Nº 5 –
Leitura: Teoria e Prática
Ano IV - Junho de 1985 - 64 p.
Artigos
Leitura como Processo Inferencial num Universo Cultural-Cognitivo –
Luis Antonio Marcuschi – pág. 3
“A leitura é um processo de seleção que se dá como um jogo, com avanço
de predições, recuos para correções, não se faz linearmente, progrida em
pequenos blocos ou fatias e não produz compreensões definitivas”. Com base
nesta concepção de leitura, o professor Luís Antonio busca investigar as
razões para diferentes compreensões a propósito de um mesmo texto,
tentando evidenciar o papel importante do contexto sócio-cultural do
leitor ba organização das inferências durante a leitura.
As obrigatórias metáforas – Joaquim Brasil Fontes – pág. 17
Os oficiais da corte abafaram os aplausos do porquinho da Índia. Quem
não for capaz de identificar a figura ou tropo contido nessa passagem de
Alice no País das Maravilhas, leia a continuação: Os oficiais da corte
tinham um grande saco de tecido, cuja entrada se fechava com a ajuda de
cordões; no saco introduziram primeiro a cabeça, depois todo o corpo do
porquinho. E sentaram-se em cima. Alice rejubilou-se: Li muitas vezes nos
jornais, depois das resenhas de um processo: ‘houve tentativas de
aplausos, que foram imediatamente abafados pelo oficial da corte.’ Hoje,
finalmente, consegui entender o que significa essa expressão.
Leitura como suporte para a produção textual – Freda Indursky e Maria
Alice Kander Zinn – pág. 22
Esse é o relato de um trabalho que, através de uma metodologia capaz
de assegurar um movimento interessante entre o ler e o escrever, rompe com
a leitura mecânica e linear, tão habitual na escola, para construir
passo-a-passo uma experiência significativa, relevante, na qual o aluno é
ao mesmo tempo sujeito do texto que lê e que escreve.
Narrativa de uma experiência de alfabetização nas escolas públicas do
Estado de Sergipe – Coordenadores do Projeto de Alfabetização
(COTEP-SEC-Sergipe) – pág. 37
Alfabetizando o dia-a-dia: O analfabetismo é um problema eterno. E é
até interessante que assim seja, pois, a sua permanência movimenta
reuniões e verbas mundiais, via UNESCO, BIRD etc., repassadas aos
chamados órgãos públicos dos países com o “problema” e ativa os eternos
debates acadêmicos, promovendo a caridosa educação popular e científicos
projetos. O mais interessante é que muita gente e instituições enriquecem,
agilizando as contabilidades públicas. Governos manipulam índices
estatísticos, técnicos-pedagogos inventam soluções tão mágicas quanto
complicadas. E os analfabetos aumentam como pragas a serem erradicadas ou
coitadinhos a serem inseridos na “boa nova” das letras. Projetos simples e
eficazes, originados e criados nos locais “problemáticos” geralmente são
combatidos via manipulação de verbas ou interferências de empresas
privadas, como acontece no nordeste, onde os produtos dos centros
empresariais e intelectuais do Sul são vendidos com toda a técnica e
pressões com que se vendem geladeiras. Reuniões riquíssimas realizadas em
hotéis luxuosos para onde são levados os pedagogos das diferentes
secretarias para serem devidamente “sensibilizados” para o produto. O
resultado é o esperado: verbas aumentam e o analfabetismo continua. Serão
os educadores, analfabetos? Colocamos para discussão, uma das iniciativas
de uma equipe corajosa, de Aracaju, Sergipe, que desenvolveu uma maneira
simples, barata e politicamente conseqüentes de alfabetizar sem luxos e
tecnologias.