Maria Ângela de Melo Pinheiro - EMEF Pe.
Francisco Silva – Campinas – SP/ FE – UNICAMP.
“O problema do tempo é esse. É o problema
do fugidio: o tempo passa. Volto a recordar aquele belo verso de Boileau:
‘O tempo passa no momento em que algo já está longe
de mim’. Meu presente – ou o que era meu presente –
já é o passado. Mas esse tempo que passa, não passa
eternamente... Em todo o caso, a memória permanece. A memória
é individual. Nós somos feitos, em boa parte, da nossa memória.”
(Borges, 2002, p. 62, 63)
Esse trabalho pretende trazer alguns respingos-memórias
do Programa de Ensino do Projeto Flora Fanerogâmica do Estado de
São Paulo (FAPESP–Processo 97/02322-0), que aconteceu na
EMEF Pe. Francisco Silva, na cidade de Campinas- S. Paulo, com duas turmas
de 6ªs séries nos anos de 1999 e 2000. Tratou-se de um projeto
interdisciplinar no qual estiveram envolvidas as disciplinas Ciências,
Português, Geografia, Educação Artística, Educação
Física e História.
Foram se tornando parceiros nessa experiência curricular coletiva
os professores da escola juntamente com pesquisadores do Instituto Agronômico
de Campinas e da Unicamp, nas áreas de Botânica e Educação.
Trago junto comigo, nesse texto, as vozes atualizadas de algumas dessas
pessoas com quem trabalhei e cooperei: os professores, alguns alunos,
os pesquisadores e auxiliares de pesquisa que nos acompanharam na trajetória.
Meus companheiros de significado. As entrevistas feitas com eles trazem
rememorações, lembranças, recordações.
Marcas que ficaram, que persistem.
Algumas dessas falas serão as linhas aglutinadoras e tensionadoras
da produção de narrativas: respingos dessa experiência
vivida que vão formando diferentes formas e desenhos, ajudando-me
a compor a escrita. As narrativas, ao atualizarem as experiências
no tempo presente, querem dizer de um currículo que foi corporificador
de mudanças nas práticas pedagógicas, que foi impregnado
pela interdisciplinaridade e pelo coletivo, recriando alguns espaços
e tempos escolares.
“E a gente passou a ver o trabalho não só
na sala de aula, mas o trabalho como um todo, fora, criando espaços,
criando um currículo.” (Prof. Valdemir – Entrevista
em 04/12/2003)
Um dos aspectos que (re)dimensiona o currículo
é o espaço escolar. De que maneira se deu a utilização
dos lugares? De que forma foi possível ampliar os espaços,
alargando as fronteiras da sala de aula? Até que ponto essa ampliação
reorganiza e enriquece os conteúdos escolares?
Passo, então, a abordar essas questões buscando na memória,
nas falas atuais das entrevistas e nos registros feitos anteriormente
alguns aspectos que apresentem como a nossa experiência ocorreu.
Novos espaços curriculares foram sendo criados: em especial a Biblioteca
e o entorno da escola, com o canteiro de plantas medicinais e ornamentais,
o tanque de plantas aquáticas e a área verde ao redor da
escola.
Na confecção dessa experiência, a Biblioteca da escola
configurou-se como um dos espaços geradores das ações
curriculares. Tornou-se um “espaço sagrado”, onde aconteciam
todas as reuniões semanais da equipe. Ela se tornou os nossos bastidores,
lugar onde realizávamos nossos aquecimentos e ensaios, nos preparando
para a sala de aula. Foi aí que o grupo foi se fortalecendo, confiando
um no outro, possibilitando a complementaridade e divergência de
idéias para o constante avaliar(-se) e (re)planejar.
Além de ser o espaço de nossas reuniões, estar dentro
de uma Biblioteca durante estes encontros nos possibilitou, em muitos
momentos, inspirar-nos na procura de livros, artigos de revista, contos,
notícias de jornal, poesias, entre outros. Estar em uma biblioteca,
tendo a nossa volta “um mundo” de literatura, fazia com que
nós sugeríssemos leituras uns aos outros, que descobríssemos
coisas juntos, que compartilhássemos descobertas, ampliando nosso
repertório.
“... não foi só uma coisa de a gente pensar do professor
ensinando, mas do professor aprendendo. Acho que isso foi uma coisa muito,
muito importante pra gente.”
