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UNIVERSIDADE,
LEITURA E FORMAÇÃO DOCENTE
Filomena Maria Formaggio - Universidade do Contestado
– UnC – Concórdia/SC
Mire veja: o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as
pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram
terminadas – mas que elas sempre estão mudando...
Guimarães Rosa
Introdução. O presente artigo se insere
num debate acerca do papel da leitura na formação inicial
de professores e parte da consideração de histórias
de leitura de professores formadores de professores no período
em que cursaram a universidade*. Propõe, igualmente, uma reflexão
sobre a relevância da leitura no período inicial de formação
docente e na produção do conhecimento, rumo – quem
sabe – à superação da mudez telepática
presente em nosso tempo.
Trata-se de um estudo de caráter qualitativo, na modalidade investigação
narrativa. O universo da pesquisa constituiu-se de seis docentes e o critério
de escolha dos sujeitos baseou-se no fato de todos serem formadores de
professores. A coleta dos dados foi realizada por meio de entrevistas
audiogravadas e, posteriormente, transcritas. Os dados foram analisados
a partir dos relatos dos sujeitos.
No período investigado – a formação inicial
- as leituras dos sujeitos assumem a forma de alguns artigos e textos
de apostilas. No caso de um entrevistado - fez Letras Clássicas
- livros para análise e alguns trechos da Ilíada, e da Odisséia.
Outro se interessava pelas leituras sobre questões de psicologia
uma vez que cursava Filosofia como aluno ouvinte e costumava freqüentar
a biblioteca da faculdade. Nenhum dos entrevistados se lembra, porém,
de, na Graduação, a leitura ter ocupado um papel de destaque,
tanto no que se refere ao incentivo/estímulo dos professores a
outras/novas leituras quanto às solicitações dos
diversos cursos.
As lembranças de leitura que os sujeitos trazem da época
em que cursaram a universidade não diferem substancialmente das
trazidas dos períodos anteriores de escolarização.
São, em sua maioria, marcadas pelas leituras de trechos de livros,
apostilas, alguns artigos trazidos pelos professores e tratados, invariavelmente,
de forma fragmentada.
Ao se referirem à formação inicial deixam escapar
certa frustração, especialmente em relação
à leitura, que se manifestam em suas vozes. Tal frustração,
a nosso ver, pode ser entendida como a não concretização
das expectativas que os sujeitos apresentavam em relação
ao ensino superior.
Vale ressaltar, porém, que a Universidade tem compromisso com o
saber, posto que um dos seus compromissos básicos é com
o ensino,
...pois a difusão do saber dá-se no âmbito
da sala de aula, ainda quando esta, formalmente, confunde-se com o laboratório,
a sala de projeção, o anfiteatro, a biblioteca. (...) é
nela que ocorre a veiculação do conhecimento, despindo-o
da sacralidade conferida por aqueles que o transformam num exercício
do poder. A sala de aula é o espaço para o trânsito
de idéias e concretização de uma aspiração
da democracia: a de que todos tenham oportunidades iguais de acesso ao
conhecimento e de pesquisar novas tecnologias enquanto condição
do progresso social e da emancipação política (Zilberman,
1991:139).
A veiculação do conhecimento, de que fala a Autora, aparece
nas falas dos entrevistados como não tendo ocorrido de forma satisfatória,
quando claramente assumem que o ensino superior não lhes correspondeu
aos anseios iniciais.
A minha Graduação foi uma calamidade em
termos de leitura. O professor trazia três ou quatro páginas
de um texto e nos dividia em grupos e dizia: “para o grupo um, do
parágrafo tal ao parágrafo tal”; “para o grupo
dois, do parágrafo tal ao tal...” Era tudo muito fragmentado...
Nós não entendíamos nada do que estava no texto.
A coisa ficava muito solta, muito perdida... Eu entendia os parágrafos
que eu tinha lido, mas não conseguia conectar com aquilo que os
colegas tinham lido...
...Outro professor trazia um questionário. Primeiro fazia uma exposição
de, mais ou menos, uma hora e meia. Depois, nos dava um questionário
com questões objetivas e tínhamos que responder conforme
o que ele tinha falado na aula. Tínhamos que dizer qual era a alternativa
certa que ele tinha falado.
...O professor de Sociologia nunca deu, nunca sugeriu
um livro sequer para nós lermos...
...Eu acho que a faculdade foi meio “fajuta”
pra mim... Eu não me lembro de ter esse... entusiasmo por parte
de professor... Em nenhum momento...
... Nesse período eu pensava: ‘como eu gostaria
de saber ler’, ‘como eu gostaria de gostar de ler’...
...Eu não sei se eu não gostava [de ler]
ou tinha preguiça ou era uma coisa sem motivação
ou porque eu não tinha dinheiro pra comprar os livros. Na biblioteca
eu ia só quando precisava, quando na faculdade exigiam, então
nunca fui lá [à biblioteca] pra catar um livro e ler e emprestar,
por vontade própria...
As falas dos entrevistados são reveladoras de um
modelo epistemológico/pedagógico assumido pela universidade.
Modelo esse calcado na transmissão-recepção, e que
privilegia a superespecialização, fragmentando, portanto,
o conhecimento. Nessa perspectiva, a “posse da verdade”, característica
deste modelo e das ações inspiradas ou fundadas no positivismo,
parece tornar a leitura desnecessária ou supérflua, pois,
quando ‘se sabe o fim da história, o final do livro, se o
mocinho morre, se os protagonistas ficam juntos, a leitura perde a graça,
se perde o interesse....’
