRASCO,
1992.
________________________Pesquisa Social: teoria, método e criatividade.
Petrópolis, Vozes, 1994.
MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. Campinas,
Papirus, 1997.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação
do futuro. 6ª. ed. São Paulo, Cortez; Brasília, DF:
UNESCO, 2002.
____________ . Introdução ao pensamento complexo/ tradução
Dulce Matos. Rio de Janeiro: Ed. Instituto Piaget, 1997
______________. Ciência com consciência. 6ª ed, Rio de
Janeiro, Bertrand Brasil, 2002
NETO, Alexandre Shigunov , MACIEL, Lizete S. B. ( orgs.). Reflexões
sobre a formação de professores – Campinas, SP: Papirus,
2002.
NOGUEIRA, Nilbo Ribeiro. Pedagogia dos Projetos: uma jornada interdisciplinar
rumo ao desenvolvimento das múltiplas inteligências. São
Paulo: Erica, 2001.
PETRAGLIA, Izabel Cristina. Interdisciplinaridade: o cultivo do professor.
São Paulo: pioneira: Universidade São Francisco, 1993.
PORTILHO, Evelise Maria L.. A psicopedagogia no ensino superior: o ensinar
aprendendo e o aprender ensinando. In WACHOWICZ, Lilian Anna (org). A
interdisciplinaridade na universidade. Curitiba, Champagnat, 1998.
SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e Interdisciplinaridade:
o currículo integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.
SEVERINO, Antônio Joaquim/ Jeanete L. M. de Sá (orgs.) Serviço
social e interdisciplinaridade: dos fundamentos filosóficos a prática
interdisciplinar no ensino, pesquisa e extensão. São Paulo,
Cortez, 2000.
SUERO, Juan Manuel Cobo. Interdisciplinariedad y Universidad. Madrid:
Universidad de Madrid, 1986.
TRIVIÑOS, Augusto N. S.. Introdução à pesquisa
em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação.
São Paulo, Atlas, 1987.
WACHOWICZ, Lilian Anna (org). A interdisciplinaridade na universidade.
Curitiba, Champagnat, 1998. |
|