LEITURA: TEORIA E PRÁTICA - Nº 42  

Nº 42 – Leitura: Teoria e Prática
Ano XXII - Março de 2004- 87 p.

Estudos

Trata-se, de fato, de distribuir melhora a leitura? – Jean Foucambert – pág. 5
Afirmando que o ato educativo é eminentemente político e que aprender não é receber mas produzir, o autor critica a escola para o povo, modelo imposto pelas burguesias nacionais, contrapondo-a à escola do povo, fundamentada nos seguintes pontos: elo entre formação intelectual e produção; heterogeneidade no grupo social; recusa de reduzir o ensino à justaposição dos ensinamentos disciplinares e vontade de partir de situações globais tais como elas se dão na realidade; promoção coletiva como objetivo tomado sob a responsabilidade do grupo, contrariamente a dispositivos de avaliação individual. Nessa perspectiva, a formação dos educadores passa pela pesquisa-ação. Esses são os procedimentos que viabilizam ações educativas voltadas à emancipação e à igualdade.

Narrativas de leituras como alternativa de autoformação – Ana Alcídia de Araújo Moraes – pág. 9
O texto relata um movimento de pesquisa que se inscreve no entrecruzamento de dois eixos temáticos: leitura e formação de professores. O diálogo entre esses campos temáticos possibilitou a reunião de argumentos nos quais se apóia e se justifica essa investigação que busca, junto a quatro professoras da cidade de Parintins/AM, dar visibilidade às suas histórias de leitura, procurando reconhecer as práticas e as representações de leitura que as constituíram como leitoras. A narrativa de vida, usada na pesquisa, pode ser afirmada como alternativa de formação visto que as informações recolhidas através das narrativas das professoras ecoam como contrapalavras aos discursos que representam os professores como não-leitores, bem como aos modos negativos de as próprias professoras se auto-representarem antes de narrarem suas histórias de leitura.

Constituição do leitor: análise dos eventos de leitura no curso de pedagogia da Unicamp – Sérgio Antonio da Silva Leite e Lílian Ricarte de Oliveira – pág. 19
O presente artigo relata a síntese de uma pesquisa que teve como objetivo descrever e analisar as experiências de leitura, vivenciadas pelos alunos e planejadas pelos professores, durante o curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Unicamp. Os dados foram coletados através de entrevistas individualizadas com 17 professores e 15 alunos selecionados de todas as turmas do referido curso. A análise dos dados possibilitou a construção de cinco Núcleos de Significação do Discurso, cujos conteúdos são discutidos na perspectiva da construção do aluno como leitor.

Leitura no plural: leitores entre o livro e a xérox – Carlos Humberto Alves Corrêa – pág. 33
Em seus estudos sobre a leitura, Chartier (1990, 1996) tem ressaltado a necessidade de se considerar a materialidade do texto como elemento fundamental na construção de sua significação. A mudança de suporte do texto implica, portanto, uma alteração das condições de transmissão e recepção. O presente trabalho evidencia algumas das alterações que se processam na materialidade dos textos quando esses textos são recopiados em xérox e deixam de ter o livro como suporte da leitura. Ao lado disso, analisa as repercussões dessas alterações sobre as práticas de leitura dos alunos de graduação.

As práticas de leitura na escola – Jurema Nogueira Mendes Rangel – pág. 41
O objetivo deste artigo é destacar as práticas de leitura escolar como um caminho para a inclusão ou exclusão do aluno, tendo em vista o entendimento da leitura como um valor de excelência, no contexto de uma sociedade capitalista sedimentada em princípios meritocráticos e hierárquicos, como a nossa. Baseia-se na pesquisa, de caráter qualitativo, realizada junto aos professores e responsáveis pelas quartas séries do ensino fundamental de duas escolas, uma pública e outra particular, localizadas na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Os resultados mostram uma forma escolar de ler, centrada na premissa do texto como elemento organizador da leitura que coloca o leitor na posição consumista de um modelo instituído pelo ponto de vista do professor, ou seja, pelos parâmetros dos valores hegemônicos.

A outra volta do parafuso: a voz da letra manuscrita – Rosalia de Ângelo Scorsi – pág. 49
A outra volta do parafuso (1898), de Henry James, é a sua mais conhecida novela da série denominada “contas fantasmagóricos”, em que o sobrenatural convive junto aos fatos considerados reais-cotidianos. Narra em primeira pessoa o embate da jovem preceptora de Flora e Miles, com o universo dos mortos. Lenta e gradualmente, o leitor é atraído pelo redemoinho de idéias, ambigüidades e sugestões que o autor tão bem é capaz de criar, aprisionado que fica nessa espécie de narrativa-labirinto. O texto semeia à leitura um sem-número de questões e dúvidas difíceis de serem solucionadas. Porém, tanto forma como conteúdo, indubitavelmente, nos remetem à idéia da palavra poética como possibilidade de instaurar e restaurar o vivido.

Armadilha para os incautos – o filme Os que chegam com a noite (1970), de Michael Winner, como um curioso prólogo à obra jamesiana A volta do parafuso – Ângela Harumi Tamaru – pág. 55
Este texto versa sobre o filme Os que chegam com a noite, do diretor de cinema Michael Winner, que o realizou inspirado na obra A volta do parafuso, do escritor Henry James. A obra literária, deixando em suspensos se os fatos ali narrados são ou não pertinentes, uma vez que foram contados por uma narração em primeira pessoa, na voz de uma preceptora, é interpretada pelo diretor numa vertente da vulgaridade, cuja versão incriminaria tanto Jessel quanto Quint, empregados da rica mansão de Bly, em que residem duas crianças inocentes: Miles e Flora. Dotados de comportamento infame, os empregados corrompem a natureza pueril das duas crianças, ensinando-lhes o que não deviam: o sadismo e, até mesmo, o assassinato.

O abolido bibelô: poesia, leitura e sentido – Joaquim Brasil Fontes – pág. 59
Desde o final do século XIX, uma nova concepção da linguagem poética coloca para o leitor – e para a escola – o problema da compreensão: deve-se transcrever a poesia chamada “hermética” na trivialidade de uma “tradução” ou entregá-la a uma decodificações por definição inesgotável? Acompanhando duas leituras privilegiadas e antagônicas do “soneto em – yx” de Stéphane Mallarmé, este artigo tenta ouvir esses versos para além de toda compreensão: na ausência do poeta e do mundo sensível.

Casa Livro Azul: 1876-1958 – Maria Lygia C. Köpke Santos e Norma Sandra de Almeida Ferreira – pág. 69
A partir do estudo das propagandas publicadas pela Casa do Livro Azul nos principais jornais de Campinas/SP, da leitura dos Memoriais Comemorativos de Aniversário publicados por seus proprietários e de depoimentos de antigos freqüentadores e descendentes, procura-se analisar como esta loja anunciava seus produtos e mercadorias para uma sociedade que se iniciava no mundo escriturístico e ainda estava pouco familiarizada com uma tipografia, papelaria e livraria locais. Busca-se, também, observar como a escrita e seus suportes vão se diversificando e penetrando numa sociedade que se moderniza e profissionaliza e como os anúncios podem ser indicadores de uma construção e permanência de uma certa consciência tipográfica de uma comunidade de consumidores que parece ter desaparecido para nós, quando os materiais impressos tornam-se objetos familiares, espalhados no nosso cotidiano doméstico e profissional, prontamente e de maneira fácil, adquiridos em qualquer canto de nossa cidade.

Copyright ©2009, by ALB


This file was downloaded with an evaluation copy of the SuperBot Offline Browser. This message is not added by licensed copies of SuperBot.