(profª. Stela – Entrevista em 11/12/2003)
O professor se coloca como um pesquisador, não
apenas refletindo sobre a sua prática, mas também indo em
busca de diferentes materiais que possam inspirar o seu fazer pedagógica.
Nesse sentido, o fato de privilegiarmos a Biblioteca enquanto espaço
de nossas reuniões semanais muito enriqueceu o nosso trabalho.
No trabalho do entorno surgem, também, suas interfaces:
os canteiros de plantas medicinais e ornamentais e o tanque de plantas
aquáticas. No interior da escola, os espaços de aula “fora
da sala de aula”.
Nos canteiros, os alunos aprenderam a produzir mudas utilizando várias
técnicas. Cada metro quadrado foi observado e as mudanças
que ocorreram foram sendo registradas periodicamente. Os alunos pesquisaram
as propriedades das plantas medicinais, fizeram cartilhas, poesias, Atlas
com mapas das origens das plantas medicinais cultivadas.
No entorno do prédio, dentro da escola, há o tanque de plantas
aquáticas. Alunos e professores montaram o tanque de plantas após
uma visita à Unicamp. Este lugar tornou-se a paixão de todos
os alunos da Escola. Os alunos observaram a formação de
um ecossistema aquático montado por eles e uma grande quantidade
de produções também surgiu a partir daí. O
estudo e denominação das plantas aquáticas, desenho
do tanque, produções artísticas a partir das plantas/flores.
Os alunos registravam periodicamente as alterações que ocorriam
no tanque: domínio de determinadas plantas, desaparecimento de
outras, adaptação ou não de plantas e animais. Neste
espaço criado, os alunos tocam nas plantas que conhecem pelos nomes:
ninféia, pinheirinho d’água, aguapé, papiro,
chapéu-de-couro, salvínia.
“... ampliou o estudo da Botânica que é
o estudo do meio, da escola... mais pessoas levavam os alunos pra fora
pra trabalhar o ambiente e pra mim deu uma segurança diferente
de também trabalhar no ambiente, trabalhar o estudo do meio que
era uma coisa que às vezes eu saía, mas saía com
uma certa insegurança, achava que a escola podia se inquietar porque
era muito menino fazendo confusão lá fora...”
(profª. Edna – Entrevista em 05/02/2004)
O espaço escolar mais considerado e utilizado
por todos, em todas as escolas continua sendo a sala de aula. As coisas
mudam, mas as salas de aula, em sua grande maioria, continuam sendo as
mesmas, com um quadro-negro na frente, carteiras enfileiradas, um aluno
atrás do outro. Essa é uma das grandes tradições
da escola.
Segundo Veiga-Neto (2000, p. 200), a distribuição dos corpos
e objetos, a hierarquização dos lugares, as proibições
espaciais - se estabeleceram nas escolas e funcionaram como dispositivos
disciplinares para que cada aluno aprendesse seu lugar e o que podia ou
não podia fazer, em uma sociedade segmentada e hierarquizada.
Possibilitar a ampliação dos espaços escolares é,
portanto, tocar em um ponto que choca com um dos aspectos mais tradicionais
da escola. Por isso a declaração da professora de ter receios
de “incomodar” a escola ao sair da sala de aula. Mas os professores
do projeto, enquanto grupo, iam, aos poucos, se fortalecendo e se permitindo
ousar...
Esse trabalho realizado no entorno da escola teve um significado muito
grande nas nossas experiências. No final de cada ano letivo, ao
visitarmos um fragmento de mata nativa da cidade, os alunos tinham melhores
condições de compararem o entorno da escola com a mata.
A capacidade de observação de cada um foi sendo ampliada
e aguçada, por termos tido contato direto com aquilo que ia sendo
estudado.
“... colocar sempre a observação da
natureza também, da criança estar experimentando mesmo o
que é olhar uma árvore, o que é olhar uma planta,
o que é observar uma flor... isso aí eu acho que muda também
pra criança, ela passa a ser mais observadora...”.
(profª. Stela – Entrevista em 11/12/2003)
A superação dos limites espaciais para além
da sala de aula traz uma riqueza curricular muito grande. Ao ampliarem
os espaços, ampliam-se também as possibilidades de visão,
percepção, observação e a questão da
estética, permitindo-se, consequentemente, a ampliação
dos conhecimentos.
“... os espaços em volta, não só a sala de
aula, mas os espaços como uma forma de ajudar a construir o conhecimento...”
