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APROXIMANDO
A ESCOLA DA COMUNIDADE LOCAL ATRAVÉS DA ELABORAÇÃO
DE UM JORNAL
Flávia
de Barros Ferreira Leão – CEMEI Alexandre Sartori Faria
“Que
façamos muitos laços com a comunidade, com as famílias
e conosco. Eles serão nosso pedaço de fita a espera de um
bonito abraço”
(Maria Rosa Tambascia)
Em Setembro
de 2002 cheguei ao CEMEI Alexandre Sartori Faria para iniciar meu trabalho
de vice-diretora efetiva da Prefeitura Municipal de Campinas. Como todo
início foi um pouco complicado, pois não tinha experiência
no cargo e não conhecia as características da rede municipal
de ensino de Campinas. Além disso, em se tratando de escola, a
época que iniciei era um pouco delicada, uma vez que o ano letivo
já estava em conclusão.
Os profissionais da escola já desenvolviam o projeto arte-educação
que era destinado aos alunos e a todos profissionais do CEMEI. O projeto
era coordenado por uma professora e tinha como objetivo: a sensibilização
pela e para arte, o conhecimento dos artistas, das obras, os diferentes
tipos de arte, enfim despertar o gosto pela arte. Terminei o ano de 2002
participando deste projeto e tentando entender toda a complexidade do
trabalho pedagógico que estava ali sendo desenvolvido.
No ano seguinte, em 2003, o projeto inicial de Arte-Educação
foi englobado em um projeto maior intitulado: Memória, Meio Ambiente
e Cultura Popular. Tendo como eixo de trabalho o rio Atibaia, cada grupo
de profissionais escolheu um tema para ser desenvolvido durante o ano
todo com as crianças. O Agrupamento 1 A enfocou as Cantigas de
Ninar; o Agrupamento 2 A Bichos do mato e bichos do corpo; o 2B as moradias;
o 3 A o Rio Atibaia e o 3 B as brincadeiras infantis. O trabalho com o
projeto trouxe um grande avanço no trabalho pedagógico da
escola, pois as atividades tinham cada vez mais sentido para os alunos,
os quais se sentiam muito motivados. Os profissionais também se
sentiam desafiados para desenvolvê-lo com as crianças, exigindo
constante pesquisa e acrescentando muito ao desenvolvimento profissional
destes educadores. Segundo PARK:
“Assumir
projetos coletivos também representa um grande desafio, uma vez
que nós, profissionais da educação, assim como tantos
outros, somos formados para nos orgulhar de nossos trabalhos específicos
e não de nossos trabalhos diluídos no resultado do grupo.
Estabelecer esse grupo de trabalho exigiu nesse projeto de formação
uma grande energia voltada para situações envolvendo o respeito,
a aceitação, a crítica, a intolerância, a revisão
de auto-imagens etc” (PARK, M. B. 2000, p.37}
Um dos objetivos
do Projeto era de envolver a comunidade no trabalho da escola, para além
das reuniões de pais e educadores que eram pouco freqüentadas.
Para isso os profissionais começaram timidamente a buscar uma aproximação
com a comunidade, convidando para conversas com as crianças, moradores
de Sousas e Joaquim Egídio que pudessem contribuir com o tema desenvolvido
em sala de aula. O agrupamento 2 B, por exemplo, recebeu a visita de dona
Maria de Lourdes Tonetti Carlos, tia da monitora Eliana que contou como
eram as casas e as ruas nos distritos de Sousas e Joaquim Egídio
antigamente.
Como afirma Thompson:
“... A natureza da entrevista implica uma ruptura da fronteira entre
a instituição educacional e o mundo, e entre o profissional
e o público comum.
... A reconstrução da história torna-se, ela mesma,
um processo de colaboração muito mais amplo, em que não-profissionais
devem desempenhar papel crucial. Ao atribuir um lugar central, em seus
textos e apresentações, a pessoas de toda espécie,
a história se beneficia enormemente. E também se beneficiam,
de maneira especial, as pessoas idosas. Um projeto de história
oral, mais do que lhes propiciar novos contatos sociais e, às vezes,
levar a amizades duradouras, pode prestar-lhes um inestimável serviço.
Muito freqüentemente ignoradas, e fragilizadas economicamente, podem
adquirir dignidade e sentido de finalidade ao rememorarem a própria
vida e fornecerem informações valiosas a uma geração
mais jovem.” (THOMPSON, P., 1992, p.32-33)
Além
da entrevista, as crianças dessa classe também foram conhecer
diferentes tipos de moradia, visitaram casas dos próprios colegas
e a minha casa, pois moro em prédio, o que não é
familiar pra eles.
O agrupamento 1 A, convidou os pais para gravarem em fita cassete a música
que eles geralmente cantam para os filhos dormirem. No início,
se sentiram envergonhados, mas aos poucos foram perdendo a timidez resultando
numa interessante fita cassete, acompanhada por um livrinho com a letra
das músicas de cada criança.
Já o agrupamento do 2 A confeccionou uma boneca e um boneco, que
eram levados pelas crianças para passarem um dia com eles em casa.
As crianças escolheram os nomes Leandro e Camila após uma
votação. Eles tinham uma mochila como aquela que as crianças
trazem na creche e dentro dela havia um caderno, no qual os pais eram
convidados a registrar o dia da criança com o boneco. Para trabalhar
o tema bichos do corpo, muitas vezes, o Leandro e a Camila eram apresentados
infestados por carrapato, giárdia, piolho. Neste caso, a figura
do carrapato era colada no caderno, nos bonecos e era pedido para mãe
cuidar deles e registrar como tinha sido eliminada a infestação.
O agrupamento 3A recebeu a visita do senhor Marcelino Idalgo Dias, tio
do aluno Alex Junior que contou como era o rio Atibaia antigamente, que
tipos de peixes eram encontrados e hoje que peixes se conseguem pescar.
Deixou claro que atualmente encontramos lixo no rio degradando o meio
ambiente. Em outra oportunidade as mães foram convidadas a enviarem
receitas de peixe e a troca de receitas foi feita em uma reunião
de pais, na qual foi oferecido um lanche: torradas e patês de sardinha
e atum. Como o rio Atibaia era o tema principal de trabalho deste agrupamento,
convidamos todas as crianças a participarem da festa Veneziana
realizada pelo Clube Recreativo Regatas de Natação, onde
há um concurso de barcos decorados. Os convites foram disponibilizados
gratuitamente pelo clube para as crianças e suas famílias.
Os alunos que os pais puderam levar gostaram bastante e em sala de aula
relataram toda festa para os outros colegas.
A monitora Terezinha do agrupamento 3B muitas vezes contou às crianças
como eram as brincadeiras e os brinquedos infantis antigamente, que resultou
na confecção de bonecas de pano e bolas de meia. Os alunos
foram convidados a participarem das festas tradicionais do distrito de
Sousas e Joaquim Egídio: Festa de Santana e São Joaquim.
O objetivo de participarem era comparar as brincadeiras infantis presentes
nas festas hoje e como eram há décadas atrás.
Além das ações individuais de cada agrupamento de
envolver a comunidade, a escola organizou uma mostra dos trabalhos desenvolvidos
durante o ano de 2003, aberta a visitação num final de semana
de dezembro. Durante o evento foi programada uma palestra sobre verminose
com um médico residente da Unicamp, Dr. Rogério de Barros
Ferreira Leão e uma outra sobre cuidados nos momentos de enchente
com o diretor da defesa civil de Campinas Álvaro Feijó da
Silva.
Aproximando cada vez mais...
“Depende
de nós
Se este mundo ainda tem jeito
Apesar do que o homem tem feito
Se a vida sobreviverá” (Ivan Lins)
O ano de
2003 foi o início de um trabalho com a comunidade. Em 2004 tínhamos
a intenção de estreitar mais os laços com ela buscando
conscientizá-la da importância da discussão sobre
o meio ambiente e de que mudanças na sociedade, por menores que
sejam, dependem de nós.
Cada agrupamento continuou, dentro do tema escolhido, buscando pessoas,
artistas e locais na região que viessem acrescentar ao projeto.
Assim, as crianças visitaram a fazenda Santana do Lapa (Joaquim
Egídio), a ferraria do Sr Sérgio Alcântara, a Alameda
de Mudas, Espaço 8 do hospital Cândido Ferreira, receberam
os artistas Sarita Romano (moradora de Sousas), Carlos Alberto Tidei e
Aécio Sarti. Cconvidamos também a senhora Maria Aparecida
Contareli Gallo e o senhor João Batista de Souza para nos contar
como eram as festas juninas nas fazendas antigamente. Mas queríamos
mais!
Ciranda
de Notícias - nosso jornal
Durante
uma reunião de Trabalho Docente Coletivo, que acontece semanalmente
em nosso CEMEI, discutimos que formas teríamos de divulgar o Projeto
para a comunidade e decidimos então que seria um jornal bimestral.
Iniciamos abrindo um concurso interno para a escolha do nome. Todos os
profissionais do CEMEI deram sugestões e depois fizemos a votação
e o nome escolhido foi Ciranda de Notícias. Precisávamos
montar um logo e para isso tivemos a idéia de colocar o desenho
de crianças brincando de roda. Inspirada por várias cirandas,
pesquisadas na Internet, montamos o logo do jornal, que teve a aprovação
de todos os profissionais.
A matéria de capa do jornal é sempre sobre algum evento
coletivo da escola como: Páscoa, Festa Junina; em seguida, traz
o texto elaborado por cada professora sobre os temas desenvolvidos nos
agrupamentos. Tentamos sempre dar continuidade entre um jornal e outro,
para que os pais possam compreender o fio condutor dos temas de cada classe.
Por fim destacamos os aniversariantes do mês.
Todo jornal foi elaborado no programa Word, um redator simples que não
oferece muitos recursos em termos de diagramação e uso de
imagens. Mas mesmo assim tentamos deixá-lo com um aspecto de um
jornal de grande circulação.
O jornal é feito em uma folha de papel A4 dobrada ao meio formando
4 páginas. Cada página possui duas colunas de texto. No
terceiro jornal do ano tivemos que ampliar mais duas páginas (meia
folha de pape), pois havia muitas notícias para serem divulgadas.
Não conseguimos fazer um jornal por bimestre, fizemos apenas três
no ano de 2004, uma vez que quem montava o jornal éramos nós
da direção e devido ao acúmulo de tarefas do final
do ano fizemos apenas um jornal referente aos meses de setembro, outubro
e novembro.
Como o nosso objetivo era fazer um jornal colorido para todas as crianças,
procuramos gráficas que pudessem imprimi-lo. No entanto a tiragem
deveria ser no mínimo de 1000 exemplares, o que despenderia muitos
recursos financeiros. Resolvemos então fazê-lo em preto e
branco, pois o xerox colorido tem um preço bem elevado. Imprimimos
alguns coloridos apenas para alguns departamentos da Secretaria da Educação
e para guardarmos um modelo no CEMEI. O visual do jornal colorido e a
definição das fotografias são superiores em relação
à impressão em preto e branco. Diferentemente de outros
jornais escolares, o jornal Ciranda de Notícias tem como prioridade
divulgar aos pais e a comunidade local o trabalho pedagógico desenvolvido
no CEMEI, relatando com detalhes o projeto de cada agrupamento e os eventos
gerais da escola, aprofundando as notícias. Temos a certeza de
que podemos melhorá-lo muito ainda, deixando-o mais interativo,
com mais espaços para a comunidade se expressar, no entanto, o
que nos dificulta muitas vezes é a falta de tempo para dedicação
a este trabalho e a falta de recursos financeiros que impedem de expandi-lo.
Estamos tentando a possibilidade de conseguir patrocínio para que
possamos melhorar a qualidade da impressão dos jornais e aumentar
o número de exemplares.
Em 2005 melhoramos a qualidade das matérias, assim como o visual
e a impressão. Agora o jornal possui 4 páginas em tamanho
A e é elaborado no programa PageMaker que facilitou a diagramação
deixando-o mais semelhante a um jornal de grande circulação.
Além das matérias de cada agrupamento e dos eventos gerais
da escola, o jornal apresenta também um espaço para as opiniões
da comunidade e textos relacionados ao projeto Memória, Cultua
Popular e Meio Ambiente. Apresento a seguir as opiniões dos pais
sobre o primeiro jornal do ano de 2005:
“Nós
achamos importante, pois além de divulgar o trabalho da escola,
ajuda a incentivar as crianças no seu desenvolvimento na escola,
na arte, e na cultura, e também ajuda a Preservar o meio Ambiente.”
(Marlene – mãe da Karolaine, Ag 3B)
“Achei
ótima a idéia desse jornal, pois assim teremos várias
notícias dos acontecimentos da escola. Ficamos por dentro de tudo
que está acontecendo no dia-a-dia do CEMEI. Parabéns!”
(Sílvia – mãe da Lorena, AG 3B)
“É
muito bom saber de atividades através de um jornal informativo,
pois além de nos informar sobre as atividades da escola, colocamos
a curiosidade nas crianças e lemos para elas. Quando o Gabriel
chegou, enquanto eu não li ele não parou de perguntar o
que estava escrito.” Carmen, mãe do Gabriel Dresler, Ag 3B).
“Parabéns
, continuem assim, porque dependemos deles no futuro para defender a Natureza,
relembrar os folclores, festas, conhecimentos gerais, teatros etc. È
assim que incentiva as crianças, a levarem a sério tudo
que aprendem. Parabéns!” (Adriano – pai do Vinícius,
Ag 3A)
“Professora,
adorei o jornal Ciranda de Notícias, as atividades de vocês
exibirem esse noticiário, acredito que seria um ótimo incentivo
para as outras ceches, porque desta maneira as crianças se desenvolvem
mais.” Paula - mãe daThyfane, Ag 3A)
“Acho
muito importamte porque é aberto aos pais para dar suas opiniões
e idéias. E também através do jornal fico sabendo
não só sobre os trabalhos e passeios da classe do meu filho
mas também sobre os trabalhos e passeios de todas as classes e
isso é muto bom, pois acabamos conversando mutio mais sobre o CEMEI
eu e o Kevin. Percebo o quanto é importante pra ele todas as atividades
que tem no CEMEI e o quanto as crianças se sentem importantes por
verem seus trabalhos e fotos no jornal. Parbéns a todos do CEMEI
“ (Edna - mãe do Kevin, Ag 3A)
“Achei
uma idéia muito legal, educativa nós pais que quase nunca
temos tempo para participar ativamente nem por falta de interesse, pela
falta de tempo a gente fica meio que por dentro das atividades escolar
de nossos filhos e as crianças ficam empolgadas relatando tudo
que aconteceu que foi registrado nos jornais. Parabéns!”
(Rita - mãe da Vitória, Ag 3A)
“Li
e gostei, os temas abordados faz com que os pais apreciam o trabalho que
está sendo realizado no CEMEI e assim nós pais teremos muito
mais gosto de ajudar e participar mais. Seria mais interessante se o jornal
fosse colorido para ver as fotos com mais clareza, mas vocês estão
de parabéns e continue sempre assim” (Elaine - mãe
do Victor, Ag 3A)
“Primeiro do que tudo, parabenizo vocês educadores, por esse
trabalho maravilhoso que já foi realizado na praça Beira
Rio, que pena não pude participar! Pois lendo essa grande novidade
(Ciranda de Notícias) pude observar que nossa crianças estão
aprendendo desde já a importância da preservação
ambiental e da reciclagem. Estou muito feliz ao saber que meu filho está
em um local construtiva onde dá a ele a oportunidade de aprender
brincando, sabendo que futuramente ele vai poder expor seus próprios
conhecimentos. Adorei a visita da galinha Cuti, não sei se ele
participou. Aqui em casa temos uma galinha com dois pintinhos o José
Lucas fica muito feliz quando a vê. A minha opiniãosobre
o jornal é que o CEMEI está parabéns.” (Maria
– mãe do José Lucas, Ag 1A)
“O
meu esposo e eu gostamos muito do jornal, guardamos todos. As crianças
falam e mostram o jornal para as outras pessoas com orgulho. Eles acham
o máximo poder dizer o jornal da minha escola. Nós achamos
que foi ótimo a criação do jornal . As reportagens
são ótimas e criativas. E é muito bom saber tudo
o que as crianças fazem. Parabéns. Obrigada” (Irene
– mãe do Marcelo, Ag 2B, da Bárbara do 1A e da Aline
do 3B)
“Eu
li o jornal e achei legal o Ciranda de Notícias pois ele relatou
parte das atividades que nossas crianças estão fazendo na
escola. O Gabriel está se desenvolvendo muito bem na escola, estou
orgulhosa dele, isso devo a vocês monitoras e direção.
Obrigada.”(Diana - mãe do Gabriel do Ag 1A)
Pelos comentários
dos pais podemos observar que estão lendo o jornal e se aproximando
da escola através dele. Relantam que podem ficar sabendo de todo
trabalho que estamos desenvolvendo no CEMEI e sugerem a melhoria do jornal
através da impressão colorida.
Bibliografia:
___________.
Tempos Dissonantes: Formação, Cotidiano e Ambiente. In:Formação
de Educadores: memórias, patrimônio e meio ambiente. Maragareth
Brandini Park (org) – Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003 p.31-53.
THOMPSON,
Paul. A Voz do passado: história oral. Tradução Lólio
Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992
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