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A IDENTIDADE DO JORNALISTA Jauranice
Rodrigues Cavalcanti - PG – IEL/UNICAMP O objetivo deste texto é discutir a identidade do jornalista e como ela se constrói no interior da representação. Entendemos que essa construção, especialmente quando observada no espaço que aqui analisamos, não apenas cria uma imagem positiva sobre a comunidade jornalística, mas também age, incide sobre os sujeitos implicados por essa comunidade, no caso, leitores e jornalistas. 1. O conceito de identidade O conceito
de identidade está presente em diferentes disciplinas na área
das ciências Humanas, com significados muitas vezes conflitantes.
Hall (2003) faz uma genealogia do conceito mostrando como este recebeu
interpretações divergentes: a essencialista, presente na
época do Iluminismo, cuja concepção de sujeito estava
baseada na idéia de um indivíduo totalmente centrado e unificado;
a interativa, que aparece nos estudos sociológicos clássicos,
em que o sujeito, ainda concebido como portador de uma essência
interior, é formado/modificado num diálogo com mundos exteriores;
e também a identidade pós-moderna. Essa última, objeto
de estudo do autor, contesta a idéia de um sujeito único
e coerente, composto de uma única identidade, e afirma o descentramento
desse sujeito, a existência de muitas identidades, algumas vezes
contraditórias e não-resolvidas. 2. A identidade do jornalista nos estudos da comunicação Existem estudos
na área da comunicação voltados para a análise
da identidade do jornalista. Talvez o mais difundido (levando em conta
o número de edições) seja o de Travancas (1993).
A autora, que é antropóloga e jornalista, para sua dissertação
de mestrado, entrevistou e acompanhou 50 profissionais, tanto em sua jornada
de trabalho como no convívio diário desses jornalistas.
Dentro dessa escolha, acompanhei repórteres, e não outro tipo de profissional dentro da categoria, como editores ou redatores, porque creio ser a atividade de repórter uma função paradigmática para a carreira. (...) O repórter vai para a rua apurar a notícia e volta à redação para escrevê-la. Para o grande público e o senso comum, é a sua imagem que define o jornalista (p.38). Embora afirme
trabalhar com um conceito de identidade que permite pensar a existência
não de uma só, mas de múltiplas, a autora acaba por
reduzir todas àquela que considera predominar sobre as demais,
a saber, a de ser jornalista. Essa visão essencialista também
emerge quando elege a figura do repórter como a paradigmática
do campo, aquela que carregaria a ‘essência’ do ser
jornalista. pecam por esquematismo tanto no que se refere às decisões éticas quanto à inventividade estética. Aplica-se o modelo mental quem, o quê, quando, onde, como e por quê, equaciona-se a notícia por um lead sumário (abertura da matéria jornalística) e narra-se um fragmento da história por meio da pirâmide invertida. Aparentemente esta técnica (e suas variantes próximas), já impregnada na memória profissional, é um sucesso histórico a partir do século XIX. Estão aí as agências internacionais que consagram as fórmulas. No entanto, qualquer situação-limite da humanidade provoca nos jornalistas lúcidos e nos analistas uma angustiada reflexão a respeito das insuficiências da herança e da modernização técnica e tecnológica. De acordo com os parâmetros éticos universais, esta gramática jornalística não dá conta das demandas coletivas (p.36). O trecho
acima permite apreender o que a autora aponta em diversos trechos do livro,
e que pode ser encontrado em outros autores (cf. Ribeiro, 1994 e Lago,
2002), a saber, o embate entre duas formas de conceber o jornalismo, uma
dicotomia que acreditamos ser constitutivo desse discurso. Esse embate
chega a ser situado cronologicamente: até meados do século
passado o que existia era o chamado jornalismo romântico, depois,
com a invasão da tecnologia e de idéias que equipararam
jornalismo a negócio (em especial a reforma do periódico
Folha de S. Paulo), surge o jornalismo “frio”, preocupado
apenas com as notícias. Medina faz referência a essa “contaminação”
e o que dela decorre, não apenas o empobrecimento dos textos, que
passam a seguir rigidamente as cartilhas dos manuais, como também
à dimensão ética do trabalho – o jornalista
se fecha nas redações, dá as costas para “as
demandas coletivas”. Aqui a relação com a leitura
de Travancas. Aquele que mais teria condições de não
se submeter a essa lógica industrial (considerada hegemônica)
seria o repórter, jornalista que Medina caracteriza como o “elo