(prof. Valdemir - Entrevista em 04/12/2003)
Santos (2000, p. 57) considera que “as experiências
dos alunos, seus conhecimentos práticos, sua inserção
cultural, são aspectos fundamentais a serem considerados pelas
práticas pedagógicas.” A ampliação dos
espaços escolares vem contribuir para que esses aspectos possam
ser considerados e valorizados no cotidiano escolar.
Deleuze e Guattari (1997, p. 179-180) nos falam sobre o espaço
liso e o espaço estriado – o espaço nômade e
o espaço sedentário. Segundo eles, esses dois espaços
não são da mesma natureza, mas os mesmos só existem
de fato “graças às misturas entre si: o espaço
liso não para de ser traduzido, transvertido num espaço
estriado; o espaço estriado é constantemente revertido,
devolvido a um espaço liso”.
No espaço escolar, talvez possamos considerar a sala de aula como
um espaço predominantemente estriado. Espaço no qual “fecha-se
uma superfície, a ser “repartida” segundo intervalos
determinados, conforme cortes assinalados.” Um espaço no
qual “as linhas, os trajetos têm tendência a ficar subordinados
aos pontos: vai-se de um ponto a outro.”
Com a tentativa de se ampliar os espaços escolares, trabalhando-se
outros espaços além da sala de aula, amplia-se a possibilidade
de criação de espaços lisos. “No liso, é
o inverso: os pontos estão subordinados ao trajeto.” O espaço
liso “dispõe sempre de uma potência de desterritorialização
superior ao estriado”.
O que podíamos perceber, durante o processo vivido por nós
na escola é que o fato de estarmos criando possibilidades de trabalho
em diferentes espaços (nos canteiros, no tanque de plantas aquáticas,
no entorno em volta da escola, na biblioteca, na sala de vídeo,
nas visitas às instituições e a um fragmento de mata
nativa...) fazia com que nos sentíssemos e conseqüentemente
agíssemos de forma mais livre, mais transformadora, mais nômade.
O que não necessariamente significa que a sala de aula não
possa também ser um espaço liso. Ou que trabalhar fora da
sala de aula garanta sempre uma “viagem” de modo liso.
“... o que distingue as viagens não é
a qualidade objetiva dos lugares, nem a quantidade mensurável do
movimento – nem algo que estaria unicamente no espírito –
mas o modo de espacialização, a maneira de estar no espaço,
de ser no espaço. Viajar de modo liso ou estriado, assim como pensar...
Mas sempre as passagens de um a outro, as transformações
de um no outro, as reviravoltas.” (Deleuze e Guattari, 1997, p.
190)
Passando de um espaço a outro, experimentando
diferentes movimentos e maneiras de “viajar”, íamos,
aos poucos, nos sentindo mais confiantes para criar novas possibilidades
de espaços, trajetos e direções.
E o que dizer do espaço que o grupo de professores participantes
ocupava dentro da escola como um todo? Será que às vezes
não éramos considerados meio marginais, ocupando um espaço
às margens?
Realmente o nosso grupo foi, ao longo do tempo, se tornando muito fortalecido,
tendo estabelecido laços de confiança, de cooperação
e ajuda mútua. No entanto, o grupo era “uma ilha” dentro
da escola, trabalhávamos com duas classes de 6ª série
numa escola que tem quinze classes de 1ª a 8ª série.
Mesmo nessas duas classes com quem trabalhávamos intensamente,
éramos cinco disciplinas trabalhando com o projeto enquanto as
demais (as outras quatro disciplinas) não participavam do mesmo.
Havia, sim, alguns respingos, como quando, por exemplo, a professora de
Inglês trabalhou uma história em quadrinhos de uma semente,
realizando um trabalho que extrapolava as questões do aprendizado
de uma língua estrangeira e se enveredava pelos caminhos da arte,
ou de quando o professor de Matemática trabalhou com as noções
de perímetro e área quando estávamos “mapeando”
os canteiros, trabalhando com quadrantes. No entanto, na maioria das vezes,
éramos vistos pelos demais professores como os diferentes, os “subversivos”,
professores que, de alguma forma, vinham “incomodar” a rotina
deles. Isso porque, com toda certeza, os alunos, ao vivenciarem aulas
que se propunham a trabalhar de uma maneira diferente e inovadora, acabavam
questionando mais os demais professores que mantinham uma postura mais
tradicional no seu trabalho. O próprio professor de Matemática,
no ano 2000 (segundo ano nosso de trabalho com os alunos) preferiu não
pegar as duas turmas de 6ª série, tendo essas aulas ficado
para uma professora substituta.