Este modelo de educação pode ser caracterizado como aquilo
que Santos (1987:18) identificou como paradigma dominante, paradigma este
orientado pela racionalidade científica onde só há
duas formas de conhecimento: as disciplinas formais da lógica e
da matemática e as ciências empíricas segundo o modelo
mecanicista das ciências naturais em contraposição
àquilo que chamou de paradigma emergente que reconhece a intencionalidade,
a não neutralidade e concebe a ciência como um ato humano
e historicamente situado.
Na perspectiva da formação de professores, inserida nas
ciências humanas, o modelo epistemológico/pedagógico
assumido pela universidade, conforme relato dos sujeitos, apresentava
a vinculação tradicional ao paradigma dominante especialmente
por entender que a fragmentação e a superespecialização
levariam ao conhecimento da realidade com a qual os entrevistados teriam
que se deparar no exercício da profissão docente.
Considerações sobre algumas concepções
de ensino. Muito se tem discutido acerca da qualidade da formação
universitária e, em particular, dos licenciandos. Essas discussões
têm buscado entender e, em certos casos, relacionar, o desempenho
docente e a formação inicial de tais profissionais. Isso
porque tem havido uma tendência a se procurar os ‘responsáveis’
pelos insucessos da educação, quer seja no Ensino Fundamental,
Médio quer seja no Ensino Superior. E essa busca tem posto seu
foco sobre o que se convencionou chamar de ensino tradicional.
O ensino tradicional apresenta alguns pressupostos já discutidos
por autores como Santos (1987; 1994), Cunha (1998), Balzan (1995), Perrenoud
(1993), Nóvoa (1991; 1992) entre outros que podem, para efeito
didático, ser assim caracterizados conforme sistematização
de Cunha (1998:10-12): (1) o conhecimento é tido como pronto e
acabado, historicamente descontextualizado; (2) a disciplina intelectual
é tomada como reprodução das palavras, textos e experiências
do professor; (3) valoriza-se a memória, a precisão e a
‘segurança’; (4) destacam-se a resposta única
e verdadeira e o pensamento convergente; (5) no currículo, cada
disciplina é concebida como um espaço próprio de
domínio do conhecimento que luta por quantidade de aulas para ter
‘toda a matéria dada’; (6) o professor é a principal
fonte de informação e se sente desconfortável quando
não tem todas as respostas prontas para os alunos; (7) a pesquisa
é vista como atividade para iniciados, fora do alcance de alunos
da graduação, na qual o aparato metodológico e as
certezas se sobrepõem à capacidade intelectiva de trabalhar
com a dúvida.
No âmbito da formação docente, o ensino e a aprendizagem
delineada pelos pressupostos acima apresentados tem apontado para um descompasso
entre o que se faz e o que seria desejável a uma formação
que considera a alteridade e a provisoriedade do conhecimento.
Sabe-se, a partir de estudos em todas as áreas do conhecimento
– inclusive na Física – que o universo não é
linearmente planejado e que a sociedade humana é movida por forças
contraditórias (Cunha, op. cit.). Dessa forma, a educação
trazida pela universidade tem sido pautada nesse modelo linear valorizando
a restrição do conhecimento à especialidade, à
área à qual pertence. E o que foge a esta caracterização
tende a ser considerado pouco científico e, como tal, colocado
sob suspeita.
Se, se entender, porém, que o conhecimento é total –
como o universo e a vida – e se constitui ao redor de temas, torna-se
difícil aceitar a tendência à fragmentação
informada pelos sujeitos, de vez que o conhecimento sendo total e constituído
ao redor de temas, estes tendem a avançar/progredir ao encontro
uns dos outros de maneira tal que se entrelaçam e buscam as mais
variadas interfaces. Isso implica dizer com Santos (op. cit.) que nenhuma
forma de conhecimento é, em si, racional e, portanto, dialoga com
outras formas de conhecimento, deixando-se penetrar por elas.
Essa dialogicidade presente no conhecimento pressupõe uma articulação
necessária entre as áreas do saber e, conseqüentemente,
das diversas formas e fontes de leitura presentes na universidade. Tal
articulação apresentou-se – pelas vozes dos sujeitos
– insuficientes, uma vez que informam que as leituras eram realizadas
a partir de ações e procedimentos estanques. A utilização
de ‘apostilas’ per se tende a apresentar um olhar imutável
sobre o assunto, bem como os trechos de livros tratados de forma desarticulada.
Se as vozes dos sujeitos sugerem a desarticulação acima
exposta, apresentam, ao mesmo tempo, mais duas possibilidades de observação/discussão.
Em primeiro lugar, não foram consideradas até aqui neste
estudo, as condições de leitura desses sujeitos. Em segundo
lugar, não se cogitou também sobre o compromisso assumido,
mesmo que tacitamente, dos entrevistados quando do ingresso na universidade.
Esses dois aspectos da formação dos sujeitos, no meu entendimento,
precisam ser discutidos e considerados.
As condições de leitura. Em seus depoimentos
a maioria dos entrevistados informou que freqüentava a universidade
à noite, em função da necessidade de trabalhar para
seu próprio sustento e/ou contribuir para o sustento da família.
Os demais procuravam se dedicar aos estudos em tempo integral.
As condições nas quais a leitura ocorria aos que precisavam
trabalhar durante o dia para, à noite, freqüentarem a escola,
eram sobremaneira adversas, já que além do cansaço
do trabalho ‘tinham’ que estar atentos o suficiente –
e com vontade – para ‘assimilarem’ os conteúdos
trazidos pela universidade, dado que pretendiam ser professores.