da cadeia produtiva que menos poder detém” (p. 99). Pode-se fazer uma reportagem de mil maneiras diferentes, dependendo da cabeça e do coração de quem escreve, desde que essa pessoa seja honesta, tenha caráter, princípios. Não, não estou falando da tal “objetividade jornalística”, da “neutralidade” do repórter, essas bobagens que inventaram para domesticar os profissionais que não se dobram aos poderosos de plantão, porque têm um compromisso maior com seu tempo e sua gente (Kotscho, 2001, p.8). Que me desculpem Vinícius de Moraes, os editores e os redatores, mas repórter é fundamental. É certamente a única função pela qual vale a pena ser jornalista (...) Jornalismo, por isso, só vale a pena pela sensação de se poder ser testemunha ocular da história de seu tempo. E a história ocorre sempre na rua, nunca numa redação de jornal (Clovis Rossi, In: prefácio de A aventura da reportagem, 1990, p.9). Nos sentidos atribuídos a repórter também aparece a habilidade de contar uma boa história, de escrever bem, o que também o aproximaria do artista. É importante lembrar que o gênero reportagem é definido por estudiosos da comunicação (cf. Lage, 1985) como aquele que abre espaço para autoria. Essa ‘permissão’ possibilita a produção de textos diferenciados, já que o jornalista pode dar a eles a sua marca, o seu estilo, romper com a linguagem burocrática e taquigráfica da notícia. Nas palavras de Medina: O artista se integra ao sonho coletivo, mas procura nele alguma verossimilhança com a realidade; o autor de narrativas, cuja referência é a realidade, se defronta com os mistérios do imaginário. Tanto um, na fantasia emancipatória, quanto outro, no rigor e fidelidade realistas, criam uma narrativa autoral, única na poética e nas referências ao mundo concreto (p.133). O trecho
é muito interessante não só porque coloca artista
e “autor de narrativas” (o repórter) no mesmo patamar,
partilhando os mesmos traços positivos, como também por
explicitar outro traço definidor do jornalista, aquele que, na
interpretação de Medina, o diferencia do artista: o rigor
e a fidelidade aos fatos. 3. A construção de um saber sobre a imprensa Nos textos
apresentados acima vimos que determinados traços aparecem como
constitutivos do sujeito jornalista e do jornalismo, dentre eles a autonomia,
a isenção, a combatividade. Esses traços são
recuperados para formar as representações que precisam circular
na formação social para conferir/reiterar a legitimidade
da instituição imprensa. É no espaço da publicidade,
principalmente, que essas representações são postas
“para funcionar”, isto é, ao atribuir sentidos “evidentes”
à prática jornalística (e, por isso, inquestionáveis),
procura-se manter e reforçar seu poder. Além disso, assumindo
com Bourdieu (cf. 1997) a idéia de que em todo campo há
uma luta pelo capital simbólico, podemos afirmar que, além
da reiteração do poder do campo (a instituição
imprensa), busca-se, por meio/no espaço da publicidade, o capital
simbólico deste campo. Trava-se, assim, uma disputa entre jornais
para mostrar qual deles seria o mais legítimo para receber a confiança
dos leitores. A verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Há 111 anos. O texto é
altamente polifônico, nele estão presentes vozes de diferentes
campos: o jurídico, o da ciência, e também o religioso
(o jornal no lugar da bíblia), e permite construir sentidos atribuídos
a esses campos. Em torno de cada um deles construíram-se saberes,
‘verdades’, que legitimam esses campos, como a devoção,
a isenção, a autonomia. Ao trazer essas vozes para perto
de si, busca-se o efeito de analogia e equivalência, uma imagem
que o texto procura criar da prática jornalística: esta
deve ser identificada como também voltada unicamente para a busca
da verdade, da essência, preocupada apenas com o relato imparcial
dos fatos, com o rigor e a precisão. Em torno dela também
deve cristalizar-se a idéia de neutralidade, de autonomia. Maquiagem fica excelente numa pessoa. E péssima numa notícia. Ao contrário
do que acontece com as mulheres, o efeito da maquiagem no jornalismo pode
ser devastador. Porque, quando uma publicação maquia notícias,
ela está automaticamente tirando do cidadão a sua maior
ferramenta para desenvolver o espírito crítico. E, do país,
o melhor caminho para uma democracia madura e consciente. Por isso, a
Istoé aposta num jornalismo imparcial, com ética. Aposta
na seriedade, na independência, sempre levando em conta diferentes
pontos de vista. E, sobretudo, há mais de 26 anos, a Istoé
vem apostando no país. Não por pura ideologia, muito menos
ingenuidade. Mas por saber que essa é a única aposta onde
milhões de pessoas saem ganhando. O texto
permite fazer considerações sobre como a prática
jornalística costuma ser representada no espaço da publicidade.
Os traços assumidos como definidores da revista anunciada são
basicamente aqueles que apontamos anteriormente: compromisso com o interesse
público, imparcialidade, pluralidade, poder de ‘iluminar’
o leitor. Neste texto, ressalte-se, não se trata apenas de se auto-conferir
tais qualidades, mas também de identificar um “outro”,
em oposição ao qual o “um” se constitui. BOURDIEU,
Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro, Jorge Zahar editor,
1997. |
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