Em relação à equipe de gestão (diretora, vice-diretora
e orientadora pedagógica), quem mais se envolvia era, sem dúvida,
a diretora da escola que nos dava todo o apoio para a realização
do projeto. Todas eram sempre convidadas para participar de nossas reuniões,
mas eram muito raros os momentos em que elas estavam presentes. Além
disso, eram poucos os momentos em que o nosso grupo podia se colocar nas
reuniões semanais de TDC (Trabalho Docente Coletivo), mostrando
as ações/os resultados do projeto. Sempre que havia esse
espaço, ele era “cavado” por nós mesmos, foram
poucos os convites por parte da orientação pedagógica.
Era como se, no Programa de Ensino, fosse criado um currículo paralelo
ao que a escola como um todo produzia, às margens do Projeto Pedagógico
da escola.
Pode-se, então, considerar que houve, sim, no nosso projeto, resultados
muito bons, mas eles se restringiram mais às classes com as quais
trabalhávamos. Nas outras classes ou disciplinas aconteceram apenas
alguns respingos, de forma mais pontual. Sem dúvida, ele poderia
ter tido uma influência bem maior do que teve para a escola como
um todo.
Acredito, no entanto, que, a experiência nos transformou bastante.
Somos hoje professores que, ao planejarmos nossas aulas, ao pensarmos
nos conteúdos e formas não nos prendemos tanto às
especificidades de nossa disciplina, fazemos um trabalho mais aberto a
diferentes visões, desenhando caminhos e possibilidades heterogêneas
e já não tão lineares e previsíveis. E isso,
sem dúvida, acaba por respingar aqui e ali e influenciar o trabalho
pedagógico da escola como um todo.
TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO...
“Nós dividimos o tempo quando ele
na realidade não é divisível. Ele é
sempre e imutável. Mas nós precisamos
dividi-lo. E para isso criou-se uma coisa
monstruosa: o relógio.”
(Clarice Lispector)
Aqui está mais uma das tradições
marcantes da escola: a divisão do tempo. O tempo da escola é
bastante rígido, o horário das aulas deve ser seguido e
respeitado por todos. Mesmo nas séries iniciais do ensino fundamental,
de 1ª a 4ª séries, há uma tendência a se
dividir o tempo com as disciplinas escolares. O tempo deve ser bem dividido
e muito bem aproveitado.
A partir da 5ª série, então, nem se fala. Aí
é que os horários ficam mais rígidos mesmo. Aulas
de 45 ou 50 minutos se sucedem umas às outras e às vezes
uma determinada turma pode chegar a ter cinco, seis aulas diferentes no
mesmo dia, com professores diferentes. Acabam tendo um horário
totalmente fragmentado em que se torna difícil ter tempo para planejarem,
avaliarem e até mesmo para “saborearem” o tempo juntos,
professores e alunos.
O tempo ainda acaba sendo mais um mecanismo de regulação
e controle existente dentro da escola.
“O sistema escolar está organizado, antes,
para facilitar o controle técnico sobre os processos de aprendizagem
com o fim de alcançar objetivos específicos, segundo a política
dominante, do que para favorecer autonomia profissional ao docente.”
(PEREIRA, 1998, p.179)
Um outro aspecto que considero muito pertinente quando
nos referimos à questão do tempo é a rapidez do tempo
escolar: A escola não para nunca!!!
“O tempo não para e, no entanto ele nunca
envelhece”.
(Caetano Veloso)
Como educadora, percebo muito isso no cotidiano da escola.
Às vezes nos dá vontade de parar o tempo a fim de podermos
refletir a nossa prática com mais vagar, de podermos planejar ações
conjuntas com tempo, de discutirmos com calma. Isso não é
possível! A correria, os atropelos, as ações se desenrolando
umas pós as outras não nos permitem que tenhamos esse tempo...
Faz-se necessário estar atento para acompanhar as mudanças,
as novidades. E nem sempre isso é possível!
Ao escrever sobre isso, vem à minha memória a figura do
coelho branco de olhos cor-de-rosa, personagem de Alice no país
das maravilhas. Ele está sempre a tirar um relógio do bolso
do colete, a olhar as horas e a correr, fazendo seu caminho a toda pressa,
dizendo: “Meu Deus! Meu Deus! Vou chegar atrasado!”. Parece-me
que os profissionais da escola são, em sua maioria, como esse coelho,
sempre preocupados em não se atrasarem, em darem conta da melhor
utilização possível do tempo.