No primeiro caso, de acordo com as vozes dos sujeitos, driblar o cansaço,
ficar atentos e ainda lerem – quaisquer portadores de textos –
pareciam, de certa forma, incompatíveis. Isso porque os sujeitos
apontam que as leituras eram realizadas na sala de aula e, segundo eles,
de maneira ‘muito solta’, para responder aos questionários
ou fazer a leitura de determinados ‘parágrafos’ de
um mesmo texto.
Tais ações pedagógicas de leitura descontextualizadas
parecem ter sido um fator de desestímulo aos sujeitos, já
que suas histórias de leitura precedentes na escola não
lhes haviam possibilitado uma formação de ‘leitores’
autônomos, dado que as leituras estiveram sempre atreladas às
avaliações, em geral, dos conteúdos lidos, avaliações
estas de caráter mecânico e sem significação
a eles.
Além disso, as condições sociais nas quais estavam
inseridos os sujeitos representava outro fator a ser considerado nesta
discussão. Os entrevistados informam que, à época
de suas graduações, por ‘precisarem’ trabalhar,
não dispunham de tempo para estudar e, ainda segundo eles, ler...
Em alguns casos, afirmam que só dispunham do fim de semana para
tratarem de todas as disciplinas, além de cuidarem de suas vidas
pessoais, colocando, desse modo, a leitura como algo que poderia ‘esperar’
ou ser realizada mais ou menos superficialmente, uma vez que as solicitações
seriam para responder às questões de sala de aula e/ou comunicarem
aquilo que denominaram ‘trabalhos’ em classe. Tais trabalhos
eram divididos em grupos e cada grupo lia e apresentava aos demais um
trecho do texto lido e/ou proposto pelo professor. Portanto, o aprofundamento
das leituras estava, em certa medida, descartado.
Entretanto, qualquer trabalho que procure tornar a leitura conquista de
uma realidade não pode esquecer o contexto de sua luta e tampouco
excluir de seus horizontes a realização da felicidade individual
no projeto de construção de uma sociedade democrática
em todos os sentidos dessa expressão (Geraldi, 1996:86).
Outro problema trazido pelos entrevistados diz respeito à questão
de ordem financeira. Afirmam alguns que, apesar de trabalharem para poderem
se manter, não tinham condições de adquirir os livros
que eventualmente eram sugeridos. Lembram, também, que os textos
indicados pelos professores eram fotocopiados e que, até para tais
cópias, o dinheiro de que dispunham era insuficiente.
As bibliotecas das universidades não foram levadas em conta neste
período, à exceção de dois sujeitos que se
dedicavam aos estudos em tempo integral.
Ao questionar os sujeitos que haviam sido ‘alunos-trabalhadores’
sobre os motivos pelos quais pouco ou quase nunca utilizavam a biblioteca
da universidade, responderam que não tinham motivação,
entusiasmo e que iam à biblioteca quando era imprescindível.
Um dos entrevistados admitiu certa indefinição em não
saber se não gostava de ler, se tinha preguiça ou se era
porque não podia comprar os livros...
Tenho percebido – e as vozes dos sujeitos também indicam
– que, ao chegarem ao ensino superior os licenciandos, de maneira
geral, tentam reproduzir atitudes, comportamentos de leitura consoantes
os desenvolvidos nos Ensino Fundamental e Médio. Em princípio
tendem a ignorar que no Ensino Superior há diferentes estados de
leitura. Freqüentemente, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio
não se exige um nível de aprofundamento de teorias, pois
se espera um determinado padrão de leitura que seja compatível
(?) com aquele grau de escolaridade.
Ao chegar ao Ensino Superior, entretanto, os licenciandos se deparam com
outros níveis de leitura – e de exigência – pois
as leituras acadêmicas, os textos teóricos pressupõem
outras e diversas qualidades de leitura e isso se choca com as expectativas
trazidas pelos alunos como um todo.
Apesar disso os sujeitos avaliaram seu desempenho na leitura, tanto quanto
os motivos que os levaram a ler. Quase todos afirmaram que quando liam,
além de atenderem às exigências das avaliações,
liam também para buscar informações, mas que não
gostavam de ler ‘livros grossos’. Além do mais, afirmaram
também que tinham dificuldades em interpretar o que liam e que,
às vezes, ‘divagavam’ no meio da leitura.
Nessa perspectiva, há que se considerar que não se pode
ler um texto teórico como se lêem os romances, as novelas,
os contos, enfim, a chamada literatura.
Por que entendo deste modo? Porque a leitura de textos teóricos,
a meu ver, pressupõe e mobiliza capacidades intelectivas distintas.
O foco tende a ser direcionado para tal natureza específica de
texto e, certamente, nele está inscrita certa peculiaridade que
exige do leitor uma compreensão crítica de tal leitura e
que não ‘se esgota na decodificação pura da
palavra escrita’ ou da linguagem escrita, mas se antecipa e se alonga
na inteligência do mundo. E, na perspectiva freireana, a compreensão
do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica
a percepção entre o texto e o contexto (1997:11).
Por sua vez, a leitura de ficção traz em si um componente
que, nem sempre, encontra-se nos textos teóricos: a fruição.
Não estou afirmando que não se pode realizar uma leitura
de fruição também dos textos teóricos. O que
ocorre é que as leituras das obras de ficção tendem
a, nas palavras de Manguel (1997), pressupor e, simultaneamente, criar
a liberdade.
