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O
QUE HÁ DE IMPLÍCITO NO DISCURSO DE SEU CREYSSON
Jocélia
Batista da Rosa - Universidade Federal de Pelotas – UFPel
Introdução
O presente
artigo tem por objetivo perpetrar uma análise sobre o livro Seu
Creysson – Vídia i Óbria, expondo as interpretações
em relação ao que está implícito e concomitantemente
visível, considerando os recursos de linguagem e imagem utilizados
para comicidade do personagem, bem como toda a sua aparência grotesca,
originada como um método de despertar a atenção da
massa.
Este trabalho explicitará o liame que há entre o humor e
a política, evidenciando a capacidade que o humor possui de tecer
críticas aos eventos políticos e expor preconceitos que
estão impregnados em nossa sociedade, salientando ao mesmo tempo
as ideologias do imaginário social.
Sobre tudo será feita uma investigação sobre as intenções
que infundiram a criação do personagem, a forma como este
pretende influenciar nos fatores sociais, culturais e políticos,
com a intenção de refletir uma visão da realidade.
Metodologia
Num primeiro
momento, após a leitura do livro Seu Creysson – Vídia
i Óbria, foi selecionado um corpus ao qual eu julguei significativas
as questões abordadas, pois através destas eu teria que
justificar minhas interpretações em relação
as idéias ali implícitas.
Para uma melhor fundamentação do estudo foi feito um embasamento
teórico em volumes que tratam sobre a questão humorística,
e dos recursos utilizados pelo humor para causar um certo impacto no público.
E ainda toda a função deste como uma forma de comunicação,
tanto pelo seu alcance massivo, como pelo seu poder de convencimento e
até mesmo pela interpretação que nos permite fazer
da realidade.
Análise
“Seu
Creysson” é um personagem criado pelo programa Casseta e
Planeta, veiculado a Rede Globo, a principal emissora brasileira com grande
credibilidade, sendo esta uma importante formadora de opinião entre
todas as classes sociais. Geralmente o programa apresenta assuntos atuais
e de grande interesse do público, suas críticas são
fortes e muitas vezes geram polêmica entre os telespectadores.
O personagem, garoto propaganda do Grupo Capivara que é concorrente
das Organizações Tabajaras, é feio, barrigudo, poucos
dentes, cabelo ralo com um topete estilo Ronaldinho na copa de 2002, óculos
anacrônicos remendado com um esparadrapo, fala e escreve tudo muito
errado, fazendo um estilo pra lá de casual. Entretanto fez tanto
sucesso que lançou até um livro, Seu Creysson – Vídia
i Óbria. Através desta descrição podemos notar
a aparência dissonante do personagem, como vimos em SODRÉ
(1980) (6): “ O conceito pode ser estendido à esfera da cultura
de massa: o miserável, o estropiado, são grotescos em face
da sofisticação da sociedade de consumo, especialmente quando
são apresentados como espetáculo. A estranheza que caracteriza
o grotesco coloca-o perto do cômico ou do caricatural, mas também
do Kitsch”
Seu Creysson é um grotesco com função social, a construção
de um pequeno mundo exagerado em gestos, sua provocação
do risível pelo escárnio. Permite atingir os tabus, atingir
as pequenas verdades, condicionado pelo humor que suaviza a real intenção
de seus criadores, pois apesar de apresentar um jeito desconcertado ele
apresenta características que o aproximam do popularesco, ele também
é do povo e tem carisma, isso facilita a aceitação.
Após um conciso exame do visual do Seu Creysson, vamos refletir
sobre o discurso e a linguagem empregada em seu livro.
“Seu Creysson, o único que já vem com "équio",
revela neste livro suas mirabolantes soluções para todos
os nossos problemas, sejam eles políticos, sociais, psicológicos
ou sexuais. Nada escapa ao talento empreendedor deste homem simples do
povo – mas com tutano de gente rica, é claro.” (contracapa)
Neste trecho acima, o qual é empregado como um meio apelativo para
que as pessoas comprem e leiam o livro, já se pode perceber o desígnio
do livro. Por este livro ter como essência o humor, conseguimos
imaginar que ele trará de uma forma espirituosa uma crítica
aos problemas políticos e sociais, e ainda para chamar mais atenção
utiliza-se do psicológico e sexual, pois são temas que atraem
o público, principalmente o fator sexo que desperta o interesse
de muitos.
Identifica o personagem como “homem simples do povo”, como
uma forma de aproximação do personagem com o leitor, mas
para dar mais autoridade utiliza da expressão “mas com tutano
de gente rica” , pois os ricos tem bem mais acesso a educação
do que o pobre, já evidenciando os primeiros vestígios de
uma crítica sócio-cultural.