“Cada vez estamos mais tempo na escola (...) mas
cada vez temos menos tempo. Esse sujeito da formação permanente
e acelerada, da constante atualização, da reciclagem sem
fim, é um sujeito que usa o tempo como um valor ou como uma mercadoria,
um sujeito que não pode perder tempo, que tem sempre que aproveitar
o tempo, que não pode protelar qualquer coisa, que tem que seguir
o passo veloz do que se passa, que não pode ficar pra trás,
por isso mesmo, por essa obsessão por seguir o curso acelerado
do tempo, esse sujeito já não tem tempo.” (Larrosa,
2001, p.4)
De alguma forma, nessa experiência, também
conseguimos criar um tempo escolar um pouco diferenciado. Conseguimos
quebrar um pouco essa rigidez ao planejarmos, por exemplo, atividades
que eram iniciadas em uma aula, com um determinado professor e continuado
nas aulas seguintes com outros professores. Também acontecia de
planejarmos atividades conjuntas em que dois ou três professores
estavam juntos, trabalhando com a mesma turma. Embora houvesse muitas
limitações, fizemos modificações no tempo
escolar, quebrando algumas fronteiras.
O currículo ia sendo construído de maneira coletiva usando-se
para isso também o tempo “tão precioso” de nossas
reuniões semanais. Tempo que tínhamos para a troca, o compartilhar,
ouvir e ser ouvido.
“Eu acho que nessas reuniões a gente pôde
pensar junto, trabalhar junto, o grupo ficou forte. E a gente percebeu
que muitas vezes os meus medos eram os mesmos dos meus colegas e eu acho
que o trabalho ficou muito rico.”
(Profª.Stela – Entrevista em 11/12/2003)
Nem sempre essas inovações eram realizadas
com total tranqüilidade. As mudanças, as ousadias requerem
uma disposição muito grande e às vezes mexem demais
com aspectos que já estão cristalizados em nós. E
com os nossos medos...
Uma das vezes em que surgiu o conflito, a dificuldade, foi um momento
de muito crescimento no grupo. Propusemo-nos a realizar uma atividade
que exigia um tempo maior; ficou, então, combinado que o trabalho
seria realizado em aulas duplas, com diferentes professores na 6ª
A e na 6ª B.
Tratava-se de da seguinte proposta:
Paisagem Recriada
"A pavimentação das ruas e as edificações
cobrem 98% da zona urbana de São Paulo, apenas 2% contém
terreno nu, capaz de absorver água diretamente. A área somada
de todos os telhados representa 60% ou mais da área impermeabilizada.
É um deserto de rocha artificial, nu e estéril."
(“Correio Popular”, 05/03/99, Opinião)
Você, sendo um artista plástico, que solução
daria para isto numa Representação Plástica? (Na
sala foram deixados vários materiais para que os alunos realizem
esta atividade, como sulfite 40, tinta guache, pincéis, sucata,
cola, papelão, papel dobradura, laminado, fita crepe, etc.)
Decorrido esse tempo de duas horas-aula, constatou-se que os alunos não
tinham dado conta de terminar a tarefa. Envolveram-se bastante, queriam
caprichar e a maioria acabou criando uma maquete, o que realmente demandava
tempo. Desse modo, no dia seguinte, dois outros professores finalizariam
com os alunos o trabalho. Essa situação, no entanto, não
havia sido combinada antes, pois não era prevista.
O que aconteceu? O professor de Geografia conseguiu dar seqüência
com os alunos sem grandes dificuldades. No entanto, comigo, professora
de Português, o trabalho acabou sendo muito penoso e cheio de dificuldades.
Fui pega de surpresa, não sabia exatamente onde estavam os materiais,
acabei ficando perdida no meio de tintas, pincéis, vasilhas entornadas,
paninhos para limpeza... Acabei me estressando bastante e fiquei muito
mexida com aquela situação que, para mim, não era
nem um pouco usual.
O fato foi levado à nossa reunião semanal e discutido com
todos. Percebemos que todos nós temos limitações
e lidamos diferente com as “técnicas”, com os “tempos”
e com os materiais específicos. Ao relatar ao grupo o que tinha
acontecido, fiquei muito mexida, me emocionei e percebi as minhas dificuldades
ao lidar com expressões artísticas que envolvam materiais
muito diversificados. Talvez a dificuldade de organizar todo esse material
e de orientar os alunos a utilizá-los adequadamente.