Quando, porém, aponto a fruição dos textos estou
pensando na visão trazida por Barthes. Em termos mais específicos,
trata-se do prazer que causa alguma forma de estranhamento e não
do prazer ligeiro como tem sido vulgarizada a questão da fruição.
Para Barthes (1997:22) o texto de fruição é aquele
que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até
um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas
do leitor, a consciência de seus gostos, de seus valores e de suas
lembranças, faz entrar em crise sua relação com a
linguagem.
Já o texto de prazer, segundo o mesmo Autor (1997:22) é
aquele que contenta, que enche, dá euforia; aquele que vem da cultura,
não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável
de leitura.
Além do mais, penso que se devem considerar os diferentes modos
de ler, já que toda leitura é sempre diferente de outra
leitura, ainda que se repitam textos e leitores. Nesse sentido, é
preciso aprofundar a riqueza da diversidade sem cair na insensatez das
regras fáceis de que tudo vale, que não há desigualdades
a superar, que não há sentidos em circulação
e compromissos entre leitores e autores (Geraldi, 2003).
Assim, o conflito vivenciado pelos licenciandos entre suas expectativas
anteriores e o nível acadêmico de leitura, muitas vezes,
tem provocado nos alunos certas impressões, dentre elas a de que
não sabem ler nem escrever, não se vêem como leitores
e, em certos casos, se referem às etapas anteriores de ensino como
tendo sido frustrantes no que concerne à leitura. Muitos se sentem
lesados e afirmam que a escola deveria ter-lhes preparado de maneira mais
adequada e exigido mais deles.
Nesse sentido, levar em conta as condições de leitura dos
sujeitos, me parece relevante, pois se assim não fosse, estaríamos,
de certa forma, ignorando as histórias de vida desses sujeitos.
Até porque não é possível pensar que só
pelo fato de estarem no ensino superior e/ou na universidade os licenciandos
já tinham superado as falhas da formação escolar,
ou, que os problemas impostos pelas questões sociais não
interferiram no desempenho ou mesmo nas atitudes de tais alunos.
O compromisso assumido com o Ensino Superior. A segunda questão
ainda relativa à desarticulação trazida pelos sujeitos
e que mencionei anteriormente aponta para o compromisso com o ensino superior/universidade
assumido pelos sujeitos, em particular e, pelos licenciandos, de maneira
geral.
Ao ingressarem no ensino superior/universidade os sujeitos desta pesquisa
conservavam certa expectativa e, segundo alguns, a escolha da licenciatura
se deu por falta de opção quer seja em termos de freqüentar
outro curso numa universidade pública quer seja ainda por questões
sociais, como a impossibilidade de se deslocarem de suas cidades ou custearem
uma universidade particular. Segundo três sujeitos, a opção
pela licenciatura teria sido consciente e motivada pelo desejo de ensinar.
Às vezes inspirados em algum ‘modelo’ de docente, às
vezes porque se diziam dispostos a trabalhar com crianças e/ou
jovens nas áreas por eles escolhidas.
O contato com o novo, o diferente, em princípio costuma despertar
temores e deslumbramentos. É o que parece ter ocorrido com eles.
Se, por um lado, o fato de estar no ensino superior/universidade lhes
trouxe a sensação de conquista – e, nestas condições,
sempre é –, por outro lado, a realidade do nível superior
de ensino lhes causou receios e decepções.
Os depoimentos dos sujeitos sobre o período da graduação,
especialmente em relação à leitura, são repletos
de insatisfações, medos das avaliações, sensações
de opressão, entre outras. Tem-se a impressão que o sentimento
de malogro é, por vezes, maior do que aquela vitória inicial
e o encantamento.
Mas, entendo que é necessário refletir um pouco sobre a
questão do compromisso com o ensino superior/universidade.
Ao utilizar tal expressão estou pensando em algo que tem sido recorrente
nas vozes dos docentes formadores de professores e que tem sido objeto
de reuniões e reflexões, sem, contudo, vislumbrar-se um
consenso.
Em reuniões, encontros, congressos e seminários que discutem
as questões da universidade é usual a preocupação
e, em certos casos, perplexidade de professores formadores sobre a ‘falta
de compromisso’ que dizem perceber nos alunos em relação
aos estudos, à universidade e à sua própria formação.
Alguns se sentem angustiados diante daquilo que vêem como desinteresse
e ‘falta de vontade’, independentemente do período
e da instituição.
Tal situação tem gerado desconforto tanto de alunos quanto
de professores. Os primeiros, muitas vezes se sentem desconfortáveis,
pois não conseguem acompanhar seus colegas, ou as questões
sociais são determinantes e sobrepujam a capacidade de os alunos
‘suportarem’ e acompanharem o ritmo da universidade. Outras
vezes, esses alunos apresentam falhas em sua formação anterior
e, por isso, se sentem incapazes na universidade.
Há casos – e não são poucos – nos quais
os universitários sentem que ‘precisam’ freqüentar
o ensino superior por imperativos vários, mas que, numa atitude
de resistência, se negam a assumir as rédeas de seus estudos,
de sua formação. Em outros termos: chegam a afirmar que
apenas estão na universidade em função da certificação
final – o diploma – para conseguirem melhores posições
no mercado de trabalho, mas que não estão interessados (ou
muito pouco interessados) em estudar e aprender. É como se, o que
o ensino superior busca veicular não lhes interessasse absolutamente.
É necessário dizer que obviamente não se trata da
grande maioria. Porém, o que se tem observado é que tal
situação tem sido cada vez mais recorrente, em particular
no que se refere às leituras.
Inicialmente pode-se atribuir o desinteresse pela leitura em função
de a maioria dos alunos serem obrigados a conciliar o trabalho e os estudos.
Porém, à medida que avançam os semestres das licenciaturas
observa-se que os estudantes demonstram privilegiar atividades outras,
propostas pelos grupos, nos quais o ‘estudo’ não seja
prioridade, a efetivamente se aprofundarem nas leituras, nas experiências
e na polissemia da própria formação.
Tal situação tem causado certa apreensão no meio
acadêmico, pois percebem os professores que o risco que se tem é
o de licenciandos se graduarem com uma formação aligeirada,
o que certamente compromete a vida não apenas de tais graduandos,
mas e, principalmente, de seus futuros alunos.
Assim, ao lado das dificuldades que foram observadas de alguns sujeitos
desta pesquisa, observou-se também certa apatia ou uma atitude
de acomodação às situações adversas,
já que o movimento que seria desejável em direção
à leitura para uma formação mais consistente esteve
embaçado e/ou ocorreu muito aquém daquilo que usualmente
se esperaria.
Nesse sentido, entendo que se deva levar em conta além das questões
sociais, como as condições materiais e políticas
objetivas em que se dá a formação dos sujeitos (Britto,
2003:125), a questão da cultura das ‘dificuldades’
como hipótese – ou seria justificativa? – para um certo
descompromisso em relação à própria formação
superior.
Vale ressaltar que não cabem aqui juízos de valor, mas tão-somente
uma possibilidade de olhar para a formação superior tendo
sempre em mente a inconclusão do ser humano e a provisoriedade
do conhecimento.
Nesta perspectiva, penso ser interessante trazer à tona uma das
teses de que trata Geraldi (2003:59) – em artigo intitulado “Paulo
Freire e Mikahil Bakhtin. O encontro que não houve” –
quando reconhece o futuro como centro de gravidade das decisões
do presente. Aponta o autor referido, o encontro das vozes de Freire e
Bakhtin que dizem sobre as possibilidades da História aos sujeitos.
Freire (1997:21) afirma: reconhecer que a História é tempo
de possibilidade e não de ‘determinismo’, que o futuro,
permita-se-me reiterar, é ‘problemático’ e não
inexorável. Em outro momento continua Freire (1997:81): a inexorabilidade
do futuro é a negação da História.
Por sua vez, Bakhtin (1992:33) declara: se eu mesmo sou um ser acabado
e se o acontecimento é algo acabado, não posso nem viver
nem agir; para viver, devo estar inacabado, aberto para mim mesmo (...)
devo ser para mim mesmo um valor ainda por-vir, devo não coincidir
com a minha própria atualidade.
A partir, assim, das vozes destes Autores referidos é possível
pensar o compromisso dos sujeitos desta pesquisa com a formação
superior, com a universidade. Se, se considerar o ‘inacabamento’,
a ‘inconclusão’, poder-se-ia indagar até que
ponto tais sujeitos levaram em conta o ‘futuro como centro de gravidade
das decisões daquele presente...’ Na formação
superior inicial dos sujeitos teria sido considerado o futuro, como declara
Geraldi (op. cit.)? E, a afirmá-lo positivamente, que futuro? Com
que qualidade/possibilidade?
Nesse sentido, é possível inferir que a universidade desvelada
pelos sujeitos pode ser entendida como aquela convertida em mercado de
trabalho e não a que tinha originalmente e que expressava um compromisso
de qualidade com o ensino, posto que, no dizer de Zilberman (1991:140),
...o caráter seletivo do mercado de trabalho na área do
ensino coloca sob suspeita a inclinação democrática
que a educação hipoteticamente contém. A profissão
a que a universidade habilita é igual a que é exercida no
seu interior, mas, num caso e no outro, o efeito é a contradição
de princípios, num círculo vicioso difícil de romper.
O paradigma emergente e um modelo não-tradicional de ensino. Para
se pensar em termos de contraponto ao que foi discutido sobre o que se
entende por paradigma dominante e ensino tradicional, busco também
em Cunha (1998:13) as características possíveis de um paradigma
emergente – que busca a ruptura – e uma concepção
não-tradicional de ensino.
Santos (1987:39) ao contrapor o que denominou como paradigma emergente
ao paradigma dominante, chama a atenção para o fato de o
paradigma emergente negar as contradições que fazem parte
do paradigma dominante e aponta que, o paradigma emergente admite a não
neutralidade, reconhece a intencionalidade e concebe a ciência como
um ato humano, historicamente situado.
Considero relevante apontar os estudos de Santos (op. cit.) acerca desse
tema, uma vez que o Autor referido busca aproximar a questão epistemológica
com as estruturas sócio-culturais, das quais nos dão conta
Cunha (op. cit.) declarando que esta ótica nos ajuda a compreender
a prática pedagógica que se desenvolve na universidade...(p.
29).
Nesse sentido, buscando uma concepção não-tradicional
de ensino e, novamente numa perspectiva didática, trazida pela
Autora acima citada, levanto possíveis características de
uma concepção não-tradicional de ensino e que, por
trazer em seu bojo o paradigma emergente, propõe uma ruptura com
as formas de entender o conhecimento e o mundo.