No começo do livro Seu Creysson faz a seguinte dedicatória:
“Dediquio esse livrío a Tia Frávia, minha professora
de nalfabetização. Foi élia qui me nalfabetizou.
Quer dizer, eu achio que éria, porque élia só batia
o pôntio e ia si emboria pra casia. Mas íssel faz tântio
têmpio que Seu Creysson aindia nem tinha équio!” (dedicatória)
O personagem é engraçado e diverte muito, e a graça
está em brincar com o que é muito sério, pois nesta
dedicatória à professora, nos remete a situação
da educação no país, mostrando os problemas nela
encontrados, e ainda como a escola reproduz desigualdades sócio-culturais.
Mostra também a falta de qualificação dos professores
e a questão da insatisfação destes, ao qual todas
estas questões refletem sobre o discente. Demonstra claramente
o descaso dos nossos representantes, que têm a intenção
de que a massa continue bitolada para que os governantes que aí
estão continuem no poder.
Outro fragmento retirado do livro do Seu Creysson que vale destacar é
:
“Seu Creysson, eu acabei de robá essa bicicreta... Aí
me bateu uma dúvida... o plural de “pedal” é
“os pedal” ou “os pedar”?
_ Deixa de ser bêstia, rapazio. Esse negócio de plurar não
é pro seu bico não... probe não usa essas coisa...
Só pruquê tu robou uma bicicreta já acha que é
ríquio. E tem mais, ó: os pedar da bicicreta não
tem plurar, os pedar é verbio! Por exêmplio, eu hos-peidei,
tu hos-peidaste... e por aí vai... aprendeu inguinorante?!!”
(p. 18)
Aqui é tratada a questão da concordância nominal,
referente ao plural, mostra exatamente o preconceito lingüístico,
associado às classes sociais, como nos diz BAGNO (2003) (1): “...
quanto menos prestigiado socialmente é um indivíduo, quanto
mais baixo ele estiver na pirâmide das classes sociais, mais erros
os membros das classes privilegiadas encontram na língua dele.”
A falta de concordância é condenada e agregamos aos menos
educados, aos mais pobres, exatamente como faz Seu Creysson, “plurar
não é pro seu bico não... probe não usa essas
coisa... Só pruquê tu robou uma bicicreta já acha
que é ríquio.”, mas isto não é verdade,
a concordância de número é variável, todos
nós variamos, pois “há uma tendência em de haver
mais marcas de plural mais à esquerda do Sintagma Nominal, sendo
muito comum haver marca de plural apenas no determinante.” ZILLES
(8).
Podemos dizer que os discursos que permeiam os programas humorísticos,
mesmo que ingenuamente, desvendam uma série de preconceitos.
Para tornar mais cômico, diz que “os pedar da bicicreta não
tem plurar, os pedar é verbio! Por exêmplio, eu hos-peidei,
tu hos-peidaste... e por aí vai... aprendeu inguinorante?!!”,
serve-se do uso múltiplo do mesmo material, é caracterizado
por FREUD (1977) (4) como uma palavra em que "o mesmo nome é
utilizado duas vezes, uma vez como um todo e a outra vez segmentado em
sílabas separadas, as quais têm assim separadas, um outro
sentido."
Então aqui ele reúne vários sentidos em uma palavra,
um recurso muito utilizado durante todo o livro, a obra apresenta uma
linguagem irreverente, com grande ambigüidade e polissemia na mensagem,
tudo isto para criar um determinado efeito, como em CASTRO (3): “
No jogo de manipulação e persuasão, predominam recursos
de ambigüidade, de duplo sentido, de efeito estético, conjugando,
de forma sutil, a ordem da mercadoria com a dimensão do espetáculo.
O resultado é a mescla de tabus e de censuras numa outra dimensão
social”
Como último fragmento destacado do livro de Seu Creysson temos:
“_ Tu num achia que o governio inventô esses tar genérico
só pra enrolá a línguia dos pobre? Pra que que os
nomi dos genériquio é tudo tão compricado? Só
pra te dar dor de cabêcia e tu tê que comprá mais remédio
aíndia!
Pois seus probrêmia ter-mi-na-ro!
Agória chegaro os remédio genériquio Capivara Seu
Creysson, pra você que não consegue falá esses nomio
dificílico de prenunciar. È Wilso mermo!!! É só
chegá nas farmaça Capivara- Seu Creysson e pedir:
_ Remédio pro figo;
_Remédio pra pobrema de estrombo;
_ Remédio pra sistema nelvoso;
_ Remédio pra quem sofre de magnésia bisurada.
_ É Ilson aílson! Genériquio Capivara – Seu
Creysson é Çaude com C cedilha maiúsco! Esse eu agarântio!
Esse é mais um produtio...” (p. 39-43)
Nossa sociedade possui ideologias dominantes, mesmo que não sejam
unívocas ou incontestáveis, existe um padrão de idéias.
E à política também são associados vários
desses pensamentos comuns ao imaginário social do povo, principalmente
em relação à desqualificação desta,
há um grande alvo de críticas nos programas humorísticos,
pois como nos expõem BERGSON (2001) (2): “Nosso riso é
sempre o riso de um grupo”.
Por ser a política algo que diz respeito a todas as pessoas de
uma sociedade, um programa de humor que faz críticas ferrenhas,
não poderia deixar passar desapercebidas as questões do
sistema de governo, e a turma do Casseta e Planeta aproveita mais uma
vez e aqui faz uma insinuação de que o governo ao invés
de facilitar a vida do cidadão, normalmente acaba dificultando,
perceptível quando Seu Creysson diz: “_ Tu num achia que
o governio inventô esses tar genérico só pra enrolá
a línguia dos pobre? Pra que que os nomi dos genériquio
é tudo tão compricado? Só pra te dar dor de cabêcia
e tu tê que comprá mais remédio aíndia!”
Ainda neste, está reforçada novamente à questão
do preconceito lingüístico, associado aos menos favorecidos,
as camadas mais pobres da população brasileira, uma visão
já confirmada anteriormente por BAGNO (2003) (1) e que vem sendo
foco de estudo de vários lingüistas.
Então, retomando todo este estudo em relação à
função do humor do personagem Seu Creysson, podemos verificar
como a mídia, atualmente, é um espelho das representações
sociais, como nos afirma LIMA (2001) (5) “a mídia é
a refletora/construtora da realidade”, constituindo, deste modo,
o cenário perfeito para ser exercido o humor. Para provar mais
ainda o papel que o humor vem exercendo dentre a sociedade, TAVARES (2002)
(7) registra: “O humor é a atmosfera de nossa época.
No Brasil a presença marcante do humor como visão-de-mundo
não é novidade. O riso como instrumento de reflexão
cultural esteve presente desde a criação do Brasil e agora
pontua a nossa civilização midiática.”
Conclusão
Com a averiguação
dos aspectos aqui tomados, pode-se constatar a acepção que
o humor tem refletido, de uma imagem crítica, de uma meditação
e construção de conceitos, evidenciando certos preconceitos,
criando ideologias, influenciando as realidades coletivas e até
mesmo individuais, pois como um meio de produção de mensagens
tem uma marcante ação dentro da realidade social.
A partir dos fatos evidenciados neste artigo, fica claro que o personagem
Seu Creysson, criado pelos humoristas do programa Casseta e Planeta, não
tem como único propósito o humor. Apesar de toda essa comicidade
ser uma forma de divertimento e distração para o público,
as intenções reais de seus criadores vão muito mais
além, valendo-se da sátira fazem uma crítica e criam
uma reflexão sobre as questões culturais, sociais e políticas
que abarcam nossa sociedade. Tentando ainda que esta mensagem implícita
seja absorvida pelo receptor.
Cabe ainda salientar a importância dos recursos que o humor tem
se servido, para causar um determinado efeito e, por conseguinte, a atração
do público. Tanto de imagem como de linguagem as técnicas
para envolver são várias, pois Seu Creysson é um
grotesco, e o humor escrachado, desconcertante e escatológico do
personagem transmite idéias implícitas nas imagens e discursos,
sendo também uma forma de contestação. E toda esta
estratégia do cômico é uma maneira mais sutil de expor
determinados conceitos.
Bibliografias
(1) BAGNO,
Marcos. A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira.
São Paulo, Parábola Editorial, 2003.
(2) BERGSON, Henri. O riso: Ensaio sobre a significação
da comicidade. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
(3) CASTRO, Maria Lília Dias de. Publicidade: o humor a serviço
do mercado.
(4) FREUD Sigmund. Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente,
Obras psicológicas completas, Vol VIII,
Rio de Janeiro, Imago, 1977.
(5) LIMA, Venício A de. Cenário de Representação
da Política (CR-P): um conceito e duas hipóteses sobre a
relação da mídia com a política. In: Mídia,
teoria e política. São Paulo, Fundação Perseu
Abramo, 2001.
(6) SODRÉ, Muniz. A comunicação do grotesco. Petrópolis,
RJ. Vozes. 1980.
(7) TAVARES, Maurício. Crítica cultural no Brasil: paródia
e ambivalência. Texto inédito. 2002.
(8) ZILLES, Ana Maria Stahl. A língua que a gente fala no Brasil.
In: Ensino de Português e Cidadania.
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