“Como corpo docente eu acho que a gente teve uma
troca muito interessante entre os professores porque a gente trocava aquilo
que dava certo e aquilo que não dava certo. E é nisso que
eu acho que a gente cresce muito... E foi pra mim um trabalho de muita
troca e de humildade, a humildade das pessoas, dos professores em voltar
pra uma reunião depois de um planejamento e falar das suas inseguranças,
dos seus temores... Eu acho isso fundamental pra equipe crescer como profissional...”
(Profª. Edna - Entrevista em 05/02/2004)
O grupo compreendeu as minhas angústias e combinamos
que no caso de uma eventualidade como essa o colega deveria ser avisado
com antecedência para poder se organizar melhor e inclusive decidir
se toparia ou não lidar com cada um dos desafios.
Havia no grupo “o respeito pela fala de cada um, pela sua forma
de pensar, o esforço honesto de todas as partes em tentar se entender...”
(Pernambuco, 1997, p.24).
O fato de formarmos, nós, professores integrantes do projeto, um
grupo unido e cooperativo teve também um duplo significado. Se
por um lado a nossa união nos fortalecia, dando-nos a segurança
de ousar e tentar fazer um trabalho inovador, também havia entre
nós certa cumplicidade e uma segurança para que, enquanto
grupo, não se/nos permitir tocar em alguns pontos que talvez devessem
ter sido mais “mexidos”, melhor trabalhados.
Um exemplo disso eram essas nossas reuniões semanais. Nós,
professores, em uma determinada época, consideramos que os pesquisadores
deveriam estar presentes, trabalhando conosco, apenas de quinze em quinze
dias. Dessa forma, acreditávamos que poderíamos priorizar
o planejamento e a organização de nossa prática em
sala de aula, o que considerávamos extremamente importante. No
entanto, dessa forma, acabamos “perdendo tempo” em relação
aos aprofundamentos teóricos, às leituras e discussões.
O grupo chega a discutir isso em uma de suas reuniões, mas os professores,
com a força do grupo, acabam por não mudar muito essa rotina;
as reuniões sempre foram semanais, mas com a presença dos
pesquisadores apenas quinzenalmente.
As discussões sobre a prática eram fundamentais, mas acabamos
perdendo a oportunidade de um aprofundamento teórico maior. E mesmo
isso tendo sido questionado, o grupo não se convenceu dessa necessidade.
Não se convenceu talvez porque realmente precisasse de um momento,
de um tempo em que estivéssemos apenas os professores.
“Muitas vezes [...] sentia-me insegura. Não
sabia que caminho tomar. O grupo me fez muito bem. Minhas angústias
diminuíam ao me encontrar com os colegas. Eles também tinham
inseguranças. Choramos juntos algumas vezes. Percebemos que havia
muita coisa a aprender. Aprendemos muito.”
(Profª. Stela - escritos seus em 07/11/04)
Parece que o grupo precisava de um espaço/tempo só dos professores,
sem a presença dos pesquisadores e isso foi, de certa forma, “imposto”
pelos professores. Era como se nós realmente precisássemos
nos distanciar um pouco para nos sentirmos mais seguros. Sermos também
um pouco marginais, no sentido de ter um espaço só nosso,
mais à margem.
O tempo da escola, isto é, o tempo das práticas pedagógicas,
da sala de aula é muito diferente do tempo das pesquisas, ou seja,
o tempo das reuniões, das leituras, da análise dos dados,
da escrita dos relatórios. Essa diferença era um conflito
vivenciado por nós, professores, porque não havia como escapar
de estar vivendo esses dois tempos distintos simultaneamente. Precisávamos
conviver com os dois e havia sempre uma tensão entre eles, como
se fosse uma disputa para ver qual deles sairia vencendo. E embora todos
os professores envolvidos estivessem engajados com a possibilidade de
ir se tornando um professor-pesquisador, parece que a importância
de ser um professor e de estar desenvolvendo, aprimorando e ousando (n)o
nosso trabalho de sala de aula era maior e mais significativa para nós...