Uma proposta de ensino numa perspectiva não-tradicional, segundo
Cunha (1998:13), poderia levar a atividades pedagógicas que: (1)
enfocariam o conhecimento a partir da localização histórica
de sua produção e o perceberiam como provisório e
relativo; (2) seriam contrárias à repetição,
valorizando as habilidades intelectuais de compreensão e reinterpretação
do já descoberto e dito; (3) valorizariam a curiosidade, o questionamento
e a incerteza; (4) perceberiam o conhecimento de forma interdisciplinar,
propondo pontes de relações entre eles e atribuindo significados
próprios aos conteúdos, em função dos objetivos
sociais e acadêmicos; (5) entenderiam a pesquisa como um instrumento
do ensino e a extensão como ponto de partida e de chegada da apreensão
da realidade; (6) valorizariam as habilidades sócio-intelectuais
tanto quanto os conteúdos, já que cada vez mais são
necessárias pessoas que entendam as interdependências postas
no universo, desde a questão ambiental até as estruturas
de poder e suas relações com o conhecimento.
No caso presente, a universidade trazida pelos sujeitos trabalhava na
perspectiva do paradigma dominante, desenvolvendo uma proposta de ensino
tradicional, procurando, explicar a vida pela ciência e viver a
vida segundo a ciência (Geraldi, 2003).
Assim, me parece que tal modelo e/ou concepção de ensino
deixou de possibilitar aos sujeitos a criação de um entorno
social cálido, em que as palavras, enunciados, movimentos, interações,
humor, bem como as rotinas e comportamentos que conformam o ‘currículo
oculto’, favorecessem uma maior transparência e comunicação
(Aragão, 2003:10).
A observação trazida por Aragão, acima citada, remete
àquilo que usualmente se tem notado acerca da formação
docente em relação às leituras. Certa vez, Kafka
ao ser perguntado sobre por que ler, respondeu: ler para fazer perguntas.
Mas, por meu turno, observo: a formação inicial dos sujeitos
desta pesquisa propiciou-lhes a criação de um entorno social
cálido, como afirma Aragão, para que pudessem fazer as perguntas,
interrogar?
O modelo educacional apontado pelos sujeitos ao longo da formação
inicial, como afirmado anteriormente, estava atrelado à concepção
tradicional de ensino e, como tal, calcado na transmissão de conteúdos
disciplinares, numa perspectiva essencialmente técnica. Nesse sentido,
as vozes dos sujeitos são eloqüentes quando dizem:
... o professor trazia três ou quatro páginas
de um texto e nos dividia em grupos e dizia – “para o grupo
um do parágrafo tal ao parágrafo tal”; “para
o grupo dois, do parágrafo tal ao tal”. Era tudo muito fragmentado...
... outro professor trazia um questionário. Primeiro
fazia uma exposição de mais ou menos uma hora e meia. Depois
nos dava os questionários com questões objetivas e tínhamos
que responder conforme o que ele tinha falado na aula...
... tinha uns professores que trabalhavam Platão,
Sócrates... mas eles já contavam que a gente não
ia ler – porque era curso noturno – então eles davam
aula como se os alunos não tivessem lido o texto.... a maioria
das pessoas não lia, aproveitava o que era dado na aula...
... tivemos uma formação que deixava a desejar...
porque acho que eles [os professores] podiam exigir mais do curso noturno...
pensando no curso como um todo, era um curso muito fraco nesse sentido
[da exigência da leitura].
É
possível inferir dos depoimentos acima que a leitura, na perspectiva
aqui apontada, não foi trazida como uma oferta de contrapalavras
do leitor que, acompanhando os traços deixados no texto pelo autor,
faz estes traços renascerem pelas significações que
o encontro de palavras e contrapalavras produz (Geraldi, 2003). Em outros
termos: a abordagem da leitura proposta pela universidade aos sujeitos
negava-lhes, em certa medida, as contrapalavras das quais fala o Autor,
uma vez que ao desconsiderarem as histórias de leitura dos sujeitos
e, ao tempo da formação inicial, não lhes darem voz,
também lhes impossibilitava ressiginificarem as palavras dos autores
que não chegaram a acompanhar.
Assim, a formação oferecida pela universidade afigurou-se-lhes
algo distante de seus anseios e, segundo eles, em relação
à leitura, muito fraca. A leitura aparecia como meramente instrumental-utilitarista,
pois as ações pedagógicas a ela ligadas não
davam conta do seu caráter dialógico, da busca de significados,
sentidos e encontros que ela possibilita. Daí, possivelmente, a
sensação de ‘fracasso’ que alguns sujeitos sentiram
com a leitura na formação inicial. Talvez as palavras de
Geraldi, já citado, possam expressar uma resposta à muda
indagação que perpassa os depoimentos dos sujeitos: ler
sem deixar-se levar, mas se permitir embalar pelas palavras, pois os homens
não se fazem no silêncio, senão na palavra, no trabalho,
na ação e... na reflexão (Freire: 2003: 78).
A leitura/a
linguagem: a constituição do sujeito e as relações
de poder. Algumas considerações sobre a constituição
do sujeito e as relações de poder considero importante levantar.
A primeira porque a linguagem é incontestavelmente a chave e a
porta que se abre para a compreensão do processo de constituição
do sujeito. A segunda, porque entendo que o poder se desloca com freqüência,
apesar de observarmos constantemente as estruturas de exclusão
nas quais se intentam encaixar políticas de inclusão.
Se entendo com Kramer (1994: 107) que a linguagem regula a atividade psíquica,
constituindo a consciência, porque é expressão de
signos que encarnam o sentido como elemento da cultura, entendo também
que o sentido é construído pelas relações
sociais. Nessa perspectiva, a linguagem é construída considerando-se
a alteridade, o eu e o tu, já que um não se constrói
sem o outro, visto que somos seres inacabados e, a linguagem, também
o é.
Dessa forma, concordo com a indagação de Geraldi (1996:100)
sobre qual o papel reservado à leitura neste processo da subjetividade?
Aponta o autor que
...incluída
a leitura entre as formas de interação, por isso mesmo lugar
de compartilhar e fazer circular sentidos – leituras do mundo e
da palavra (Freire, 1982), processos concomitantes na constituição
dos sujeitos, a primeira não ocorre sem a segunda – com a
leitura alargam-se nossos horizontes de possibilidades de construirmos,
neste diálogo constantemente tenso com a palavra alheia, nossas
próprias palavras de compreensão.
Assim, ao
mesmo tempo em que a linguagem é constituidora do sujeito, se configura
como elemento imprescindível para a compreensão sobre o
que ocorre nas relações de poder.
Ao discorrer sobre a questão da consciência – e da
subjetividade – Bakhtin (1995:33) alerta que ...a própria
consciência só pode surgir e se afirmar como realidade mediante
a encarnação material em signos. E, mais adiante, afirma
que a consciência adquire forma e existência nos signos criados
por um grupo organizado no curso de suas relações sociais,
pois a lógica da consciência é a lógica da
comunicação ideológica, da interação
semiótica de um grupo social (p. 35-6).
Isso autoriza a dizer que a consciência e a subjetividade são
forjadas na interação e a partir do meio ideológico
e social. Além do mais, e o que nos importa neste trabalho, é
destacar que o centro que organiza as enunciações está
situado no meio social que envolve o indivíduo, segundo o pensamento
bakhtiniano.
Tal perspectiva aponta para a compreensão e a consideração
do inacabamento, da inconclusão do indivíduo cuja consciência
seria constituída a partir de nossas interações sociais.
Daí pensar como elemento fundante deste trabalho a consideração
do “outro” em amplitude.
Ao assim pensar, estou levando em conta que a interação
social, em certa medida, orienta a linguagem no sentido de ‘organizar’
as relações de poder, já que, como referido anteriormente,
o poder se desloca com freqüência. O que isso significa? Em
termos plurais, significa que a linguagem pode ser utilizada para bloquear
o acesso ao poder, como afirma Gnerre (1998). Mas, de outro lado, pode
também ser utilizada para possibilitar, nas relações
sociais, tomadas de posição que levem à libertação/liberdade
de esquemas excludentes. Isto porque, novamente, estou considerando a
incompletude e a inconclusão do ser humano.
Esse caráter dialógico da linguagem precisa ser explicitado
uma vez que esta, como já apontado, pode servir a esquemas de exclusão.
Isto é possível entre outras coisas, pela própria
organização formal (sintática, por exemplo) de mensagens,
de conteúdos.
Alguns esquemas de exclusão podem aparecer em determinadas comunidades
que, por não dominarem o repertório de conhecimentos e lingüísticos,
presentes no meio social em que vivem, ficam à margem da compreensão
‘real’ dos sentidos expressos pela linguagem do sujeito e
tendo, assim, bloqueado seu acesso ao poder.
Assim, quando falo em ‘poder’ estou pensando no poder que
o domínio do repertório de conhecimentos e da linguagem
hegemônica representam.
Ao mesmo tempo, porém, devido ao seu caráter dialógico,
a linguagem e mediações pedagógicas conseqüentes
podem ser provocadoras de experiências epistemológicas significativas
que podem levar o sujeito à emancipação. Nesse sentido,
a leitura pode ser reveladora das relações de poder presentes
na universidade.
Vale indagar, porém, de que forma isso acontece? Como é
possível tal relação? Para Cunha, já referida
neste texto,
o conhecimento,
na universidade, representa um espaço de poder, definindo limites
e ‘propriedades’ para os que o dominam. Cada indivíduo
ou departamento tem uma especialidade e, assim como ‘respeita’
o campo do colega, reage quando sente invadido seu terreno de saber. Os
títulos qualificam as pessoas e permitem ou impedem o exercício
do conhecimento, definindo profissões e dividindo papéis
sociais, interferindo, desta forma, na organização econômica
da sociedade (1998:20).
É
comum observar nas universidades certo ‘receio’, dos docentes
formadores, em relação à leitura e à escrita.
Tal situação aparece geralmente configurada nas ‘reclamações’
sobre as dificuldades dos alunos tanto em relação à
hermenêutica dos textos quanto na produção de material
inteligível.
Apontam os docentes que pouco adianta solicitarem leituras de livros ou
artigos uma vez que a tendência dos estudantes é não
lerem, sob as mais diversas alegações.
Por outro lado, tais docentes, ao reduzirem as solicitações
de leitura possibilitam a continuidade de uma situação que
acaba por se transformar num círculo vicioso, pois os estudantes
não lêem porque os professores – e a universidade –
não lhes solicitam (ou solicitam pouco) e os professores pouco
ou nada solicitam porque os alunos não lêem.
Dessa forma, as relações de poder presentes na universidade
tendem a ficar, se não diluídas, ao menos balanceada já
que o poder ora se encontra com os docentes ora com os estudantes.
Esse deslocamento do poder nas relações universitárias
tem gerado certas incongruências que se refletem e se refratam na
proliferação daquilo que Chauí chamou de universidade
operacional .
Afirma a autora mencionada (2001:191) que
A docência
é entendida como transmissão rápida de conhecimentos,
consignados em manuais de fácil leitura para os estudantes, de
preferência ricos em ilustrações e com duplicatas
em CDs. [...] A docência é pensada ou como habilitação
rápida para graduados, que precisam entrar rapidamente no mercado
de trabalho, do qual serão expulsos em poucos anos, pois se tornam,
em pouco tempo, jovens obsoletos e descartáveis... [...] Desapareceu,
portanto, a marca essencial da docência: a formação.
Nessa perspectiva,
tal universidade se caracteriza pela ausência de reflexão,
de crítica, do exame de conhecimentos instituídos, sua mudança
ou superação, exatamente porque nesse modelo de universidade
não há tempo para pensar e o que tende a predominar é
a fragmentação.
Assim, as leituras trazidas por estas organizações são
pensadas levando-se em conta seu grau de facilidade em função
do tempo que ‘corre’ rapidamente, das exigências do
mercado e, não, da formação. A linguagem acaba por
ser destituída de densidade, de sentido e serve apenas como instrumento
que pode ser utilizado para controlar alguma coisa.
Na verdade, ao assumir esse tratamento, a linguagem e, por conseguinte,
a leitura se despe do mistério e do sentido que uma dada sociedade
ou um dado contexto lhes atribui. Isso equivale dizer que os estudantes
e os docentes, ao se decidirem mutuamente por tais linguagens/leituras
também se decidem por um modelo epistemológico – que
é hegemônico – e que acaba por reforçar as exclusões
presentes na sociedade, já que segundo Fiorin (2003: 75) a opção
e o uso de determinadas leituras, determinados discursos, são uma
forma de agir no mundo.
Em termos específicos, as opções que a universidade
tem selecionado e/ou possibilitado – em relação às
leituras – deixam de contribuir para uma formação
autônoma dos docentes, isto porque
...para ser
professor, não basta conhecer a matéria, ter conhecimento,
mas é preciso, sobretudo, ter competência ou “ser competente”
para, em termos “autônomos”, transformar, por exemplo,
o ‘saber disciplinar’ em conteúdos acessíveis
aos alunos, colocando-o em “disponibilidade pedagógica para
ser aprendido”. Parece ser este o exemplo maior de autonomia e competência
docente: “o ensino gerando aprendizagem” (Aragão, 2003:8).
[os destaques são da autora].
A leitura,
desde esse ponto de vista, se configura como algo imprescindível
para a aludida formação, conforme destaca a Autora referida
e, entendo que, a contar pela opção metodológica,
também se explicitará em termos inclusivos a opção
epistemológica assumida pela universidade.
No que se refere aos sujeitos desta pesquisa, os depoimentos de alguns
entrevistados são claros no sentido de apontar a opção
epistemológica que fundamenta os procedimentos metodológicos
relacionados à leitura, visto que as eventuais solicitações
de leitura não provocavam ‘conflitos cognitivos’. Ao
contrário disso, os depoimentos de alguns sujeitos confirmam que
as solicitações tinham objetivos pré-definidos, quais
sejam, as respostas prontas, mecânicas, calcadas na memorização.
A dúvida, como elemento desencadeador de reflexão, buscas,
curiosidade científica, não era destacada, tampouco o debate
e as discussões. Isso seria desejável na perspectiva de
uma formação que considera a universidade e, mais ainda,
a sala de aula, lugares privilegiados de construção do conhecimento.
Nesse âmbito, à leitura cabe papel fundamental para tal formação,
notadamente, se se pensar em termos inclusivos.
Assim, considerar a leitura na universidade, numa abordagem dialógica,
poderia estimular tal construção do conhecimento e a formação
de profissionais autônomos na perspectiva de Aragão (2003:9)
conforme parece demandar o presente.
Além disso, uma formação docente comprometida com
esta autonomia, evidencia como o ‘poder’ e/ou as relações
de poder se põem na universidade e, como conseqüência,
que profissionais se pretende formar.
Considerações finais. Nosso olhar acerca da formação
dos sujeitos desta pesquisa em relação à afirmação
acima incide sobre a dimensão desta realidade de tal modo que os
depoimentos dos entrevistados são reveladores dessas relações
de poder. Em outros termos, a formação desvelada pelos entrevistados
diz respeito àquilo que se pretendia realizar na formação
inicial: graduar profissionais para atuarem no mercado de trabalho na
visão da universidade operacional.
Apesar de os sujeitos deste trabalho serem de diversas regiões
do país e oriundos em sua maioria das universidades privadas e/ou
comunitárias, fica evidente, pelas vozes desses sujeitos, que a
formação inicial de todos ocorreu numa perspectiva de similitude
em relação às leituras e, por conseguinte, no que
se refere à concepção de professor que se pretendia
formar.
Isso significa que à época de suas formações
a universidade evidenciada não era aquela comprometida com a formação
de profissionais autônomos e diferenciados em termos de qualidade
de reflexão que seria desejável para um posterior exercício
profissional numa perspectiva freireana: a aprendizagem [e o ensino] em
comunhão.
Ao final, buscando compreender a formação inicial dos sujeitos
desta pesquisa com a formação inicial de docentes em geral,
vale ressaltar que, no presente, as ações e intenções
da universidade de forma ampla não diferem, como alertado no início
deste artigo, daquelas discutidas até aqui neste trabalho, uma
vez que, via de regra, o modelo de universidade que tem sido mais freqüente
aponta para o chamado modelo operacional e a leitura, em que pesem as
pesquisas sobre a necessidade de valorizá-la, não tem se
destacado como um dos pontos mais importantes na formação
de professores. E, como uma das conseqüências, a universidade
tem deixado a desejar em relação àquilo a que veio:
a formação, efetivamente. Fica, porém, a indagação:
o que aconteceu a esses sujeitos-professores após o período
da graduação e como praticam a leitura como profissionais?
A resposta, certamente, buscarei em próxima investigação...
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