Uma outra questão relacionada a aspectos temporais
diz respeito a uma melhor percepção do ritmo /do tempo do
aluno. O tempo que cada um leva para entender, captar e realmente aprender
um conceito ou uma idéia nova. Durante toda essa experiência
nos foi possível avaliar que às vezes o professor acaba
considerando um determinado conteúdo a ser trabalhado como muito
óbvio, muito fácil, tranqüilo de ser compreendido quando
na verdade ele nem sempre é e muitas vezes deveria ser abordado
de diferentes formas até que a maioria dos alunos pudessem compreendê-lo.
A professora de Ciências destaca este aspecto do respeito maior
ao ritmo/ tempo do aluno como uma das mudanças que o Programa de
Ensino proporcionou a ela:
“Uma coisa que eu vi é que o meu ritmo é
muito acelerado pra alguns alunos, então às vezes eu lendo
os escritos das aulas que eu trabalhava durante o Projeto eu vi que eu
sou muito acelerada e às vezes o adolescente precisa de uma certa
calma pra desenvolver aquilo que está sendo proposto. Então,
a minha ansiedade diminuiu um pouco. Eu sei que às vezes o aluno
precisa de um tempo maior e com isso eu tenho mais calma de fazer alguns
conteúdos. Por exemplo, eu lembro que quando eu trabalhava chaves
dicotômicas pra identificação dos vegetais eu trabalhava
uma ou duas aulas no máximo antes do Projeto e no Projeto eu vi
que às vezes eu tinha que fazer umas quatro, cinco aulas pra trabalhar
com a chave e pro aluno saber o que estava fazendo. Eu percebi que eu
tenho um ritmo acelerado e eu estou desacelerando um pouco.”
(Profª. Edna – Entrevista em 05/02/2004)
Já uma das pesquisadoras que participou do Programa
de Ensino comenta sobre algumas dessas mudanças/percepções
que influenciaram na sua prática docente na Universidade:
“... Aqui mesmo na universidade a gente tem uma
aula prática muito interessante que agrega estudos, por exemplo,
de pigmentos, uma aula quase de bioquímica associada com botânica
porque a gente usa a distribuição de pigmentos pra tentar
caracterizar grupos de plantas. Diferenciar grupos de plantas com base
em alguns pigmentos determinados que a gente consegue manipular, trabalhar
durante a aula prática. E, nas primeiras vezes que a gente aplica
essa aula, você tem uma idéia de que você pode chegar
ali, explicar, os alunos fazem e que eles conseguem resumir associando
com a parte teórica que já foi dada antes. Mas ano após
ano eu vejo que isso não é verdade, não é
tão rápido assim e você às vezes numa aula
por mais que você ache que você chamou a atenção
de alguns aspectos, você tem que trabalhar com a possibilidade de
que o entendimento não é igual pra todos. Eu acho que isso
é uma coisa que a gente vai aprendendo com o tempo. Às vezes
você fala: “Nossa, mas eu expliquei aquilo perfeitamente,
eu fiz aquela atividade, eu acho que eles vão atingir os objetivos
100%, vão ter um entendimento”. E muitas vezes a gente percebe
que não é isso. Então, eu acho que o Projeto de Ensino
também serviu, ao lado da experiência que a gente vai adquirindo,
pra mostrar também que a diversidade que você encontra numa
sala de aula é muito importante e muitas vezes a gente não
considera esse fator diversidade.”
(pesquisadora Eliana – Entrevista em 19/05/2004)
Disponibilizar-se a repensar a questão do tempo,
principalmente no que se refere ao tempo/ritmo individual de cada um,
é enxergar a possibilidade da existência de um tempo e de
um espaço escolar não homogêneo.
Volto à questão da grande importância dada ao melhor
aproveitamento possível do tempo escolar, a preocupação
com a quantidade e não com a qualidade do que se ensina/ se aprende,
aspectos tão fortemente enraizados/cristalizados em nossas escolas.
Veiga-Neto (2003, p. 108) nos coloca que
“Na medida em que a educação nos molda
precoce e amplamente, passamos a ver como naturais os moldes que ela impõe
a todos nós.” Segundo ele, “temos um bom exemplo disso
no caso do espaço e do tempo. Ambos nos parecem transparentes,
ou seja, ambos parecem estar aí, desde sempre pré-dados,
como um a priori, formando um cenário de fundo no qual estamos
imersos e sobre o qual se movimentam as nossas vidas e o mundo social”.
Arroyo (2000, p.148) expressa muito bem as dificuldades
que se tem em ser um pedagogo feliz, que trabalhe com alegria e prazer
quando: